segunda-feira, 9 de março de 2026

Chama o António




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Fazemos assim: vocês fingem que não se dão conta de que umas vezes a frase é sobre ele, outras, aposto que muitas, sou eu a falar com ele. Serão ideias dispersas. Por exemplo: ser-me-ia difícil responder com exactidão a uma interrogação quiçá legítima de um jornalista, diga-me aí umas cinco ou seis coisas que lhe ensinou António Lobo Antunes, uma vez que ele não ensinava, ele só escrevia, e era a gente, em querendo, que aprendia.

Soube agora, ao dizer umas palavras a uma rádio sobre a tua morte, que disseste numa ocasião com um sorriso que a esperança é a mais bela de todas as coisas. Disseste-o, contam-me, na Escritaria que te foi dedicada, e eu fiquei muito contente. Porque demasiadas vezes, injustas vezes, ignorantes vezes, te confundiam com um escritor cínico que navegava com prazer pelas maldades e agruras deste mundo.

Na verdade eu não soube da tua morte. Vou sabendo. Mesmo agora, ao dizer umas palavras vazias sobre ti, estava eu ao telefone para onde me ligaram, às voltas pela sala toda, movido a bichos-carpinteiros, porque não consigo falar ao telefone de outra maneira, não sei porquê, sei que os meus filhos são iguais, imagina tu que a minha filha um dia atendeu o telefone na praia, na toalha ao meu lado, e levantou-se a falar às voltas e às voltas, e quando dei por ela estava lá ao fundo ao pé das dunas, que até lhe fiz sinal para voltar.

A minha filha vai ter uma filha dentro de dois meses. Imagina, António. Vou ser avô. E portanto, e ainda que compreenda que mo peçam, não posso desatar já a falar sobre a tua morte, porque com a idade também eu peço tempo para digerir com calma, sob pena de me afogar de medo. Deixa-me explicar melhor, já sabemos que hoje não se pode escrever de certas maneiras que as pessoas ficam muito confundidas, é por isso, por razões práticas, que nas chamadas redes sociais escreves frases com mais de duas linhas e já foste.

Digo que me começaste a morrer assim que ouvi o telefone piar uma campainha e depois outra, e depois outra, e antes de espreitar, estremunhado à procura dos óculos, já sabia que o telemóvel ia piar muitas campainhas de manhã cedo quando fosse o dia que detesto.

E isto não tem relação com a doença que te roubou ao mundo antes. Nessa ocasião nunca me ocorreu dizer ou sentir ou escrever ou rezar que tinha começado a tua morte. Eu vou à minha estante e estão lá os livros, encostados uns aos outros, cronológicos, mais firmes e disciplinados do que as paradas em Angola, quando os soldados magros tentavam compor a farda para não levarem descomposturas.

Tu estavas doente e entre outras características insanas da condição, não escreverias mais. Mas eu passava na estante e estavas lá, estás lá, aqui, na minha casa, sempre, mesmo que mude de casa ou de estante, portanto tudo estava na mesma, em grande parte, ou na parte que interessa, o que já é bastante bom, porque tu explicaste muitas vezes que a tua biografia, ou seja, quem tu és ou queres dizer, estava nos livros e em mais lugar nenhum. A biografia de um escritor dificilmente se encontra nas amizades, amores e ódios da vida do lado de fora, o quotidiano, feito de circunstâncias e humores e etapas e idades. O que tem piada, falámos muito disto, as pessoas partirem do princípio de que é nos livros que mentimos.

Natureza de bicho, inteiro e limpo e sujo, só quando escrevemos, sozinhos com a página, sozinhos com a página, cada vez mais sós a cair, a cair dentro de cada vez mais páginas, porque a resposta tarda, porque a resposta pode estar na próxima frase, e na outra, e na outra. Inventamos personagens para falarem por nós, ou pelo que em nós não sabe nada, e fazemo-las como aos aviõezinhos de papel, todas um nadinha tortas e sem sabermos bem para onde vão voar, uma vez que algumas começam logo a dar cambalhotas e volteios que não respeitam planos iniciais, o que só nos garante que somos mesmo nós. 

Tenho na parede do quarto onde escrevo a carta que me escreveste no dia 1 de Fevereiro de 1999, só a mudo de sítio de tempos a tempos, quando começo a acumular os papelinhos com gatafunhos do que um dia serão os meus pobres livros. Não preciso já de a ler, sei-a como a um rebuçado que trago na boca a proteger-me de nervos, a carta de um consagrado a um aprendiz, com recomendações e pedidos. Procuro honrá-los, embora seja difícil que alguém entenda, porque além de escritores também vão morrendo os leitores que nos aguardavam como quem espera a carta de amor que o carteiro há-de trazer à primeira luz da manhã.

Agora, vai, meu querido António, que aprendi contigo a não ter medo de beijos, os que reservamos aos pais, aos irmãos, aos cúmplices.

Amo em ti a ternura com que nos vias. Sorrio quando me lembro que adoptei uma letra pimba para te invocar. Ainda hoje, quando me falta a musa, ou se atrasa, sorrio e chamo o António. E tu vens em meu socorro, como se eu fosse um filho às voltas na cama com um pesadelo. Hoje, peço-te que durmas bem.

Rodrigo Guedes de Carvalho. E-Revista Expresso, de 5 de março de 2026

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