sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023
Fósforos riscados no vento
sábado, 26 de novembro de 2022
Escola a ler... Contra a violência sobre as mulheres e meninas (1)
Existem pedras nos olhos, de Maria Teresa Horta
🔊 Pode escutar aqui o poema lido a duas vozes: pela professora Rosa Canelas e pelo professor Carlos Santelmo
Existem pedras nos olhos
mas não as tragas
contigo
Meu amor
e meu amigo
Existem pedras nas mãos
mas não as uses
comigo
Meu amor
e meu amigo
Existem pedras sedentas
de amor e muito perigo
Não queiras que elas inventem
motivo do meu castigo
Texto selecionado para leitura em sala de aula.
domingo, 16 de outubro de 2022
Saramago | Leituras centenárias
#100saramago
Assinala-se a 16 de novembro de 2022 o centenário do nascimento de José Saramago.
O programa “Saramago na Escola” compreende várias iniciativas, dentre as quais as Leituras Centenárias, uma parceria da Fundação José Saramago com a Rede de Bibliotecas Escolares e com o Plano Nacional de Leitura. Assim, a 16 de novembro de 2022, assinalando o dia do Centenário, realizar-se-ão, em Escolas Secundárias portuguesas, sessões de leitura de um excerto do Memorial do Convento ou d’O Ano da Morte de Ricardo Reis.
Vasco Miguel da Silva Petiz Varandas Guedes é o aluno que vai representar a Camilo na leitura em linha do dia 16.
Para além de constituir uma evocação do escritor José Saramago, as “Leituras Centenárias” procurarão motivar os jovens para a leitura, para o aperfeiçoamento da língua, para a compreensão da narrativa e para o questionamento e diálogo sobre nós próprios, a sociedade e o meio ambiente, em sintonia com a filosofia que preside ao Plano Nacional de Leitura e à Rede de Bibliotecas Escolares.
No âmbito desta celebração, os alunos de Português 12º ano estão a preparar a leitura áudio de excertos dos dois romances de Saramago que irá ser partilhada com/na Comunidade através de um Podcast, que em breve divulgaremos.
Rede de Bibliotecas Escolares
quarta-feira, 12 de outubro de 2022
Aleixo, Leitura & Filosofia
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
Uma oportunidade também para os alunos conheceram um pouco da vida e obra do poeta autodidata António Aleixo.
📌António Aleixo é um dos autores presentes no fundo documental da biblioteca.
quinta-feira, 14 de julho de 2022
quarta-feira, 29 de junho de 2022
Um homem precisa viajar
sexta-feira, 22 de abril de 2022
Escola a Ler - 'Podcast Leituras com sotaque'
terça-feira, 22 de março de 2022
Camilo a ler Poesia
Camilo a ler Poesia
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Camilo a ler Poesia
Lília Santos lê “Não só quem nos odeia ou nos inveja”, de Ricardo Reis
Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.
Camilo a ler Poesia

Mário Cesariny
"Faz-me o favor", de Mário Cesariny
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor - muito melhor!-
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Aceda ao QR Code e ouça o poema lido pela Margarida Costa, do 11º D:
Audiotexto "Faz-me o favor"
segunda-feira, 21 de março de 2022
Poesia pela paz
segunda-feira, 7 de março de 2022
A mulher sábia

... a propósito do Dia da Mulher e da Semana da Leitura: "A Mulher Sapiens", de Cláudia Lucas Chéu.
Abre as portadas da janela. A luz detestável apropria-se do quarto. Despe o pijama e troca de cuecas. A vagina da mulher sábia produz secreções durante a noite, habitualmente inodoras, mas nem sempre. Não passa pelo banho, fê-lo de véspera para não ter de acordar mais cedo. Veste-se — calças e blusa. Como Lianor de Camões, descalça vai para o quarto das filhas, “vai fermosa e não segura”. Custa-lhe lidar com o mau humor matinal das crianças, provocado pelo forçado despertar, e ser a má da fita. As manhãs geram-lhe ansiedade, prevê as dificuldades do dia. Até chegar a noite, e voltar para a cama, passará por uma eternidade de tarefas por cumprir.
Entra no quarto das meninas e observa-as deitadas em pisos diferentes do beliche. As crianças são ainda mais bonitas quando empenhadas no sono. Só tranquilizam quando adormecidas — que anjinhos falsos, mas encantadores. Prepara-se para enfrentar o bulício. Inspira, expira. Sente um ligeiro tremor no peito e na cabeça, a ascensão da angústia. Acorda as meninas com beijos na nuca e elogios filiais. Tem de pendurar-se no andar de baixo do beliche para chegar à cabeça da mais crescida. As meninas resmungam aos mimos vespertinos da mãe, não se querem levantar. Vai preparar-lhes o pequeno-almoço e pensa no que fará mais logo ao jantar; na roupa suja empilhada no cesto; na loiça gordurosa do jantar, caótica no lava-loiças; na falta que lhe faz um companheiro ou companheira.
Dói-lhe a cabeça. Ama as filhas, detesta o emprego que conseguiu arranjar. A mulher sábia só sabe que tem de aguentar.
Cláudia Lucas Chéu. A mulher Sapiens, in https://www.publico.pt/2019/09/10/p3/cronica/mulher-sapiens-1886016
sábado, 14 de agosto de 2021
O peso dos livros
Pensava que os livros não têm peso. Quero dizer, flutuam no entendimento.
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.
Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.
E um hálito branco a querer ser página.
Filipa Leal
🔊 Ouça este e outros poemas ditos por Filipa Leal em Lyrik line - Listen to the Poet.
domingo, 24 de maio de 2020
Audiotexto | Um amor de cão, de Maria Velho da Costa
quinta-feira, 19 de março de 2020
Os filhos são figuras estremecidas
Celebrar o Dia do Pai
🔊
e, quando dormem, a felicidade
cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes
os lábios, ama-os sobre as camas.
É por mim que chamam quando temem
o eclipse e o temporal. Trazem nos cabelos
o aroma do leite e da festa das rosas.
Voam-me por entre os dedos, por entre
as malhas da rede de espuma
que lanço a seus pés. Reinam
num sítio de penumbra onde não
me atrevo sequer a dizer quem sou.
José Jorge Letria, in "Os Achados da Noite"
Poema dito pelo David, do 9º I
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Mário de Carvalho | Famílias desavindas
No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem engenheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa, antes de convencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia eléctrica, capaz de bem ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e landós da sociedade. A autoridade gostou do projeto e das garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos estiveram ensejados para a Ponte, mas, de proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acabaram na infrequentada Rua Fernão Penteado, na interseção com a travessa de João Roiz Castelo Branco.
O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, luminoso. Um homem pedala numa bicicleta erguida a dez centímetros do chão por suportes de ferro. A corrente faz girar um imã dentro de uma bobina. A energia gerada vai acender as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. Durante a Primeira Guerra foi introduzida uma melhoria. Uma inspeção da Câmara concluiu que a roda da frente era destituída de utilidade. Foi retirada.
Houve muitos candidatos ao cargo de samaforeiro, embora um equívoco tivesse levado à exigência de que os concorrentes soubessem andar de bicicleta. A realidade corrigiu o dislate porque acabou por ser escolhido um galego chamado Ramon, que era familiar do proprietário dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na vida. Mas Ramon era esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada.
Durante anos e anos o bom do Ramon pedalou e comutou. Por alturas da segunda Grande Guerra foi substituído pelo seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de Abril pelo neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo bisneto Paco. A administração continua a pagar um vencimento modesto, equivalente ao de jardineiro. Mas não é pelo ordenado que aquela família dá ao pedal. É pelo amor à profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto e bisneto foram vistos de ferramenta em riste a afeiçoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de trás e opuseram-se quase com selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda dispensável, sugerindo que o carreto bastasse.
Os transeuntes e motoristas do Porto apreciam estes semáforos manuais, porque é sempre possível personalizar a relação com o sinal. Diz-se, por exemplo, «Ó Paco, dá lá um jeitinho!» e o Paco, se estiver bem-disposto, comuta, facilita.
Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que dali faz consultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o Doutor João Pedro Bekett, pai de filhos e médico singular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava pelas ruas a interpelar os transeuntes: «Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que eu trato-o.» E nesta ânsia de convencer atravessava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou-se do Ramon e bradou, severo: «A mim, ninguém me diz quando devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre e desimpedido.» Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante, passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Felizmente, nunca coincidiram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados.
Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava sempre que o seu diagnóstico era provavelmente errado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os pacientes para um colega que desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à janela, a encandear Ximenez com um espelho colorido.
Já entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se chegou a vias de facto. O médico passava e rosnava «Sus, galego». E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: «Xó, magarefe!» Uma tarde, Asdrúbal levantou mesmo a mão e o doutor encurvou-se e enrijou o passo.
Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos doentes, com impaciência, e depois impunha silêncio e começava: «As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no segundo, bacterianas.» E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas maliciosos sustentavam que ele praticava a terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até faziam perguntas. Após a consulta, muito à puridade, o Dr. Paulo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe dissessem: «Arrenego de ti, galego!» Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco.
Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa-de-ovos na mão, e já trazia entredentes o «arrenego!» com que insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao proceder a um roubo por esticão um jovem que vinha de mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o estendido no asfalto. Era grave. O Dr. Paulo largou ódios velhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinistrado: «Isto, em matéria de lesões, elas podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes, cortantes, ou perfurantes.»
Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das «manchas de sangue».
Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou abandonado. Uma figura de bata branca está todos os dias naquela rua, do nascer ao pôr do Sol, a acionar o dispositivo, pedalando, pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de remorsos, que quer penitenciar-se, ser útil, enquanto o Paco não regressa.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Kafka | A sombra do pai (2)
Pode ler a Carta ao Pai (em português do Brasil) aqui.
Numa carta de 28 de Agosto de 1913, Kafka irá escrever: “Vivo no meio da minha família, entre as melhores e mais amorosas pessoas que se pode imaginar, como alguém mais estranho que um estranho. Com a minha mãe, nos últimos anos, não falei, em média, mais que vinte palavras por dia, com o meu pai jamais troquei mais que as palavras de saudação”. Será preciso estar muito desatento à leitura para não perceber a dolorosa e amarga ironia contida nas próprias palavras (“Entre as melhores e mais amorosas pessoas que se pode imaginar”) que parecem estar a negá-la. Desatenção igual, creio, seria não atribuir importância especial ao facto de Kafka haver proposto ao seu editor, em 4 de Abril de 1913, que os relatos O Fogueiro (primeiro capítulo do romance América), A Metamorfose e A Sentença fossem reunidos num único volume com o título de Os Filhos (o que, aliás, só muito recentemente, em 1989, viria a suceder). Em O Fogueiro, “o filho” é expulso pelos pais por ter ofendido a honra da família ao engravidar uma criada, em A Sentença “o filho” é condenado pelo pai a morrer por afogamento, em A Metamorfose “o filho” deixou simplesmente de existir, o seu lugar foi tomado por um inseto… Mais do que a Carta ao Pai, escrita em Novembro de 1919, mas que nunca viria a ser entregue ao destinatário, são estes relatos, segundo entendo, e em particular A Sentença e A Metamorfose, que, precisamente por serem transposições literárias em que o jogo de mostrar e esconder funciona como um espelho de ambiguidades e reversos, nos oferecem com mais precisão a dimensão da ferida incurável que o conflito com o pai abriu no espírito de Franz Kafka.
A Carta assume, por assim dizer, a forma e o tom de um libelo acusatório, propõe-se como um ajuste de contas final, é um balanço entre o deve e o haver de duas existências enfrentadas, de duas mútuas repugnâncias, pelo que não se pode rejeitar a hipótese de que se encontrem nela exageros e deformações dos factos reais, sobretudo quando Kafka, no final do escrito, passa subitamente a usar a voz do pai para se acusar a si mesmo…
Em O Processo, Kafka pôde desfazer-se da figura paterna, objetivamente considerada, mas não da sua lei. E tal como em A Sentença o filho se suicida porque assim o tinha determinado a lei do pai, em O Processo é o próprio acusado Josef K… que acabará por conduzir os seus algozes ao lugar onde será assassinado e que, nos últimos instantes, quando a morte já se vem acercando, ainda dará por si a pensar, como um derradeiro remorso, que não tinha sabido desempenhar o seu papel até ao fim, que não tinha conseguido poupar trabalho às autoridades… Isto é, ao Pai.
domingo, 19 de janeiro de 2020
Farrusco, o melro
Conto de Bichos, de Miguel Torga

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