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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Olimpíadas da Cultura Clássica | Tétis e Peleu: destino, metamorfose e desejo

 

  #alermaisemelhor #OlimpíadasDaCulturaClássica #ClássicosEmRede #mitologia #RedeDeBibliotecasEscolares 

 

 

 

 



Neste vídeo, o Gustavo Campos e a Mafalda Alves, alunos de Grego do 12º E, dão nova vida ao mito de Tétis e Peleu através de uma combinação expressiva de animação e narrativa em verso. A partir de uma linguagem visual cuidada e de uma escrita rítmica que evoca a tradição épica, os alunos recriam o encontro entre a deusa marinha e o herói mortal, explorando os contrastes entre destino, metamorfose e desejo.

O resultado é uma interpretação criativa e sensível, que alia rigor mitológico a uma estética contemporânea, revelando a capacidade dos estudantes para transformar narrativas antigas em experiências artísticas envolventes.

Convidamos à visualização deste trabalho, onde a poesia e a imagem se entrelaçam para recontar um dos episódios mais fascinantes da mitologia grega.


sexta-feira, 27 de março de 2026

Olimpíadas da Cultura Clássica | Hebe

 

#alermaisemelhor #OlimpíadasDaCulturaClássica #ClássicosEmRede #mitologia #RedeDeBibliotecasEscolares 

 

 

 

 

Livro digital A vida de Hebe apresentado ao concurso Olimpíadas da Cultura Clássica - Clássicos em Rede 2026. Produzido por Inês Bicá, Jaiane Silva, Matilde Prior e Margarida Santos, alunas do 12º E.

Mito: Hebe.

Escalão C: Ensino Secundário 

 

👉Sobre Hebe, a deusa da eterna juventude

 Na mitologia grega, Hebe é a deusa da juventude, filha de Zeus e Hera. Era a mais jovem dos deuses e responsável por mantê-los eternamente jovens. Várias eram as funções que desempenhava no Olimpo: preparava o banho de Ares, ajudava Hera a atrelar o seu carro e servia néctar e ambrosia aos deuses.

 

Hebe, por Jacques Louis Dubois (Séc. XIX)
 

terça-feira, 17 de março de 2026

Clássicos em Rede - Submissão de trabalhos

 

 #ClássicosEmRede  #OlimpíadasDaCulturaClássica  #concursos  

 

 


 


A Escola Camilo Castelo Branco vai participar, mais uma vez, nas Olimpíadas da Cultura Clássica, concurso que tem por objetivo estimular a curiosidade dos alunos e alargar os seus conhecimentos sobre temas de Cultura Clássica, através de desafios que apelam à escrita, à expressão artística e ao domínio de ferramentas digitais.

Os trabalhos das categorias 1 e 2 (recusos digitais e vídeos) vão ser publicados nos canais digitais da Biblioteca, para ser facultada a respetiva hiperligação, aquando da submissão do formulário . 
 

terça-feira, 22 de abril de 2025

Mitologia | Aurora e Títono







 
A deusa da Aurora, como sua irmã, a Lua, às vezes era presa de amor pelos mortais. O seu maior favorito foi Titono, filho de Laomenonte, rei de Tróia. Raptou-o e conseguiu que Júpiter lhe concedesse a imortalidade. Tendo-se, porém, esquecido de acrescentar a juventude à graça concedida, começou a notar, depois de algum tempo, muito pesarosa, que seu amante estava a ficar velho. 
 
Quando os cabelos de Titono se tornaram inteiramente brancos, a deusa abandonou-o; ele, contudo, continuou a morar no seu palácio, a alimentar-se de ambrosia e a envergar trajos celestiais. Acabou por perder o movimento das pernas e dos braços, e Aurora trancou-o nos seus aposentos, onde a sua voz muito fraca podia, às vezes, ser ouvida. Finalmente, transformou-o num gafanhoto. 
 
Mêmnon, filho de Aurora e Titono, era rei da Etiópia e vivia no Extremo Oriente, no litoral do Oceano. Mêmnon foi, com os seus guerreiros, ajudar os parentes do seu pai, na Guerra de Tróia. O rei Príamo recebeu-o com grandes honrarias e escutou, com admiração, a narrativa das maravilhas da costa do Oceano. 
 
Desde o dia seguinte ao de sua chegada, Mêmnon, muito impaciente para lutar, levou as suas tropas ao campo de batalha. Antíloquo, o bravo filho de Nestor, caiu morto por ele, e os gregos foram postos em fuga, até que Aquiles apareceu e restabeleceu a ordem nas suas fileiras. Travou-se uma luta prolongada e de resultado duvidoso, entre ele e o filho de Aurora. Finalmente, a vitória pendeu para Aquiles, Mêmnon caiu e os troianos fugiram desanimados. 
 
Aurora que de seu lugar no céu olhava com apreensão os perigos que o filho corria, quando o viu cair mandou os seus irmãos, os Ventos, transportarem o seu corpo para as margens do Rio Esepo, na Paflagónia. À noite, Aurora, na companhia das Horas e das Plêiades, foi chorar o filho. A Noite, compadecendo-se dela, cobriu o céu de nuvens; toda a natureza chorou o filho de Aurora. Os etíopes ergueram o seu túmulo à margem do rio, no bosque das Ninfas, e Júpiter permitiu que as fagulhas e cinzas da sua pira funerária se transformassem em aves, que se dividiram em dois bandos, sobrevoando a fogueira até caírem nas chamas. 
 
Todos os anos, no aniversário da morte de Mêmnon, elas voltam, celebrando os funerais da mesma maneira. 
 
Aurora ficou inconsolável com a perda do filho. Até hoje, continua a derramar lágrimas, que podem ser vistas pela manhã bem cedo, sob a forma de gotas de água espalhadas na vegetação. 
 
Ao contrário da maior parte das maravilhas da mitologia, ainda existem monumentos comemorativos desses fatos. Nas margens do Nilo, no Egito, há duas estátuas colossais, uma das quais, segundo se diz, é de Mêmnon. Escritores antigos afirmavam que, quando o primeiro raio do sol nascente caía sobre a estátua, ouvia-se, partindo dela, um som comparável ao acorde das cordas de uma harpa. 
 
Há algumas dúvidas quanto à identificação da estátua hoje existente com aquela a que se referiam os antigos, e os sons misteriosos são ainda mais duvidosos. Não faltam, contudo, alguns testemunhos modernos de que esses sons ainda são ouvidos. Aventou-se a hipótese de que o ruído é provocado pelo ar retido nas fendas ou cavernas das rochas. 
 
Thomas Bulfinch. O livro de ouro da mitologia. Rio de Janeiro: Edidouro Publicações, 2002, pp. 249-250
 

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Mitologia | Ceíce e Alcíone

 





Ceice era rei da Tessália, onde reinava em paz, sem cometer violência ou injustiça. Era filho de Vésper, a Estrela-d'Alva, e o esplendor de sua beleza lembrava a do pai. Alcíone, filha de Éolo, era sua esposa, amante e dedicada. Ora, Ceice sentia-se profundamente aflito pela morte do irmão, e os horríveis prodígios que se seguiram a essa morte davam-lhe a impressão de que os deuses lhe eram hostis. Resolveu, portanto, fazer uma viagem a Carlos, na Jónia, a fim de consultar o oráculo de Apolo. Porém, logo que revelou a sua intenção à esposa, Alcíone, esta estremeceu e tornou-se mortalmente pálida. 

— Que culpa minha, querido marido, afastou de mim o teu afeto? — perguntou ela.

— Onde está aquele amor que dominava todos os nossos pensamentos? Aprendeste a sentires-te bem, longe de Alcíone? Preferias que eu me afastasse de ti? 

Também tentou desanimá-lo, descrevendo a violência dos ventos, que conhecera muito bem, quando vivia em casa de seu pai, pois Éolo é o rei dos ventos, e fez todo o possível para dissuadi-lo. 

— Eles correm juntos — disse — com tanta fúria que o fogo irrompe do conflito. Mas se vais, querido marido, deixa-me ir contigo, de outro modo sofrerei não apenas os males verdadeiros que encontrares como também aqueles que meu temor sugerir. 

Estas palavras afetaram profundamente o espírito do Rei Ceice, que não desejava menos que a esposa, levá-la consigo, mas não podia expô-la aos perigos do mar. Respondeu, portanto, consolando-a como podia, e terminou com estas palavras: 
 
— Prometo pelos raios de meu pai, a Estrela-d'Alva, que, se o destino permitir, voltarei antes de a Lua ter girado duas vezes sobre a sua órbita. 
 
Tendo assim falado, ordenou que o navio fosse tirado do estaleiro e os remos e velas colocados a bordo. Ao ver esses preparativos, Alcíone tremeu, como se tivesse pressentimento do mal. Com lágrimas e soluços, disse adeus ao marido e caiu sem sentidos no solo. Ceice, por seu gosto, teria retardado a partida, mas os jovens marinheiros tinham tomado os remos e avançavam vigorosamente entre as ondas, com pancadas longas e cadenciadas. Alcíone ergueu os olhos lacrimosos e viu o marido de pé no convés, acenando-lhe. Respondeu ao aceno, até que o navio se afastou tanto que ela já não podia distinguir o vulto de Ceice dos demais. Quando o próprio navio já não pôde ser visto, a jovem rainha aplicou os olhos para avistar as velas num último relance até que estas também desapareceram. Retirou-se, então, para o seu quarto e lançou-se ao leito solitário. 

Enquanto isso, os navegantes saíam do porto e a brisa brincava no cordame. Os marinheiros manejavam os remos e alçaram as velas. Quando mais ou menos metade do trajeto fora feito, o mar começou a embranquecer com ondas e o vento leste a soprar como um furacão. O mestre ordenou que se recolhessem as velas, mas a tempestade impediu que a ordem fosse cumprida, pois os gritos de comando não eram ouvidos entre o ruído dos ventos e das ondas. Os marinheiros, espontaneamente, tratavam de recolher os remos e rizar as velas. Enquanto assim fazem o que a cada um parece o melhor, a tempestade aumenta. Os gritos dos homens, o rangido das enxárcias e o batido das vagas misturam-se com o estrondo do trovão. O mar furioso parece levantar-se até ao céu, para espalhar entre as nuvens a sua espuma, depois, baixando até o fundo, tomar a cor do carvão: um negrume do Estige. 
 
O navio acompanha todas essas mudanças. Parece um animal selvagem que corre sob as lanças dos caçadores. A chuva cai em torrentes, como se o céu estivesse a cair para se unir com o mar. Quando os raios cessam, por um momento, a noite parece juntar a sua própria escuridão à da tempestade; em seguida vem o relâmpago, afastando as trevas e tudo iluminando com seu clarão. A habilidade falha, a coragem desaparece e a morte parece vir em cada vaga. Os homens ficam estupidificados de terror. Vêm-lhes à lembrança os pais e filhos, os parentes deixados em casa. Ceice pensa em Alcíone. Apenas o seu nome está em seus lábios e, ao mesmo tempo que anseia por vê-la, regozija-se com a sua ausência. De súbito, o mastro é despedaçado por um raio, o leme quebra-se e a onda triunfante varre o tombadilho e sai em seguida, levando os destroços. Alguns dos marinheiros, petrificados pelo choque, afundam-se na água e não mais se erguem; outros agarram-se aos restos do naufrágio. Ceice, com a mão que costumava segurar o cetro, agarra-se a uma tábua, gritando por socorro — em vão, por desgraça — ao seu pai e ao seu sogro. O nome de Alcíone, porém, era o que mais vezes vinha aos seus lábios. Para ela voltam-se os seus pensamentos. Pede que as ondas possam levar seu corpo até Alcíone e que seus funerais por ela sejam feitos. Finalmente, as águas cobriram-no e ele afunda-se. A Estrela-d'Alva mostrou-se sombria naquela noite. Como não podia deixar o céu, escondeu nas nuvens a face.

Enquanto isso, Alcíone, ignorando todos esses horrores, conta os dias para o prometido regresso do marido. Ora prepara as vestes que ele envergará, ora as que ela própria usará quando ele regressar. Oferece, frequentemente, incenso a todos os deuses, porém mais do que todos a Juno. Reza, incessantemente, pelo marido que já não vive: que ele esteja salvo; que regresse ao lar; que não veja, em sua ausência, outra mulher que possa amar mais que a ela própria. De todas essas súplicas, porém, a última era a única destinada a ser atendida. A deusa, afinal, não mais suportando ouvir preces por alguém que era morto e ver estendidos em seus altares os braços que deveriam erguer-se nos ritos funerários, chamou Íris, ordenando: 
 
— Íris, minha fiel mensageira, vai à casa letárgica do Sono e dize-lhe para enviar uma visão a Alcíone, sob a forma de Ceice, a fim de que ela saiba o que aconteceu.
 
Íris envergou suas vestes de muitas cores e tingindo o espaço com o seu arco, procurou o palácio do Rei do Sono. Perto da região cimeriana, numa caverna da montanha, fica a morada daquele deus sonolento. Ali Febo não ousa entrar, nem ao levantar-se, nem ao meio-dia, nem quando se recolhe. Nuvens e sombras erguem-se do chão e a luz brilha fracamente. 
 
A ave da alvorada, de vermelha crista, jamais ali chama, em voz alta, Aurora, nem o vigilante cão ou o solerte ganso perturbam o silêncio. Nem animal selvagem, nem o gado, nem um ramo movido pelo vento, nem o ruído da conversa humana afetam a quietude. O silêncio ali reina; do fundo do rochedo, contudo, corre o Rio Letes, e seu murmúrio convida ao sono. 
 
Junto à entrada da caverna, crescem abundantemente papoulas e outras plantas, de cujo suco a Noite extrai o sono, que espalha sobre a terra escurecida. Não há na mansão porta que gema nos gonzos, nem qualquer vigia; mas, no centro, um leito de negro ébano, adornado com plumas e cortinas negras. Ali o deus se recosta, com os membros relaxados pelo sono. Em torno dele, estão os sonhos, apresentando todos várias formas, tantas quantas hastes têm os trigais, quantas folhas tem a floresta, ou quantos grãos de areia têm as praias. Logo que a deusa entrou e afastou os sonhos que se reuniam em torno dela, o seu clarão iluminou a caverna. O deus, mal abrindo os olhos, e de vez em quando cabeceando e fazendo cair a comprida barba sobre o peito, afinal despertou e estendendo o braço indagou a que vinha Íris, pois conhecia-a.

— Sono — disse ela —, tu o mais gentil dos deuses, que tranquilizas os espíritos e curas os corações amargurados, Juno ordena-te que envies um sonho a Alcíone, na cidade de Traquine, representando seu finado marido e todos os acontecimentos do naufrágio. 
 
Tendo transmitido o recado, Íris apressou-se em sair, pois não podia tolerar o ar estagnado, e, sentindo a sonolência que a tomava, voltou, através de seu arco, ao caminho que trilhara antes. Então, Sono chamou um de seus inúmeros filhos, Morfeu, o mais hábil em simular formas e em imitar o andar, a fisionomia e a maneira de falar, mesmo os vestuários e os modos mais característicos de cada um. Ele, porém, apenas imitava os homens, deixando ao encargo de outro imitar aves, quadrúpedes e serpentes. Este era chamado Icelo; e um terceiro, Fantasos, muda -se em rochedos, águas, bosques e outras coisas sem vida. Os dois servem a reis e grandes personagens, em suas horas de sono, ao passo que outros se movem entre a gente comum. De todos os irmãos, Sono escolheu Morfeu para executar a ordem de Íris. Depois, encostou a cabeça no travesseiro e entregou-se ao grato repouso.
 
Morfeu voou, sem fazer o menor ruído com as asas, e logo chegou à cidade hemoniana, onde, deixando de lado as asas, assumiu a forma de Ceix. Sob esse aspecto, mas pálido como um defunto, e nu, colocou-se em frente ao leito da desventurada esposa. Sua barba parecia encharcada e a água lhe escorria pelos cabelos. Debruçando-se sobre o leito, com lágrimas descendo dos olhos, disse: 
 
— Reconheces Ceice, desventurada esposa, ou a morte modificou em demasia as minhas feições? Olha-me, vê-me, a sombra de teu marido, e não ele próprio. Tuas preces, Alcíone, de nada me valeram. Estou morto. Não te iludas mais com vãs esperanças de meu regresso. Os ventos tempestuosos afundaram o meu navio no Mar Egeu, a água penetrou em minha boca enquanto eu dizia, em voz alta, o teu nome. Não é um mensageiro incerto que te conta isto, não é um vago rumor que chega aos teus ouvidos. Venho em pessoa, eu um náufrago, contar-te meu destino. Levanta-te! Dá-me lágrimas, dá-me lamentos, não me deixes descer ao Tártaro sem ser chorado. 
 
A estas palavras Morfeu ajuntou a voz que parecia ser a do marido de Alcíone; vertia lágrimas iguais às de verdade, e suas mãos copiavam os gestos de Ceice. Alcíone, chorando, gemeu e estendeu os braços, ainda dormindo, procurando abraçar o corpo, mas encontrando apenas o ar. 
 
— Fica! — exclamou. Por que foges? Partamos os dois juntos!

A sua própria voz despertou-a. Assustada, olhou em torno, para ver se o marido ainda estava presente, pois os criados, alarmados pelos seus gritos, haviam acorrido, trazendo uma luz. Não encontrando o marido, Alcíone esmurrou o peito e rasgou as vestes. Não se preocupou em desatar os cabelos, mas arrancou-os, selvaticamente. A sua ama indaga qual a causa de seu sofrimento. 
 
— Alcíone já não existe — responde. — Pereceu com seu Ceice. Não digas palavras de consolo, ele naufragou e está morto. Eu o vi, reconheci-o. Estendi os braços para retê-lo. Sua sombra esvaneceu-se, mas era a verdadeira sombra de meu marido. Não com as feições costumeiras, não com a sua beleza, mas pálido, nu e os cabelos molhados pela água do mar, para fazer-me sofrer. Aqui, neste mesmo lugar, esteve a triste visão. — E Alcíone olhou, procurando as suas pegadas. — Era isto, era isto que meu espírito previa, quando lhe implorei que não me deixasse, que não se confiasse às águas. Oh, quanto desejaria, uma vez que foste, que me tivesses levado contigo! Quanto melhor teria sido! Não teria, então, um resto de vida para passar sem ti, nem de morrer uma morte separada. Se eu pudesse suportar a vida e lutar para a tolerar, seria mais cruel para comigo mesma do que o mar tem sido. Mas não lutarei, não me separarei de ti, desventurado marido. Desta vez, pelo menos, far-te-ei companhia. Na morte, se um só túmulo não pode conter-nos, um só epitáfio conterá; se não posso misturar as minhas cinzas com as tuas, o meu nome, pelo menos, não será separado do teu. 
 
O sofrimento impediu-a de dizer outras palavras, e as que dizia foram interrompidas por lágrimas e soluços. 
 
Já era manhã. Alcíone dirigiu-se à praia e procurou o lugar onde vira o marido pela última vez, por ocasião da sua partida. 
 
— Enquanto ajustava os apetrechos do navio, ele deu-me aqui o último beijo.
 
Revendo cada objeto, ela esforça-se para relembrar todos os incidentes, contemplando o mar, e avista, então, um objeto indistinto, flutuando na água. A princípio, duvidou do que fosse, mas, pouco a pouco, as águas foram-no trazendo mais para perto, e não havia dúvida de que era o corpo de um homem. Embora sem saber de quem se tratava, como era o corpo de um náufrago, Alcíone ficou profundamente comovida e derramou lágrimas copiosas, exclamando: 
 
— Ah, desventurado e desventurada esposa, se tens esposa!

Empurrado pelas águas, o corpo aproximou-se. E, ao vê-lo aproximar-se, Alcíone tremia cada vez mais. Agora, aproxima-se mais da praia. Aparecem, agora, sinais que ela reconhece. E o marido... Estendendo para o corpo os trémulos braços, ela exclama: 
 
— Oh, adorado marido, é assim que voltas para junto de mim? Partindo da praia, fora construído um molhe, destinado a conter a fúria do mar. 
 
Alcíone salta sobre esta barreira e (coisa maravilhosa que o pudesse fazer) voa e, cortando o ar com asas que tinham surgido naquele instante, aflorou a superfície da água, transformada numa ave desventurada. Enquanto voava, saíam-lhe da garganta sons dolorosos, semelhantes à voz de alguém que se lamenta. Ao tocar o corpo mudo e sem sangue com as asas recém-formadas, tentou beijá-lo, com o seu bico ósseo. Se Ceice sentira o contacto, ou se foi simplesmente ação das ondas, aqueles que contemplavam a cena não souberam dizer, mas o cadáver pareceu levantar a cabeça. Na verdade, porém, ele sentiu e, pela benevolência dos deuses ambos os esposos foram transformados em aves. Acasalaram-se e reproduziram-se. Durante sete plácidos dias, no inverno, Alcíone choca os ovos no ninho, que flutua no mar. Então, as rotas são seguras para os marinheiros. Éolo impede que os ventos sacudam as profundezas das águas. O mar fica entregue, durante esse tempo, aos seus netos. 
 
Thomas Bulfinch. O livro de ouro da mitologia. Rio de Janeiro: Edidouro Publicações, 2002, pp. 86-93

terça-feira, 16 de abril de 2024

Céfalo e Prócris

 


 

 

 

 

Vídeo produzido na disciplina de Latim, por alunos do 10º I da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real, no âmbito da participação no Concurso Clássicos em Rede - Olimpíadas da Cultura Clássica 2023-2024, na modalidade Desafio Artes/Multimedia, categoria vídeo / filme.

 

 

 


Saiba mais sobre o mito de Céfalo e Prócris.

 

 

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Festa de encerramento do Clássicos em Rede

 

 

 

Uma representação dos alunos da ES Camilo Castelo Branco premiados no concurso Clássicos em Rede 2023 deslocou-se a Lisboa, acompanhada da professora bibliotecária e da professora de Grego, no passado dia 15 de junho, para participar na Festa de Encerramento do projeto. 

Lembramos que a nossa escola participa neste concurso desde 2021, tendo visto sempre trabalhos dos nossos alunos premiados.



sexta-feira, 2 de junho de 2023

Mais uma vez, a nossa escola foi premiada nos Clássicos em Rede

 

 

 






 

 

 

 

 

 

 

Entre os mais de 2000 jovens concorrentes, foram premiados os/as seguintes aluno/as da nossa escola:

Aluna: Inês Saraiva Cabral

Distinção: Menção Honrosa

Modalidade: Desenho

Escalão: C (10º, 11º e 12º anos)



Aluna: Vitória de Carvalho Lopes

Distinção: Menção Honrosa

Modalidade: Desenho

Escalão: C (10º, 11º e 12º anos)



Aluna: Maria Ermida Esteves

Distinção: 1º Prémio

Modalidade: Escultura

Escalão: C (10º, 11º e 12º anos)



Prémio Turma

Alunos/as: 12º - J

Modalidade: Vídeo

Escalão: C (10º, 11º e 12º anos)

Como referido acima, além dos prémios individuais, o júri decidiu atribuir um prémio de turma (não previsto no regulamento) ao trabalho de vídeo do 12ºJ, pelo seu especial interesse e pela reflexão coletiva em torno do tema que ele evidencia. 

 

 

sexta-feira, 31 de março de 2023

Clássicos em Rede - Interpretação do mito de Sísifo pelos alunos de Grego

 

Alunos de Grego concorrem pelo segundo ano consecutivo ao concurso Clássicos em Rede - Olimpíadas da Cultura Clássica.


Este ano, o tema escolhido foi o mito de Sísifo.

A escadaria de acesso à Biblioteca serviu de cenário para a escalada de um Sísifo produzido integralmente pelos amadores de Slow motion.

O resultado é fantástico!



Partindo do mito, os alunos saíram para o exterior e, junto da comunidade, tentaram perceber a posição das pessoas sobre temas, ditos fraturantes: a pena de morte, a eutanásia e os crimes de pedofilia praticados por membros da igreja católica.





quarta-feira, 8 de junho de 2022

Clássicos em Rede - Festa final da edição

 

Realizou-se, hoje, dia 8 de junho, a partir das 14h30, a Festa Final da edição 2021-2022 das Olimpíadas da Cultura Clássica.

Estava previsto que esta celebração fosse em formato híbrido: presencialmente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Anfiteatro III) e com transmissão em streaming através do canal Youtube da RBE. Infelizmente, por razões técnicas da parte da organização, os alunos premiados da Camilo não puderam participar na sessão.

No minuto 54, são mencionados os nomes dos alunos premiados da nossa escola:

Ana Carolina Alves Varela
Prémio Desenho
no Desafio de Artes / multimédia
Escalão C (Secundário)

Carolina Monteiro Alves
Menção Honrosa
no Desafio de Artes / multimédia – Recursos Digitais
Escalão C (Secundário)

Rafael Pinto Baldaia
Prémio Instalação
no Desafio de Artes / multimédia
Escalão C (Secundário)

Cesária Miranda de Matos
Menção Honrosa
no Desafio de Artes / multimédia – Instalação
Escalão C (Secundário)

Fica o registo. Minuto 54.




Grécia, terra de luz

 














O belíssimo poster sobre a Grécia, terra de luz, produzido pela Carolina Monteiro Alves, do 12º I, na disciplina de Grego, vai passar a fazer parte do espólio da Bilioteca.

Lembramos que a Carolina recebeu recentemente uma Menção Honrosa no Desafio de Artes / Multimédia – Recursos Digitais, Escalão C (Ensino Secundário), atribuída pelo juri nacional do concurso Clássicos em Rede, tendo apresentado um poster sobre o mito de Antígona. 




terça-feira, 31 de maio de 2022

Clássicos em Rede 2021-2022 | Trabalhos premiados

 
















Comunicação da RBE: 

Temos o prazer de lhe comunicar que nas Olimpíadas da Cultura Clássica 2021-22, uma iniciativa que contou com a participação de mais de 3000 alunos de todo o país, o júri decidiu premiar o/as seguintes aluno/as da vossa escola:

Ana Carolina Alves Varela
Prémio Desenho
no Desafio de Artes / multimédia
Escalão C (10º, 11º e 12º anos)

Carolina Monteiro Alves
Menção Honrosa
no Desafio de Artes / multimédia – Recursos Digitais
Escalão C (10º, 11º e 12º anos)

Rafael Pinto Baldaia
Prémio Instalação
no Desafio de Artes / multimédia
Escalão C (10º, 11º e 12º anos)

Cesária Miranda de Matos
Menção Honrosa
no Desafio de Artes / multimédia – Instalação
Escalão C (10º, 11º e 12º anos)


No próximo dia 8 de junho, a partir das 14h30, vai ter lugar uma cerimónia dedicada aos alunos e professores que se envolveram nestas Olimpíadas. Além de divulgarmos o/as premiado/as nas várias categorias e escalões, teremos momentos de música e conversas com especialistas sobre a presença dos clássicos entre nós.

Este evento será em formato híbrido: presencialmente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (anfiteatro III) e com transmissão em streaming para todas as escolas.

[...]

As nossas felicitações pelo desempenho e criatividade dos vossos alunos, e pelo trabalho dos professores que os desafiaram e apoiaram a sua participação nesta iniciativa.

Assina:
Dra. Manuela Pargana Silva
Coordenadora da Rede de Bibliotecas Escolares


Parabéns a todos os alunos envolvidos neste projeto, bem como às professoras de Desenho e Latim que o coordenaram a nível de escola.




sexta-feira, 29 de abril de 2022

Clássicos em Rede | O mito de Antígona

 






«Antígona: Creonte não tem o direito de privar-me dos meus. (...) Ismena: Pensa, antes de mais nada, que somos mulheres, e que, como tais, não podemos lutar contra os homens; pensa também que estamos submetidas a pessoas mais poderosas do que nós, e que, portanto, nos é forçoso obedecer às suas ordens, por muito rigorosas que sejam.» – Sófocles, Antígona






















Para participar no Concurso Clássicos em Rede - Desafio Artes/Multimedia 2022, a Carolina Pádua Monteiro Alves, aluna de Grego do 12º I, produziu esta página de jornal / cartaz sobre o mito de Antígona, com recurso à ferramenta digital Canva.

Uma excelente fonte de informação sobre o mito e as múltiplas abordagens artísticas por ele suscitadas ao longo dos tempos!

Veja todos os pormenores deste recurso digital na Versão PDF.


quinta-feira, 28 de abril de 2022

O mito de Dédalo e Ícaro




Se o mito fosse transposto para os dias de hoje, poderia ser assim...


 



Trabalho produzido pelos alunos de Grego do 12º I, da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real, no âmbito da participação no Projeto Clássicos em Rede - Desafio Artes/Multimedia 2021-2022.

 

sábado, 23 de abril de 2022

O livro tem o poder das laranjas do Jardim das Hespérides

 

O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril, data escolhida com base na tradição catalã segundo a qual, neste dia, os cavaleiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de S. Jorge, e recebem em troca um livro, testemunho das aventuras do heroico cavaleiro. Neste dia, comemora-se também os Direitos de Autor.

Em 2022, a ilustradora Susa Monteiro − Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração em 2019 com o livro Sonho, editado pela Pato Lógico − concebeu a imagem do cartaz.





Uma lenda grega conta que as ninfas cultivavam laranjas nos Jardins das Hespérides, e aqueles que provassem os seus gomos de ouro tornavam-se imortais.

Também o livro tem o poder da laranja, tornando imortais quem guarda as palavras e as retém como suas. E, em cada livro lido, há uma vida renovada por mais um leitor, que, serena ou avidamente, abre as suas folhas e bebe as palavras que todos nós conhecemos mas não sabemos transmitir de forma imortal.

E porque na cadeia do livro todos somos precisos – escritor e ilustrador, editor, tradutor, revisor, designer, gráfica, distribuidora, livraria, mediador, biblioteca e leitor −, a 23 de Abril vá à livraria da sua zona ou encomende online, e envie um livro para quem lhe é mais querido.


O cartaz e o marcador podem ser descarregados na página da DGLAB.



As guardiãs do Jardim das Hespérides (1892), de Frederic Leighton (1830-1896). Galeria de Arte Lady Lever





sexta-feira, 22 de abril de 2022

O mito de Cassandra

 


Projeto Clássicos em Rede | Desafios Artes/Multimedia





Trabalho produzido pelos alunos da disciplina de Grego da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real, no âmbito da participação do 12º H no Projeto Clássicos em Rede - Desafio Artes/Multimedia 2021-2022.

Coordenação da professora Angelina Pires.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Alunos da Camilo premiados no Concurso Clássicos em Rede - Desafio de Artes/Multimédia

 










Conforme se pode ler no Regulamento divulgado na página da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), "As Olimpíadas da Cultura Clássica são um concurso que pretende estimular a curiosidade e alargar os conhecimentos dos alunos sobre temas de Cultura Clássica, através de desafios que apelam à escrita, à expressão artística e ao domínio de ferramentas digitais."

Promovido pela RBE, em parceria com Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o projeto Olimpvs.net., as Olimpíadas da Cultura Clássica 2020-21 tiveram a participação de 906 aluno/as nos desafios de escrita e 374 aluno/as nos desafios de artes/multimédia.

Para esta edição, foram escolhidos os seguintes temas:
•    Deucalião e Pirra
•    Píramo e Tisbe
•    Prometeu e Epimeteu


A nossa escola participou no desafio de artes/multimédia, escalão C (Ensino Secundário), com os trabalhos individuais dos alunos do 12º E, orientados pela professora Edite Costa, nas modalidades de 3 (desenho e banda desenhada não digital) e 4 (escultura/instalação).


As modalidades propostas paar este ano eram as seguintes: 

1. recursos digitais (blogues, jogos, bandas desenhadas com uso de apps, etc.); 

2. vídeos/filmes; 

3. desenho, ilustração, fotografia, bandas desenhadas não digitais; 

4. escultura/instalação.


Divulgados os resutados junto das escolas concorrentes (os resultados globais das Olimpíadas serão divulgados no dia 1, na página da RBE), os alunos do 12º E estão de parabéns! Foram premiados 5 dos quinze trabalhos propostos. 



Prémio Banda desenhada:

Trabalho: Amor desventurado

Luana Teixeira Gonçalves, 12º ano

Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real



 
 

 

 








Prémios Desenho, ex-aequo:


Trabalho: Píramo e Tisbe

Rosa Van Eck, 12º ano

Escola Secundária de Silves



Trabalho: Ao rubro de Tisbe

Amainê Ferreira Portela, 12º ano

Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real



 





Trabalho: O castigo escondido

Diogo Miguel Martins Alves, 12º ano

Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real




 

 



Trabalho: Dança das desgraças

Lia Pereira Gomes, 12º ano

Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real







Prémio Escultura:

Trabalho: A esperança

Lara de Almeida Botelho, 12º ano

Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real


   



Parabéns a todos os concorrentes!



Passamos a divulgar os restantes trabalhos a concurso.

Modalidade 3



Beatriz, Rodrigues, Amor Probido

Leonardo Martinez, Amoras de amor

Sara Arnaldo, A curiosidade de Pandora

Francisca Fernandes, A espada da separação

Anita Vasconcelos, O recomeçar

Renata Silva, Pandora

Lara Rocha, Romeu e Julieta



Modalidade 4

Diana Sampaio, A sentença de morte

Leonor Silva, A árvore da eternidade

Xavier Caldeira, Black Horseman





sexta-feira, 21 de agosto de 2020

D. Sebastião e o sebastianismo





O mito sebastianista corresponde a um delírio, sentimentalmente verdadeiro embora racionalmente falso. Miguel Real tem razão. Assim, o sebastianismo constitui uma espécie de motor ético dos portugueses, forçando-os “a acreditarem dever ser o futuro melhor do que o presente, mesmo que para tal se sintam obrigados a fugir da medíocre elite portuguesa, que do país se apodera como coutada sua…” (“Nova Teoria do Sebastianismo”, D. Quixote, 2014). Contra o conselho dos mais avisados, D. Sebastião sentiu-se motivado pelo sucesso de Lepanto e envolveu-se numa questão dinástica no reino de Marrocos. O resultado foi um desastre, tanto maior quanto não havia descendente que lhe sucedesse em Portugal – com três reis mortos e um reino momentaneamente pedido. Não houve avisada prudência e a nação ficou órfã. E a loucura gerou um mito. 

Eduardo Lourenço, no prefácio a “Origens do Sebastianismo” de Costa Lobo (1909), lembra o sentido crítico de António Sérgio, em justa demarcação do saudosismo sebastianista, pouco conforme com as suas preocupações de lançar para o tempo atual as bases de uma autêntica reforma de mentalidades. Tratava-se sergianamente de combater a generalização perniciosa justificativa de uma acomodação sentimentalista. Se Oliveira Martins considerou o sebastianismo uma “prova póstuma da nacionalidade”, haveria que compreender que «do que era um fenómeno extravagante ou uma aberração sem lugar no discurso histórico”, nasceu um «mito cultural de ressonância incomparável». 

O que estaria em causa no caso português era uma “decadência inconformada consigo mesma”, assumida após um momento dramático em que um passado glorioso deu lugar a uma humilhação incompreensível nas areias de Marrocos e depois a uma “Corte na Aldeia”, recriada por Rodrigues Lobo. E assim o sebastianismo tornou-se “o epílogo, e a manifestação mais palpável do espírito nacional”, (…) “embebido na imaginação” e “nutrido pelo conhecimento da decadência nacional e pela recordação e saudades de tempos mais felizes”. O episódio pode comparar-se a uma espécie de cativeiro da Babilónia, visto como um «avatar delirante», mas mais do que isso como símbolo de uma história que alterna momentos gloriosos e decadentes, em que a fatalidade e a vontade se entrecruzam e se alimentam mutuamente. Vinha à memória a analogia entre o messianismo judaico e a ideia nacional de um império futuro. E Eduardo Lourenço liga o mito cultural de Alcácer Quibir a uma «estrutura de ausência», vista como corolário do tempo em que substancialmente perdemos a independência, ainda que juridicamente tal nunca se tenha consumado verdadeiramente na Monarquia Dual, mesmo que o império do Oriente tenha sofrido dramaticamente por força da expansão holandesa. E Portugal fica «ausente de si mesmo e esperando-se nessa ausência». Só quando o Conde Duque de Olivares teve a tentação unificadora peninsular, a revolta tornou-se inexorável, com apoio francês no desenrolar da Guerra dos Trinta Anos. 

Indagador dos mitos nacionais, Eduardo Lourenço demarca-se das leituras negativistas e fatalistas, considerando, como Oliveira Martins, que a «estrutura de ausência» não podia confundir-se com uma incapacidade de espera. Veja-se como Garrett trata dos temas da ausência e da espera em “Frei Luís de Sousa”. O sebastianismo, como mito, é um sonho e uma vaga esperança messiânica. E neste ponto o ensaísta contemporâneo não pôde deixar de se cruzar com Fernando Pessoa, poeta que pensa no mito como impulso libertador. Estamos perante um «mito», mas não diante de uma ideia transcendente ou religiosa. É o «herói simbólico» que encontramos – na tradição do ciclo bretão, do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda (também ele viria de Avalon numa manhã de nevoeiro) ou de Amadis de Gaula. Contra o fatalismo, ressurge a nação como vontade, na expressão de Alexandre Herculano - vontade temperada pela índole coletiva. 

Sampaio Bruno preferiu procurar uma significação metafísica, Teixeira de Pascoaes ligou o sebastianismo à saudade lusíada (lembrança e desejo, segundo Duarte Nunes do Leão) e Costa Lobo ancorou nas razões históricas as repercussões do cativeiro – desde as Cortes de Tomar (1581) até ao Primeiro de Dezembro de 1640. Eduardo Lourenço, como Sérgio, chega ao século XX e longe de qualquer tentação ilusória, diz-nos que «o Portugal – D. Sebastião de Pessoa é todo-o-mundo-e-ninguém com ele Pessoa – D. Sebastião é ninguém-e-todo-o-mundo, um e outro, a “eterna criança que há de vir”, aquele que morre como particularidade nacional ou pessoal, para ser tudo em todos, exemplo de um mundo e de uma personalidade sem limites nem fim». Lembramo-nos do “Auto da Lusitânia” de Gil Vicente. Deste modo, o autor de «A Nau de Ícaro» faz um retrato fulgurante da mitologia portuguesa, na linha da sua psicanálise mítica do destino português. “Louco, sim, louco, porque quis grandeza / Que a sorte a não dá”… 

Para o Padre António Vieira o que estaria em causa era um império sobrenatural, capaz de superar os «fumos da Índia» e as fragilidades que conduziram a Alcácer Quibir. «Assim o que começou como um sonho de um Império redivivo termina com Pessoa em Império de sonho».

GOM. D. Sebastião e o sebastianismo, 30 Boas razões para Portugal. Centro Nacional de Cultura, 14 de agosto 2020