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terça-feira, 8 de abril de 2025

Não há criatividade na IA

 

#inteligenciaartificial


“Não há criatividade na IA, toda a gente está a construir sistemas redundantes, baseados nos mesmos dados que usam fontes não verificadas”


 

Daniela Braga, Empresária. Foto: Tiago Miranda.


A empresária portuguesa Daniela Braga, que esteve na conferência HumanX em Las Vegas, aponta para problemas de criatividade na forma como os grandes modelos de Inteligência Artificial estão a ser desenvolvidos e diz que região europeia deve virar-se para modelos open source que possa escrutinar e afinar.

 

A fundadora e CEO da Defined.ai, empresa que se distingue pela ética dos dados usados para treinar modelos de Inteligência Artificial, foi uma das oradoras convidadas para estar na primeira edição de sempre da HumanX, em Las Vegas. A conferência criada por Stefan Weitz focou-se na criação de sistemas IA transparentes e robustos, com as salvaguardas devidas, que possam escalar mantendo a confiança dos mercados e das pessoas. Falámos com Daniela Braga no hotel Fontainebleau, onde decorreu a conferência, sobre os temas em que foi chamada a participar: um ‘fireside chat’ sobre ética e IA, tema em que se centra a sua missão de conselheira da Casa Branca à União Europeia e World Economic Forum; e uma mesa redonda sobre os limites da criatividade.

Por que foi importante estar na primeira edição da HumanX?

Nós estamos sempre nestas conferências. Na Inteligência Artificial eu construí uma empresa completamente diferente na área de dados, de fontes de dados fechadas e dados éticos. Não estar aqui seria realmente estranho.

Quais são os limites da criatividade em IA no formato atual?
Todos os sistemas de Inteligência Artificial estão a ser construídos baseados nos mesmos dados, que são ‘scraped’ [raspados] da web. Os resultados e os comportamentos destes sistemas são basicamente os mesmos. Eu ando a falar em redundância, até nas Nações Unidas, há muito tempo. Toda a gente está a construir sistemas redundantes, baseados nos mesmos dados, que têm preconceitos, que têm violações de copyright, que não são de fontes verificadas e são todos avaliados nos mesmos benchmarks. Basicamente, todos os sistemas, biliões de investimentos, respondem mais ou menos da mesma forma.

Ou seja, corremos o risco de, daqui a uns anos, estarmos todos a pensar da mesma forma ou a receber o mesmo tipo de respostas?
Por um lado, toda a gente está a usar a mesma metodologia, os mesmos dados não sempre obtidos legalmente, testados da mesma maneira. Portanto, há uma falta de criatividade no desenvolvimento destes sistemas. É a primeira coisa que eu tenho a dizer. A segunda questão é mais filosófica. Por que razão estamos a fazer tantos investimentos deste nível de escala em sistemas que se comportam exatamente da mesma forma? Não seria mais interessante construir modelos mais pequenos, mas mais focados em resolver problemas que realmente diferenciam a Humanidade?

Refere-se aos SLM?
Small language models [pequenos modelos de linguagem], que podem ser agentes, mas que resolvam problemas específicos. Toda a gente está a tentar resolver os mesmos problemas e não os problemas ao nível da educação, da saúde, problemas de raciocínio, mas ao nível por exemplo das ciências e ciências da vida ninguém está a fazer modelos específicos bem feitos. É tudo genérico, gigante, investimentos redundantes quando há tanta coisas que podiam ser rapidamente abordadas, até a questão das causas naturais, dos desastres naturais.

O que é que explica isto? É o facto de estarem todas estas empresas a tentarem ser o campeão?
Claro, isto é a corrida da IA. Depois tem a questão geopolítica. A situação geopolítica dos Estados Unidos versus China, agora agravada com outros conflitos.

Os EUA estão a criticar a Europa e até parecem concorrentes em vez de aliados.
Concorrentes, exatamente.

Estas novidades que vimos da China, como DeepSeek, introduzem alguma criatividade e inovação?
Não, criatividade nenhuma. Zero criatividade. A China é conhecida por copiar e fazer melhor. Copiam, mas já fazem melhor. Com menos dinheiro e mais barato, porque é uma obra mais barata. É tudo a mesma coisa. Ainda por cima, eu não experimentei o DeepSeek, mas o que eu leio é que há um filtro político. Continua-se a não conseguir perceber como tudo o que vem promovido pela República Popular da China tem salvaguardas ao nível do posicionamento político e de explicitar certos eventos que estão a acontecer. Nós temos outras salvaguardas no mundo ocidental. Obviamente, se fizermos uma pergunta ao modelo de como desenvolver uma bomba atómica, o modelo não vai responder porque está preparado para não responder a questões que causem danos, risco, violência às pessoas. Mais uma vez, se há alguma criatividade é na forma de como é que se abordam ou como se respondem a certas questões políticas. Mas aqui também, durante a campanha das presenciais, havia um claro posicionamento da Google, pelo menos da Google que eu me lembro, que não respondia a questões sobre o partido democrata. Respondia só a questões do partido republicano. Portanto, é para explicar que os modelos são todos enviesados. É possível prepará-los para responder mais ou menos perguntas. Há o modelo do Elon Musk, o Grok.

Que diz que tem menos filtros, não é?

Sim. Alega que é tudo liberdade de expressão. E que essa liberdade de expressão vai até ao limite de poder falar sobre racismo, sexismo e todos os ismos possíveis sem filtro. Aí, sim, podemos ver que se vai haver diferenciação é como é que se vão afinar estes modelos com salvaguardas que dizem só aquilo que interessa. Quando entram na questão ideológica é problemático.

Podemos na Europa, ou mesmo num país como Portugal, criar SLM que sejam mais criativos e que se distingam?
Podemos. Já ando a dizer há seis ou sete anos que podemos, mas eu acho que já perdemos o comboio. Quando a Comissão Europeia estava a discutir milhões para a IA, o Banco Europeu de Investimento tinha criado um fundo de fundos para desenvolver IA, e que nunca foi lá, nesse tempo ainda havia uma chance. Neste momento, a Europa perdeu o comboio. O que é que a Europa pode fazer? Agarrar em modelos open source que, mesmo assim, é preciso escrutinar. É preciso ver qual é a tabela nutricional destes modelos open source. A maior parte dos modelos open source foram construídos da mesma maneira não criativa que eu estou a dizer. E ilegal. Mas é começar por uma base open source e fechar o modelo para afinar. E dirigi-lo para aplicações concretas. Não vamos ter ilusões que a Europa vai conseguir construir um grande modelo de linguagem da escala que a gente vê atualmente todos os dias sair mais um. Estamos a falar de biliões de investimentos.

Uma das questões mais falada na sessão de abertura com Kamala Harris e o congressista republicano Jay Obernolte, é a diferença de abordagem entre os EUA e a Europa em relação à regulação, ou temos segurança ou temos inovação. Quem é que está certo? Ou ninguém está certo?
Para já, há uma ideia errada que os Estados Unidos são contra a regulação. Cada estado tem a sua própria lista de regulações em IA, com os estados da Califórnia e do Colorado a serem ‘template’ para todos os estados. Nós fazemos parte da Consumer Technology Association, que organiza o CES, estamos no AI Group, e a lista mensal de leis que passam ou que estão em aprovação por cada estado é gigantesca. Eu acho que as pessoas ainda estão naquela narrativa da Europa é que é regulação e os Estados Unidos não, e não é verdade. Nós, todos os dias, temos que filtrar dados do nosso ‘closed source marketplace’ para certos Estados porque a lei da biométrica foi instituída no Illinois, Texas e Washington e Califórnia. E já temos que tirar esses estados dos mapas.

Ou seja, é uma manta de retalhos em vez de uma legislação federal?

Claro, é uma manta de retalhos com muitas aproximações e com um ‘template’ que os outros estados estão a seguir promovido pela Califórnia e pelo Colorado. A segunda questão é que a Europa, como não desenvolve, que esse aqui é o problema, vai agora estar mais preocupada em aplicar sanções. E, de facto, a Europa é mais punitiva porque há a questão das sanções e das multas, que aqui há menos. Não há uma tabela de preços de multas tão clara como há na Europa. O que também coloca a Europa só numa situação de ser protecionista, mas não olhando para estas novas tecnologias e tentando perceber qual é a mais ética para adotar e isso sim, defender. Caímos numa situação em que o consumidor vai decidir sozinho. Vai decidir pelo que é mais acessível, no sentido de ser mais disseminado, mais fácil de instalar, mais fácil de usar. E que não é necessariamente a melhor ferramenta no futuro.

Então, corremos o risco de investidores, talento técnico e empresas fugirem da Europa por causa dessa abordagem mais punitiva?
O talento já sai da Europa todos os dias. Não é tanto por aí. O que estou mais preocupada é que as empresas que de facto têm uma agenda ética, como, vou ter que dizer, uma IBM, uma Microsoft e uma Meta, não consigam entrar na Europa, em detrimento de outras menos éticas, como a OpenAI, como a Anthropic, como a DeepSeek. E essas, sim, terem uma adoção mais rápida.

Qual é o maior risco que nós enfrentamos neste momento relativo à inteligência artificial?
Cair nas mãos erradas com stakeholders que a podem usar no sentido de propaganda e desinformação.

Ana Rita Guerra. E-Revista Expresso, 17 de março de 2025

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Entrevista | Mural de Memórias de Abril

 



No dia 25 de abril de 2024, comemora-se meio século da Revolução dos Cravos! Para celebrarem este acontecimento da História de Portugal, os alunos do 8ºF entrevistaram membros da Escola Secundária Camilo Castelo Branco que tivessem memórias desse dia, em 1974, criando posteriormente um mural de memórias de Abril recorrendo à ferramenta Padlet.

 


Criado com o Padlet


Abril depois de Abril - Abril por cá


domingo, 15 de janeiro de 2023

Entrevista | Paula Duarte Lopes, docente e investigadora da Universidade de Coimbra

 




O caminho de Paula Duarte Lopes na Universidade de Coimbra (UC) começou enquanto estudante da Faculdade de Economia da UC (FEUC). Volvidos quase 30 anos, a FEUC continua a ser a sua casa, de onde saiu para se especializar na área que sempre fez bater o seu coração: as Relações Internacionais. Hoje é professora na FEUC, integrando o Núcleo de Relações Internacionais, e é também investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, na área dos Estudos para a Paz. Estas duas dimensões não vivem uma sem a outra na sua rotina. Para Paula Duarte Lopes, fazer investigação é estar sempre a aprender e é também levar o trabalho de campo para dentro da sala de aula, para que as/os estudantes aprendam as matérias em plena articulação com a sociedade atual.

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Quando e como começou o seu percurso na Universidade de Coimbra?

Já foi há muito tempo e começou como estudante. Tirei a licenciatura de Economia aqui na casa [na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra]. Ainda frequentei uma licenciatura de cinco anos, o que era tempo suficiente não só para tirar uma licenciatura, como para nos envolvermos, [criarmos relações de amizade], com a equipa da faculdade, não só com docentes, mas também com funcionários.

Assim que me licenciei, e durante alguns anos, trabalhei como assistente de investigação no Centro de Estudo Sociais (CES). Depois, fui fazer o mestrado fora, na área das Relações Internacionais. E só depois do mestrado é que me candidatei para a área das Relações Internacionais, a um projeto que estava a acabar de ser criado aqui na faculdade. E foi assim que retornei à Faculdade de Economia, como docente, logo no segundo ano em que foi criada a área de Relações Internacionais aqui na casa. E aqui tenho estado.


Como é que surgiu o interesse pelas áreas da Ciência Política e das Relações Internacionais?

Como muitas pessoas, quando fiz a licenciatura de Economia não sabia muito bem o que é que queria fazer no final. E a minha mentora, enquanto estive no Centro de Estudos Sociais, a Professora Maria Manuel Leitão Marques, que recentemente se jubilou, disse-me “olha para trás e vê o que é que durante os últimos cinco anos te fez bater mais o coração.” E eu vi que eram as questões internacionais que realmente me interessavam. Só depois de começar a fazer investigação no CES é que percebi que não eram as Relações Internacionais no sentido da Economia Internacional, que ainda era um bocadinho quantitativa; eu estava interessada nas instituições, nas políticas e nos programas. E, por conselho dela, muito acertado e visionário, decidi fazer um mestrado em Economia Política Internacional. Na altura não existia essa área em Portugal. Ainda hoje existe de uma forma muito embrionária. Já temos uma associação, mas é pequena a expressão no país desta área de estudos. Fui para a Grã-Bretanha, para a London School of Economics and Political Science, e descobri um mundo novo! Fiquei apaixonada por essa área e nunca mais olhei para trás.

Sempre quis seguir caminho como docente e investigadora ou equacionou outros percursos?

Sempre tive o “bichinho” da investigação, porque investigar implica estarmos sempre a aprender. E eu gosto de aprender coisas novas! Mas, na altura, e um pouco como hoje, a carreira de investigação em Portugal não era uma carreira muito promissora, sólida ou com segurança. Ainda antes de me candidatar para ser docente, tentei trabalhar numa empresa multinacional e para o Estado, em termos administrativos, e fui percebendo que não era isso que queria fazer.

Quando regressei a Portugal, depois de ter acabado o mestrado, precisava de um emprego. Regressei em junho e o que normalmente se fazia em termos de docência era procurar ser professora do ensino obrigatório, mas todos esses concursos já estavam fechados. A única coisa que havia eram concursos para docente universitário. Candidatei-me a todas as universidades que tinham vagas, quer na área da Economia, quer na área das Relações Internacionais, porque precisava de um emprego. E tive a sorte de o projeto aqui na casa estar no seu início e estar a recrutar. Não tinha isso planeado, de forma alguma! Vim cá parar não porque a docência tenha sido sempre o meu sonho ou vocação, porque não tinha isso no meu leque de opções. Mas depois de começar não consigo imaginar o meu caminho noutra área! Gosto muito da interação com os estudantes e com as estudantes e estou muito bem. E poder aliar isso à investigação é o 2 em 1 perfeito.

Referiu que aprende muito quando está a investigar. Além disso, o que é que mais a fascina na investigação?

Em primeiro lugar, é isso mesmo, aprender e conhecer melhor as dinâmicas, e não aceitar apenas o que nos é dito e descrito. Quando começamos a fazer entrevistas e a observar reuniões, começamos a perceber que há ali nuances que nos escapam e que ajudam a perceber determinadas decisões e determinados resultados.

Em segundo lugar, não faço investigação só porque sim. Identifico-me muito com a matriz genética do Centro de Estudos Sociais, onde estou afiliada, em que se faz investigação para agir. Faz-se investigação para perceber os assuntos de forma a melhorar as coisas, para tentar fazer recomendações e perceber, às vezes sem ser intencional, o que acaba por ser marginalizado. Isso é algo que me move.

A outra coisa que me entusiasma, tendo em conta a profissão que tenho, é que não consigo conceber dar aulas sem fazer investigação. Uma coisa é darmos aulas e ensinarmos sobre temáticas que lemos nos livros, nos artigos, [que ouvimos] em conferências. Outra coisa é ensinarmos isso e termos exemplos concretos, porque estivemos lá, testemunhamos, fizemos parte da discussão. Isso traz uma mais-valia para a dinâmica em sala de aula que me satisfaz muito.

E o que é que a entusiasma na docência?

Gosto muito de ver os/as estudantes a crescer. Ou seja, estar desde o início do semestre a discutir temáticas e vê-los e vê-las a acompanharem e a crescerem como cidadãos e cidadãs, mas também como pessoas informadas. As minhas aulas são muito interativas e, antes de dar a matéria propriamente dita, estou sempre a lançar questões. E vê-los e vê-las a tentarem perceber e a responder às questões dá-me muito prazer. E, ao mesmo tempo, aprendo muito com eles e com elas, porque nunca sabemos as questões que nos vão colocar e porque têm caminhos e experiências diferentes. Temos um corpo de estudantes muito internacionalizado, que tem também valores e opiniões políticas diferentes, e nunca sabemos o que vai ser questionado. E isso também me faz progredir e crescer como pessoa [e como docente].

A outra questão que também me entusiasma na docência é que a nossa equipa do Núcleo de Relações Internacionais na Faculdade de Economia vê a docência como uma atividade que é normativa. Ou seja, temos um compromisso, que não passa só por transmitir informação, porque nos dias de hoje os/as estudantes podem adquirir informação em qualquer sítio, embora possa ser incorreta ou falsa. O nosso compromisso é dar-lhes as condições para que, com base nessa informação que lhes transmitimos, eles e elas aprendam a pensar pela sua própria cabeça. E isso é um exercício diário. Isso satisfaz-me muito como pessoa e como professora, mas também acho que é muito interessante para os estudantes e para as estudantes, porque o mundo não é de coisas certas. Essa dinâmica é algo que me apaixona bastante. Eu saio de uma aula – apesar de cansada, em termos de energia – revigorada e com um sorriso na cara porque houve ali passos que se deram.

Nos últimos tempos, uma das temáticas que tem investigado é a água como direito humano. O que tem procurado revelar com as pesquisas que tem desenvolvido?

Essa é uma área mais recente na minha investigação, mas que acaba por ser transversal a tudo o que fiz para trás e também aos planos que tenho para o futuro. E tenho tentado visibilizar o trabalho que faço através de três ângulos.

O primeiro passa por mostrar todo o processo que levou ao reconhecimento do direito humano à água. Havia uma grande discussão, porque se dizia que esse direito já estava reconhecido porque existia o direito à vida, mas muitas pessoas que trabalham na área de Direito não concordavam. Consideravam que não estava salvaguardado, dado que o direito à vida se traduzia em ninguém ter o direito de nos matar. Havia divergências, e eu fui acompanhando todo esse processo. E em 2010, quando foi consagrado o direito humano à água, foi uma sensação de missão cumprida. Mas a minha investigação serve para mostrar que esse foi apenas o primeiro passo. Temos essa consagração, mas implementar, garantir e proteger esse direito é um outro mundo.

O segundo ângulo, que é um trabalho árduo, passa por mostrar que o direito humano à água é [normalmente] imediatamente associado a situações realmente bastante complexas, em países ditos em desenvolvimento. Mas, no entanto, o direito humano à água também é um problema em países como o nosso. E as pessoas esquecem-se disso, porque estão sempre focadas na criação de infraestruturas para levar a água o que, claro, também é importante. No trabalho que desenvolvi durante a crise 2010-2014 em Portugal vi, em conjunto com os e as colegas, que muita gente [foi desligada do serviço de abastecimento de] água. Havia infraestruturas, mas por motivos económico-financeiros, as pessoas não podiam pagar a conta e foi-lhes desligada a água. E o meu objetivo é tornar visíveis dinâmicas que as pessoas normalmente assumem que não são um problema. Mas são, só que há um estigma muito grande e acaba por passar um bocadinho debaixo do radar.

E o terceiro ângulo é a investigação-ação. Se ao dar visibilidade a estas dinâmicas conseguir aprender com o que outros países fizeram e for capaz de transmitir essa informação entre colegas e equipas internacionais é uma mais-valia. Há coisas que já foram testadas noutros países nas quais nos podemos inspirar para tornar o acesso melhor; ou podemos aprender com experiências que correram tão mal que nem vale a pena repetir.

Que momentos mais marcaram o seu percurso na Universidade de Coimbra?

Devo começar por dizer que a minha experiência na Universidade de Coimbra é muito centrada na Faculdade de Economia, porque não estamos inseridos em nenhum polo. Isso tem desvantagens, mas também tem algumas vantagens. E uma coisa que me marcou muito como estudante, e que pude confirmar como docente, é o trabalho em equipa. Há muito trabalho de equipa e muito amor à camisola! Por exemplo, quando cá cheguei não existia este edifício, e tínhamos aulas em pavilhões que, por falta de isolamento, ficavam muito quentes durante o verão. E um dos funcionários, o Sr. Moita, deitava alguma água na cobertura dos pavilhões para os refrescar e conseguirmos aguentar o calor até ao fim da aula. Sempre houve uma grande sensibilidade e cumplicidade entre docentes, funcionários e estudantes, que se mantém até aos dias de hoje. Quando passei para docente consegui ver isso de forma muito clara.

O segundo momento que me marcou, e que vivi enquanto docente, aconteceu quando tivemos de fazer toda a transição para o Processo de Bolonha. No Núcleo de Relações Internacionais, a equipa em que estou inserida, foi muito interessante ver novamente o espírito de equipa. Dividimo-nos em grupos e trabalhámos aos fins de semana e à noite para tentarmos fazer algo conjuntamente. E esse acreditar no projeto é realmente algo que me marca muito. Nem sempre concordamos com toda a gente, nem temos de o fazer, mas sempre houve um espírito de inclusão, de partilha e de apoio que me marcou muito em termos profissionais.

Um terceiro momento, e sem querer estar a vangloriar-me, foi a atribuição do Prémio Ensino da FEUC em 2017. Obviamente, quando nos candidatamos a estes prémios esperamos ganhar, mas, ao mesmo tempo, nunca sabemos quem são os outros candidatos e as outras candidatas. E fiquei um bocadinho surpreendida por ganhar [essencialmente pelo] que isso desencadeou. Ganhar aquele prémio permitiu-me conhecer uma Universidade de Coimbra que não conhecia, por ignorância minha, que tem a ver com uma rede de colegas de todas as faculdades e de todos os centros de investigação que têm uma preocupação pedagógica muito grande. E por ter recebido esse prémio, fui convidada para sessões onde conheci colegas que pensam como eu, que têm valores semelhantes em termos pedagógicos e isso foi m
uito positivo. Por causa disso, estou em redes europeias e internacionais na área do ensino de excelência ao nível do ensino superior e da orientação doutoral. E foi aquele pequeno momento que desencadeou tudo isso. Até hoje, não só trabalho em termos pedagógicos, como também já faço investigação sobre questões pedagógicas. Isso abriu uma janela a uma dinâmica que não conhecia na Universidade de Coimbra e que me agrada bastante.

Para terminar esta conversa, que mensagem gostaria de deixar à comunidade UC, particularmente a quem faz investigação, em jeito de incentivo à prossecução do seu trabalho?

Como é muito difícil conciliar a docência com a investigação, com as responsabilidades administrativas, e como não temos muitos fundos para investigação, a primeira mensagem que quero deixar é: não desistam!

A segunda é: ao desenvolverem as vossas investigações, tenham sempre presente que as nossas investigações têm um compromisso. Não fazemos investigação só porque sim, porque, embora essa investigação só porque sim nos possa dar prazer, não vai ser capitalizada para a sociedade em geral. Esse compromisso passa por fazer investigação para tentarmos, dentro das nossas possibilidades, ter ideias que possam tornar o mundo mais justo, pacífico e inclusivo. É um compromisso que ainda hoje vale a pena – se calhar mais do que ontem.

Na vossa investigação procurem sempre essa ligação com o mundo real, porque ela existe sempre, embora, às vezes, a descuremos um bocadinho porque temos de obedecer a critérios para publicar ou para fazer determinadas apresentações. Não tenham medo desse envolvimento da vossa investigação com a parte normativa, que passar por tentarmos melhorar a nossa vida, a vida das pessoas que nos rodeiam, a sociedade em que estamos inseridos, e a própria Universidade de Coimbra, que é o nosso ecossistema.

Fonte: Coimbra, U. (2023). Caminhos na UC, o espaço das histórias das pessoas da UC. Retrieved 22 January 2023, from https://www.uc.pt/anossauc/caminhos/paula_lopes/


Assista ao vídeo desta entrevista:

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Produção e Edição de Conteúdos: Catarina Ribeiro, DCOM e Inês Coelho, DCOM 
Imagem e Edição de Vídeo: Ana Bartolomeu, DCOM e Marta Costa, DCOM 
Edição de Imagem: Sara Baptista, NMAR


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Conversas com... Dominique Maingueneau

 



A docente da UAb, Professora Isabel Seara, conversa com o Professor Dominique Maingueneau, docente na Universidade Paris IV Paris - Sorbonne, e investigador na área da Sociolinguística.




A pesquisa de Dominique Maingueneau, iniciada nos anos 1970, concentra-se na Linguística e Análise do discurso franceses. O autor trata deste último tema tomando como ponto de partida a inseparabilidade do texto e do quadro social da sua produção e circulação. Ainda afirma não haver um plano do discurso que seja central, insistindo que tudo o que o constitui deriva dos mesmos fundamentos.

Assim, com ampla bibliografia publicada, o trabalho de Maingueneau associa um olhar pragmático sobre o discurso com teorias da enunciação linguística, conferindo importante contribuição para a teoria literária e a análise do discurso, pois percorre e indica os diferentes caminhos do texto e seu contexto, além de teorizar sobre as formas de interpretação.

Fonte: Wikipedia

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Entrevista a Vasco da Gama

 



“Isto dos aviões é uma moda passageira”

Forum estudante | 10 de janeiro 2022







Apanhámos Vasco da Gama numa marisqueira, a marcar a festa de celebração dos 520 anos da chegada à Índia. O Almirante-Mor aceitou falar à Revista Forum Estudante e recordou a viagem que o celebrizou.

Leia aqui a entrevista.


👉A versão impressa da Forum Estudante está disponível na Biblioteca.


domingo, 16 de janeiro de 2022

Entrevista a Luís de Camões

 






«É tramado nadar só com um braço livre, digo-vos já»





  Forum estudante | 27 de outubro 2020


O famoso autor d’Os Lusíadas aceitou receber a revista Forum Estudante em sua casa, para falar um pouco dos seus projetos literários e contar a sua vida repleta de aventuras.

Pode ler a entrevista aqui.

👉 A versão impressa da revista Forum Estudante está disponível na Biblioteca.


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Entrevista | "A literatura é fundamental para a formação de cidadãos verdadeiramente democráticos"

 


     Prémio Nobel da Literatura em 2010, Mário Vargas Llosa é o maior escritor latino-americano vivo. 



A literatura cria cidadãos críticos que não se deixam manipular e têm a capacidade de projetar-se em direção a um futuro menos ruinoso, menos medíocre.


De onde vem a literatura? 

Penso que os nossos antepassados, no tempo mais primitivo do desenvolvimento humano, já se reuniam de noite à volta de uma fogueira para contar histórias. É uma faculdade profundamente humana: sair de nós mesmos e sermos capazes de inventar um mundo distinto daquele em que vivemos. A literatura nasce daí. Ao surgir a escrita, as histórias puramente orais tornam-se duradouras. Mas a faculdade de contar e de criar realidades paralelas já estava lá e é onde assenta o progresso humano — a invenção de objetos, formas de vida, de organização que, a pouco e pouco, nos levaram até às estrelas. Por outro lado, a literatura contribui para criar cidadãos críticos, que não se deixam manipular facilmente porque têm a capacidade de projetar-se em direção a um futuro menos ruinoso, menos medíocre, mais à altura das suas expectativas. A literatura é fundamental para a formação de cidadãos verdadeiramente democráticos.


Pode ler aqui a entrevista na íntegra. 


Entrevista realizada por Luciana Leiderfarb. Expresso. Semanário #2505, 31 de outubro de 2020

sábado, 12 de setembro de 2020

O Mundo Pós-Pandemia - Relações Pessoais

 

Com Leandro Karnal


Esta entrevista decorreu no dia 18 de abril de 2020, na CNN Brasil



Nesta entrevista, que tem como convidado o filósofo e historiador brasileiro Leandro Karnal, analisam-se as mudanças nas relações entre as pessoas que a pandemia do novo coronavírus pode causar. 

Karnal é entrevistado pelas jornalistas Mari Palma e Thais Herédia e pela comentarista Gabriela Prioli. 



sexta-feira, 15 de maio de 2020

LeV - Literatura em Viagem | José Luís Peixoto








Dia 15 de maio, às 17:00, José Luís Peixoto estará, via streaming, numa conversa com moderação de Manuella Bezerra de Melo.


Assista às sessões em direto, na página de Facebook da Câmara Municipal de Matosinhos: facebook.com/CamaraMunicipalMatosinhos/





quinta-feira, 14 de maio de 2020

LeV - Literatura em Viagem | Ana Luísa Amaral







Dia 14 de maio, às 22:00Ana Luísa Amaral estará, via streaming, numa conversa com moderação de Manuella Bezerra de Melo.



Assista às sessões em direto, na página de Facebook da Câmara Municipal de Matosinhos: facebook.com/CamaraMunicipalMatosinhos/ 



terça-feira, 12 de maio de 2020

LeV - Literatura em Viagem | Isabel Allende, Matilde Campilho, Ondjaki




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Dia 13 de maio, às 17.00, Isabel Allende estará, via streaming, numa conversa com moderação de Hélder Gomes.





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Dia 13 de maio, às 18.00, Matilde Campilho estará, via streaming, numa conversa com moderação de Manuella Bezerra de Melo.






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Amanhã, dia 13 de maio, às 22.00, Ondjaki estará, via streaming, numa conversa com moderação de Filipa Melo.



Assista às sessões em direto, na página de Facebook da Câmara Municipal de Matosinhos: facebook.com/CamaraMunicipalMatosinhos/ 



quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Fernando Pessoa e a ideia de um Quinto Império



Entrevista com Richard Zenith, autor da fotobiografia de Pessoa



 http://ensina.rtp.pt/artigo/fernando-pessoa-e-a-ideia-de-um-quinto-imperio/




A relação de Fernando Pessoa com a República e o Estado Novo. Richard Zenith, escritor e tradutor de Pessoa, põe ênfase no relacionamento do poeta com a política e a ideia de um Quinto Império, comandado pela cultura.



sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Entrevistas | Maria Teresa Horta









A poesia é para ela uma urgência. Feminista, insubmissa e uma das poucas poetisas portuguesas a afirmar o desejo na sua escrita, Maria Teresa Horta sempre lutou pela liberdade. É autora de obras polémicas, como “Ambas as Mãos sobre o Corpo”, “Novas Cartas Portuguesas” e “Novas Cartas Portuguesas” (esta última assinada com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, conhecidas como “As Três Marias”), que escandalizaram o Portugal puritano e valeram à escritora um espancamento na rua e a quase prisão. 

Diversas vezes premiada, publica agora “Quotidiano Instável”, que reúne as crónicas que escreveu no jornal “A Capital” entre 1968 e 1972. Um quase romance, que descola da realidade para contar vida(s). E aqui nos conta em podcast algumas páginas do livro que a sua vida daria…





quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Palavras de autor: Mia Couto



Mia Couto: “Pobre é quem perdeu a capacidade de se contar a si próprio”



20.11.2019


O Universo Num Grão de Areia é um livro que pensa o mundo, África ou as muitas ‘Áfricas’ que cabem nela. A literatura, ou o papel que esta pode ter na ordem da nossa vida. O escritor moçambicano Mia Couto reflete e evoca as histórias que lhe dão corpo e as personagens que vivem dentro do escritor que é, como é o caso de Fernando Pessoa, “terapeuta da sua adolescência”, ou de Tchaíssa Nguezi, caçador cego que só podia ver quando caçava. Neste Palavra de Autor, à conversa com Cristina Margato, o escritor lê passagens da obra que antecede o lançamento de um novo romance no próximo ano, e também fala da sua infância, na Beira, “água Natal”, destruída pelo ciclone Idai, ou da inexistência de uma linha de separação entre ficção e realidade









O último livro de Mia Couto não é um romance. Mas um conjunto de ensaios: O Universo Num Grão de Areia, editado pela Caminho, reúne uma série de textos, escritos para serem ditos/lidos em “intervenções cívicas” realizadas nos últimos dez anos; e antecede um romance a lançar no próximo ano, no qual o escritor moçambicano regressa ao território da infância, a cidade da Beira: “não apenas um lugar”, mas também “um parente que me trouxe ao colo e me contou histórias”.
É, aliás, com essa viagem à Beira que o livro começa, relatando a visita de Mia Couto à cidade, logo após a passagem do ciclone Idai, em março de 2019, e o luto carregado com que o escritor parte de Maputo.
Nestes textos, Mia Couto tanto aborda a política como a biografia, a política como biologia; tanto fala do medo como da indignação. Sendo que ora identifica o medo como um assunto pessoal, de combate interior, como enquanto arma política: “Há quem tenha medo que o medo acabe.”
Mia Couto nasceu em Moçambique, em 1955. Tem mais de uma vintena de livro publicados, nos géneros de ficção, crónica, poesia e ensaio. Foi Prémio Camões em 2013, e recebeu aquele que é considerado o “Nobel americano”, o prémio Neustadt, em 2014. Além de escritor é biólogo. Também já foi jornalista.
Cristina Margato. Palavras de autor #29. Expresso, 20 de novembro de 2019

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Palavras de autor: José Luís Peixoto




José Luís Peixoto: “Não venho aqui afirmar que sou o futuro Saramago”


Morreste-me, o primeiro livro de José Luís Peixoto, era sobre o pai. O último, Autobiografia, é sobre outro tipo de filiação: a literária. José Saramago é uma das principais personagens da última obra do escritor nascido em Galveias, Alentejo, em 1974. E cruza-se com uma outra, um jovem escritor atormentado pelos vícios. A dado momento quase se transformam na mesma pessoa. O último romance de Peixoto, que no próximo ano comemora 20 anos de caminho, mistura ficção e realidade e explora diferentes formas literárias. Neste Palavra de Autor, o escritor conversa com Cristina Margato, e lê passagens de Autobiografia, nomeadamente aquela em que no anúncio da atribuição do Nobel a Saramago se transforma numa chuva de sapos, ao jeito do cinema de Paul Thomas Anderson, no bíblico Magnólia. Peixoto assegura ainda que o Nobel não é a sua ambição, mas tem outras como a de que lhe roubem os seus livros.






A um jovem escritor é encomendada uma biografia de José Saramago, escritor consagrado. O jovem chama-se José, como José Luís Peixoto, ou como o único Nobel da Literatura português. As duas figuras principais, assim como algumas das personagens secundárias – como é o caso da mulher de Saramago, Pilar Del Río — não são decalques fiéis das pessoas reais, mas vivem coladas à realidade delas, ou constroem-se a partir de algumas particularidades fáceis de identificar.

José, o aprendiz de escritor, não é Peixoto, mesmo que nele existam alguns traços; e, José Saramago é Saramago, mesmo que as suas acções sejam ficcionadas.
Autobiografia, edição Quetzal, o último livro de José Luís Peixoto, é também um livro bem diferente daqueles que ele escreveu até hoje. O escritor, galardoado com o Prémio José Saramago, em 2001, mistura géneros literários, e em determinados momentos deixa-se contaminar pela escrita do Nobel e desenvolve alguns dos temas 'saramaguianos'. Peixoto, preenche vazios, provavelmente, porque, como diz quase no fim do livro, “a literatura é feita de espaços vazios a serem preenchidos por quem os interpreta.”
José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias. No próximo ano, terão passado 20 anos sobre Morreste-me, obra publicada pelo próprio autor, e o com a qual se tornou notado pela crítica. Tem livros traduzidos em mais de 30 países nas áreas de ficção, poesia, viagem e infanto-juvenil.
Cristina Margato, Expresso, Palavra de autor #28, 9 de outubro de 2019


📌Morreste-me está disponível na Biblioteca para consulta (presencial e domiciliária)



quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa





 http://ensina.rtp.pt/artigo/ricardo-reis-heteronimo-de-fernando-pessoa/




Num dia do ano de 1914 veio à alma do poeta a vontade de escrever «uns poemas de índole pagã». Ficou-lhe na memória «um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo». Sem o saber ainda, Fernando Pessoa acabara de criar outro heterónimo: Ricardo Reis.

Os mais importantes heterónimos de Fernando Pessoa têm data de nascimento. E uma história, breve que seja, um fio explicativo da forma poética que todos e cada um fixam na sua singularidade. Ricardo Reis é diferente de Álvaro de Campos, de Bernardo Soares e do mestre Alberto Caeiro, com quem desenvolve uma relação discipular.

Este outro eu pessoano, também marcado pelo exílio, é o heterónimo «mais racional de todos», afirma Dionísio Vila Maior na entrevista que reproduzimos.

Consciente do nada depois da morte, Reis cultiva a disciplina das emoções, «opta por um epicurismo e um estoicismo lúcidos». Dos estudos num colégio de Jesuítas ficaram-lhe os valores da antiguidade clássica, latinista e semi-helenista, que desenvolve na poesia.

Médico, pagão, monárquico convicto, «expatriado voluntariamente» no Brasil, Ricardo Reis, que usava a cara rapada e era natural do Porto desde 1887, escreve: «Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, E deseja o destino que deseja, Nem cumpre o que deseja, Nem deseja o que cumpre».

Ficará o seu retrato mais completo se seguirmos a conversa entre Raquel Santos e Dionísio Vila Maior, professor da Universidade Aberta




segunda-feira, 19 de agosto de 2019

À conversa com José Luís Peixoto




Durante a FLIP - Festa Literária Internacional do Paraty, Brasil, que decorreu de 10  a 14 de julho de 2019, o escritor José Luís Peixoto teve uma conversa com Mell Ferraz e Pedro Pacífico dos canais de livros Literature-se e Book.Ster, que aqui é reproduzida em duas partes. 




   


  

IN-Q | Acredito mesmo na poesia




José Mário Silva
36 Minutos com | E-Revista Expresso




IN-Q : “Acredito mesmo na poesia. Sinto-a até aos ossos."



Adam Schmalholz. Daniel Jonhson





Campeão norte-americano de slam poetry, tornou-se um fenómeno na internet, com poemas seus a alcançarem milhões de partilhas. [...] defende que a poesia dita pode conquistar um espaço na cultura de massas.



C
aliforniano de 40 anos, Adam Schmalholz é mais conhecido pelo nome artístico: In-Q, abreviatura de “In Question”. Isto porque os seus poemas, filiados na corrente da spoken word (poesia dita em voz alta, com um certo ritmo), procuram “questionar tudo” — a vida, o amor, a política, a “procura da felicidade”. O YouTube levou-o a públicos cada vez mais vastos e a uma presença crescente no espaço mediático. Já atuou para Hillary Clinton e Barack Obama, faz parte de uma lista de pessoas criativas escolhidas por Oprah Winfrey, e foi o primeiro poeta a atuar num espetáculo do Cirque du Soleil. Participou no encontro ‘O Trabalho Dá que Pensar’, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, entre os dias 14 e 16 de setembro de 2018, no Jardim Botânico Tropical, em Belém.



Como é que descobriu a poesia enquanto meio de expressão?
Comecei por fazer rap, quando andava no liceu. Estava fascinado por aquela forma de arte, usava-a para meditar sobre os meus assuntos e problemas. Sempre adorei as palavras. Gosto de trabalhar o ritmo, a forma de as dizer. Isso tornou-se quase uma obsessão para mim. E então, aos 19 anos, descobri em Los Angeles um lugar que tinha um open mic, chamado Da Poetry Lounge. Integrei-me naquela comunidade, comecei a fazer rap sem música (rap a capella), e o meu percurso ganhou vida própria a partir daí. Acabei por me tornar campeão nacional de Slam Poetry, participar num programa da HBO, entrar no mundo da escrita de canções, e prosseguir uma carreira como poeta.
De que forma é que os factos da sua vida pessoal, como o ter sido criado por uma mãe solteira, influenciaram a sua escrita?
Para mim, a arte tem tudo que ver com alquimia. Todas as experiências dolorosas que vivi durante o meu processo de crescimento foram canalizadas para a minha escrita e acho que transformei muita da escuridão em luz. O que é belo na arte é que as outras pessoas olhem para o que fazemos como um espelho, e consigam relacionar o que veem ou ouvem com as suas próprias vidas. E assim pode haver uma espécie de cura, para uns como para outros.
Esse processo ajudou-o a encontrar o seu lugar no mundo?
Absolutamente. E ainda ajuda. Não se trata de não ter problemas, mas sim da forma como lidamos com eles. Cabe-nos tentar que o mundo seja um lugar melhor para os outros e para nós mesmos.
Nestes tempos difíceis que vivemos, qual pode ser a importância da poesia?
Pode ser importante se conseguirmos contar histórias de forma honesta, histórias com as quais as outras pessoas possam empatizar, sentindo-se inspiradas por elas. Acho que a empatia é aquilo de que mais necessitamos. Porque no fundo todos queremos as mesmas coisas: amor, felicidade, segurança, a possibilidade de seguirmos os nossos sonhos, liberdade. Para mim, é muito importante colocar estas mensagens na minha poesia. E tentar que as pessoas se sintam menos sós.
Um poema pode mudar a vida de alguém?
Sem dúvida nenhuma. Espero sempre que uma pessoa, ao sentir-se tocada por um poema, consiga fazer verdadeiras mudanças na sua vida, no sentido de criar uma melhor realidade para si mesma e para os outros.
Como é ser poeta na América de Donald Trump?
Primeiro que tudo, não é a América de Trump. Recuso essa ideia. Acho que vivemos tempos muito complexos, em que a verdade está continuamente a ser posta em causa. E por isso é preciso que as pessoas gritem as suas verdades tão alto quanto possam. E em todos os lugares. Eu estou só a tentar juntar a minha voz ao coro de vozes que tentam defender a verdade. Acho que há também uma intenção de dividir os americanos. E a arte, pelo contrário, deve juntar as pessoas.
Tem escrito sobre a importância do amor nas nossas vidas, mas também sobre as alterações climáticas e os problemas relacionados com as armas de fogo. Como é que escolhe os temas dos seus poemas?
Seria poético dizer que me surgem por acaso. Mas na verdade depende. Por vezes, há um tema que me apaixona e sobre o qual quero muito escrever, e então procuro o ângulo certo que me permita começar o poema. Se começar o poema com algo que é verdadeiro e honesto, o resto do poema escreve-se por si mesmo, basta esperar. Outras vezes escolho o assunto e encontro o ângulo e espero o tempo suficiente, mas entretanto ando pelo mundo e presto atenção ao que se passa à minha volta, e alguma coisa comove-me e faz-me ver tudo de outra maneira. Tento estar atento a esses momentos. Gosto muito dessa imprevisibilidade.
Quando é que sabe que o poema está terminado?
Acho que li algures uma pergunta semelhante: quando é que sabes que acabaste de fazer amor? Sabes quando sabes. E, para ser honesto, o poema nunca está terminado. Pode sempre mudar. Porque a tua vida e as tuas experiências também mudam, a tua perspetiva altera-se. Quando volto a poemas que escrevi há dez anos, troco palavras e reescrevo alguns versos.
Há muitos artistas de spoken word que não têm o seu sucesso. O que é que o In-Q tem que eles não têm?
Honestamente, não posso responder a isso. Todos estamos nas nossas próprias jornadas. E acho que muitos dos poetas que estão a trabalhar agora vão acabar por ter, e aproveitar, as suas oportunidades. Não me interessa o meu sucesso. Interessa-me o sucesso da poesia como género, porque acredito nela. Espero ansiosamente que chegue cada vez a mais gente, no campo da cultura popular.
Curiosamente, nunca publicou um livro. Porquê? Considera-se um poeta estritamente oral?
É engraçado que me pergunte isso, porque estou neste preciso momento a preparar um livro, que será lançado em 2019. Só não aconteceu antes porque a oportunidade nunca surgiu. Agora é o momento certo.

“O POEMA NUNCA ESTÁ TERMINADO. PODE SEMPRE MUDAR. PORQUE A TUA VIDA E AS TUAS EXPERIÊNCIAS TAMBÉM MUDAM, A TUA PERSPETIVA ALTERA-SE”

Uma das atividades remuneradas a que se dedica consiste em fazer discursos e workshops para grandes empresas, como Google, Facebook, Nike ou IBM. Isso não compromete a liberdade do poeta para questionar tudo?
Eu tento fazer aparições que sejam divertidas, inspiradoras e desafiantes. E faço-o em frente a um microfone numa sala pequena, entre amigos, como num teatro com 1500 pessoas, a convite de uma grande empresa. Incluo sempre material que leve o público a pensar na realidade como um todo. Contratam-me, mas não põem limites ao que posso ou não posso dizer. Eu decido sempre o que faço. Nunca comprometo os meus princípios. E se houver um trabalho que ponha em causa a minha integridade, recuso-o.
Até onde acha que pode chegar?
O céu é o limite. As possibilidades são infinitas. Eu acredito mesmo na poesia. Sinto-a até aos ossos. E acho que pode tornar-se um género tão importante como a comédia ou a música. Não há limites para o que um poeta pode ser na cultura popular. Houve poetas espantosos, como Maya Angelou ou Leonard Cohen, que tiveram sucesso já tarde nas suas vidas. Não vejo porque não poderemos ter um poeta superstar com 60 e tal anos.
Em Portugal, vai participar numa sessão sobre a “Corrida entre o Homem e as Máquinas”. A sua intervenção assumirá a forma de um poema?
Sim, mas não só. Haverá poemas, interação com o público, contarei histórias, farei perguntas, e espero que toda a gente acabe a sessão sentindo-se inspirado. O tema que vou tratar sempre me interessou. À medida que a tecnologia avança, os empregos tenderão a desaparecer. E onde é que isso nos deixa, como povos e países, como Humanidade? O que acontecerá quando esses empregos se extinguirem?
Talvez possamos tornar-nos todos poetas.
Sim. Exatamente. [Risos] Sabe que mais: essa devia ser a minha tese. Quando o trabalho acabar, vamos todos ser poetas.
Expresso, 8 de setembro de 2018