Mostrar mensagens com a etiqueta crónicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crónicas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 15 de agosto de 2026

Crónica | Eclipse da língua

 

 #línguaportuguesa

 


 
 
Foi há muitos anos. Fiquei surpreendido porque não me aconteceu com estagiário ou colega pouco rodado. Aconteceu-me com uma jornalista da minha idade e experiência. Reparei em algo no texto dela e fui chamar-lhe a atenção. “Distraíste-te aqui”, disse eu. E ela olhava e olhava e não via onde se tinha distraído. “Aqui”, repeti. “Aqui, quando escreves este verbo.” Continuava sem entender o que queria eu, mas qual o problema neste verbo.

Então percebi, com espanto, que ela pertencia à numerosa família dos escribas escravos dos sinónimos.

Vocês conhecem o sistema: consiste numa insuficiência qualquer na glândula jornalística que ataca cada caloiro que chega que o leva a desatar a escrever exactamente como toda a gente ao lado, numa ressonância sem critério ou hesitação.

O retrato mais fiel desta robotização progressiva do jornalismo assenta na incapacidade de repetir palavras. Quando pergunto por que não o fazem se servir melhor a comunicação (e que acontece na maio­ria dos nossos diálogos durante o dia), respondem-me, sem mais explicações, que assim foram ensinados. Algum professor de Jornalismo ou colega esperto lhes garantiu que é uma regra de ouro não repetir palavras. Não perderam dois segundos a interrogar-se.

Por isso a grande maioria dos textos jornalísticos segue um guião mais previsível do que o fogo posto. Imaginemos que lhes pedem prosa noticiosa sobre, por exemplo, algo que inclua o Presidente da República. Aposto com quem quiser arriscar perder uma nota de 500 paus que o mesmo homem terá designações diversas consoante os parágrafos. Se no primeiro ele for o Presidente da República, no segundo será António José Seguro, para no terceiro ser o chefe de Estado, e se houver um quarto ainda haverá espaço para nos recordar que ele é o comandante supremo das Forças Armadas.

Outro exemplo: a minuta do Vaticano. A notícia começará por falar do Papa, para depois referir o Sumo Pontífice, seguido do parágrafo com o líder (ou chefe) da Igreja Católica, fechando com Leão XIV. A ordem é amovível. E, já agora, se em vez de quatro parágrafos forem dez, como completa o texto o pobre escriba de notícia? A que saco sem fundo vai buscar os sinónimos?

A robotização progressiva não começou agora. Regressemos ao momento em que me espantei com o que vi no texto de uma jornalista e ela não viu. Um deficiente conhecimento do significado dos verbos.

Muitas vezes me senti na obrigação de repetir e repetir a inúmeros formandos: é nossa obrigação, não opcional, falar e escrever correctamente o português, tal como ao cirurgião se pede que saiba manejar o bisturi. Estamos na profissão de falar a língua sem mácula. É o dever que assinamos na carteira de jornalista. Há demasiada gente a escutar-nos e a tentar compreender o mundo connosco.

No caso em causa, na ânsia (insana, incompreensível) de estar constantemente a arranjar sinónimos sucessivos (o que não fazemos no linguajar oral), a jornalista decidira que “afirmar” e “confessar” são basicamente a mesma coisa.

Procurei explicar-lhe o que me parece simples. Mas não foi simples. Continuou a olhar-me de soslaio passivo-agressivo.

Argumentei que “afirmar” é irmão de “dizer” e que “confessar” será irmão de “admitir”. Tentei dar-lhe a imagem de um interrogatório, quando a tortura vai longa e os holofotes nos cegam, talvez confessemos finalmente o que quiserem, admitimos culpa. Confessar e admitir têm carga de significado que as distingue do simples dizer. Continuava sem perceber o meu ponto, uma vez que, defendeu-se, estava apenas a “variar” os verbos.

Pedi-lhe que lêssemos em voz alta. Talvez a luz se acendesse. É preciso explicar que a reportagem era sobre um actor qualquer bem-apessoado, chamemos-lhe fulano. Vejamos o que escreveu: “Fulano confessa que é um símbolo sexual.” Pedi-lhe que ouvíssemos as declarações do actor. Cito de memória: “Não tenho culpa se algumas pessoas resolveram olhar para mim mais como símbolo sexual do que como actor talentoso.”

Desisti. Não compreendeu na altura, nem nunca, que tinha realizado dupla falta jornalística. Um verbo fora de sítio e síntese mentirosa de declarações.

Estes dois perigos andam por aí, cada vez mais soltos, arremessados e inimputáveis, à medida que cresce o pontapé na língua, demasiadas vezes perdoado pelas chefias em nome da dinâmica velocidade de produção mimética e repetitiva.

É ouvir, todos os dias, em todos os horários, a disciplinada cacofonia de macacada de imitação a iniciar frases com “Então”, “Dizer que”, “Ora”. Já ninguém se ouve. Que digo eu? Claro que se ouvem, aliás só se escutam uns aos outros.

Talvez a língua não esteja ainda numa derrocada de avalancha cria­da pelo próprio jornalismo, mas está certamente num degelo preo­cupante. Da próxima vez falarei (não confessarei) sobre a espantosa designação que o jornalismo respeita acima de todas as outras. Chamar influencer a qualquer aberração de rede social.

Rodrigo Guedes de Carvalho. E-Revista Expresso, 14 de agosto de 2026 
 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

É a responsabilidade, meu caro

 

 #literaciadosmedia 






"Responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não."


Deixem-me bombardear-vos com opiniões avulsas e pensamentos voláteis sobre a tendência do momento. Bom, primeiro tenho de ir ver qual é desta vez, ora deixa cá ver, ora deixa cá ver, muito bem, pode ser a Odisseia que ninguém leu, mas que de repente agita as águas do Verão.

Calma, estou a brincar. Nada me interessa menos. Não vos maçarei com longas dissertações sobre fronteiras da história e da ficção e do que supostamente é lícito concluir sobre a cor da pele de Helena de Tróia. Não vos impingirei o milésimo debate étnico-ideológico mascarado de conversa sadia sobre uma obra que jaz adormecida nas catacumbas, ora injustamente esquecida, ora incensada com exagero de complexo intelectual. Sobretudo, não contribuirei para a parolice de trazer a saga de Ulisses para o único terreno em que tiktokers e instagramers sabem navegar: então e tu, gostaste mais do livro ou do filme?

Permitam-me, em vez disso, trazer-vos ao terreno do sonâmbulo (se não mesmo falecido) Correio do Leitor. Os companheiros da velha guarda jornalística lembram-se bem. Tirando o pontual telefonema de insulto breve ou pedido de informações, as cartas dirigidas à Redação eram a única forma de termos o que hoje responde pelo pomposo feedback, que é como que diz “o que o nosso público pensa de nós”.

A antiga escrita à mão traz uma pequena dificuldade. Por exemplo: o ódio é mais difícil de exprimir. Desenhar à mão as letrinhas todas para chamar filho desta e daquela, mais mandar-nos para o membro sexual masculino ou para a vagina da nossa progenitora, é coisa que pede algum tempo e paciência, e fica assim como que um espaço vazio entre a raiva que se sente e o que realmente passou para o papel.

Por isso o maravilhoso computador, ou o ainda mais deslizante teclado pequenito do telemóvel se tornaram a arma mais eficiente do ódio. Toda uma sociedade sabe hoje insultar e agredir com dedinhos rápidos. A precipitação tornou-se fácil e alimentou a irreflexão. Sabemos que parte do planeta acorda arrependida de uma mensagem que enviou às quatro da manhã. Com as cartas de antigamente havia tempo de voltar atrás e decidir não lamber o selo nem a enfiar na ranhura do correio.

E assim vamos, neste maravilhoso potencial de purga de frustrações. Eu não sou mais do que os outros e por isso também recebo o meu correio. Entre uma grande parte de lixo e asco, lá vem de vez em quando uma pergunta legítima. Esta semana destaco esta: ainda não percebi bem porque faz tanto paralelismo entre lógica de redes sociais e algum do jornalismo atual, quer explicar melhor? Quero, pelo menos quero tentar.

Aconteceu no início do mês, aquele autocarro que esmagou duas pessoas no Cacém. Liguei o televisor por volta da hora do almoço e toda a TV cavalgava a notícia o mais que podia. Poderia ser qualquer dos canais, como explicarei, mas no caso passava eu pela CNN e o jornalista falava em tom sério e grave, compenetrado, sobre imagens que eu, na altura, desconhecia.

Havia, pelos vistos, um vídeo de má qualidade do momento logo após a tragédia. Alguém que se pôs a filmar e apanhou fumo, confusão, pessoas a correr e sobretudo pessoas a gritar, o que dava bem a dimensão do choque que ali se gravava. Os gritos eram de quem se apercebia dos corpos das duas vítimas.

E agora o essencial, a espantosa impossível contradição que se instalou no jornalismo e parece ter criado raízes para nunca mais desaparecer. Repetir e repetir até à exaustão as imagens e sons mais horripilantes, desde que acompanhado de avisos de “conteúdo sensível”.

Depois, em cima disto, a cereja da suprema ironia. O jornalista entrevista uma psicóloga, a quem pergunta quais os factores mais terríveis para a cabeça das vítimas e familiares e população em geral na sequência de tragédias destas? Bom, para começar, tenta a psicóloga, as televisões deveriam travar o carrossel contínuo de imagens em repetição com os gritos aflitos. Isto poderia (deveria?) levar a TV a refletir naquele mesmo momento, e a parar o processo, já que a especialista convidada deu o conselho? Pois, sim, abelha. Se o parecer de um especialista da saúde mental choca com o interesse da competição jornalística, adivinhem quem perde e quem ganha essa contradição?

Aqui não há muitos anos, tive na SIC uma das mais acaloradas discussões entre colegas. Porque fizemos exatamente o mesmo com imagens terríveis de agressões entre alunas de uma escola. Repetição até à exaustão do fator potencialmente traumatizante.

E agora a resposta ao que me perguntou o leitor: o jornalismo não pode arrastar-se para uma lógica de rede social que busca cliques a todo o segundo quando está em causa a nossa responsabilidade social. Sim, a responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não. Não devemos, não podemos. Quanto mais a entregarmos, mais nos afundaremos num jogo para que nos querem arrastar, a fim de um dia nos esfregarem na cara que moralmente não somos melhores do que ninguém.

Rodrigo Guedes de Carvalho. É a responsabilidade, meu caro, Expresso, 23 julho 2026 

sábado, 18 de julho de 2026

O jornalismo devorado pela rede

 

#literaciadosmedia  #jornalismo  #redesSociais   #aLerMaiseMelhor 



Grande parte já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema em comportar-se como mais um aziado das redes.

Tenho sentido uma transformação do jornalismo, a que, em momentos de maior desilusão e cansaço, chamo um lento suicídio. É a imagem que me vem de cada vez que se coloca a comparação com as redes sociais. E o problema é que tudo hoje se faz em comparação com as redes, ou por causa delas, ou em nome delas.

É sabido que o maior truque do diabo sempre foi convencer-nos de que não existe. Pois o maior truque do progresso é fazer-nos acreditar que é inevitável. Sendo aqui a palavra “progresso” uma caricatura de traço largo imperfeito. O futuro e as suas mil e uma matizes será muito diferente para cada um.

O jornalismo começou por abraçar o progresso quando ele era só uma mais rápida tipografia ou quando a televisão ganhou todas as cores. Mas nas últimas décadas começou a tremer com o significado de moderno. Exemplo maior: o jornalismo não soube nunca conviver no mesmo mundo das redes criadas pela internet. Faz-me sempre lembrar um indivíduo que está na plataforma onde não passa o comboio, mas, aflito de medo, não lhe ocorre outra ideia que não seja atirar-se para debaixo do comboio. Explicará depois que era inevitável, uma vez que o comboio vinha muito depressa e não havia como fugir-lhe. É também assim que os papás e as mamãs explicam embebedar os bebés com telemóveis e mil ecrãs de luz, cor, som e trampa assim que podem, para os manter “distraídos”, e porque é “inevitável, é o progresso”.

Um dos mais lamacentos terrenos em que o jornalismo se deixa confundir com as redes é o da doentia relação com a fama e a riqueza. As redes sociais destaparam há muito a frágil tampa de um mar de esgoto. Grande parte das publicações e comentários mostram, de forma óbvia e feia, que todos gostariam de ser muito ricos e muito famosos e que, caso não o consigam (o que acontece muito) então passarão a odiar de morte os muito ricos. Este mecanismo não é novo, muito pelo contrário, nasceu certamente com a primeira tribo da Humanidade, acontece que estava confinado aos seus pequenos locais.

O fascínio pelo rico, a que se segue de imediato a inveja forte, logo, o desejo de queda do rico, está explicado há muito em toda a boa literatura. É portanto natural que alimente as redes sociais, pródigas em servir de espelho ao que somos. Sendo que houve em tempos aqueles sentimentos que faziam parte do “inconfessável”. Isso já acabou. Agredir por teclado, à distância, no conforto e solidão de um esconderijo qualquer, transformou todos os cobardes em “sinceros e frontais”.

A minha enorme mágoa é ver quanto do jornalismo se deixa arrastar para as mesmas pocilgas. Alguns fazem-no a céu aberto, explicando que não devem explicações a ninguém e que se marimbam para códigos de conduta ou imperativos morais. Mas já se vão multiplicando os outros, os ditos mais sérios, que a cada pontapé na seriedade argumentam que tem de ser, porque o mercado “mudou”.

No universo do embevecimento bacoco e novo-rico com o dinheiro e cargos e posses e fama, falemos, de formas muito diferentes, das obras do ministro Luís Neves e das férias de Cristina Ferreira. O caso do ministro não é mais do que um clássico da investigação jornalística. Alguém encontrou possível marosca no comportamento de um homem que serve o Estado. Por bem mais do que um século o jornalismo contribuiu para a limpeza da sociedade com investigações que resultaram em denúncia proveitosa. Também cometeu muitos erros e arruinou reputações sem sustentação. Mas para o que hoje me importa, nem é vital sabermos em que terreno estamos, uma vez que este caso ainda vai no adro e não faço a mínima ideia como terminará.

O que me interessa é o foco jornalístico, que sempre foi muito simples. Porque tardaram tanto a aparecer as faturas que o ministro dizia que obviamente existiam? O problema não é a piscina. A piscina faz parte do pacote, mas não é o coração da ilicitude. Mas grande parte do jornalismo já só nada de volta da magna questão, uma vez que as redes sociais saltaram de imediato ao verem as imagens do “tanque de rega”.

O caso de Cristina Ferreira não lhe cabe em exclusivo, ou seja, não é de perto nem longe a única estrela que vai de férias para paraísos e nos exibe, em forma de diário, como está tudo a ser tão maravilhoso. Há sempre o pormenor, nestas estrelas, de escolherem os resorts mais caros do planeta porque foram em busca das “coisas simples da vida”, como provam as fotos na praia ao pôr-do-sol e “sem maquilhagem”. Isso é o que é, consome quem quer. Só é pena o comportamento de cínica hiena de certa comunicação social, que num dia nos convida ao clique para vermos as fotos angelicais, e no outro coloca no título que “Grande parte dos portugueses não ganha na vida toda o que esta senhora gastou só nestas férias”. Grande parte do jornalismo já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema nenhum em comportar-se como mais um aziado que comenta nas redes.

Rodrigo Guedes de Carvalho. O jornalismo devorado pela rede. Expresso, 16 de julho de 2026

segunda-feira, 9 de março de 2026

Chama o António




antnio1_0



Fazemos assim: vocês fingem que não se dão conta de que umas vezes a frase é sobre ele, outras, aposto que muitas, sou eu a falar com ele. Serão ideias dispersas. Por exemplo: ser-me-ia difícil responder com exactidão a uma interrogação quiçá legítima de um jornalista, diga-me aí umas cinco ou seis coisas que lhe ensinou António Lobo Antunes, uma vez que ele não ensinava, ele só escrevia, e era a gente, em querendo, que aprendia.

Soube agora, ao dizer umas palavras a uma rádio sobre a tua morte, que disseste numa ocasião com um sorriso que a esperança é a mais bela de todas as coisas. Disseste-o, contam-me, na Escritaria que te foi dedicada, e eu fiquei muito contente. Porque demasiadas vezes, injustas vezes, ignorantes vezes, te confundiam com um escritor cínico que navegava com prazer pelas maldades e agruras deste mundo.

Na verdade eu não soube da tua morte. Vou sabendo. Mesmo agora, ao dizer umas palavras vazias sobre ti, estava eu ao telefone para onde me ligaram, às voltas pela sala toda, movido a bichos-carpinteiros, porque não consigo falar ao telefone de outra maneira, não sei porquê, sei que os meus filhos são iguais, imagina tu que a minha filha um dia atendeu o telefone na praia, na toalha ao meu lado, e levantou-se a falar às voltas e às voltas, e quando dei por ela estava lá ao fundo ao pé das dunas, que até lhe fiz sinal para voltar.

A minha filha vai ter uma filha dentro de dois meses. Imagina, António. Vou ser avô. E portanto, e ainda que compreenda que mo peçam, não posso desatar já a falar sobre a tua morte, porque com a idade também eu peço tempo para digerir com calma, sob pena de me afogar de medo. Deixa-me explicar melhor, já sabemos que hoje não se pode escrever de certas maneiras que as pessoas ficam muito confundidas, é por isso, por razões práticas, que nas chamadas redes sociais escreves frases com mais de duas linhas e já foste.

Digo que me começaste a morrer assim que ouvi o telefone piar uma campainha e depois outra, e depois outra, e antes de espreitar, estremunhado à procura dos óculos, já sabia que o telemóvel ia piar muitas campainhas de manhã cedo quando fosse o dia que detesto.

E isto não tem relação com a doença que te roubou ao mundo antes. Nessa ocasião nunca me ocorreu dizer ou sentir ou escrever ou rezar que tinha começado a tua morte. Eu vou à minha estante e estão lá os livros, encostados uns aos outros, cronológicos, mais firmes e disciplinados do que as paradas em Angola, quando os soldados magros tentavam compor a farda para não levarem descomposturas.

Tu estavas doente e entre outras características insanas da condição, não escreverias mais. Mas eu passava na estante e estavas lá, estás lá, aqui, na minha casa, sempre, mesmo que mude de casa ou de estante, portanto tudo estava na mesma, em grande parte, ou na parte que interessa, o que já é bastante bom, porque tu explicaste muitas vezes que a tua biografia, ou seja, quem tu és ou queres dizer, estava nos livros e em mais lugar nenhum. A biografia de um escritor dificilmente se encontra nas amizades, amores e ódios da vida do lado de fora, o quotidiano, feito de circunstâncias e humores e etapas e idades. O que tem piada, falámos muito disto, as pessoas partirem do princípio de que é nos livros que mentimos.

Natureza de bicho, inteiro e limpo e sujo, só quando escrevemos, sozinhos com a página, sozinhos com a página, cada vez mais sós a cair, a cair dentro de cada vez mais páginas, porque a resposta tarda, porque a resposta pode estar na próxima frase, e na outra, e na outra. Inventamos personagens para falarem por nós, ou pelo que em nós não sabe nada, e fazemo-las como aos aviõezinhos de papel, todas um nadinha tortas e sem sabermos bem para onde vão voar, uma vez que algumas começam logo a dar cambalhotas e volteios que não respeitam planos iniciais, o que só nos garante que somos mesmo nós. 

Tenho na parede do quarto onde escrevo a carta que me escreveste no dia 1 de Fevereiro de 1999, só a mudo de sítio de tempos a tempos, quando começo a acumular os papelinhos com gatafunhos do que um dia serão os meus pobres livros. Não preciso já de a ler, sei-a como a um rebuçado que trago na boca a proteger-me de nervos, a carta de um consagrado a um aprendiz, com recomendações e pedidos. Procuro honrá-los, embora seja difícil que alguém entenda, porque além de escritores também vão morrendo os leitores que nos aguardavam como quem espera a carta de amor que o carteiro há-de trazer à primeira luz da manhã.

Agora, vai, meu querido António, que aprendi contigo a não ter medo de beijos, os que reservamos aos pais, aos irmãos, aos cúmplices.

Amo em ti a ternura com que nos vias. Sorrio quando me lembro que adoptei uma letra pimba para te invocar. Ainda hoje, quando me falta a musa, ou se atrasa, sorrio e chamo o António. E tu vens em meu socorro, como se eu fosse um filho às voltas na cama com um pesadelo. Hoje, peço-te que durmas bem.

Rodrigo Guedes de Carvalho. E-Revista Expresso, de 5 de março de 2026

sexta-feira, 18 de julho de 2025

A brincadeira

 

  #alermaisemelhor

 

Milan Kundera - Portal da Literatura

“Nenhum grande movimento que pretende transformar o mundo pode tolerar o sarcasmo e a troça, porque é uma ferrugem que corrói tudo”, escreve Kundera



Enquanto decorre nos tribunais portugueses o lamentável julgamento de um vídeo humorístico, talvez alguns leitores se lembrem de A Brincadeira (1967), o romance de estreia de Milan Kundera. Mas a brincadeira, nessa história, tem consequências graves, como graves foram as consequências para o autor.

À época, Kundera era um crítico “construtivo” do comunismo, e o romance tem um registo paródico (os baptizados reconvertidos em “boas-vindas aos novos cidadãos”, o puritanismo nos costumes, a indistinção entre esfera pública e privada, a tentativa de “comunizar” o folclore, etc.). Vivia-se já depois de desestalinização e antes ainda do esmagamento da Primavera de Praga. Um dos protagonistas do romance, Ludvik, está enfadado com o socialismo sisudo, e brinca com isso: “(…) as minhas piadas eram pouco sérias, enquanto a alegria de então não admitia nem palhaçadas nem ironia, era uma alegria grave que se afirmava orgulhosamente ‘o optimismo histórico da classe vitoriosa’, uma alegoria ascética e solene, numa palavra, a Alegria”. Esta maiúscula diz tudo, sugerindo uma alegria oficial, uma alegria de Estado, tal como Robespierre impôs uma religião laica.

Para provocar uma rapariga renitente, Ludvik envia-lhe um postal que diz: “O optimismo é o ópio do género humano! O espírito são tresanda a estupidez. Viva Trotski!” Em três frases, três delitos: gozar com o optimismo antropológico marxista (comparando-o com a tese de Marx de que a religião é “o ópio do povo”); fazer pouco dos regimes autoritários onde as pessoas se dividem entre “sãos” e “degenerados”; e louvar o inimigo número um do comunismo ortodoxo, Trotski, de quem Estaline tinha dialecticamente discordado por interposta picareta.
 

 
A Brincadeira (1967) é o romance de estreia de Milan Kundera


Quando o postal é apreendido pelas autoridades, Ludvik perde tudo. A rapariga, os colegas e amigos, o direito de frequentar a universidade, e ainda é expulso do Partido e condenado a trabalhar numa fábrica e depois nas minas. Ele bem pode argumentar, “camarada, era só uma graça”, porque a “graça” era justamente a prova de que ele sofria de todas as taras de um não-comunista: individualismo, cinismo, cepticismo. “Até um niilista pode ser alegre”, lançam-lhe, como insulto supremo.

Uma parte substancial do romance, longo e demorado, discute outros assuntos, nomeadamente a vida erótica de Ludvik, as mulheres teimosamente castas, a rivalidade masculina, a fidelidade e a espera (no amor como no socialismo), a injustiça que não será reparada mas esquecida, a juventude como “idade lírica” (e em Kundera esse epíteto não é um elogio). Quanto à brincadeira original, Ludvik compreende que “nenhum grande movimento que pretende transformar o mundo pode tolerar o sarcasmo e a troça, porque é uma ferrugem que corrói tudo”. Alguém cometeu um erro, mas quem? Ele ou as autoridades? O postal era uma brincadeira que foi levada a sério, portanto alguém se enganou. Mas não será esse um pequeno erro no meio de grandes erros ligados mais à História do que às histórias?

Em posfácio a uma edição revista, Kundera conta que A Brincadeira foi um sucesso na Checoslováquia, vendeu 120 mil exemplares, recebeu óptimas críticas, mas que, quando os russos invadiram o país, o romance foi retirado das livrarias, uma vez que os comunistas verdadeiros se portaram como os comunistas ficcionais. Os episódios inesperados continuaram: por intermédio de Aragon, o livro saiu na Gallimard e teve bom acolhimento. A ironia está no facto de Aragon ser um comunista ortodoxo. E faltava uma última peripécia: à época, Kundera não dominava o francês, por isso não se apercebeu de que a tradução era muito má, arruinando o seu estilo legível com uma prosa barroca. Descobriu depois, e os biógrafos confirmam, que o tradutor era um agente checo que quis sabotar o romance. Essa brincadeira também acabou mal.
 
Pedro Mexia. E-Revista, Semanário Expresso, 17 de julho de 2025 

 

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Atos e palavras

 

 
Tiramos tudo o que temos das palavras, e a seguir as palavras tiram-nos tudo de volta

Há um nexo entre falar e falhar igual ou quase igual ao nexo entre felicidade e expectativa. O fracasso, que leva à desvalorização, conduz-nos ao auto-exame moral, quando devia instigar o exame verbal. Mais do que os actos, tratemos de acusar as nossas palavras, fórmulas, profecias, aforismos, precipitações, entusiasmos, desesperos, ilusões. É que não há nada de errado em falhar: conhecemos bem as insuficiências, os defeitos, as faltas de esforço ou virtude. Mas das palavras temos a máxima culpa. Dizemos o que queremos dizer, mesmo que não o queiramos, ninguém nos obriga.

Sobre o modo como as palavras nos defraudam, abandonam, se desligam por completo da vida que vivemos, ao ponto de não podermos acreditar em palavra nenhuma, o austríaco Hugo von Hofmannsthal escreveu o ensaio ficcionado “A Carta de Lorde Chandos” (1902), obra maior sobre o curto-circuito entre as palavras e os actos e o significado. Já escrevi sobre esse texto noutra ocasião, mas agora descobri uma breve correspondência do jovem Hofmannsthal com um amigo, Edgar Kart, nos anos 1892 a 1895. Recorro à edição brasileira, na tradução de Flávio Quintale: “Não poderemos contar as coisas importantes que vivermos, pois não nos lembraremos delas. Creio, contudo, que de vez em quando poderemos pôr no papel algum fragmento de uma sensação subjetiva, de um estado de humor, e disso poderá surgir uma troca de correspondências, como se fazia no século passado, quando as pessoas escreviam com mais graça, mais elegância e com mais nobreza do que agora (...)”. Gosto deste cepticismo activo, do uso de “correspondências” em sentido tão poético quanto postal, e até da mitificação do “século passado” (no século passado eu vivia com a cabeça no “século passado”, ou seja, o XIX; o que farei agora?). Uma das razões pelas quais o jovem Hugo defende a necessidade da correspondência, da conversa, da literatura, é “a necessidade de embelezar e de interpretar poeticamente aquilo que é comum e pálido”, ainda que tanto “embelezar” como “interpretar” sejam duas conhecidas armadilhas.

 


Hugo von Hofmannsthal (1874-1929)
Getty Images



Hofmannsthal, mesmo novo, já sabe muito. Sabe que fazemos “testamentos”, quando só estão ao nosso alcance “fragmentos”; sabe que queremos uma vida “bela” e “autêntica”, mesmo quando a vida torna inconciliável a autenticidade e a beleza; sabe que não beneficiamos de uma experiência coesa mas de “experiências” desgarradas e sem sageza; sabe que toda a literatura, e até a Bíblia, não trata apenas da verdade mas da “imaginação” e do “símbolo”; sabe que “o mundo inteiro é a comunicação de coisas incompreensíveis à nossa alma ou a comunicação da alma com ela mesma”; sabe que “tristeza” é uma palavra que traz consigo uma ideia, mas que existem “milhares de tristezas”.

Escreve Hugo ao amigo: “Vês, não falo como muitas pessoas inteligentes e originais; basta ir até minhas prateleiras para encontrar livros profundos, fascinantes e envolventes, a tal ponto de me perder neles até que os pensamentos e as sensações humanas e livrescas cheguem a anular meus pensamentos e sensações e se coloquem no lugar deles.” A aversão à citação deve ser combatida: não está já quase tudo dito, e dito com maior perfeição, de modo que nos cabe pouco mais do que uma arte combinatória do que foi dito antes do nosso tempo ou no nosso tempo?

“Na verdade”, acrescenta a mesma carta, “não somos nós que possuímos e mantemos os homens e as coisas, mas são elas que nos possuem e nos mantêm. Desse modo parecemos não ser vazios, mas algo ainda mais inquietante, como um fantasma em plena luz do dia: pensamentos estranhos que pensam dentro de ti, velhos estados de alma, mortos e artificiais, e vês as coisas através de um véu, te sentes estranho e excluído da vida, nada te consola, nada te preenche por completo”. Tiramos tudo o que temos das palavras, e a seguir as palavras tiram-nos tudo de volta: “As palavras não são deste mundo, são de um mundo em si mesmo, um mundo completamente independente, como o mundo dos sons.” Mas quando já se esvaiu a inconsciência, a inconsistência e a inconstância dos jovens, diz Hofmannsthal, “devemos agora colocar o sentimento a serviço de quem e do que vive e existe connosco”.

 Pedro Mexia. Revista E, Semanário Expresso, 4 de abril de 2025

 

sábado, 15 de março de 2025

O café

 

 

Se estiver a ler esta crónica num café rodeado de vizinhos, tenha a noção de uma coisa: você é muito feliz, tenha ou não noção disso.

É uma ideia, ou talvez seja um suspiro nostálgico: a sociedade democrática e liberal foi criada nos cafés. O café, como sítio e como bebida, é fundamental na história da liberdade tal como a concebemos desde o século XVIII. Beber uma bica, um estimulante cerebral natural, num espaço público e de conversa é, em si mesmo, a imagem perfeita do cidadão ou do vizinho atento ao que se passa à sua volta. Ao contrário da taberna, onde as pessoas bebem para cair num torpor, o café desperta, e, nesse sentido, é impossível pensarmos nas conquistas democráticas e liberais sem esta vivacidade cafeinada. O café é um autor do mundo liberal, como Tocqueville ou Hamilton; representa (ou representava) um centro liberal e cosmopolita entre a rua revolucionária, à sua esquerda, e do trono reacionário, à sua direita.

 

 


Um mundo perdido?
“Café Concerto”, de Édouard Manet



Ainda sou desse tempo. Nos tempos da faculdade, por exemplo, ia ao café sem saber quem lá estava e, por arrasto, sem saber qual seria o tema da conversa daquela tarde ou noite; mas falava, argumentava e aprendia, porque os temas da conversa podiam não ser os meus, tinha de acompanhar os outros com as suas paixões e interesses: cinema finlandês, poesia húngara, romance brasileiro, futebol americano, rock urbano depressivo, música gótica, navios japoneses da Segunda Guerra, música galega, Olivença. A par do café, havia sempre jornais e revistas. Quando folheamos a imprensa, não estamos apenas no nosso algoritmo, vemos e lemos coisas fora da nossa caixa. É por isso que aqui em casa, na era clean do ecrã, nós continuamos a espalhar jornais e revistas na mesa e no sofá. O ecrã é um espelho narcísico, um jornal é uma janela para o mundo; o ecrã é uma selfie, o jornal é uma boa foto de algo à nossa volta.

No início da internet, os blogues ainda eram emanações do espírito dos cafés. Havia um sentimento de proximidade mesmo com os nossos adversários. Aliás, era engraçado ver pessoas de esquerda a casar com pessoas de direita. Mas algo de facto mudou com o Facebook e o Twitter. Tudo foi militarizado. Tudo foi capitalizado. O tal algoritmo entrou em jogo e começou a desenhar para cada um de nós uma bolha pessoal, intransmissível, intolerante e sem curiosidade sobre o mundo.

Como dizia há dias Adam Gopnik na “New Yorker”, este mundo de convívio e discussão, que esteve na base da sociedade democrática e liberal, está de facto em risco. O café é um dos corpos intermédios da sociedade que misturam as pessoas, e parece que hoje em dia as pessoas recusam a mistura em nome da sua alegada pureza. Nós íamos aos cafés para falarmos ao vivo com outras pessoas; hoje as pessoas vão para os cafés precisamente para não falar com as pessoas que lá estão, fecham-se nos seus portáteis e fones e falam com amigos escolhidos à distância e sobre os seus temas. Vivem em circuito fechado: só falam com os mesmos de sempre, os da sua tribo, e só falam sobre os seus temas e da forma que reconhecem. Porque se aparece alguém a falar do tema x através de uma lente nova, ui, ui, é logo um lobo fascista ou um maricas wokista. Voltamos sempre ao mesmo: se tudo é controlado, se cada um controla cada detalhe da sua vida através do telemóvel, então estamos a criar pessoas que não compreendem o acaso, o risco, a liberdade e a curiosidade sobre o mundo e sobre os outros.

Se estiver a ler esta crónica num café rodeado de vizinhos, tenha a noção de uma coisa: você é muito feliz, tenha ou não noção disso.

 Herique Matoso. Jornal Expresso, 13 março 2025

domingo, 15 de setembro de 2024

O verão, os carros e duas perguntas

 

 





Cinema de verão ao ar livre, em diferentes pontos do país.

Em 1895, os irmãos Auguste e Louis Lumière fizeram as primeiras filmagens históricas. Inventava-se o cinema.

Eles pensavam numa grande invenção científica, não no divertimento.

Um dos momentos inaugurais: um minuto e pouco de um filme de trabalhadores a saírem de uma fábrica — “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière”, a fábrica da família. Foi o primeiro pequeno filme.

Em 1895, portanto, duas revoluções: a do aparecimento do cinema e o facto de serem filmados, no início, não Presidentes Gerais de Tudo, nem outras pessoas poderosas, mas simples trabalhadores.

De qualquer maneira, foram os irmãos Lumière, os donos da fábrica, que filmaram.

O maior poder está em quem filma ou em quem é filmado? Difícil responder. Mas é uma pergunta importante.

2.

A cidade no verão tem menos carros. Mas os ‘menos’ carros são ainda muitos carros, demasiados carros.

Seria interessante fazer-se um cálculo simples, que talvez exista já, mas que não conheço. Em algumas cidades, calcular o espaço público disponível — estradas, passeios, jardins, etc. — e perceber qual a percentagem deste espaço ocupada por carros e pensada para carros, e qual a percentagem ocupada por pessoas.

Não é difícil perceber que, em alguns locais das cidades, o espaço público ocupado por carros parados (em estacionamentos), ou em movimento, será de mais de 75%.

Aquilo a que se chama espaço público é, de facto, em grande parte, ocupado por carros. E carros estacionados. Ou seja, essas máquinas de grande porte, os carros, ocupam grande parte do espaço público, muitas vezes não exercendo sequer a função para a qual foram construídos. Os carros são feitos para andar, não para estarem parados. E sim, um carro é uma máquina de grande porte, não é uma pequena cafeteira, nem tem o tamanho de um telemóvel. Ocupa espaço público a sério.

E subitamente aqui estamos: o espaço público das cidades, construídas pelos humanos, está, em grande parte, dominado por máquinas. Claro que é uma simplificação exagerada, mas poderemos dizer que, com algumas exceções, a casa pertence às pessoas e a cidade aos carros.

E, claro: a casa pertence às pessoas, mas só às que têm essa possibilidade, que são cada vez menos. As casas não pertencem às pessoas e a cidade pertence aos carros — poderíamos dizer, ainda de forma mais extrema.

Uma distopia seria pensar numa cidade cujo espaço público fosse feito exclusivamente de espaço para estacionar o carro, estradas para os carros circularem e oficinas. Imagino uma cidade que fosse trocando sucessivamente jardins por oficinas de automóveis.

3.

Na história do automóvel, em particular na história da construção dos automóveis na Europa, o Citroën DS, criado em 1955, em França, é um marco. Era considerado uma elegância em forma de máquina. A máquina não tem apenas motor, tem também pose de modelo, poderíamos dizer.

O filósofo Roland Barthes escreveu, a esse propósito: “Acredito que o automóvel seja hoje o equivalente bastante exato das grandes catedrais góticas: refiro-me a uma grande criação de época.”

Uma catedral gótica que avança, portanto.

Neste sentido, pensar nos crentes desta igreja com rodas.

Uma igreja que anda — como o carro — obriga os crentes a andarem também.

Podemos assim dividir as possíveis múltiplas igrejas e credos pela mobilidade exigida aos crentes.

Igreja para crentes sentados.

Igreja para crentes em pé.

Igreja para crentes em marcha lenta ou procissão.

Igreja para crentes a passo apressado.

E Igreja para crentes a 100 km/hora.

Esta adoração do carro, esta religião moderna que invadiu as cidades há várias décadas, não dá mostras de abrandar. E com uma agravante: hoje, a grande maioria dos carros não são sequer belos. Estão muito, muito longe de serem belos como catedrais.

Caímos numa armadilha: as máquinas feias dominam as cidades modernas.

4.

E uma pergunta ainda. Não sobre carros, mas sobre algo bem mais sério.

Há uma tragédia recente, inaceitável, que, em pouco anos, se tornou quase parte da paisagem social — paisagem, ou seja, algo a que quase já não se dá atenção.

O emprego sempre foi historicamente aquilo que tirava as pessoas da pobreza. Não ter emprego implicava o risco de cair no total desamparo. Ter emprego era o objetivo, a salvação.

É muito recente este facto, que é dinamite social: muitos hoje têm emprego e são pobres. Ter emprego já não significa sair da pobreza. Hoje há pessoas com emprego que são sem-abrigo. Isso mesmo. Vão trabalhar e regressam depois à rua, para dormir.

Como se chegou aqui?

Gonçalo M. Tavares. Revista E, Semanário Expresso, 6 de setembro de 2024 

 

terça-feira, 25 de junho de 2024

A terra deles

 

 

 Riquixá, Transporte, Táxi, Ciclo-Riquixá



Seríamos melhores pessoas se reconhecêssemos a arbitrariedade que é ter nascido aqui ou ali


Uma questão com que a Filosofia se entretém desde há muito é a “lotaria natural” que distribui de forma arbitrária posições sociais, riqueza ou cor de pele. Nasce-se lá, do outro lado do planeta, a rezar a outro deus, num sistema de desigualdades, e não rico, a rezar a outro deus neste hemisfério — sem que se perceba que não foi uma escolha, mas um acaso geográfico inicial. Às vezes, ainda é mais absurdo, pois basta nascer de um lado de uma fronteira, de um muro, a poucos quilómetros de distância, para ter o destino traçado desde o nascimento. Imaginemos o menino André; nasceu em Portugal e era católico devoto quando jovem, por sua decisão. Isso foi opção. Mas ali na transição do século XX para XXI, a conjuntura permitiu-lhe que todo o percurso escolar até à universidade fosse feito no ensino público e mesmo o seu doutoramento no UK sobre “estigmatização de minorias” se devesse a uma bolsa do Estado português. Há valor no André. Mas teve sorte com onde nasceu e quando, dadas as vias que se abriram para lhe dar o apoio que teve para singrar. Tivesse nascido uns mil quilómetros a sul numa família de pequenos comerciantes dos arredores de Casablanca, mesmo sendo um muçulmano devoto e bom estudante, e o seu destino estava traçado, e não passaria por um doutoramento em York. Muito menos se tivesse nascido 5000 quilómetros a sul, em Niamey, capital do Níger. Aí, para se safar às milícias ligadas ao Estado Islâmico que combatem as da Al-Qaeda, era bom que o pai tivesse umas cabeças de gado para ele pastorear e sair da cidade. Talvez se safasse. Talvez. Mas também era possível que fosse raptado por um dos grupos para se tornar combatente-criança. Sem ter voz na matéria. Porque teria nascido ali na África subsariana e não branco de classe média em Algueirão. Nada disto teve que ver com o facto de um deus ser melhor do que outro. Arbitrariedade geográfica. Podia ter nascido multimilionário. Pois, mas é ver o ratio multimilionários/pobres nos 7 mil milhões de habitantes no planeta para perceber o incrível que é termos nascido em Portugal.

Há dias, ouvi isto. “Assim que um gajo do Bangladesh fizesse merda, era logo deportado para a terra dele.” A terra dele não é propriamente um paraíso. Depois de os britânicos darem a independência à Índia em 1947, a maioria hindu concluiu que tinha de correr com os muçulmanos, os largos milhões que existiam na Índia. E assim se criou o Paquistão Ocidental e o Paquistão Oriental. Escusado será dizer que os hindus cederam os piores pedaços do seu subcontinente e deram início à maior transumância humana de que há memória. Puseram lá todos os muçulmanos e tiraram os hindus. Foi assim que nasceu o Paquistão, que não é propriamente uma beleza luxuriante. E criou-se o Paquistão Oriental, que se tornou independente em 1971 — o Bangladesh: um pedaço de território que coincide com a foz de grandes rios, do tamanho da Grécia, onde vivem 170 milhões de almas. Com o derreter dos Himalaias, com a subida do nível das águas, e dado que aquilo é tudo plano, o Bangladesh chega a ter mais de 20% do território submerso. E vai piorar. O Bangladesh é dos países mais miseráveis e deprimentes que visitei. Estive lá uma única vez, faz agora dez anos. Havia bandeiras de Portugal no mais remoto canto do país. Vivia-se o Mundial de 2014.

A capital tem uns 7 milhões de habitantes, esgotos a céu aberto, autocarros zombies sobrelotados a cuspir fumo preto, um calor sujo peganhento. Quisemos ir a Chatigão, a Bengala onde os portugueses aportaram no século XVI e que chegou a ter 2 mil dos nossos compatriotas a viver. Há que contornar rios mais largos (conspurcados vindos da Índia) que desaguam no país. Havia lá uma igreja com uma placa, sim senhor. Já não havia mar. Não há tanta T-shirt que diz “made in Bangladesh”? A mão de obra é “muito” mais barata do que na China. O mar tinha uns 30 centímetros de uma papa de tecidos e tinta grossa que vinha das fábricas têxteis ali perto. Um pouco mais ao longe, não nos deixaram ver, havia um estaleiro de ferrugem no longo areal onde homens estariam a desmantelar à mão navios colossais que vão ali morrer. Os pescadores para poderem pescar tinham de se arrastar por dois ou três quilómetros de sopa de químicos. E ficavam à mercê dos piratas.

Os slums (bairros de lata) impressionaram-me. E vi muitos na vida. Virava-se numa viela e, de repente, abria-se uma enorme clareira de uns milhares de casas de chapa de zinco empoleiradas, onde vivia um inimaginável número de pessoas e animais numa bolha gordurosa num calor viscoso. De um desses slums vi uma menina sair — de uniforme de colégio e lenço branco. Como teria conseguido que o lenço estivesse imaculadamente branco sempre me intrigou.

E escrevi uma história sobre um condutor de riquexó que pedalava das 5 da manhã até às 9 da noite para trazer para casa o equivalente a €1,5, do qual tinha de dar 50 cêntimos ao dono da bicicleta-táxi. E falei da família dele. Depois de publicada a reportagem, um leitor de Leiria não descansou enquanto não descobriu a família via AMI e pagou um ano de estudos à menina. Pensei: “Os portugueses são mesmo gente de bem.” Voltando ao ponto de partida. Se o menino André tivesse nascido em Daca, num slum ou mesmo numa família com melhores situações (a diferença parece pouca), talvez o seu sonho fosse tentar a sorte dele noutro lado, talvez na Europa. Deus tinha de ter outros planos para ele. Quer isto dizer que devemos deixar entrar todos os imigrantes bangladeshianos em Portugal, blábláblá? Não é essa a questão. Não ser aquele que está a ser “mandado para a sua terra por se queixar dos serviços públicos” resulta de uma arbitrariedade do universo. Ninguém fez nada para merecer estar de um lado ou de outro do discurso. Reconhecer algo tão óbvio faria de nós melhores pessoas.

 Luís Pedro Nunes. Revista E - Semanário Expresso, 21 de junho de 2024

 

Sobre o futebol e a Europa— alguns tópicos

 

 


Estádio, Futebol, Território, Roma



Imaginar uma seleção europeia de futebol que pudesse jogar contra as seleções dos outros continentes. Finalmente, aí, os europeus aprenderiam o hino comum

Agora é que a verdadeira Europa emocional começa, diz alguém, enquanto liga o ecrã para ver o jogo de abertura do Europeu de futebol.

 

1.

Som — ver um jogo de futebol sem som é perder metade da sua potência. O som do próprio ambiente do estádio ou o do relato é a banda sonora do jogo. Poderia quase ser vendida à parte como se faz com as bandas sonoras dos filmes.

E sim, como com qualquer filme, se tirarmos a banda sonora, tiramos parte da emoção. Já milhares de vezes se falou do som que acompanha a cena do chuveiro em “Psico” de Hitchcock. Outra música mudaria o tom da cena.

Curiosa, esta questão da emoção ligada ao ouvido. Seria interessante perceber se a emoção do jogo se perde mais com a ausência de som ou com a ausência de imagem (como nos relatos na rádio).

Eu arriscaria: o relato de um jogo na rádio emociona mais os músculos cardíacos de um adepto do que ver o jogo sem qualquer som.

Com a música já o tínhamos percebido, com o futebol também fica claro: o nosso aparelho auditivo deve ter a ligação mais direta e mais rápida ao sistema emocional.


2.

Nervosismo — a ansiedade de um jogador antes de marcar uma grande penalidade. É um jogo de zero e um. Mas não da mesma maneira para guarda-redes e marcador da grande penalidade. Não defender não é um falhanço, não marcar é um falhanço. Para o guarda-redes há o balanço entre uma perda previsível e a possibilidade de ser um herói. Para o marcador da grande penalidade, há o balanço entre ser competente — marcar, ou seja, fazer o que estava previsto, quase como um funcionário que cumpre as suas obrigações com a eficácia — e ser muitíssimo incompetente, falhando aquilo que na maioria das vezes se consegue.

O que cria maior ansiedade? A possibilidade da grande falha. É um duelo, sim, mas emocionalmente não é equilibrado.


3.

 Improviso e monotonia — todo o improviso é no jogo uma forma de arte e na arte uma forma de jogo. Não se trata de uma surpresa, mas de algo que soluciona um problema de uma maneira insólita. Há jogadores-jazz e jogadas-jazz. Há equipas-jazz. E há, depois, por vezes, a monotonia e a previsibilidade absoluta. Um jogo monótono, por definição, não é jogo.


4.

Longevidade — neste Europeu de futebol, no mesmo campo pode estar um jogador com 17 anos e outro com 39. Vinte e dois anos de diferença. Qual seria o jogo ideal em termos etários? Aquele que, no limite, pudesse juntar três ou mesmo quatro gerações no mesmo espaço. Há jogos populares onde isso acontece: um menino de seis, o pai, a avó e o bisavô a jogarem o mesmo jogo tradicional. A vida, entretanto, é o outro jogo, bem sério, em que várias gerações estão ao mesmo tempo no mesmo campo.


5.

Portugal, Europa, hino e bandeira — tirando datas festivas, bem específicas, os cidadãos de um país em paz só cantam o hino aquando de competições desportivas (jogos de futebol, vitórias olímpicas, etc.). Há, provavelmente, pessoas que só cantaram o hino antes de certos jogos de futebol da seleção do seu país. Sem o futebol, o hino talvez fosse uma música, não um símbolo.

Agora que se fala tanto da importância de um sentimento comum europeu, seria interessante imaginar uma seleção europeia de futebol que pudesse jogar contra as seleções dos outros continentes. Provavelmente, quem sabe, finalmente aí, os europeus aprenderiam o hino comum e colocariam a mão no peito em homenagem à bandeira e ao hino europeus. E vibrariam com as vitórias da equipa da Europa e sofreriam com as suas perdas.

É curioso, penso agora: temos uma palavra para amor à pátria — patriotismo — mas não temos uma palavra para amor ao continente — seria algo como “continentismo”.

Que não seja necessária uma guerra para se aprender o hino europeu, costuma dizer Jonathan, um amigo.


6.

Mas esse amigo disse-me ainda: talvez a grande divisão entre países não seja continental, mas sim política. Democracias e não democracias. E, talvez por isso, mais importante do que criar uma equipa de futebol europeia seria criar uma equipa de futebol que representasse a democracia, com um hino próprio e uma bandeira.

Que a equipa de futebol da democracia não tivesse adversário, eis uma verdadeira utopia lúdico-política, disse-me Jonathan.


7.

Quantos europeus votaram para as eleições europeias e quantos europeus irão ver jogos deste torneio? Sim, certas sondagens, apesar de estapafúrdias, deveriam ser feitas. Isso não tem importância, dirão uns; isso é muito relevante, defenderão outros. O jogo é mesmo uma coisa séria.

Gonçalo M. Tavares. Revista E - Semanário Expresso, 21 de junho de 2024


sábado, 1 de junho de 2024

Manifesto para o aperfeiçoamento geral do antissocial

 


 

           Gonçalo M. Tavares

 


Guarda algumas frases para os reencontros. Estás mais velho. Estás mais gordo. Estás mais triste. Tinha ideia de que tinhas morrido


Torna-te desatento. Tenta nunca prestar muita atenção a uma imagem ou a uma conversa. O fundamental é mesmo nunca prestares muita atenção a uma pessoa.

Olha sempre para o outro lado.

Treina a preguiça. Aperfeiçoa a preguiça como um pintor obsessivo aperfeiçoa um quadro.

Vê se consegues adormecer até quando o espetáculo é entusiasmante. Não durmas na véspera.

Compra bilhete para ires ver o que já sabes que não gostas para deixares de ter vontade de voltar a sair.

Quando te apresentam uma novidade, fecha os olhos. Faz ruídos com a garganta quando te pedirem silêncio. Diz que estás doente.

Limpa a parte de casa que está escondida. Desarruma a casa antes de chegarem as visitas. Deixa que o teu cão te leve a passear às horas que te são menos propícias.

Desliga o computador depois de enviares um e-mail. Encara o off como aquilo que se deve fazer depois de uma única ação com qualquer máquina. Assume um e-mail como se fosse uma carta antiga. Manda um e-mail por dia. Lê um e-mail por dia. Depois descansa. Se conseguires, faz isso com as mensagens no geral.

Sai à rua com duas palavras: sim, não. Usa muito o não. Usa uma vez por dia o sim. Poupa o sim como se fosse o teu último dinheiro num país estrangeiro.

Quer alguma coisa? Não.

Quando tocarem à campainha finge que não estás.

Mostra só um pouco da tua cabeça à janela, mas logo a seguir baixa-te e não atendas a campainha por nada.

Aparece sem seres convidado.

A meia-noite é uma excelente hora para visitares a casa de um amigo com quem não falas há mais de um ano.

Vai sempre pelo caminho mais longo para teres uma desculpa para chegares atrasado.

No elevador, quando o vizinho te falar sobre as nuvens e sobre a chuva, pergunta-lhe qual a opinião dele sobre a eutanásia.

Quando te fizerem perguntas num exame, fala-lhes do tempo. É preciso levar as conversas de circunstância e de elevador para os exames finais.

Quando te perguntarem algo objetivo, responde falando da tua infância.

Quando te perguntarem sobre a tua infância, diz que não têm nada a ver com isso.

Aproxima-te das pessoas que te causam repulsa e fica por lá perto uns dias.

Calça uns sapatos apertados para teres uma desculpa para ficares em casa no sofá. Dói-me quando caminho, diz, se te perguntarem porque não vais.

Tenta mesmo não ir. Isso é mesmo importante. Não ir nunca.

Vais? Não, fico.

Mas se quiserem que fiques, levanta-te e bate com o dedo indicador da mão direita no pulso como se tivesses um relógio.

Se vires alguém a fazer exercício com pesos e em máquinas de musculação, pergunta-lhe qual o sentido da vida. Se te perguntarem o sentido da vida, insiste que estás atrasado. Substitui o espelho da casa de banho pela fotografia de uma pessoa de que não gostes. Não tomes banho vários dias antes de um primeiro encontro amoroso. Toma banho antes de ires correr. Apanha o avião, se necessário, para dizeres a um artista que não aprecias muito o seu trabalho.

Tem sempre algumas frases guardadas para os reencontros. Estás mais velho. Estás mais gordo. Estás mais triste. Tinha ideia de que tinhas morrido.

Nunca deixes falar os ansiosos. Quando alguém está atrapalhado e não sabe o que dizer, mantém-te em silêncio. Um minuto depois de alguém começar a discursar levanta o braço bem alto e diz que queres fazer uma pergunta. Faz barulhos estranhos num museu. Numa conversa banal interrompe subitamente o diálogo para ires à casa de banho e permanece lá vinte minutos contados no relógio.

Quando a outra pessoa está entusiasmada a contar algo, interrompe, pede desculpa e diz que aquele assunto não te interessa muito.

Não ignores as chamadas dos amigos. Atende e desliga logo a seguir a ouvires a voz deles.

O Andy Warhol dizia que não tinha amigos porque os amigos faziam-no perder muito tempo.

Quando um amigo te diz: sabes o que aconteceu? Responde-lhe que agora não podes falar.

Quando recebes uma mensagem de voz de um amigo a dizer que está desesperado, pede-lhe para enviar mensagem escrita.

Quando te estiveres quase a apaixonar, muda de cidade e de telefone.
 
 
Gonçalo M. Tavares. Revista E - Semanário Expresso, 9 de maio de 2024