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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Contos | Anjos nus, de A. M. Pires Cabral

 

#aLerMaiseMelhor


Os Anjos Nus - 1


"Sei que não vai acreditar numa só palavra do que lhe vou contar. Mas não se inquiete por causa disso: eu também não acredito. Somos dois a não acreditar. Mas esta história contou-ma um velhote, da última vez que estive na aldeia, em Trás-os-Montes, no Natal passado, e conto-lha agora a si porque sei que acha piada a estas coisas. Acha-lhes piada, mas no fundo essas mesmas coisas a que acha piada fazem-no pensar. O meu amigo é como eu: só somos cartesianos até certo ponto. Desse ponto em diante, temos na cabeça as mesmas minhocas que outro homem qualquer. Uns levam o fardo da razão mais perto, outros mais longe; mas acaba sempre por chegar um momento em que a razão vacila, a dúvida se instala e a irracionalidade toma conta de nós. Comigo assim é, e consigo também. Acertei? Claro que acertei. Mesmo que diga que não. Somos todos muito racionais, a razão é a única soberana a quem prestamos vassalagem, etc. e tal, mas todos temos uma porta das traseiras por onde entram coisas irracionais como a fé, a crendice, o palpite. Não a ponto de acreditarmos nelas, claro; mas a ponto de lhes acharmos piada— que se calhar é o primeiro passo para as legitimar, o diabo seja surdo." 
 
CABRAL, A. M. Pires - Os anjos nus. Lisboa: Cotovia, 2012.     
 
   

Livro de contos de A. M. Pires Cabral, publicado em 2012, pela Edições Cotovia. 
 
Tema central: Episódios e memórias orais (muitas vezes de veracidade ambígua ou lendas) recolhidas em aldeias de Trás-os-Montes. 
 
Abordagem narrativa: Explora a fronteira entre a razão (o pensamento cartesiano) e a crendice popular, o mistério, a tradição oral e a sabedoria ou as "penumbras" da alma humana e das penedias transmontanas.
 
Estilo: Caracterizado por um apuro formal de tom clássico (frequentemente comparado à prosa de Camilo Castelo Branco), centrado na escuta de histórias que andam "à beira dos caminhos". 
 

sábado, 23 de novembro de 2024

IAGen e o conto tradicional

 

 Formação para as literacias




No dia 21 de novembro, a aula de Português dos alunos do 7º C decorreu na Biblioteca. Professora Bibliotecária falou-lhes de chatbots, da sua utilização no contexto escolar e da importância de saber como elaborar "prompts". Por fim, os alunos escolheram as personagens e elaboraram um "prompt" colaborativamente para obterem um conto tradicional.


O resultado é o que passamos a transcrever:

O Príncipe, a Princesa, o Cavaleiro e o Cão Fiel
 
 
 
 





Versão 1: Final com Paz no Reino

Num reino distante, vivia um jovem príncipe chamado Artur. Ele era corajoso e justo, sempre acompanhado pelo seu fiel cão, Rufus. No castelo, também vivia a doce princesa Isabela, irmã do príncipe, admirada por todos pela sua bondade. O reino vivia em paz, protegido pelo valente cavaleiro Ricardo, que jurara lealdade eterna à família real.
Todas as manhãs, Artur e Isabela passeavam pelos jardins, enquanto Rufus corria entre as flores. Ricardo observava de longe, pronto para proteger os irmãos de qualquer perigo. Nada parecia ameaçar aquela harmonia.
Certa noite, uma figura misteriosa encapuzada entrou furtivamente no castelo. Era um feiticeiro que queria raptar a princesa Isabela para exigir um resgate mágico: o lendário Medalhão do Sol, guardado nos cofres reais. Antes que alguém pudesse impedir, o feiticeiro usou um encantamento e levou Isabela para uma torre escondida no coração da Floresta Sombria.
Ao amanhecer, Artur e Ricardo perceberam o desaparecimento da princesa. Determinados a salvá-la, partiram em busca de pistas, com Rufus liderando o caminho graças ao seu faro apurado. O cão seguia o cheiro de Isabela, enquanto os dois homens enfrentavam os perigos da floresta: árvores traiçoeiras que tentavam agarrá-los e lobos famintos que os atacaram, mas foram espantados pelo valente Rufus.
Após muitas horas, Rufus começou a ladrar diante de uma velha torre coberta de trepadeiras. O príncipe e o cavaleiro avistaram Isabela na janela, mas antes que pudessem aproximar-se, o feiticeiro surgiu, conjurando uma barreira mágica ao redor da torre.
"Se querem a princesa, tragam-me o Medalhão do Sol!" gritou ele, desaparecendo num turbilhão de fumaça.
Artur hesitou. O Medalhão do Sol era o símbolo da força do reino. Se entregasse o medalhão, todos estariam em perigo. Mas Ricardo teve uma ideia: "Príncipe, enquanto procura uma solução, eu distrairei o feiticeiro."
Ricardo aproximou-se da torre, fingindo carregar o medalhão num saco. O feiticeiro, ganancioso, abriu a barreira mágica para pegar o suposto prémio. Nesse instante, Rufus correu veloz como um raio e mordeu o tornozelo do feiticeiro, derrubando-o no chão. Artur aproveitou a confusão para libertar Isabela.
O feiticeiro tentou reagir, mas Ricardo enfrentou-o com a sua espada, e Artur, usando um espelho, refletiu os raios mágicos do inimigo contra ele próprio. Derrotado, o feiticeiro desapareceu, amaldiçoando os heróis.
Com Isabela sã e salva, os três voltaram ao castelo, onde foram recebidos com grande alegria. Artur agradeceu a Ricardo e a Rufus pela sua coragem e lealdade. Isabela prometeu que nunca esqueceria o sacrifício de todos para a salvar.
E assim, a paz voltou ao reino, agora mais forte do que nunca.

Fim.


Versão 2: Final com Casamento
 
Num reino distante, viviam o príncipe Artur e a sua irmã, a bondosa princesa Isabela. O castelo era protegido pelo bravo cavaleiro Ricardo, um jovem leal e valente que nutria secretamente um carinho especial por Isabela. Sempre ao lado dos irmãos estava Rufus, um cão tão esperto quanto fiel. O reino vivia em paz, e tudo parecia perfeito.
Todas as manhãs, Artur e Isabela passeavam pelos jardins, enquanto Ricardo os acompanhava, admirando discretamente a beleza e bondade de Isabela. Mas o cavaleiro acreditava que, por ser apenas um guardião, nunca poderia revelar os seus sentimentos.
Uma noite, um feiticeiro maligno chamado Mordak invadiu o castelo. Ele planeava raptar Isabela para a usar como moeda de troca numa barganha terrível: o Medalhão do Sol, um mágico que dava proteção ao reino.
Com um feitiço poderoso, Mordak colocou todos no castelo num sono profundo, exceto Rufus, que tentou morder o invasor, mas não conseguiu impedir que ele levasse Isabela. Quando o sol nasceu, Artur, Ricardo e Rufus despertaram e perceberam o que tinha acontecido. O príncipe e o cavaleiro juraram resgatar Isabela, partindo imediatamente com Rufus para a Floresta Sombria, onde Mordak mantinha a princesa numa torre mágica.
No caminho, enfrentaram muitos desafios: rios traiçoeiros, árvores encantadas e até um bando de lobos ferozes. Rufus, com o seu faro, guiava o grupo, e Ricardo lutava com coragem. Finalmente, chegaram à torre de Mordak. Lá, Isabela estava presa, a chorar, enquanto Mordak ria do alto, exigindo o Medalhão do Sol em troca da sua liberdade.
"Tragam-me o medalhão ou nunca mais verão a princesa!" gritou o feiticeiro.
Artur hesitou, mas Ricardo tomou a frente. "Tenho um plano. Confie em mim."
Ricardo voltou à floresta e encheu um saco com pedras brilhantes, fingindo que era o Medalhão do Sol. Com Rufus ao seu lado, aproximou-se da torre e chamou Mordak.
"Eu trouxe o que pediu! Pegue e liberte a princesa!" disse o cavaleiro, segurando o saco.
Mordak abriu a barreira mágica para pegar o saco, mas assim que o segurou, Rufus atacou, mordendo-lhe a capa e derrubando-o no chão. Nesse momento, Ricardo entrou na torre e libertou Isabela. Artur, que tinha ficado escondido, surgiu com um espelho dourado que refletia os feitiços do vilão. Juntos, os heróis enfrentaram Mordak, que foi derrotado e fugiu, jurando nunca mais voltar.
Com Isabela a salvo, os três regressaram ao castelo, onde foram recebidos com grande alegria. Durante a celebração, Artur percebeu os olhares trocados entre Ricardo e a sua irmã. "Ricardo, arriscaste a tua vida para salvar a minha irmã. Há algo que gostarias de me dizer?" perguntou o príncipe, a sorrir.
Ricardo corou, mas tomou coragem. "Sim, Majestade. Sempre amei a princesa Isabela, mas nunca me achei digno dela."
Isabela interrompeu com um sorriso. "Mas eu sempre soube, Ricardo, e o que fizeste por mim só prova o que já sentia por ti."
O príncipe deu a sua bênção, e pouco tempo depois, o reino inteiro celebrou o casamento de Isabela e Ricardo. Rufus foi o convidado de honra, carregando as alianças no dia da cerimónia.
Artur, feliz por ver a sua irmã em boas mãos, prometeu continuar a governar com justiça, enquanto Ricardo e Isabela viveram felizes, protegendo juntos o reino.
E assim, o equilíbrio foi restaurado, trazendo não apenas paz, mas também amor. 

Fim.


 

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

O aviso do Diabo






Adaptação do conto “O Aviso do Diabo”, de Alexandre Parafita, recolhido em Barcos (Tabuaço), publicado no livro “Mitologia Popular Portuguesa”, Zéfiro, 2021. Um trabalho cénico da Prof.ª Bel Viana, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), com a participação dos seus alunos.

... Como diz o povo, "o diabo não é tão feio como o pintam" e "também tem horas boas"



sábado, 2 de abril de 2022

Contos de Hans Christian Andersen adaptados ao cinema animado

 


Neste Dia Internacional do Livro Infantil, deixamos o convite para verem a adaptação ao cinema animado de três dos contos mais conhecidos de Hans Christian Andersen: 


A Polegarzinha


O soldadinho de Chumbo


A Pequena Sereia



As histórias são asas que te ajudam a voar todos os dias!


segunda-feira, 7 de março de 2022

A mulher sábia


 Pessoas, Garota, Mulher, Rosto, Retrato, Olhos, Visão



... a propósito do Dia da Mulher e da Semana da Leitura: "A Mulher Sapiens", de Cláudia Lucas Chéu.  
 
🔊 Texto lido pela professora Fernanda Botelho.



A mulher sábia sabe o mesmo do que o homem sábio — bastante pouco.

São 7h18. Mantém os olhos fechados enquanto apalpa o tampo da mesa-de-cabeceira, à cata do telemóvel. Logo o encontra. Com o dedo indicador direito deslizando sobre ecrã, desliga o alarme exasperante. Abre os olhos ainda deitada. Olha, sem ver, para o teto; a boca sabe-lhe a ferro. Talvez precise de vitaminas e de cortar no vinho ao jantar. Dói-lhe a cabeça. A mulher sábia dorme mal e, como se costuma dizer, à pressa. Nunca descansa mais de cinco horas seguidas. Tem sempre o que fazer. Há um guindaste imaginário que a iça todos os dias da cama — chama-se necessidade.

Abre as portadas da janela. A luz detestável apropria-se do quarto. Despe o pijama e troca de cuecas. A vagina da mulher sábia produz secreções durante a noite, habitualmente inodoras, mas nem sempre. Não passa pelo banho, fê-lo de véspera para não ter de acordar mais cedo. Veste-se — calças e blusa. Como Lianor de Camões, descalça vai para o quarto das filhas, “vai fermosa e não segura”. Custa-lhe lidar com o mau humor matinal das crianças, provocado pelo forçado despertar, e ser a má da fita. As manhãs geram-lhe ansiedade, prevê as dificuldades do dia. Até chegar a noite, e voltar para a cama, passará por uma eternidade de tarefas por cumprir.

Entra no quarto das meninas e observa-as deitadas em pisos diferentes do beliche. As crianças são ainda mais bonitas quando empenhadas no sono. Só tranquilizam quando adormecidas — que anjinhos falsos, mas encantadores. Prepara-se para enfrentar o bulício. Inspira, expira. Sente um ligeiro tremor no peito e na cabeça, a ascensão da angústia. Acorda as meninas com beijos na nuca e elogios filiais. Tem de pendurar-se no andar de baixo do beliche para chegar à cabeça da mais crescida. As meninas resmungam aos mimos vespertinos da mãe, não se querem levantar. Vai preparar-lhes o pequeno-almoço e pensa no que fará mais logo ao jantar; na roupa suja empilhada no cesto; na loiça gordurosa do jantar, caótica no lava-loiças; na falta que lhe faz um companheiro ou companheira.

Dói-lhe a cabeça. Ama as filhas, detesta o emprego que conseguiu arranjar. A mulher sábia só sabe que tem de aguentar.

Cláudia Lucas Chéu. A mulher Sapiens, in  https://www.publico.pt/2019/09/10/p3/cronica/mulher-sapiens-1886016

 


 
A MULHER SAPIENS 
Cláudia Chéu
Companhia das Ilhas
2021

 
Os textos reunidos nesta obra foram escritos maioritariamente para o suplemento P3, do jornal Público, entre 2019 e 2020. O tema congregador aponta, sobretudo, para o papel da mulher (ou os vários papéis que desempenha) na sociedade contemporânea.

Predominantemente contos curtos, crónicas e ensaios breves, estes textos pretendem perscrutar a condição das mulheres nos seus mais diversos contextos (sexual, profissional, familiar, entre outros), e assinalar como a própria definição de mulher é algo em evolução, mutável, obedecendo cada vez menos a convenções sociais.
 
 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

O conto tradicional português no séc. XXI

 













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Título: O Conto Tradicional Português no Séc. XXI: versões recolhidas por estudantes da Universidade do Algarve

Nome (Autores/Coord. principais): J. J. Dias Marques (prefácio), Paulo Jorge Correia (introdução e edição); Teresa Araújo (diretora da coleção Editar a Memória).

Ano de publicação: 2019

Editora: IELT, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa

Resumo: Este livro reúne as versões inéditas de contos tradicionais conservadas no Centro de Estudos Ataíde Oliveira (CEAO) da Universidade do Algarve, que foram recolhidas por alunos desta Universidade, entre 2003 e 2017, e transcritas a partir de registos áudio e vídeo. As composições narrativas são precedidas pelo estudo crítico da coleção, realizado pelo editor das composições e pelo coordenador do CEAO.

Referência bibliográfica completa: Marques, J. J. Dias e Correia, Paulo Jorge, O Conto Tradicional Português no Séc. XXI: versões recolhidas por estudantes da Universidade do Algarve, IELT, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, 2019.

ISBN/ISSN: 978-989-8968-01-2



Contos tradicionais portugueses

 
























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Título: Primeira Atualização ao Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (com as versões análogas dos países lusófonos) 

Nome (Autores/Coord. principais): Paulo Correia e Teresa Araújo (diretora da coleção)

Ano de publicação: 2021

Editora: IELT, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa

Resumo: A Primeira Atualização ao Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses aumenta o inventário bibliográfico dos contos de tradição oral existentes em Portugal e as versões análogas dos países lusófonos, nomeadamente do Brasil. As versões dos contos referenciadas a partir de cento e dezassete obras são classificadas e descritas por conto-tipo e agrupadas por categorias (sub-géneros). O volume oferece ainda dois índices remissivos: um de concelhos portugueses e outro de novos tipos encontrados.

Referência bibliográfica completa: Correia, Paulo (2021). Primeira Atualização ao Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (com as versões análogas dos países lusófonos). Coleção Editar a Memória dirigida por Teresa Araújo, Lisboa, IELT, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa


ISBN/ISSN: 978-989-8968-08-1

terça-feira, 11 de agosto de 2020

A biblioteca de Babel em realidade virtual




A história de A Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges, publicada em 1941, é sobre uma grande biblioteca que contém todos os livros possíveis e que deu aos leitores muito o que pensar sobre a dificuldade de viajar por esse cenário dos media.

Borges imaginou a Biblioteca Babel como um espaço compreendendo um grande número de salas hexagonais conectadas, cercadas por galerias. Essa visão inspirou não poucos pensadores, incluindo o autor e programador Jonathan Basile, que, como resultado, projetou esse aplicativo de realidade virtual que podemos ver AQUI. 




Erik Demazieres - A Biblioteca Babel


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A Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges (texto integral)

O UNIVERSO (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, veem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente.
A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal.
Uma das faces livres dá para um estreito vestíbulo, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do vestíbulo, há dois sanitários minúsculos. Um permite dormir em pé; outro, satisfazer as necessidades físicas. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva ao infinito.
No vestíbulo há um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para quê essa duplicação ilusória?), prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito…
A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante. Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez do catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer; a poucas léguas do hexágono em que nasci.
Morto, não faltarão mãos piedosas que me joguem pela balaustrada; minha sepultura será o ar insondável; meu corpo cairá demoradamente e se corromperá e dissolverá no vento gerado pela queda, que é infinita. Afirmo que a Biblioteca é interminável.
Os idealistas argúem que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Alegam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (os místicos pretendem que o êxtase lhes revele uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que siga toda a volta das paredes; mas seu testemunho é suspeito; suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus). Basta-me, por ora, repetir o preceito clássico: “A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível”.
A cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta.
Também há letras no dorso de cada livro; essas letras não indicam ou prefiguram o que dirão as páginas. Sei que essa inconexão, certa vez, pareceu misteriosa. Antes de resumir a solução (cuja descoberta, apesar de suas trágicas projeções, é talvez o facto capital da história), quero rememorar alguns axiomas.
O primeiro: a Biblioteca existe ab aeterno. Dessa verdade cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos; o Universo, com seu elegante provimento de prateleiras, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadas para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, somente pode ser obra de um deus.
Para perceber a distância que há entre o divino e o humano, basta comparar esses rudes símbolos trémulos que minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas.
O segundo: O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco[1]. Essa comprovação permitiu, depois de trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjetura decifrara: a natureza disforme e caótica de quase todos os livros.
Um, que meu pai viu num hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras M C V perversamente repetidas da primeira linha até à última. Outro (muito consultado nesta área) é um simples labirinto de letras, mas a página penúltima diz Oh, tempo tuas pirâmides.
Já se sabe: para uma linha razoável com uma correta informação, há léguas de insensatas cacofonias, de confusões verbais e de incoerências. (Sei de uma região montanhosa cujos bibliotecários repudiam o supersticioso e vão costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão… Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas sustentam que essa aplicação é casual, e que os livros em si nada significam. Esse ditame, já veremos, não é completamente falaz).
Durante muito tempo, acreditou-se que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas. É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem assaz diferente da que falamos agora; é verdade que algumas milhas à direita a língua é dialetal e que noventa andares mais acima é incompreensível.
Tudo isso, repito-o, é verdade, mas quatrocentas e dez páginas de inalteráveis M C V não podem corresponder a nenhum idioma, por dialetal ou rudimentar que seja. Uns insinuaram que cada letra podia influir na subsequente e que o valor de M C V na terceira linha da página 71 não era o que pode ter a mesma série noutra posição de outra página, mas essa vaga tese não prosperou. Outros pensaram em criptografias; universalmente essa conjectura foi aceite, ainda que não no sentido em que a formularam seus inventores.
Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior[2] deparou com um livro tão confuso quanto os outros, porém que possuía quase duas folhas de linhas homogéneas. Mostrou o seu achado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam redigidas em português; outros lhe afirmaram que em iídiche. Antes de um século pôde ser estabelecido o idioma: um dialeto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico.
Também decifrou-se o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variantes com repetição ilimitada. Esses exemplos permitiram que um bibliotecário de génio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Esse pensador observou que todos os livros, por diversos que sejam, constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula as vinte e duas letras do alfabeto.
Também alegou um fato que todos os viajantes confirmaram: “Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos”. Dessas premissas incontrovertíveis deduziu que a Biblioteca é total e que suas prateleiras registam todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos (numero, ainda que vastíssimo, não infinito), ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas.
Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico de tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros; o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.
Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloquente solução não existisse: em algum hexágono. O Universo estava justificado, o Universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança.
Naquele tempo falou-se muito das Vindicações: livros de apologia e de profecia, que para sempre vindicavam os atos de cada homem do Universo e guardavam arcanos prodigiosos para seu futuro. Milhares de cobiçosos abandonaram o doce hexágono natal e precipitaram-se escadas acima, premidos pelo vão propósito de encontrar sua Vindicação.
Esses peregrinos disputavam nos corredores estreitos, proferiam obscuras maldições, estrangulavam-se nas escadas divinas, jogavam os livros enganosos no fundo dos túneis, morriam despenhados pelos homens de regiões remotas. Outros enlouqueceram… As Vindicações existem (vi duas que se referem a pessoas do futuro, a pessoas talvez não imaginarias) mas os que procuravam não recordavam que a possibilidade de que um homem encontre a sua, ou alguma pérfida variante da sua, é computável em zero.
Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verosímil que esses graves mistérios possam explicar-se em palavras: se não bastar a linguagem dos filósofos, a multiforme Biblioteca produzirá o idioma inaudito que se requer e os vocabulários e gramáticas desse idioma. Faz já quatro séculos que os homens esgotam os hexágonos…
Existem investigadores oficiais, inquisidores. Eu vi-os no desempenho da sua função: chegam sempre estafados; falam de uma escada sem degraus que quase os matou; falam de galerias e de escadas com o bibliotecário; às vezes, pegam o livro mais próximo e folheiam-no, à procura de palavras infames. Visivelmente, ninguém espera descobrir nada.
À desmedida esperança, sucedeu, como é natural, uma depressão excessiva. A certeza de que uma prateleira num hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis afigurou-se quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessassem as buscas e que todos os homens misturassem letras e símbolos, até construir, mediante um improvável dom do acaso, esses livros canónicos.
As autoridades viram-se obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapareceu, mas na minha infância vi homens velhos que demoradamente se ocultavam nas latrinas, com alguns discos de metal num fritilo proibido, e debilmente arremedavam a divina desordem.
Outros, inversamente, acreditaram que o mais importante era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com fastio um volume e condenavam prateleiras inteiras: ao seu furor higiénico, ascético, deve-se a insensata perda de milhões de livros. O seu nome é execrado, mas aqueles que deploram os “tesouros” destruídos pelo seu frenesim negligenciam dois factos notórios.
Um: a Biblioteca é tão imensa que toda a redução de origem humana resulta infinitesimal. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que apenas diferem por uma letra ou por uma vírgula. Contra a opinião geral, atrevo-me a supor que as consequências das depredações cometidas pelos Purificadores foram exageradas graças ao horror que esses fanáticos provocaram. Urgia-lhes o delírio de conquistar os livros do Hexágono Carmesim: livros de formato menor que os naturais; omnipotentes, ilustrados e mágicos.
Também sabemos de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Numa estante de um dos hexágonos (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais: algum bibliotecário o consultou e é análogo a um Deus.
Na linguagem desta área persistem ainda vestígios do culto desse funcionário remoto. Muitos peregrinaram à procura d’Ele. Durante um século trilharam em vão os mais diversos rumos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o hospedava? Alguém propôs um método regressivo: Para localizar o livro A, consultar previamente um livro B, que indique o lugar de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim até o infinito…
Em aventuras como essas, prodigalizei e consumi meus anos. Não me parece inverosímil que em alguma prateleira do Universo haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem – um só, ainda que seja há mil anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não são para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, embora meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que num instante, num ser, Tua enorme Biblioteca Se justifique.
Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa exceção. Falam (eu o sei) de “a Biblioteca febril, cujos fortuitos volumes correm o incessante risco de transformar-se em outros e que tudo afirmam, negam e confundem como uma divindade que delira”.
Essas palavras, que não apenas denunciam a desordem mas que também a exemplificam, provam, evidentemente, seu gosto péssimo e sua desesperada ignorância. De facto, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variantes que permitem os vinte e cinco símbolos ortográficos, porém nem um único disparate absoluto. Inútil observar que o melhor volume dos muitos hexágonos que administro intitula-se Trono Penteado, e outro A Cãibra de Gesso e outro Axaxaxas mlö.
Essas proposições, à primeira vista incoerentes, sem dúvida são passíveis de uma justificação criptográfica ou alegórica; essa justificação é verbal e, ex hypothesi, já figura na Biblioteca. Não posso combinar certos caracteres que a divina Biblioteca não tenha previsto e que em alguma de suas línguas secretas não contenham um terrível sentido. Ninguém pode articular uma sílaba que não esteja cheia de ternuras e de temores; que não seja em alguma dessas linguagens o nome poderoso de um Deus. Falar é incorrer em tautologias.
Esta epístola inútil e palavrosa já existe num dos trinta volumes das cinco prateleiras de um dos incontáveis hexágonos – e também a sua refutação. (Um numero n de linguagens possíveis usa o mesmo vocabulário; em alguns, o símbolo biblioteca admite a correta definição ubíquo e perdurável sistema de galerias hexagonais, mas biblioteca é pão ou pirâmide ou qualquer outra coisa, e as sete palavras que a definem têm outro valor. Tu, que me lês, tens certeza que entendes a minha linguagem?)
A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito anula-nos ou fantasmagórica-nos. Conheço distritos em que os jovens se prostram diante dos livros e beijam com barbárie as páginas, mas não sabem decifrar uma única letra.
As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente degeneram em bandoleirismo, dizimaram a população. Acredito ter mencionado os suicídios, cada ano mais frequentes. Talvez me enganem a velhice e o temor, mas suspeito que a espécie humana – a única – está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Acabo de escrever infinita. Não interpolei esse adjetivo por costume retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Aqueles que o julgam limitado postulam que em lugares remotos os corredores e escadas e hexágonos podem inconcebivelmente cessar – o que é absurdo. Aqueles que o imaginam sem limites esquecem que os abrange o número possível de livros.
Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). A minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.
[1] expressão popular para resplendor.
[2] Mesmo que gupiara, depósito de diamantes.

A Biblioteca de Babel, Jorge Luís Borges


domingo, 24 de maio de 2020

Audiotexto | Um amor de cão, de Maria Velho da Costa








O desenvolvimento deste conto daria origem a Myra, o último romance da autora (publicado em 2008).

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

+Leitur@s | Sete Casas Vazias



Desconstruções

Samanta Schweblin viu dois dos seus livros serem finalistas do Man Booker International 
Carlos Furman/REUTERS



Acompanhado dos pais, Javier viaja 300 quilómetros até à casa onde Marga, a ex-mulher, passa férias com os filhos (e o novo namorado), só para que os netos possam ver os avós durante umas horas. Se não estivéssemos num conto de Samanta Schweblin, talvez tudo permanecesse dentro daquilo a que se convencionou chamar a “normalidade”: diálogos falsamente corteses, hipocrisia familiar, tudo o que é incómodo (desconforto, rancor, ressentimento) escondido por baixo do verniz das boas maneiras, da sã convivência social.

Acontece que estamos num conto de Samanta Schweblin, escritora argentina que insiste em rasgar o tecido do quotidiano com as lâminas da estranheza e do desajuste (aos 41 anos, não é exagero considerá-la uma legítima herdeira de Julio Cortázar). Os pais de Javier decidem despir-se e brincar no jardim, com uma mangueira, molhando à vez os seus decrépitos corpos nus. Irritadíssima, Marga pergunta a Javier o que acontecerá quando os netos chegarem do supermercado. E responde: “Vão morrer de vergonha dos avós.” O discurso racional chega-se à frente, ocupa o primeiro plano, entra em pânico quando os miúdos desaparecem da vista e ninguém sabe onde estão, mas é permanentemente sabotado pela rebeldia das duas gerações que não chegam a ter voz ou palavra, estão só lá atrás (nos interstícios do real), como que desfocadas, urdindo uma cumplicidade que escapa à compreensão dos adultos sérios e pode ser confundida com loucura, quando é apenas o exercício de uma liberdade absoluta e vagamente selvagem.

Os sete contos que Schweblin reúne neste livro partem sempre de um movimento de desconstrução: física, psicológica, moral ou arquitetónica. Há casas que se tornam demasiado grandes, ou demasiado sufocantes, ou demasiado cheias da memória de quem já morreu, ao ponto de expulsarem os seus habitantes, empurrando-os para uma espécie de escuridão primordial, um limbo em que a lógica se suspende, abrindo caminho para situações de um insólito que tanto parece da ordem do sonho como de um excesso de lucidez. Numa das histórias, uma mulher sai para a rua e anda à deriva na noite, “nua por baixo do roupão”, com uma toalha a envolver o cabelo molhado, porque não consegue dizer ao marido o que tem mesmo de lhe dizer. Noutra, alguém atravessa a cidade para comprar aspirinas, só isso, mas pelo caminho descobre a angústia de quem não tem para onde ir, nem um lugar que seja seu: “Estava sentada em quarenta centímetros quadrados, e era só isso que o seu corpo ocupava no mundo.

José Mário Silva, E-Revista Expresso, 22 de fevereiro de 2020




Autor : Samanta Schweblin
Editora: Elsinore
ISBN : 9789896687274
1ª Edição: fevereiro de 2020
Páginas :128


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Aos filhos dá-se tudo






Cláudia Lucas Chéu



Afinal de contas, não lhe dera a lua, mas um sonho. Dera-lhe o satélite de fantasia que lhe podia dar.

Há uns anos ofereceu a lua à filha. É verdade. Arranjou um registo de propriedade e tudo, e colaram-no juntas na porta do roupeiro do quarto da pequena. Voltavam para casa à noite, depois de terem jantado no sítio preferido da menina, onde só há bifes, batatas fritas e meias baguetes generosamente barradas com manteiga de alho. A pequena é fã de bitoques, tal qual a mãe. Nasceu assim, carnívora como uma pequena leoa. Está-lhe nos genes. Vinham, então, para casa a pé — nessa altura ainda moravam no centro da cidade. O céu estava limpo e via-se a lua, tão exposta como um queijo gordo e reluzente, a vigiá-las de cima. A mãe teve uma ideia e apontou para o céu:

— Filha, queres que te ofereça a lua?

A menina olhou para o grande círculo no céu. Não respondeu logo. Do baixo dos seus cinco anos, dirigiu o pequeno rosto desconfiado na direcção da mãe.

– Pode-se comprar a lua? – perguntou-lhe com sinceridade.

A mãe não sabia se a lua podia ser comprada, mas certamente poderia ser oferecida, uma vez que não pertencia a ninguém. A pequena descerrou no rosto um grande e perfeito sorriso de leite.

– Quero, mãe! – disse, num entusiasmo pueril irreproduzível.

E assim foi. Chegaram a casa, redigiram o documento e fizeram uma ilustração juntas. Mesmo antes de selarem o registo com fita-cola, a filha perguntou-lhe:

— Queres um bocado da lua para ti, mãe? Eu dou-te.

A mãe emocionou-se pelo gesto, mas declinou educadamente a oferta. A lua era só para a menina; assim seria dali em diante.

Mais tarde, no jeito recorrente das mães para duvidarem de si próprias, ficou a pensar se estaria correcto aquilo que tinha feito. Se, quando verificada a nulidade do documento, não seria posta em causa a sua credibilidade. Pensou melhor. Supôs que não. Afinal de contas, não lhe dera a lua, mas um sonho. Dera-lhe o satélite de fantasia que lhe podia dar.

Ultimamente, a mãe anda a pensar em oferecer-lhe o mar. Uma ripa de Atlântico, só um pedaço. Não quer ser gananciosa, agora que ela e a filha já sabem que podem fazer o mesmo com o oceano. É só uma questão de o localizarem e de o assinalarem no mapa. E de fazerem um registo de propriedade, claro, com a devida ilustração. Tem de ser um documento a sério. Desta vez, a mãe pensa partilhar o investimento com a menina — uma tira de mar, com a devida fauna que lhe compete. Com sorte, ainda lhes calham golfinhos e uma raia. Seria justo receber-se alguma surpresa, devido ao enorme investimento.

A mãe, que pensa demasiado, como é comum às matriarcas, ficou ainda a cogitar se devia oferecer tudo aos filhos. E concluiu que sim. Pelo menos, tudo o que não custe dinheiro. Dar-lhes a extensão máxima da nossa criatividade. A mãe acredita que são músculos que se treinam, tanto a dádiva como a imaginação. Fazê-lo em conjunto com os filhos torna-se uma prática memorável. Se um dia, quando a mãe já cá não estiver, for recordada como a pessoa que lhe ofereceu a lua, já foi incrível ter vivido.

Fonte:
Público, 12 de fevereiro de 2020



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Mário de Carvalho | Famílias desavindas











     Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há-de encontrar-se um cruzamento alto, de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina telhados de ardósia em escama. Faltam razões para flanar por esta rua, banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo conhecido de poucos: os únicos semáforos do mundo movidos a pedal, sobreviventes a outros que ainda funcionavam na Guatemala, no início dos anos setenta.
     No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem engenheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa, antes de convencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia eléctrica, capaz de bem ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e
landós da sociedade. A autoridade gostou do projeto e das garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos estiveram ensejados para a Ponte, mas, de proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acabaram na infrequentada Rua Fernão Penteado, na interseção com a travessa de João Roiz Castelo Branco.
     O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, luminoso. Um homem pedala numa bicicleta erguida a dez centímetros do chão por suportes de ferro. A corrente faz girar um imã dentro de uma bobina. A energia gerada vai acender as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. Durante a Primeira Guerra foi introduzida uma melhoria. Uma inspeção da Câmara concluiu que a roda da frente era destituída de utilidade. Foi retirada.
Houve muitos candidatos ao cargo de samaforeiro, embora um equívoco tivesse levado à exigência de que os concorrentes soubessem andar de bicicleta. A realidade corrigiu o dislate porque acabou por ser escolhido um galego chamado Ramon, que era familiar do proprietário dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na vida. Mas Ramon era esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada.
     Durante anos e anos o bom do Ramon pedalou e
comutou. Por alturas da segunda Grande Guerra foi substituído pelo seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de Abril pelo neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo bisneto Paco. A administração continua a pagar um vencimento modesto, equivalente ao de jardineiro. Mas não é pelo ordenado que aquela família dá ao pedal. É pelo amor à profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto e bisneto foram vistos de ferramenta em riste a afeiçoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de trás e opuseram-se quase com selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda dispensável, sugerindo que o carreto bastasse.
     Os transeuntes e motoristas do Porto apreciam estes semáforos manuais, porque é sempre possível personalizar a relação com o sinal. Diz-se, por exemplo, «Ó Paco, dá lá um jeitinho!» e o Paco, se estiver bem-disposto, comuta, facilita.
     Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que dali faz consultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o Doutor João Pedro Bekett, pai de filhos e médico singular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava pelas ruas a interpelar os transeuntes: «Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que eu trato-o.» E nesta ânsia de convencer atravessava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou-se do Ramon e bradou, severo: «A mim, ninguém me diz quando devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre e
desimpedido.» Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante, passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Felizmente, nunca coincidiram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados.
Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava sempre que o seu diagnóstico era provavelmente errado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os pacientes para um colega que desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à janela, a
encandear Ximenez com um espelho colorido.
     Já entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se chegou a vias de facto. O médico passava e rosnava «Sus, galego». E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: «Xó, magarefe!» Uma tarde, Asdrúbal levantou mesmo a mão e o doutor encurvou-se e enrijou o passo.
     Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos doentes, com impaciência, e depois impunha silêncio e começava: «As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no segundo, bacterianas.» E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas maliciosos sustentavam que ele praticava a terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até faziam perguntas. Após a consulta, muito à puridade, o Dr. Paulo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe dissessem: «Arrenego de ti, galego!» Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco.
     Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa-de-ovos na mão, e já trazia entredentes o «arrenego!» com que insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao proceder a um roubo por esticão um jovem que vinha de mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o estendido no asfalto. Era grave. O Dr. Paulo largou ódios velhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinistrado: «Isto, em matéria de lesões, elas podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes, cortantes, ou perfurantes.»
     Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das «manchas de sangue».
     Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou abandonado. Uma figura de bata branca está todos os dias naquela rua, do nascer ao pôr do Sol, a acionar o dispositivo, pedalando, pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de remorsos, que quer penitenciar-se, ser útil, enquanto o Paco não regressa.

 Mário de Carvalho, Contos Vagabundos, Lisboa, Editorial Caminho, 2000



sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Kafka | A sombra do pai (1)








Mikhail Bahktine escreveu na sua Estética e Teoria do Romance: «O objeto principal do género romanesco, aquele que o “especifica”, aquele que cria a sua originalidade estilística, é o homem que fala e a sua palavra». Creio que raramente uma asserção de âmbito geral como esta é terá sido tão exata como no caso humano e literário de Franz Kafka.

Desrespeitando certos teóricos que, não destituídos de razão, se têm insurgido contra a tendência “romântica” de ir procurar à existência de um escritor os sinais da passagem do vivido para o escrito, o que, supostamente, seria a final explicação da obra, Kafka não esconde em nenhum momento (e parece fazer mesmo questão de que se note) o quadro de factores que determinaram a sua dramática vida e, em consequência, o seu trabalho de escritor: o conflito com o pai, o desentendimento com a comunidade judaica, a impossibilidade de deixar a vida celibatária pelo casamento, a enfermidade. Penso que o primeiro daqueles fatores, isto é, o antagonismo nunca superado que opôs o pai ao filho e o filho ao pai, é o que constitui a trave mestra de toda a obra kafkiana, dele derivando, como os ramos de uma árvore derivam do tronco principal, o profundo desassossego íntimo que o levou à deriva metafísica, à visão de um mundo agonizando pelo absurdo, à mistificação da consciência.

A primeira referência a O Processo encontra-se nos Diários, foi escrita em 29 de Julho de 1914 (a guerra desencadeara-se no dia anterior) e começa com as seguintes palavras. “Uma noite, Josef K…, filho de um rico comerciante, depois de uma grande discussão que tinha tido com o pai…”. Sabemos que não é assim que o romance irá principiar, mas o nome da personagem principal – Josef K… - já ficou anunciado, tal como em três rápidas linhas de A Metamorfose, escrito quase dois anos antes, já se anunciava o que viria a ser o núcleo temático central de O Processo. 

Quando, transformado da noite para o dia, sem qualquer explicação do narrador, num bicharoco nojento, misto de escaravelho e de barata, se queixa dos sofrimentos imerecidos que caem sobre o viajante de comércio em geral e sobre ele próprio em particular, Gregorio Samsa expressa-se de uma maneira que não deixa margem para dúvidas: “muitas vezes é vítima de uma simples murmuração, de um acaso, de uma reclamação gratuita, e é-lhe absolutamente impossível defender-se, uma vez que nem sequer sabe de que o acusam”. Todo O Processo está contido nestas palavras. É certo que o pai, “rico comerciante”, desapareceu da história, que a mãe só é mencionada em dois dos capítulos inacabados, e mesmo assim fugazmente e sem caridade filial, mas não me parece um excesso temerário, salvo se estou demasiado equivocado sobre as intenções do autor Kafka, imaginar que a omnipotente e ameaçadora autoridade paterna terá sido, pela estratégia da ficção, transferida para as alturas inacessíveis da Lei Última, essa que, sem precisar de enunciar uma culpa concreta recolhida nos códigos, será sempre implacável na aplicação do castigo. O angustiante e ao mesmo tempo grotesco episódio da agressão executada pelo pai de Gregorio Samsa para expulsar o filho da sala familiar, atirando-lhe com maçãs até que uma delas se lhe vai incrustar na carapaça, descreve uma agonia sem nome, a morte de qualquer esperança de comunicação.

Continua

SARAMAGO, José (2009). Outros Cadernos de Saramago.



"Bichos": a arca de Noé de Miguel Torga




RTP Ensina



 http://ensina.rtp.pt/artigo/bichos-a-arca-de-noe-de-miguel-torga/




Neste primeiro livro de contos de Miguel Torga as personagens pertencem ao mundo animal e ao mundo humano. Bichos e homens revelam-se iguais nos dilemas, na luta pela sobrevivência e liberdade. No imaginário destas histórias encontramos o fio da realidade.

Na pequena arca de Noé de Miguel Torga, “há homens que são autênticos bichos, que pensam e agem como bichos, e há bichos que são seres pensantes, com sensibilidade, com alma”, sintetiza o escritor António Arnaut. Nestes contos encontramos a filosofia e a ética do autor, a sua relação difícil com Deus, o mundo agro-pastoril das terras transmontanas, região onde nasceu.



domingo, 19 de janeiro de 2020

Farrusco, o melro




Conto de Bichos, de Miguel Torga




Imagem: Pixabay




Celebrar Torga por ocasião da evocação dos 25 anos da sua morte.
Leitura do conto "Farrusco", de Bichos. Aula de Matemática. Turma D, 8º ano.



Farrusco


Dentro da poça do Lenteiro, há rãs. Naquela água coberta de agriões e de juncos moram centenas delas. Mas à volta, na sebe de marmeleiros, silva-macha e alecrim, vive Farrusco, o melro. Sabe-se isso desde que, em certo entardecer de Agosto, a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente: 

- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?

A rapariga era toda ela de se comer. E o cuco, maroto, olhou de lá, viu, e respondeu:

- Cucu... Cucu... Cucu...

Três anos! A moça ficou varada. O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias, e prometera levá-la à igreja logo a seguir. Que significava, pois, semelhante demora? Aflita, chegou-se à Isaura, a alcoviteira, mouca como um soco, que a seu lado sachava milho, e gritou-lhe aos ouvidos, desesperada: 

- Ora vê?! Que lhe dizia eu? A Isaura nem queria acreditar. 

- Ouvirias mal!...

- Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem.

E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas, como se alguém rasgasse um pano cru, rijo e comprido, no silêncio da tarde serena, que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. Nada mais do que isso. Mas o bastante para mudar o sinal do desencanto. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. De parada, a natureza animou-se. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente. A própria terra, sonolenta do calor do dia, acordou. £ de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro. 

Chamadas por aquela volatina, as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. Às rãs, juntaram-se logo, pressurosos, os ralos, as cegarregas, os grilos, e quanta arraia miúda tinha fala. A esta, a passarada. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. Um coro imenso, cósmico e fraterno, que enchia o mundo de confiança. 

Clara, arrastada pela onda de harmonia, apelou da sentença: 

- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira? O que foste fazer! O malandro do pitoniso, se há pouco fora cruel, desta vez requintou. 

- Cucu... Cucu... Cucu... Cucu... 

Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais. Ou de propósito, ou porque o mundo, naquele instante, era um orfeão aberto, o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu. 

Desapontada, a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. E, num amuo justificado, deixou correr as horas. A seu lado, comprometida, a Isaura, que tinha garantido o noivado a curto prazo, falava, falava, sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. E quando a noite se aproximou disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias de Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar. 

- O estafermo do cuco, tia Isaura! Até um melro se riu!... 

- Riem-se de tudo, esses diabos... 



Mas o lusco-fusco começava a empoeirar o céu, e Farrusco ia fechando docemente os olhos, deitado na cama dura. A vida que lhe ensinara a mãe, simples, honesta, espartana, não lhe consentia luxos de noitadas. Pela manhã, ainda o sol vinha lá para Galegos, já ele tinha de estar de perna à vela, pronto para comer a bicharada da veiga, e rir de novo, se alguma tola de Vilar de Celas se fiasse outra vez no aldrabão do cuco.

TORGA, Miguel (2003). Farrusco. Bichos. Planeta Agostini.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Contos de fadas são para crianças?




JRR Tolkien defende que não há uma "escrita para crianças"




Ilustrações originais de JRR Tolkien para a primeira edição de O Hobbit, 1936



Ilustrações originais de JRR Tolkien para a primeira edição de O Hobbit, 1936




Tolkien insiste que os contos de fadas não são intrinsecamente "para" crianças, mas que, como adultos, decidimos simplesmente que o são, com base numa série de conceitos erróneos sobre a natureza dessa literatura e a natureza das crianças:


Geralmente, supõe-se que as crianças são o público natural ou especialmente apropriado para os contos de fadas. Ao descrever um conto de fadas que acham que os adultos possam ler para o seu próprio entretenimento, os revisores de texto costumam usar expressões como: "este livro é para crianças dos seis aos sessenta anos". Mas eu nunca vi a baforada de um novo modelo de motor que começasse assim: “este brinquedo divertirá crianças dos sete aos setenta”; embora isso fosse muito mais apropriado para mim. Existe alguma ligação essencial entre crianças e contos de fadas? Existe algum a comentar se um adulto os lê por si mesmo? Lê-os como contos, ou seja, não os estuda como curiosidades. Aos adultos é-lhes permitido colecionar e estudar qualquer coisa, até programas antigos de teatro ou sacos de papel.

        [...]

Entre aqueles que ainda têm sabedoria suficiente para não considerar os contos de fadas perniciosos, a opinião comum parece ser a de que existe uma ligação natural entre as mentes das crianças e os contos de fadas, da mesma ordem que a ligação entre o corpo e o leite das crianças. Eu acho que isso é um erro; na melhor das hipóteses, um erro de falso sentimento e, portanto, mais frequentemente cometido por aqueles que, por qualquer motivo particular (como a falta de filhos), tendem a pensar nas crianças como um tipo especial de criatura, quase uma raça diferente, e não como membros normais, se imaturos, de uma família em particular e da família humana em geral.


Ele argumenta, em vez disso, que o estereótipo de contos de fadas associados a crianças e nativos de seu mundo é "um acidente de nossa história doméstica":

No mundo moderno letrado, as histórias de fadas foram relegadas para o "berçário", tal como os móveis gastos ou antiquados são relegados para a sala de jogos, principalmente porque os adultos não os querem e não se importam se forem mal utilizados. Não é a escolha das crianças que decide isso. As crianças enquanto grupo - exceto se tiverem uma experiência comum - são heterogéneas, e não gostam mais de contos de fadas, nem as entendem melhor do que os adultos; e, tal como os adultos, gostam de muitas outras coisas. São jovens e crescem, e normalmente têm gostos apurados; e os contos de fadas costumam ser um desses gostos. Mas, de fato, apenas algumas crianças e alguns adultos têm um gosto especial por elas; e quando o possuem, não é exclusivo, nem mesmo necessariamente dominante. Também é um gosto que, aparentemente, não apareceria muito cedo na infância sem um estímulo artificial [...].


Uma peça rara de criatividade interdisciplinar da mente de um dos maiores criadores da história moderna, The Art of the Hobbit é um tesouro literário e um tratamento de arte em partes iguais, explorando a noção do autor como designer - um conceito particularmente oportuno numa época de auto-publicação e polinização disciplinar cruzada na produção de livros. Complemente-o com esta rara gravação de Tolkien lendo um extrato do seu livro: 



https://soundcloud.com/brainpicker/jrr-tolkien-read-from-the-hobbit
Em 1952, Tolkien, com sessenta anos, lê O Hobbit, 
fazendo uma magnífica leitura de Gollum no sotaque antigo que ele tanto amava




Referência:
Maria Popova. J.R.R. Tolkien on Fairy Tales, Language, the Psychology of Fantasy, and Why There’s No Such Thing as Writing “For Children”. Blogue Brain Pickings. Disponível em: https://www.brainpickings.org/2013/12/05/j-r-r-tolkien-on-fairy-stories. Consultado em 3 de janeiro de 2020.