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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Centenário Saramago: 1 livro | 1 filme

 















No próximo dia 9 de novembro, às 10:30, a adaptação cinematográfica de O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago, vai ser passada no Grande Auditório do Teatro de Vila Real. Gratuitamente.
A atividade é promovida pela Rede de Bibliotecas de Vila Real com o apoio do Município.

Público-alvo: alunos do Secundário.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

1 livro, 1 filme | A Jangada de Pedra

 

#CentenárioSaramago




















Com diálogos em Espanhol e legendas em Português / 105 min.



Adaptação para cinema por George Sluizer, realizador holandês, do romance homónimo de José Saramago

Na sequência de um tremor de terra, que nenhum sismógrafo registou, abre-se uma fenda enorme ao longo da fronteira entre Espanha e França. Aos poucos, a Península Ibérica separa-se do continente europeu e parte à deriva no Atlântico, como uma gigantesca jangada de pedra. Portugueses e espanhóis veem o seu quotidiano abalado por essa nova realidade.
Antes do sucedido surgem sinais: Joana traça uma linha no chão que ninguém consegue apagar; o pescador Joaquim lança uma enorme pedra ao mar que desafia a gravidade e não se afunda; um bando de estorninhos acompanha José para todo o lado; num canto perdido de Espanha, Pedro é o único que sente a terra a tremer e da mão de Maria escapa-se um novelo que jamais termina.
Três homens, duas mulheres e um cão que o ocaso reuniu...ou talvez o destino, veem-se à deriva numa longa e imprevisível viagem. Os acontecimentos parecem ter apenas uma finalidade: fazer com que as pessoas se encontrem, desvendando pelo caminho inesperados enigmas.


Poderá (re)ver esta adaptação cinematográfica de A jangada de Pedra na RTP2, dia 28 de agosto, às 00:05.


📌 ... ou dirigir-se à Biblioteca da Camilo: o livro e o DVD estão disponíveis para consulta.



quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Sobre a banalidade do mal - Atividade Interturmas

 

 #WeRemember / #NósLembramos

 




 

No dia 25 de janeiro, às 15:00 os alunos do 11º C deslocaram-se à biblioteca para dinamizarem uma atividade intertumas com o 9º B, inserida na evocação da Memória das Vítimas do Holocausto.

Esta atividade começou em contexto de sala de aula, na disciplina de Filosofia: os alunos de 11º ano visionaram o filme Uma turma difícil (adaptação cinematográfica do livro A turma, de François Bégaudeau). 

 

 

 Trailer do filme Uma turma difícil

 

Posteriormente, realizaram trabalho de pesquisa sobre o tema do Holocausto, em particular sobre a vida e obra de Hannah Arendt e o conceito de banalidade do mal, sobre os testemunhos de sobreviventes dos campos de concentração, e ainda sobre livros, filmes e séries. 

Num terceiro momento, passaram à produção de trabalhos, nomeadamente Quizzes sobre o tema em estudo, com recurso à ferramenta digital kahoot e o registo em vídeo da dramatização de um texto produzido pelos alunos sobre o período da II Guerra Mundial (narrativa adaptada à atualidade).

Finalmente, deslocaram-se à Biblioteca para apresentarem / partilharem os seus trabalhos com os alunos do 9º B, e lhes aguçar o apetite para o visionamento do Filme Uma Turma difícil, que irá ser explorado na aula de Francês, a partir do guião disponibilizado na plataforma do Plano Nacional de Cinema (PNC).

 

 

Folheto distribuído pelos alunos

 

 

 O livro _____________________________________________



  A TURMA

  François Bégaudeau
  Dom Quixote
  232 Páginas
 

SINOPSE

Desrespeito, violência, falta de perspectivas. É com estas condições que a professora de História Anne Gueguen se depara, no Liceu Léon Blum, em Créteil, Paris. Decide então inscrever a sua turma mais fraca do 10º ano no Concurso Nacional da Resistência e da Deportação. A experiência vai transformá-los.
 
Um livro sobre um projeto pedagógico que valoriza a iniciativa, a autonomia e a responsabilidade por parte dos alunos.
 
 
📌  
Este livro está disponível na Biblioteca para consulta e requisição domiciliária.
 

domingo, 17 de maio de 2020

Senti o beijo como o mar deve sentir a onda



Cena do filme de O ano da morte de Ricardo Reis, realizado por João Botelho, protagonizado por Chico Diaz (Ricardo Reis) e Vitória Guerra (Marcenda)





Ricardo Reis pega-lhe na mão direita, não para a cumprimentar, apenas quer guiá-la neste labirinto doméstico, para o quarto nunca, por impróprio, para a sala de jantar seria ridículo, em que cadeiras da comprida mesa se sentariam, um ao lado do outro, defronte, e aí quantos seriam, inúmeros ele, ela decerto não única, seja então para o escritório, ela num sofá, eu noutro, entraram já, estão enfim todas as luzes acesas, a do teto, a da secretária, Marcenda olha em redor os móveis pesados, as duas estantes com os poucos livros, o mata-borrão verde, então Ricardo Reis diz, Vou beijá-la, ela não respondeu, num gesto lento segurou o cotovelo esquerdo com a mão direita, que significado poderá ter o movimento, um protesto, um pedido de trégua, uma rendição, o braço assim cruzado por diante do corpo é uma barreira, talvez, uma recusa, Ricardo Reis avançou um passo, ela não se mexeu, outro passo, quase lhe toca, então Marcenda solta o cotovelo, deixa cair a mão direita, sente-a morta como a outra está, a vida que há em si divide-se entre o coração violento e os joelhos trémulos, vê o rosto do homem aproximar-se devagar, sente um soluço a formar-se-lhe na garganta, na sua, na dele, os lábios tocam-se, é isto um beijo, pensa, mas isto é só o princípio do beijo, a boca dele aperta-se contra a boca dela, são os lábios dele que descerram os lábios dela, é esse o destino do corpo, abrir-se, agora os braços de Ricardo Reis apertam-na pela cintura e pelos ombros, puxam-na, e o seio comprime-se pela primeira vez contra o peito de um homem, ela compreende que o beijo ainda não acabou, que neste momento não é sequer concebível que possa terminar, e voltar o mundo ao princípio, à sua primeira ignorância, compreende também que deve fazer mais alguma coisa que estar de braços caídos, a mão direita sobe até ao ombro de Ricardo Reis, a mão esquerda está morta, ou adormecida, por isso sonha, e no sonho relembra os movimentos que fez noutro tempo, escolhe, liga, encadeia os que, a sonhar, a erguem até à outra mão, agora já se podem entrelaçar os dedos com os dedos, cruzarem-se por trás da nuca do homem, não deve nada a Ricardo Reis, responde ao beijo com o beijo, às mãos com as mãos, pensei-o quando decidi vir, pensei-o quando saí do hotel, pensei-o quando subia aquela escada e o vi debruçado do corrimão, Vai beijar-me. A mão direita retira-se do ombro, escorrega, exausta, a esquerda nunca lá esteve, é a altura de o corpo ter um movimento ondulatório de retração, o beijo atingiu aquele limite em que já não se pode bastar a si mesmo, separemo-nos antes que a tensão acumulada nos faça passar ao estádio seguinte, o da explosão doutros beijos, precipitados, breves, ofegantes, em que a boca se não satisfaz com a boca, mas a ela volta constantemente, quem de beijos tiver alguma experiência sabe que é assim, não Marcenda, pela primeira vez abraçada e beijada por um homem, no entanto percebe, percebe-o todo o seu corpo dentro e fora da pele, que quanto mais o beijo se prolongar maior se tornará a necessidade de o repetir, sofregamente, num crescendo sem remate possível em si mesmo, será outro o caminho, como este soluço da garganta que não cresce e não se desata, é a voz que pede, sumida, Deixe-me, e acrescenta, movida não sabe por que escrúpulos, como se tivesse medo de o ter ofendido, Deixe-me sentar. Ricardo Reis encaminha-a até ao sofá, ajuda-a, não sabe o que fará a seguir, que palavra lhe compete dizer, se recitará uma declaração de amor, se pedirá desculpa simplesmente, se ajoelhará aos pés dela para isto ou aquilo, se ficará em silêncio à espera de que ela fale, tudo lhe parecia falso, desonesto, a única verdade profunda foi dizer, Vou beijá-la, e tê-lo feito. Marcenda está sentada, pousou a mão esquerda no regaço, bem à vista, como se a tomasse por testemunha, Ricardo Reis sentou-se também, olhavam-se, sentindo ambos o seu próprio corpo como um grande búzio murmurante, e Marcenda disse, Talvez não devesse dizer-lho, mas eu esperava que me beijasse. Ricardo Reis inclinou-se para a frente, agarrou-lhe a mão direita, levou-a aos lábios, falou enfim, Não sei se foi por amor ou desespero que a beijei, e ela respondeu, Ninguém me beijou antes, por isso não sei distinguir entre o desespero e o amor, Mas, pelo menos, saberá o que sentiu, Senti o beijo como o mar deve sentir a onda, se fazem algum sentido estas palavras, mas ainda é dizer o que sinto agora, não o que senti então, Tenho estado todos estes dias à sua espera, a perguntar-me o que iria acontecer se viesse, e nunca pensei que as coisas se passariam assim, foi quando aqui entrámos que compreendi que beijá-la seria o único ato com algum sentido, e quando há pouco lhe disse que não sabia se a tinha beijado por amor ou por desespero, se nesse momento soube o que significava, agora já não sei, Quer dizer que afinal não está desesperado, ou que afinal não me tem amor, Creio que todo o homem ama sempre a mulher a quem está a beijar, ainda que seja por desespero, Que razões tem para sentir-se desesperado, Uma só, este vazio, Um homem que pode servir-se das suas duas mãos, a queixar-se, Mas eu não estou a queixar-me, digo só que é preciso estar muito desesperado para dizer a uma mulher, assim, como eu disse, vou beijá-la, Podia tê-lo dito por amor, Por amor beijá-la-ia, não o diria primeiro, Então não me ama, Gosto de si, Eu também gosto de si, E contudo não foi por isso que nos beijámos, Pois não, Que vamos fazer agora, depois do que aconteceu, Estou aqui sentada, na sua casa, diante de um homem com quem falei três vezes na vida, vim cá para o ver, falar-lhe e ser beijada, no resto não quero pensar, Um dia talvez tenhamos de o fazer, Um dia, talvez, hoje não [...]. 


José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago, Editorial Caminho, 1985 [capítulo XI].



sábado, 24 de agosto de 2019

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Literatura & Cinema | Palestra



Os Maias, de Eça de Queirós, são tema de palestra na Camilo






A Dra Anabela Oliveira, professora de Literatura e Cinema na UTAD, profere, hoje, pelas 11:45, no Auditório 2 da Camilo, uma palestra sobre a transposição fílmica de Os Maias - Episódios da Vida Romântica, de Eça de Queirós, por João Botelho.

A atividade está inserida no projeto Cientificamente Provável.


Os Maias - Cenas da Vida Romântica, de João Botelho 



domingo, 17 de fevereiro de 2019

Os Maias, adaptação cinematográfica




   
Trailer




Direção: João Botelho 
Elenco: Graciano Dias, Maria Flor, Filipe Vargas
Duração: 2h14 
M/12



SINOPSE

Carlos da Maia é o último herdeiro de uma família portuguesa tracicional. É formado em medicina pela antiga Universidade de Coimbra, mas prefere gastar o seu tempo na companhia de amigos e amantes, juntamente com a seu grande amigo João da Ega. Mas tudo isso muda quando finalmente se apaixona. 
A história pessoal de Carlos mistura-se com a de Portugal, ambas banhadas pela tragédia e pela comédia.



Singularidades de uma rapariga loura




   
Trailer do filme Singularidades de uma rapariga loura, de Manoel de Oliveira 
(uma adaptação do conto homónimo de Eça de Queirós)


Realização: Manoel de Oliveira 
Elenco: Catarina Wallenstein, Leonor Silveira, Rogério Samora, Ricardo Trêpa 
Duração: 1h04
M/12




SINOPSE

Macário mal chega a Lisboa para começar a trabalhar, apaixona-se perdidamente pela rapariga loira que vive na casa do outro lado da rua. Conhece-a e quer de imediato casar com ela. Mas só mais tarde descobre a “singularidade” do carácter da noiva.


quinta-feira, 8 de março de 2018

Filme do desassossego, de João Botelho


Semana da leitura
Esta manhã, no Teatro de Vila Real


Apresentação e visionamento do "Filme do desassossego", de João Botelho, uma adaptação cinematográfica de O livro do desasssossego, do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares.




Alunos da Camilo que participaram na atividade: 12º A, 12º E, 12º F





quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cinema: Frankenstein






Foi há 200 anos, mas parece que foi ontem que Mary Shelley (1797-1851) escreveu Frankenstein. E parece que foi ontem porque o cinema, desde que foi inventado, nunca mais o largou e ainda foi pródigo na liberdade das suas adaptações.

A primeira versão cinematográfica surgiu em 1910. Desde então, houve cerca de 150 outras versões em diferentes meios.

O cinema virou e revirou, torceu e distorceu, acrescentou, e, uma vez ou outra, foi mais ou menos fiel ao original. No entanto, por razões diversas, há oito filmes de Frankenstein a não perder.


Frankenstein, o Homem que Criou o Monstro (1931), de James Whale

O Filho de Frankenstein (1939), de Rowland V. Lee

Frankenstein Júnior (1974), de Mel Brooks

Festival Rocky de Terror (1975), versão musical de Jim Sharman

Frankenstein de Mary Shelley (1994), de Kenneth Branagh

Gothic – Poetas e Fantasmas (1986), de Ken Russell

Frankenweenie (2012), em formato de animação, de Tim Burton 

Victor Frankenstein (2015), de Paul McGuigan


Time out - ler mais AQUI.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

1 livro, 1 filme: Peregrinação



O livro: Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto


Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 9º Ano de escolaridade. 
Leitura orientada na Sala de Aula





Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouuio... / escrita pelo mesmo Fernão Mendez Pinto. - Em Lisboa : por Pedro Crasbeeck : a custa de Belchior de Faria, 1614.
Fonte: Biblioteca Nacional Digital - http://purl.pt/82






No século XVI, Fernão Mendes Pinto (Montemor-o-Velho, 1509-11 - Pragal, 8 de julho de 1583) percorreu o Oriente, interdito aos ocidentais até aí. De regresso contou as suas aventuras, num relato que muitos consideraram fantasiosa. Hoje é consensual o valor histórico e literário do testemunho desta Peregrinação.

No livro, o autor narra a sua vida, de aventuras e desventuras, e as suas viagens pelo Oriente, ao longo de 21 anos, em relatos com descrições muito pormenorizadas dos povos, das línguas e das terras por onde passou e onde revela admiração e fascínio pela grandiosidade dessas civilizações.

No Ocidente da época ninguém acreditava que o Oriente fosse assim tão rico e tão diferente quanto a tradições culturais. O autor é acusado por muitos de exagero, tendo ficado célebre o dito popular «Fernão, Mentes? Minto!». Contudo, é hoje indiscutível o valor do seu testemunho, escrito com elementos verídicos e de ficção.

Peregrinação torna-se um sucesso, um pouco por toda a Europa da época, pelos conhecimentos amplos sobre o Oriente. Teve dezanove edições, em seis línguas.

Genologicamente, esta obra pertencente à chamada literatura de viagem, próxima do que se poderia chamar crónica de viagem ou diário. 

É o livro de viagens da literatura portuguesa mais traduzido e famoso.




http://ensina.rtp.pt/artigo/a-peregrinacao/
Clicar na imagem para aceder ao documentário sobre Peregrinação da RTP Ensina



Obra aptada a BD por José Ruy. 
Julho de 2015



Obra adaptada por Aquilino Ribeiro
Ilustração de André Letria




O filme: Peregrinação, releitura da obra quinhentista por João Botelho 


Peregrinação, um filme de João Botelho, chegou ao cinema hoje, dia 1 de novembro.








O que diz a crítica

Luís Miguel Oliveira, Público - Ípsilon

Quantas maneiras há de filmar a Peregrinação, quantos filmes (e quais filmes) se podem fazer com o texto de Fernão Mendes Pinto? Esta adaptação de João Botelho, que vem na sequência de outros filmes baseados em textos fundamentais da literatura portuguesa, como o Filme do Desassossego e Os Maias (para não falar das várias incursões de Botelho por este património em momentos diferentes da sua obra), parece a certa altura fazer estas perguntas, e funcionar como se estivesse a propor respostas práticas. E entre elas, é como se só uma hipótese estivesse liminarmente excluída, a do épico solenemente patriótico à la cinema do Estado Novo, com que a Peregrinação de Botelho em momento algum se parece. Para lá disso, a resposta que o filme dá é: muitas, há muitas maneiras de filmar a Peregrinação.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sinais de Fogo: um livro, um filme



Sinais de Fogo, romance de Jorge de Sena






Romance único de Jorge de Sena, parcela de um projeto romancesco de grande dimensão cuja designação genérica seria Monte Cativo, objetivando o recorte de uma geração nascida nos finais dos anos 10 do século XX, Sinais de Fogo abriga em si o despertar de um jovem, entre um grupo de amigos e familiares, para a sexualidade, a política e o fazer poético. De uma erudição e de um rigor literário inexcedíveis, aqui se fixa um olhar sobre o ano de 1936 português, tendo como pano de fundo o início da Guerra Civil de Espanha.


Transcrevemos o artigo de Carlos Câmara Leme sobre este romance:


Um romance de poesia em bruto

Publicado postumamente, longo, inacabado, "Sinais de Fogo" é um dos mais portentosos romances portugueses da segunda metade do século XX. Não há que ter medo das palavras: estamos perante uma absoluta obra-prima. 
A intriga do livro conta-se em poucas palavras. Um jovem estudante nascido no seio da média burguesia lisboeta dos anos 30, Jorge (quem ler "Sinais de Fogo" autobiograficamente passará ao lado da essência do romance), depois das traquinices próprias da adolescência com os seus colegas de estudos, vai, como era habitual, passar as suas férias de Verão à Figueira da Foz. A Figueira - com "diversas Figueiras pequeninas", "umas latentes no fundo do ser, outras evidentes" e em que "em cada uma delas é possível amar-se uma pessoa, por razões próprias deste mundo" - é o espaço geográfico central do livro, que regressará, mais tarde, à capital.
Jorge vai para casa do tio, Justino, um "bon-vivant", jogador inveterado de cartas ou no casino, "seguindo com os olhinhos a bolinha da roleta", que sem nunca ter conseguido seguir a carreira militar tinha tido um caso amoroso rocambolesco que o marcará para toda a vida. Por isso, em casa, tio e tia dormiam em quartos separados e Justino, quando podia, dava uma saltada ao quarto da criada mais apetitosa ou mais à mão.
Jorge não arriba à Figueira num dia qualquer: "Quando cheguei à Figueira, a estação era um tumulto de espanhóis aos gritos, com sacos e malas, crianças chorando, senhoras chamando uma pelas outras, homens que brandiam jornais, e uma grande massa de gente comprimindo-se nas bilheteiras."
Em Espanha rebentara a revolução. Jorge não se impressiona. Sai o mais rapidamente de casa dos tios à procura de Odette, que fora sua "de graça". Odette estava no Porto "por conta de um ricaço...".
Desanimado, Jorge vai à procura dos seus amigos de férias. Há personagens para todas as variações do ser e estar. Uma coisa, porém, os une: a descoberta do amor, da(s) mulhere(s), sejam elas prostitutas ou sérias, que começa logo no início do livro com uma orgia noctívaga, a libertinagem, a raiar o pornográfico.
À espreita - assumido também pela homossexualidade de Rufininho -, estamos perante um romance de iniciação: "Eu era uma criança. Os meus amigos eram umas crianças. Todos nós era como se tivéssemos afinal só dezasseis anos ainda. E não seria que quase todos os homens continuavam assim?"
Com a Guerra Civil de Espanha como pano de fundo, eis que aparecem em casa do tio Justino dois espanhóis. Contra a pardacenta ditadura do senhor de Comba Dão ("Está tudo depravado. Razão tem o governo em dizer que chegou a hora da limpeza. O Salazar, agora, vai pôr tudo na ordem"), Justino faz ponto de honra em protegê-los, preparar o salto, por barco, para Espanha, com a colaboração de uma personagem menor do romance, um funcionário do Partido Comunista Português, e a morte de um amigo que participa na fuga.
Porém, o eixo central do romance é a explosão de uma paixão: a de Jorge por Mercedes, que já se adivinhava no Verão anterior. É em torno dela que vai desaguar toda a poesia bruta (brutal mesmo) de "Sinais de Fogo".
"Eu queria-a minha, por que preço fosse"
Entregando-se a dois homens ao mesmo tempo, Mercedes, que está noiva dos amigos de Jorge, abre um sinal de fogo indizível que acompanhará Jorge: há uma obsessão e uma ultrapassagem a que Jorge não resiste. Mesmo que o Almeida a possuísse, Jorge remói, sangrando: "Que o diabo levasse tudo o que quisesse, todas as preocupações, todos os ciúmes, todas as palavras dadas por conta dele. Eu queria-a minha, por que preço fosse." Almeida podia ir com ela para a cama e, na mesma tarde, Jorge também se entregaria a ela.
Quando está com os amigos, ou vê o mar, ou quando pratica mais orgias - mesmo retirando delas prazer -, o seu ser (e o nada dele) são permanentemente transfigurados em efabulações constantes, umas de carácter filosófico-metafísico, outras de prosa poética que se lançam à poesia no sentido literal do termo: "Sinais de fogo, os homens se despedem, exaustos e tranquilos, destas cinzas frias. (...) um breve instante, gestos e palavras, ansiosas brasas que se apagam logo".
Não é verdade, não se apagam. Mesmo quando tudo acaba e Mercedes parte para o Porto - e Jorge se interroga, e nós com ele ainda hoje: "Sabes... a gente conheceu-se cedo de mais, ou tarde de mais" -, são "as ansiosas brasas" da poesia que ecoam. Em verso: "Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,/ recebo gratamente como se recebe/ não a morte ou a vida, mas a descoberta/ de nada haver onde um de nós não esteja."
Já em Lisboa, na companhia de Luís (o marinheiro que quer perder as graças no mar, não o da Figueira nem o da pesca do bacalhau, mas o mar do mundo), a voz de Jorge ecoa, agora em prosa, como se fosse um instrumento que, no meio de uma orquestra, envolvesse todo o tempo e espaço: "Depois, deitado na cama, sentia-me a arder (....) Não me sentia, porém, doente, nem sabia que estava vivo ou morto, nem isso tinha importância. Mesmo o dizer que eu 'estava' não é exacto, porque na suspensão de ser, que era a minha, o 'estar' não tinha sentido algum."
Fulgurante, Jorge de Sena, já no fim do romance, toca, subtilmente, mais uma vez no teclado: "Só me diriam alguma coisa outros versos, os livros que relatassem, mesmo imaginosamente, a vida."
"Sinais de Fogo" está entre esses versos. E a vida.
Carlos Câmara Leme, "Um romance de poesia em bruto", Sinais de Fogo na Série Y - Público.pt., 2009. 




O artigo de Orlando Nunes de Amorim, "Sinais de uma Guerra: Trauma e Crise Histórica em Sinais de Fogo, de Jorge de Sena", pode ser acedido AQUI. 




Sinais de Fogo, adaptação cinematográfica de Luís Filipe Rocha

Trailer do filme:





Ficha Técnica: 
Realização: Luís Filipe Rocha
Argumento: Luís Filipe Rocha e Izaías Almada
Produtor: Tino Navarro
Música: Enrique X. Macías
Ano: 1995
Género: Romance, Drama
Duração: 101’

Elenco:
Diogo Infante (Jorge)
Ruth Gabriel (Mercedes)
Marcantonio Del Carlo (Ramos)
José Airosa (Rodrigues)
Rogério Samora (Almeida)
Henrique Viana (Uncle)
Caroline Berg (Aunt)
Manuel Pereiro (D. Juan)
Alberto Arizaga (D. Fernando)
Joaquim Leitão (Party Officer)
Álvaro Correia (Matos)
Mário Redondo (Macedo)
Miguel Assis (Rufininho)
Glicínia Quartin (Aunt’s Mother)
Cristina Carvalhal (Maid)



terça-feira, 31 de maio de 2016

1 livro, 1 filme: Livro do Desassossego


Adaptação cinematográfica do livro de Bernardo Soares







Filme do Desassossego é um filme português realizado por João Botelho, estreado em 29 de Setembro de 2010. O filme baseia-se no Livro do Desassossego, do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares, que está disponível na Biblioteca CCB.


Edição da Assírio & Alvim, 2012



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Os Maias, de Eça de Queirós


Como um romance do século XIX continua atual...




 http://ensina.rtp.pt/artigo/os-maias-como-um-romance-do-seculo-xix-continua-atual/


A redação daquela que viria a ser considerada a obra-prima de Eça de Queirós começou em 1880. Durante cerca de oito anos, com a genialidade que lhe é reconhecida, teceu uma intriga amorosa com personagens trágicas e cómicas, que ficaram para a posteridade.

Centrada no amor incestuoso de Carlos e Maria Eduarda, a obra de Eça de Queirós é também uma crónica da sociedade lisboeta do início do século XIX. A pequena burguesia, “refugiada num cosmopolitismo vazio”, a elite política, “oportunista e provinciana, fechada sobre a defesa dos seus próprios interesses”, o jornalista “de escândalos, da intriga e da calúnia”, são mundos amplificados em grandes personagens, esculpidas na finura do humor satírico queirosiano e que ficaram caricaturas de todos os tempos, como se Eça tivesse visionado o futuro do país que amava.

É essa atualidade que o historiador e musicólogo Rui Vieira Nery encontra e reencontra no clássico de Eça de Queirós e na sua desencantada galeria de personagens onde prefiguram o esgrouviado João da Ega, o mesquinho Dâmaso, o corrupto Palma Cavalão, o falhado Eusebiozinho, entre outras: “uma análise profunda do que é a identidade portuguesa de uma época contemporânea e com enorme paralelismo com a situação atual”, esclarece. É por isso que “Os Maias – Episódios da Vida Romântica” é o livro da sua vida.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Um livro, um filme: adaptação ao cinema de mais um romance de Saramago


   






  O Homem Duplicado, de José Saramago, foi adaptado ao cinema por Denis Villeneuve. A antestreia do filme, com o título homónimo, está marcada para dia 17 de junho, às 21h30, no Cinema São Jorge, em Lisboa.







     
O ROMANCE...
Sinopse

 Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim». Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pelos do corpo».
Depois desta inesperada descoberta, de um homem exatamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem.
As primeiras páginas

 

O homem que acabou de entrar na loja para alugar uma cassete vídeo tem no seu bilhete de identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso, nada menos que Tertuliano Máximo Afonso. Ao Máximo e ao Afonso, de aplicação mais corrente, ainda consegue admiti-los, dependendo, porém, da disposição de espírito em que se encontre, mas o Tertuliano pesa-lhe como uma lousa desde o primeiro dia em que percebeu que o malfadado nome dava para ser pronunciado com uma ironia que podia ser ofensiva.
      É professor de História numa escola de ensino secundário, e o vídeo tinha-lhe sido sugerido por um colega de trabalho que no entanto não se esquecera de prevenir, Não é nenhuma obra--prima do cinema, mas poderá entretê-lo durante hora e meia.
      Na verdade, Tertuliano Máximo Afonso anda muito necessitado de estímulos que o distraiam, vive só e aborrece-se, ou, para falar com a exatidão clínica que a atualidade requer, rendeu-se à temporal fraqueza de ânimo ordinariamente conhecida por depressão. Para se ter uma ideia clara do seu caso, basta dizer que esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou. Em troca não ficaram da mal sucedida união filhos que andassem agora a exigir-lhe grátis o mundo numa bandeja de prata, mas à doce História, a séria e educativa cadeira de História para cujo ensino o chamaram e que poderia ser seu embalador refúgio, vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim. Para temperamentos nostálgicos, em geral quebradiços, pouco flexíveis, viver sozinho é um duríssimo castigo, mas uma tal situação, reconheça-se, ainda que penosa, só muito de longe em longe desemboca em drama convulsivo, daqueles de arrepiar as carnes e o cabelo. O que por aí mais se vê, a ponto de já não causar surpresa, é pessoas a sofrerem com paciência o miudinho escrutínio da solidão, como foram no passado recente exemplos públicos, ainda que não especialmente notórios, e até, em dois casos, de afortunado desenlace, aquele pintor de retratos de quem nunca chegámos a conhecer mais que a inicial do nome, aquele médico de clínica geral que voltou do exílio para morrer nos braços da pátria amada, aquele revisor de imprensa que expulsou uma verdade para plantar no seu lugar uma mentira, aquele funcionário subalterno do registo civil que fazia desaparecer certidões de óbito, todos eles, por casualidade ou coincidência, formando parte do sexo masculino, mas nenhum que tivesse a desgraça de chamar-se Tertuliano, e isso terá decerto representado para eles uma impagável vantagem no que toca às relações com os próximos. O empregado da loja, que já retirara da estante a cassete pedida, inscreveu no registo de saída o título do filme e a data em que estamos, e logo indicou ao alugador a linha onde teria de assinar. Traçada após um instante de hesitação, a assinatura deixou ver apenas as duas últimas palavras, Máximo Afonso, sem o Tertuliano, mas, como quem havia decidido esclarecer por adiantamento um facto que poderia vir a ser motivo de controvérsia, o cliente, ao mesmo tempo que 
as escrevia, murmurou, Assim é mais rápido. Não lhe serviu de muito ter-se sangrado em saúde, porquanto o empregado, ao mesmo tempo que ia transpondo para uma ficha os dados do bilhete de identidade, pronunciou em voz alta o infeliz e cediço nome, ainda por cima em um tom que até mesmo uma criatura inocente reconheceria como intencional.
SARAMAGO, José (2014). O Homem Duplicado, Porto: Porto Editora, pp. 9-11 


O FILME...

 Adaptado livremente a partir do livro homónimo de José Saramago, O Homem Duplicado é um thriller surpreendente e provocante sobre dualidade e identidade.





Adam (Jake Gyllenhaal) é um instável professor universitário que vive refém de uma monótona rotina diária. Uma noite, enquanto vê um filme, descobre a existência de um ator exatamente igual a si. Obcecado por conhecer o seu sósia, parte à descoberta desse outro homem forçando um encontro com consequências imprevisíveis não só para eles mas também para as suas companheiras: Mary (Mélanie Laurent) e Helen (Sarah Gadon).
 





O trailer: