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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Fósforos riscados no vento

 










Com um título retirado de uma passagem de Virginia Woolf, Fósforos Riscados no Vento, breves crónicas, textos minimalistas, são feitas de memórias e acasos, de objetos, situações, emoções e reflexões, que vêm ao encontro do autor no quotidiano.
Rubrica semanal, na Antena 2. 4as feiras | 10h45 | 15h45




"Pequenas lucilações do dia-a-dia, raramente percetíveis, é com elas que a existência se nos reinventa, interpelados pela surpresa, pela descoberta, de longe a longe pelo milagre.

Achados menores, o objecto anódino, o episódio esquecido, a luz da manhã da infância, ensinam-nos quem somos, rasgam diante de nós o horizonte que nunca se atinge.

Fósforos Riscados no Vento, pedras pisadas no trânsito da glória do mundo, é sempre no instante que a felicidade reside."

Mário Cláudio


sábado, 26 de novembro de 2022

Escola a ler... Contra a violência sobre as mulheres e meninas (1)

 

 

 

 










 



Existem pedras nos olhos, de Maria Teresa Horta

🔊 Pode escutar aqui o poema lido a duas vozes: pela professora Rosa Canelas e pelo professor Carlos Santelmo 


Existem pedras nos olhos
mas não as tragas
contigo
Meu amor
e meu amigo

Existem pedras nas mãos
mas não as uses
comigo
Meu amor
e meu amigo

Existem pedras sedentas
de amor e muito perigo
Não queiras que elas inventem
motivo do meu castigo


Texto selecionado para leitura em sala de aula.



domingo, 16 de outubro de 2022

Saramago | Leituras centenárias

 

#100saramago


Assinala-se a 16 de novembro de 2022 o centenário do nascimento de José Saramago. 

O programa “Saramago na Escola” compreende várias iniciativas, dentre as quais as Leituras Centenárias, uma parceria da Fundação José Saramago com a Rede de Bibliotecas Escolares e com o Plano Nacional de Leitura. Assim, a 16 de novembro de 2022, assinalando o dia do Centenário, realizar-se-ão, em Escolas Secundárias portuguesas, sessões de leitura de um excerto do Memorial do Convento ou d’O Ano da Morte de Ricardo Reis.  

Regulamento da iniciativa.

Vasco Miguel da Silva Petiz Varandas Guedes é o aluno que vai representar a Camilo na leitura em linha do dia 16.


Para além de constituir uma evocação do escritor José Saramago, as “Leituras Centenárias” procurarão motivar os jovens para a leitura, para o aperfeiçoamento da língua, para a compreensão da narrativa e para o questionamento e diálogo sobre nós próprios, a sociedade e o meio ambiente, em sintonia com a filosofia que preside ao Plano Nacional de Leitura e à Rede de Bibliotecas Escolares. 

No âmbito desta celebração, os alunos de Português 12º ano estão a preparar a leitura áudio de excertos dos dois romances de Saramago que irá ser partilhada com/na Comunidade através de um Podcast, que em breve divulgaremos. 

Rede de Bibliotecas Escolares

 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Aleixo, Leitura & Filosofia

 

 

Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.



Esta leitura coral surgiu espontaneamente na dinâmica da aula do 10º C, na semana passada, quando se abordava o conceito de "filosofia espontânea" - uma filosofia que não exige um conhecimento da história da filosofia, que surge de modo natural a partir das vivências do quotidiano e das experiências da vida. 

Uma oportunidade também para os alunos conheceram um pouco da vida e obra do poeta autodidata António Aleixo.
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

📌António Aleixo é um dos autores presentes no fundo documental da biblioteca.  

 


quarta-feira, 29 de junho de 2022

Um homem precisa viajar

 


Pior que não terminar uma viagem é nunca partir. 
Um homem precisa viajar. 
Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. 
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. 
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. 
Conhecer o frio para desfrutar o calor. 
E o oposto. 
Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. 
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. 
Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.

Solidão foi a única coisa que eu não senti, depois que parti…Nunca…Em momento algum. 
Estava, sim, atacado de uma voraz saudade. 
De tudo e de todos, de coisas e de pessoas que há muito tempo não via. 
Mas a saudade às vezes faz bem ao coração. 
Valoriza os sentimentos, acende as esperanças e apaga as distâncias.

Um homem precisa viajar, por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros e tevês, precisa viajar, por si, com os olhos e pés, para entender o que é seu … 

Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. 
E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. 
É preciso, antes de mais nada, querer.

Um homem precisa viajar, de Amyr Klink, dito por Jorge Borges



Para saber mais sobre Amyr Klink:

A navegador e escritor Amyr Klink é entrevistado por Beny Schmidt, no programa brasileiro Ciência Livre.



sexta-feira, 22 de abril de 2022

Escola a Ler - 'Podcast Leituras com sotaque'

 


















Para comemorar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, que se festeja no dia 5 de maio, o PNL2027 lançou a iniciativa Podcast Ler em vários sotaques, com o intuito de valorizar a diversidade de pronúncias existente nas diferentes regiões do País ou noutros países e culturas.

Os alunos do 11º F responderam ao desafio. No passado dia 20, estiveram na biblioteca, na aula de Português. Cada aluno selecionou um extrato de um livro do fundo documental e preparou a leitura áudio do mesmo, que posteriormente foi enviada ao PNL para divulgação no podcast.  



terça-feira, 22 de março de 2022

Camilo a ler Poesia

 





Ana Afonso, do 11º D, lê "Cantata de paz", de Sophia de Mello Breyner . 



Camilo a ler Poesia

 




Matilde Gonçalves, do 11 D, lê "Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça", de António Amaral Tavares.







Camilo a ler Poesia

 


"Retrato de Vitoria, princesa real", por Franz Xaver Winterhalter (1857)




No Dia Mundial da Poesia, Maria Carvalho, do 11º D, lê "Retrato de uma princesa desconhecida", de Sophia de Mello Breyner 


Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino



Camilo a ler Poesia

 













Lília Santos lê “Não só quem nos odeia ou nos inveja”, de Ricardo Reis

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.



Camilo a ler Poesia

 

 



 Mário Cesariny




"Faz-me o favor", de Mário Cesariny

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor!-
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

 

Aceda ao QR Code e ouça o poema lido pela Margarida Costa, do 11º D:

 

  

 Audiotexto "Faz-me o favor"

 

segunda-feira, 21 de março de 2022

Poesia pela paz

 





Em Educação Especial, alunos do 8ºB, 9ºC e 9ºG leram o poema "Cantata da paz", de Sophia de Mello Breyner, acompanhados pelos docentes Benjamim Valadares e Margarida Lemos.

A leitura acrescenta!



segunda-feira, 7 de março de 2022

A mulher sábia


 Pessoas, Garota, Mulher, Rosto, Retrato, Olhos, Visão



... a propósito do Dia da Mulher e da Semana da Leitura: "A Mulher Sapiens", de Cláudia Lucas Chéu.  
 
🔊 Texto lido pela professora Fernanda Botelho.



A mulher sábia sabe o mesmo do que o homem sábio — bastante pouco.

São 7h18. Mantém os olhos fechados enquanto apalpa o tampo da mesa-de-cabeceira, à cata do telemóvel. Logo o encontra. Com o dedo indicador direito deslizando sobre ecrã, desliga o alarme exasperante. Abre os olhos ainda deitada. Olha, sem ver, para o teto; a boca sabe-lhe a ferro. Talvez precise de vitaminas e de cortar no vinho ao jantar. Dói-lhe a cabeça. A mulher sábia dorme mal e, como se costuma dizer, à pressa. Nunca descansa mais de cinco horas seguidas. Tem sempre o que fazer. Há um guindaste imaginário que a iça todos os dias da cama — chama-se necessidade.

Abre as portadas da janela. A luz detestável apropria-se do quarto. Despe o pijama e troca de cuecas. A vagina da mulher sábia produz secreções durante a noite, habitualmente inodoras, mas nem sempre. Não passa pelo banho, fê-lo de véspera para não ter de acordar mais cedo. Veste-se — calças e blusa. Como Lianor de Camões, descalça vai para o quarto das filhas, “vai fermosa e não segura”. Custa-lhe lidar com o mau humor matinal das crianças, provocado pelo forçado despertar, e ser a má da fita. As manhãs geram-lhe ansiedade, prevê as dificuldades do dia. Até chegar a noite, e voltar para a cama, passará por uma eternidade de tarefas por cumprir.

Entra no quarto das meninas e observa-as deitadas em pisos diferentes do beliche. As crianças são ainda mais bonitas quando empenhadas no sono. Só tranquilizam quando adormecidas — que anjinhos falsos, mas encantadores. Prepara-se para enfrentar o bulício. Inspira, expira. Sente um ligeiro tremor no peito e na cabeça, a ascensão da angústia. Acorda as meninas com beijos na nuca e elogios filiais. Tem de pendurar-se no andar de baixo do beliche para chegar à cabeça da mais crescida. As meninas resmungam aos mimos vespertinos da mãe, não se querem levantar. Vai preparar-lhes o pequeno-almoço e pensa no que fará mais logo ao jantar; na roupa suja empilhada no cesto; na loiça gordurosa do jantar, caótica no lava-loiças; na falta que lhe faz um companheiro ou companheira.

Dói-lhe a cabeça. Ama as filhas, detesta o emprego que conseguiu arranjar. A mulher sábia só sabe que tem de aguentar.

Cláudia Lucas Chéu. A mulher Sapiens, in  https://www.publico.pt/2019/09/10/p3/cronica/mulher-sapiens-1886016

 


 
A MULHER SAPIENS 
Cláudia Chéu
Companhia das Ilhas
2021

 
Os textos reunidos nesta obra foram escritos maioritariamente para o suplemento P3, do jornal Público, entre 2019 e 2020. O tema congregador aponta, sobretudo, para o papel da mulher (ou os vários papéis que desempenha) na sociedade contemporânea.

Predominantemente contos curtos, crónicas e ensaios breves, estes textos pretendem perscrutar a condição das mulheres nos seus mais diversos contextos (sexual, profissional, familiar, entre outros), e assinalar como a própria definição de mulher é algo em evolução, mutável, obedecendo cada vez menos a convenções sociais.
 
 

sábado, 14 de agosto de 2021

O peso dos livros

 


      The Red Vest, de Françoise Gilot



Pensava que os livros não têm peso. Quero dizer, flutuam no entendimento.
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.

Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.

E um hálito branco a querer ser página.

Filipa Leal


🔊 Ouça este e outros poemas ditos por Filipa Leal em Lyrik line - Listen to the Poet.


domingo, 24 de maio de 2020

Audiotexto | Um amor de cão, de Maria Velho da Costa








O desenvolvimento deste conto daria origem a Myra, o último romance da autora (publicado em 2008).

quinta-feira, 19 de março de 2020

Os filhos são figuras estremecidas



Celebrar o Dia do Pai



🔊




Os filhos são figuras estremecidas
e, quando dormem, a felicidade
cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes
os lábios, ama-os sobre as camas.
É por mim que chamam quando temem
o eclipse e o temporal. Trazem nos cabelos
o aroma do leite e da festa das rosas.
Voam-me por entre os dedos, por entre
as malhas da rede de espuma
que lanço a seus pés. Reinam
num sítio de penumbra onde não
me atrevo sequer a dizer quem sou.

José Jorge Letria, in "Os Achados da Noite"


Poema dito pelo David, do 9º I



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Mário de Carvalho | Famílias desavindas











     Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há-de encontrar-se um cruzamento alto, de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina telhados de ardósia em escama. Faltam razões para flanar por esta rua, banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo conhecido de poucos: os únicos semáforos do mundo movidos a pedal, sobreviventes a outros que ainda funcionavam na Guatemala, no início dos anos setenta.
     No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem engenheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa, antes de convencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia eléctrica, capaz de bem ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e
landós da sociedade. A autoridade gostou do projeto e das garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos estiveram ensejados para a Ponte, mas, de proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acabaram na infrequentada Rua Fernão Penteado, na interseção com a travessa de João Roiz Castelo Branco.
     O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, luminoso. Um homem pedala numa bicicleta erguida a dez centímetros do chão por suportes de ferro. A corrente faz girar um imã dentro de uma bobina. A energia gerada vai acender as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. Durante a Primeira Guerra foi introduzida uma melhoria. Uma inspeção da Câmara concluiu que a roda da frente era destituída de utilidade. Foi retirada.
Houve muitos candidatos ao cargo de samaforeiro, embora um equívoco tivesse levado à exigência de que os concorrentes soubessem andar de bicicleta. A realidade corrigiu o dislate porque acabou por ser escolhido um galego chamado Ramon, que era familiar do proprietário dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na vida. Mas Ramon era esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada.
     Durante anos e anos o bom do Ramon pedalou e
comutou. Por alturas da segunda Grande Guerra foi substituído pelo seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de Abril pelo neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo bisneto Paco. A administração continua a pagar um vencimento modesto, equivalente ao de jardineiro. Mas não é pelo ordenado que aquela família dá ao pedal. É pelo amor à profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto e bisneto foram vistos de ferramenta em riste a afeiçoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de trás e opuseram-se quase com selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda dispensável, sugerindo que o carreto bastasse.
     Os transeuntes e motoristas do Porto apreciam estes semáforos manuais, porque é sempre possível personalizar a relação com o sinal. Diz-se, por exemplo, «Ó Paco, dá lá um jeitinho!» e o Paco, se estiver bem-disposto, comuta, facilita.
     Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que dali faz consultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o Doutor João Pedro Bekett, pai de filhos e médico singular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava pelas ruas a interpelar os transeuntes: «Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que eu trato-o.» E nesta ânsia de convencer atravessava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou-se do Ramon e bradou, severo: «A mim, ninguém me diz quando devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre e
desimpedido.» Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante, passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Felizmente, nunca coincidiram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados.
Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava sempre que o seu diagnóstico era provavelmente errado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os pacientes para um colega que desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à janela, a
encandear Ximenez com um espelho colorido.
     Já entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se chegou a vias de facto. O médico passava e rosnava «Sus, galego». E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: «Xó, magarefe!» Uma tarde, Asdrúbal levantou mesmo a mão e o doutor encurvou-se e enrijou o passo.
     Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos doentes, com impaciência, e depois impunha silêncio e começava: «As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no segundo, bacterianas.» E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas maliciosos sustentavam que ele praticava a terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até faziam perguntas. Após a consulta, muito à puridade, o Dr. Paulo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe dissessem: «Arrenego de ti, galego!» Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco.
     Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa-de-ovos na mão, e já trazia entredentes o «arrenego!» com que insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao proceder a um roubo por esticão um jovem que vinha de mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o estendido no asfalto. Era grave. O Dr. Paulo largou ódios velhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinistrado: «Isto, em matéria de lesões, elas podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes, cortantes, ou perfurantes.»
     Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das «manchas de sangue».
     Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou abandonado. Uma figura de bata branca está todos os dias naquela rua, do nascer ao pôr do Sol, a acionar o dispositivo, pedalando, pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de remorsos, que quer penitenciar-se, ser útil, enquanto o Paco não regressa.

 Mário de Carvalho, Contos Vagabundos, Lisboa, Editorial Caminho, 2000



sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Kafka | A sombra do pai (2)








Pode ler a Carta ao Pai (em português do Brasil) aqui






Poucas páginas antes, o escaravelho Gregório Samsa ainda havia articulado penosamente as últimas palavras que a sua boca de inseto fora capaz de pronunciar: “Mãe, mãe”, Depois, como numa primeira morte, entrou na mudez de um silêncio voluntário, senão obrigado pela sua irremediável animalidade, como quem teve de resignar-se definitivamente a não ter pai, mãe e irmã no mundo das baratas. Quando por fim a criada varrer para o lixo a carcaça ressequida em que Gregório Samsa terminará transformado, a sua ausência, daí em diante, só servirá para confirmar o esquecimento a que os seus já o tinham votado. 

Numa carta de 28 de Agosto de 1913, Kafka irá escrever: “Vivo no meio da minha família, entre as melhores e mais amorosas pessoas que se pode imaginar, como alguém mais estranho que um estranho. Com a minha mãe, nos últimos anos, não falei, em média, mais que vinte palavras por dia, com o meu pai jamais troquei mais que as palavras de saudação”. Será preciso estar muito desatento à leitura para não perceber a dolorosa e amarga ironia contida nas próprias palavras (“Entre as melhores e mais amorosas pessoas que se pode imaginar”) que parecem estar a negá-la. Desatenção igual, creio, seria não atribuir importância especial ao facto de Kafka haver proposto ao seu editor, em 4 de Abril de 1913, que os relatos O Fogueiro (primeiro capítulo do romance América), A Metamorfose e A Sentença fossem reunidos num único volume com o título de Os Filhos (o que, aliás, só muito recentemente, em 1989, viria a suceder). Em O Fogueiro, “o filho” é expulso pelos pais por ter ofendido a honra da família ao engravidar uma criada, em A Sentença “o filho” é condenado pelo pai a morrer por afogamento, em A Metamorfose “o filho” deixou simplesmente de existir, o seu lugar foi tomado por um inseto… Mais do que a Carta ao Pai, escrita em Novembro de 1919, mas que nunca viria a ser entregue ao destinatário, são estes relatos, segundo entendo, e em particular A Sentença e A Metamorfose, que, precisamente por serem transposições literárias em que o jogo de mostrar e esconder funciona como um espelho de ambiguidades e reversos, nos oferecem com mais precisão a dimensão da ferida incurável que o conflito com o pai abriu no espírito de Franz Kafka. 

A Carta assume, por assim dizer, a forma e o tom de um libelo acusatório, propõe-se como um ajuste de contas final, é um balanço entre o deve e o haver de duas existências enfrentadas, de duas mútuas repugnâncias, pelo que não se pode rejeitar a hipótese de que se encontrem nela exageros e deformações dos factos reais, sobretudo quando Kafka, no final do escrito, passa subitamente a usar a voz do pai para se acusar a si mesmo… 

Em O Processo, Kafka pôde desfazer-se da figura paterna, objetivamente considerada, mas não da sua lei. E tal como em A Sentença o filho se suicida porque assim o tinha determinado a lei do pai, em O Processo é o próprio acusado Josef K… que acabará por conduzir os seus algozes ao lugar onde será assassinado e que, nos últimos instantes, quando a morte já se vem acercando, ainda dará por si a pensar, como um derradeiro remorso, que não tinha sabido desempenhar o seu papel até ao fim, que não tinha conseguido poupar trabalho às autoridades… Isto é, ao Pai.


SARAMAGO, José (2009). Outros Cadernos de Saramago.



domingo, 19 de janeiro de 2020

Farrusco, o melro




Conto de Bichos, de Miguel Torga




Imagem: Pixabay




Celebrar Torga por ocasião da evocação dos 25 anos da sua morte.
Leitura do conto "Farrusco", de Bichos. Aula de Matemática. Turma D, 8º ano.



Farrusco


Dentro da poça do Lenteiro, há rãs. Naquela água coberta de agriões e de juncos moram centenas delas. Mas à volta, na sebe de marmeleiros, silva-macha e alecrim, vive Farrusco, o melro. Sabe-se isso desde que, em certo entardecer de Agosto, a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente: 

- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?

A rapariga era toda ela de se comer. E o cuco, maroto, olhou de lá, viu, e respondeu:

- Cucu... Cucu... Cucu...

Três anos! A moça ficou varada. O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias, e prometera levá-la à igreja logo a seguir. Que significava, pois, semelhante demora? Aflita, chegou-se à Isaura, a alcoviteira, mouca como um soco, que a seu lado sachava milho, e gritou-lhe aos ouvidos, desesperada: 

- Ora vê?! Que lhe dizia eu? A Isaura nem queria acreditar. 

- Ouvirias mal!...

- Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem.

E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas, como se alguém rasgasse um pano cru, rijo e comprido, no silêncio da tarde serena, que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. Nada mais do que isso. Mas o bastante para mudar o sinal do desencanto. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. De parada, a natureza animou-se. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente. A própria terra, sonolenta do calor do dia, acordou. £ de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro. 

Chamadas por aquela volatina, as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. Às rãs, juntaram-se logo, pressurosos, os ralos, as cegarregas, os grilos, e quanta arraia miúda tinha fala. A esta, a passarada. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. Um coro imenso, cósmico e fraterno, que enchia o mundo de confiança. 

Clara, arrastada pela onda de harmonia, apelou da sentença: 

- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira? O que foste fazer! O malandro do pitoniso, se há pouco fora cruel, desta vez requintou. 

- Cucu... Cucu... Cucu... Cucu... 

Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais. Ou de propósito, ou porque o mundo, naquele instante, era um orfeão aberto, o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu. 

Desapontada, a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. E, num amuo justificado, deixou correr as horas. A seu lado, comprometida, a Isaura, que tinha garantido o noivado a curto prazo, falava, falava, sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. E quando a noite se aproximou disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias de Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar. 

- O estafermo do cuco, tia Isaura! Até um melro se riu!... 

- Riem-se de tudo, esses diabos... 



Mas o lusco-fusco começava a empoeirar o céu, e Farrusco ia fechando docemente os olhos, deitado na cama dura. A vida que lhe ensinara a mãe, simples, honesta, espartana, não lhe consentia luxos de noitadas. Pela manhã, ainda o sol vinha lá para Galegos, já ele tinha de estar de perna à vela, pronto para comer a bicharada da veiga, e rir de novo, se alguma tola de Vilar de Celas se fiasse outra vez no aldrabão do cuco.

TORGA, Miguel (2003). Farrusco. Bichos. Planeta Agostini.