quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sai mais um sobre “A Odisseia”

 

#aLerMaiseMelhor  #LiteraturaeCinema






Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de ser a nossa época a viver o fim de uma era. 

Saiu meia crítica de A Odisseia do Nolan com a lição bem decorada, e é sempre comovente ver tanta gente a concordar tão depressa. O filme, explicam-nos, é um aviso sobre a hospitalidade: quem maltrata o estrangeiro arrisca-se a perder a civilização, e convinha que certos Governos tomassem nota. A lição é bonita, é útil (e tem, já agora, a minha concordância), e padece de um único defeito, que é o de o filme dizer uma coisa bastante pior. Para se pregar a bondade para com o estranho é preciso, antes de mais, um estranho, uma linha a separar o civilizado de cá do perigo de lá. E Christopher Nolan gasta três horas de fita a apagar essa linha com uma paciência de restaurador.

Explico-me, porque isto pede um desvio de três mil anos. O fim do mundo antigo tem nos manuais um culpado com nome de romance de cordel, os Povos do Mar, batizados assim em 1855 por um egiptólogo francês que precisava de pôr um rótulo em cima do que não sabia explicar. Por volta de 1200 a.C., qualquer coisa desce sobre o Mediterrâneo e apaga-o: os hititas somem-se, as cidades ardem por ordem, e em Ugarit as últimas cartas ficaram cozidas num incêndio que as deveria ter comido, e ainda hoje se leem. Falam de barcos à vista e de um socorro que não vinha. Ramsés III gravou em Medinet Habu a vitória sobre a tal horda, com a letra grande de quem se safou à justa, e terá dormido descansado, na convicção de que deixava o assunto arrumado para a eternidade. Seguem-se quatro séculos a que a arqueologia chama, sem pudor nenhum, Idade das Trevas.

Ora, nas listas que os escribas do faraó fizeram dos Povos do Mar há nomes que caem mal no estômago de um grego. Ekwesh, que muitos leram como aqueus, e denyen, onde ressoam os dânaos de Homero. A filologia é, claro, feita de areia movediça e as identificações discutem-se há século e meio, mas a hipótese, uma vez posta, já não se despega: no meio da frota que acabou com a Idade do Bronze vinham, talvez, os heróis de Troia a caminho de casa, e o monstro avistado das muralhas era o vencedor a regressar, tão desfeito pela guerra que a casa já o não conhecia, nem ele a ela. Nolan pega nesta nota de rodapé da egiptologia e faz dela o fim do filme. “Os Povos do Mar somos nós”, diz Ulisses a Penélope.

Repare-se então no santo que a crítica escolheu para o altar. O Ulisses que se quer promover a cartaz de boas práticas desembarca em Ítaca, encontra a casa cheia de hóspedes a comer-lhe o gado e a cortejar-lhe a mulher e resolve o assunto matando toda a gente, de modo que o padroeiro do bem receber vem a ser um anfitrião que faz uma chacina na própria sala de jantar, para castigar noutros, por atacado, o crime que ele mesmo vendera a retalho à porta de Troia. Porque a xenia que os pretendentes espezinham e que ele vinga a ferro estava longe de ser uma delicadeza de época. Era, na verdade, o que segurava aquele mundo, a maneira de dois desconhecidos poderem conversar sem que se degolassem, o contrato antes de haver minutas, e foi justamente Ulisses quem ensinou o Mediterrâneo inteiro a falsificar-lhe a assinatura. Depois do cavalo, nenhum presente se voltou a abrir sem antes se abanar, o que fica caro e cansa.

A bem da verdade, é preciso notar que a razão do colapso da civilização é uma invenção do realizador, coisa que decerto irrita algum purista e que a mim me parece a melhor decisão do filme. A tradição fazia do caso um assunto privado, com a culpa atribuída a Atena que amaldiçoava o regresso dos gregos por lhe terem sujado os templos, a conta apresentada aos homens, um a um, e nunca à época. O casamento do mito com o colapso da Idade do Bronze foi celebrado pelo Nolan, sem consulta às famílias, e o anacronismo interessa porque fala muito mais de 2026 do que de 1200 a.C.. Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de sermos a viver o fim de uma era. Não consta que tenha havido época que se julgasse outra coisa (e algumas até acertaram, o que estraga a estatística).

De resto, o cavalo nem foi a maior fraude daquela guerra. E o filme assume a primeira pela boca de quem a cometeu. O Agamémnon de Nolan olha para Troia e vê uma alfândega, a cidade sentada à boca dos estreitos a cobrar portagem ao trigo e ao estanho que passavam para o mar Negro. Era um problema comercial à espera de pretexto, e o pretexto chegou com a cara de uma rainha. Helena valia pouco como política alfandegária e valia tudo como causa (uma mulher roubada arma mil navios, uma pauta aduaneira dificilmente arma um bote). Também nisto o realizador filma o presente com figurinos de bronze, porque o expediente nunca mais saiu de serviço. As torres caem em Manhattan e a fatura segue para Bagdade, que as viu cair pela televisão, como toda a gente; choram-se os enforcados pelo regime de Teerão de véspera, para ao outro dia se discutir, com a lágrima ainda ao canto do olho, o mapa dos alvos. A vítima é verdadeira, o luto até pode sê-lo, e o que se lhe segue já vinha desenhado de trás, à espera de quem o justificasse. A guerra por procuração sentimental já existiria antes de Agamémnon, e a ele deve-se apenas o modelo de negócio.

O filme teve a crueldade de pôr uma cara grega aos Povos do Mar. A frota que se aproxima traz a nossa, e o que os vigias avistam das muralhas é o que mandámos para fora do mundo, de volta com juros e já sem conhecer a casa. Nos manuais, a idade que se seguiu ao incêndio ficou com o nome de Trevas, e do mar, ao que tudo indica, veio pouca; construiu-se à mão, por gente engenhosa, entre uma causa que era uma cobiça e um presente que era um exército, dois embrulhos aceites pela mesma razão. A de virem bem feitos. 

Maria Castello Branco*. "Sai mais uma sobre 'Odisseia'", Expresso, 28 julho 2026 

Comentadora política da RTP Notícias, autora do podcast Lei da Paridade

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

De que se alimentam os grandes modelos de IA?

 

#inteligenciaartificial

Estima-se que um quarto das fontes de IA são livros



 

Livros, web, redes sociais e artigos científicos na corrida para treinar LLMs (Modelos de Linguagem de Grande Escala)

 

Uma análise do cientista de dados Olivier Khatib, CEO da T1U.ai, estima a distribuição das principais fontes de dados usadas para treinar cinco dos modelos de linguagem mais importantes – ChatGPT (OpenAI), Claude (Anthropic), Gemini (Google), Llama (Meta) e Grok (xAI) – com base na documentação pública das empresas, dos seus relatórios técnicos e outras evidências disponíveis.

O estudo mostra que, embora todos esses modelos se baseem numa combinação de fontes semelhantes, cada um apresenta uma estratégia distinta de recolha e ponderação de dados que reflete tanto os seus objetivos técnicos como as forças das organizações que os desenvolvem.

Um dos resultados mais marcantes é que o Llama, o modelo da Meta, teria obtido cerca de um quarto de seus dados de treino a partir de livros, uma proporção maior do que a estimada para qualquer um dos outros modelos analisados. Isso é particularmente relevante porque o uso de livros protegidos por direitos autorais é atualmente um dos principais focos de litígio entre empresas de IA e detentores de direitos. Enquanto autores, editoras e organizações culturais entraram com inúmeros processos por uso não autorizado de suas obras, a investigação judicial também revelou o armazenamento de milhões de livros digitalizados para o treino de alguns modelos, intensificando o debate sobre os limites legais da aprendizagem de máquina e o uso legítimo de conteúdo protegido.

O estudo também mostra diferenças significativas entre os diferentes sistemas. O Claude destaca-se por incorporar uma proporção relativamente alta de artigos científicos e publicações académicas, consistente com a orientação que a Anthropic deu ao seu modelo para tarefas analíticas, pesquisa e raciocínio complexo. Por sua vez, o Gemini depende mais fortemente de dados provenientes do rastreamento web, aproveitando o enorme ecossistema de informações indexado pela Google para construir um modelo com ampla cobertura temática e linguística. No caso do Grok, desenvolvido pela xAI, o peso dos dados das redes sociais destaca-se, especialmente devido à integração com o ecossistema X (anteriormente Twitter), que oferece ao modelo acesso privilegiado a conversas e eventos recentes. O ChatGPT apresenta uma mistura mais equilibrada de fontes, distribuindo seu treino entre conteúdo web, livros, código, documentos e outras recolhas de dados.



Fonte predominante por modelo

ChatGPT (OpenAI) - Mistura equilibrada de páginas web, livros, código e documentos públicos.
Claude (Anthropic) - Maior presença de artigos científicos e literatura académica.
Gemini (Google) - Predominância do rastreamento da web.
Llama (Meta) - Alta proporção de livros (cerca de um quarto do conjunto de treino).
Grok (xAI) - Uso significativo das redes sociais, especialmente conteúdo do X (Twitter).

Além das diferenças quantitativas, o relatório ilustra a crescente importância da diversidade das fontes de treino como fator estratégico no desenvolvimento de modelos fundamentais. Os livros fornecem profundidade concetual e riqueza linguística; os artigos científicos fornecem conhecimento especializado e rigor técnico; o conteúdo do site oferece uma amplitude temática; as redes sociais incorporam atualidades e linguagem coloquial; enquanto outras fontes, como repositórios de código ou documentos públicos, enriquecem capacidades de programação e resolução de problemas. Essa combinação explica em grande parte as diferentes forças e limitações observadas entre os modelos atuais.

Por fim, o artigo coloca esses dados no contexto da crescente controvérsia legal sobre o treino de inteligência artificial. Processos por violação de direitos autorais continuam a multiplicar-se, especialmente contra empresas como a Meta e a Anthropic, à medida que os tribunais começam a restringir as práticas legais de recolha e armazenamento de dados e a clarificar as que infringem a propriedade intelectual. Como resultado, a composição dos conjuntos de treino já não é apenas uma questão técnica, tornando-se na questão central para o futuro da regulação, transparência e sustentabilidade do desenvolvimento da IA generativa.

Buchholz, Katharina. Estima-se que um quarto das fontes de IA de lhamas vieram de livros. Statista, 27 de julho de 2026. Disponível em: Statista

domingo, 26 de julho de 2026

360º Património Cultural

 

 

 #PatrimónioCultural

 



Já são 67 visitas virtuais a 90 espaços patrimoniais, em 45 concelhos, que tornam a nossa História, Cultura e identidade acessíveis a partir de qualquer lugar. GRATUITAMENTE!

Através de diversas formas de navegação — por tema, localização, período histórico ou pesquisa direta — pretende-se aproximar o público do património cultural, facilitando a descoberta, a exploração e a valorização da herança cultural portuguesa. 

Visite o Portal.

sábado, 25 de julho de 2026

Capa de honras - um símbolo de Trás-os-Montes

 


Leopoldina Nobre, ou Lili, como é conhecida em Miranda do Douro, trabalha com a irmã, Sandra Nobre, e a mãe, Maria Suzana de Castro. Juntas são das poucas artesãs deste ofício, fazendo os trajes dos pauliteiros e pauliteiras, assim como a capa de honras. O traje, já usado pelo Papa Francisco, é um dos símbolos da região do nordeste transmontano, sendo utilizado apenas em ocasiões especiais. Atualmente, para além desta família, apenas mais uma mulher produz este tipo de artesanato.

A capa de honras foi, em tempos, uma representação de estatuto social. O clima da região, com grandes amplitudes térmicas, levou a que os pastores criassem uma peça de vestuário que os protegesse dos invernos longos e frios. Com “nove meses de inverno e três de inferno”, dizia-se, os populares de Miranda do Douro criaram trajes extraídos de materiais naturais que os animais produziam. Os pastores tosquiavam os animais e retiravam o lixo que a lã destes podia ter apanhado no campo. Depois de lavada com água quente, pintava-se a lã com recursos naturais. “A cebola e a sua casca dava laranja, se não me engano”, relembra Alice Martins, de 57 anos, funcionária da Casa da Cultura Mirandesa (CCM), que recorda os tempos em que a lã era tratada de forma totalmente artesanal. O pardo, conhecido como burel em outras regiões do país, era trabalhado pelas mulheres nos teares da região.
 
Esta peça de vestuário, à base de lã, passa por um conjunto de processos de transformação antes de ser possível trabalhá-la. O tecido, agora produzido industrialmente, é cortado em motivos geométricos para produzir os recortes decorativos. “É no cabeção, na ponta do capuz e na honra que os elementos decorativos são mais elaborados, com recurso ao mesmo tipo de bordado aplicado a dois panos, com reservas abertas à tesoura e pespontado, pendendo também franjas largas”, segundo a completa explicação disponível no Museu da Terra de Miranda. Os recortes, que requerem precisão, são “bem fáceis”, para Leopoldina. “É o hábito, é o meu trabalho. Nada é difícil porque todo o nosso trabalho é feito com gosto. Independentemente se é um casaco, uma capa, uma carteira ou uma almofada”, acrescenta.

Além de Leopoldina Nobre, há poucas artesãs a criar a capa de honras: ​Maria Suzana de Castro e Sandra Nobre são duas delas, e as três trabalham juntas. A real origem da capa, em absoluto, é desconhecida, mas admite-se que tenha sido criada na Idade Média, devido às semelhanças com a capa de asperges eclesiástica e os motivos decorativos — e, inclusive, com o tradicional capote dos Açores. “Nos anos 70-80, deixou-se de usar a nossa cultura. Era uma vergonha sermos do Planalto Mirandês. As pessoas emigraram muito porque a pobreza, digamos, era um bocadinho grande. A minha mãe sempre foi costureira e começou a trabalhar nesta matéria-prima. Numa brincadeira para a escola, fez-nos uma mochila, casacos e uma saia. As pessoas começaram a ver o que fazíamos e gostaram do nosso trabalho”, conta Leopoldina, de 48 anos.
 
 

Homens com a capa de honras


Devido à crescente escassez de ovelhas na região, como conta Alice Martins, da CCM, a maioria dos tecidos utilizados são hoje produzidos industrialmente. Mas Leopoldina vê os aspetos positivos nisso: “A matéria-prima industrializada fica muito mais normal, mais maleável. É 100% de lã, mas não fica rígido”, conta. Apesar de ser uma arte mirandesa, a desertificação do interior e a dificuldade em encontrar lã mirandesa, obrigaram as artesãs a importar o burel da Serra da Estrela. Para além deste, as artesãs utilizam também o surrobeco, que “é a mesma matéria-prima, mas é relativamente mais fino. Costuma-se fazer saias e camisas”, explica a mestre deste ofício.

Tradição e mudança

Leopoldina confessa que não é apologista da mudança, mas acredita que há certos aspetos ligados à cultura e à arte mirandesa que deviam avançar. Dá como exemplo a língua mirandesa, que estava a desaparecer até ser integrada no currículo escolar. Compreende que esta medida foi essencial para não se perder a tradição, mas não concorda em alterar a forma como a cultura é feita.
 
 
 

A capa, uma tradição transmontana


Em 2017, Palmira Falcão, uma artesã de 70 anos e também natural de Sendim, foi desafiada a produzir a primeira capa para as mulheres: “Fiz o modelo e toda a gente gostou. A presidente da Câmara [de Miranda] anda sempre com ela”, recorda ao Expresso, orgulhosa. No entanto, o tema divide opiniões. Apesar de pouco mudar na estrutura da capa, Leopoldina recusa-se a chamar-lhe capa de honras: “A capa de honras é só de homem. Podemos fazer para as mulheres, se alguém pedir, mas não se vai chamar capa de honras, para mim não”. Palmira, que se dedica a este ofício há 30 anos, discorda abertamente: “Antigamente as mulheres também não usavam calças, agora usam. Uma mulher é tão honrada como um homem”.

Apesar das divergências, Palmira acredita que há espaço nesta arte para as diferentes visões. Atualmente, a artesã dá formações a iniciantes em Miranda do Douro, focando-se em transmitir este legado para que a cultura não morra: “O que eu queria era que toda a gente aprendesse. [Este traje] representa todos os portugueses, toda a gente que o queira usar”, afirma.

Além desta peça simbólica, Leopoldina, que faz a maioria dos trajes dos pauliteiros e pauliteiras da região, lembra que já se recusou a fazer trajes porque lhe pediram algo diferente. “Porque é que se vai mudar os trajes dos pauliteiros se toda a vida foram aqueles?”, questiona.

As artesãs demoram cerca de 15 dias a terminar uma capa de honras, cujo preço pode variar entre €1200 e €1500

A artesã de Miranda já trabalhou com o designer francês Christian Louboutin, criando uma carteira, a Portugaba, para uma das suas coleções, que chegou a custar €1659. A artesã e a sua família têm conhecimento de que há quem tente copiar a arte para a vender por milhares de euros. É também por isso que não vende online. “Artesanato a nível nacional ou mundial não se pode comprar online, tem de se ver, de se apaixonar e amar à primeira.” Exemplifica com uma situação relacionada com um modista americano que vendia peças inspiradas no ofício a 15.000 euros, mas não se assusta com isso, nem com cadeias de fast fashion: “Não interessa o que custa. O meu cliente sabe que não vai encontrar isso em mais lado nenhum”, afirma Leopoldina.

Tem uma loja em Miranda do Douro há cerca de 26 anos, mas antes já tinha uma em Sendim, uma freguesia do concelho, que está aberta há cerca de 35 anos. Participa em muitas feiras internacionais e nacionais de artesanato, mas são os portugueses quem mais compram as suas peças: “As pessoas admiram e compram, e não encontram isto em mais nenhum lado. É como um pintor, tens aquela identidade. Consegue-se diferenciar completamente o nosso trabalho em qualquer sítio”, acrescenta.

A capa de honras, que pode custar entre €1200 e €1500, é a peça mais demorada e trabalhada que fazem. Entre as três, demoram cerca de 15 dias a acabar uma capa. No entanto, o tempo compensa para ver a reação do cliente: “Para mim é uma honra dar uma capa de honras ao Papa e ao Presidente da República. O próprio Papa Francisco mandar uma grande carta de agradecimento, com o meu nome, o da minha mãe, entregue pelo senhor Bispo. Isso é o que interessa e dá gosto ao nosso trabalho, seja para mim ou outra pessoa”, afirma. Confessa que mais do que gostar do seu trabalho, gosta de fazer parte da mudança de mentalidade relacionada com a região. “Somos muito ricos, mais do que qualquer concelho. Ninguém tem um folclore tão rico como o nosso em relação a trabalhos.” Tem prazer em dar uma nova vida a objetos antigos. Conta que, há uns tempos, uma senhora lhe trouxe um saco de trigo e transformou-o numa manta. É este “renascer”, como lhe chama, que lhe traz satisfação.
 

Tudo sobre a capa
 
 


 
 
O que é?

De acordo com o Museu da Terra de Miranda, uma capa de honras “apresenta uma forma base em semicírculo, aplicando-se nesta uma sobrecapa curta (até aos cotovelos) e um capuz. A abertura da capa é guarnecida frontalmente com uma aplicação bordada a dois panos (originalmente um burel de lã), recortado e pespontado (técnica do picado), geralmente recorrendo a motivos padronizados de origem geométrica, fitomórfica, ou em ‘corações’”.

Quanto custa?

Uma capa de honra tradicional, em burel e adornada com bordados, poderá custar entre mil e 1200 euros.

Como nasceu?

As origens da capa de honras mirandesa perdem-se no tempo. Ainda assim, e de acordo com o Museu da Terra de Miranda, é provável que o seu surgimento remonte à Idade Média, “atendendo à grande proximidade desta peça de vestuário com a capa de asperges eclesiástica e aos motivos artísticos recorrentes”.
 
Margarida Nogueira. "O que é uma capa de honras: mais do que uma peça de roupa, um símbolo de Trás-os-Montes", Expresso, 23 de julho de 2026. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Antero de Quental em 2026

 

 #AnterodeQuental #aLerMaiseMelhor

 




Imaginámos o poeta e pensador português a descobrir um Portugal mais rápido, tecnológico e moderno. Mas a sua pergunta continua atual: estamos mais acordados?
 
Antero não deixou apenas poesia. Deixou inquietação, pensamento e perguntas.
E algumas perguntas também são legado. 
 

É a responsabilidade, meu caro

 

 #literaciadosmedia 






"Responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não."


Deixem-me bombardear-vos com opiniões avulsas e pensamentos voláteis sobre a tendência do momento. Bom, primeiro tenho de ir ver qual é desta vez, ora deixa cá ver, ora deixa cá ver, muito bem, pode ser a Odisseia que ninguém leu, mas que de repente agita as águas do Verão.

Calma, estou a brincar. Nada me interessa menos. Não vos maçarei com longas dissertações sobre fronteiras da história e da ficção e do que supostamente é lícito concluir sobre a cor da pele de Helena de Tróia. Não vos impingirei o milésimo debate étnico-ideológico mascarado de conversa sadia sobre uma obra que jaz adormecida nas catacumbas, ora injustamente esquecida, ora incensada com exagero de complexo intelectual. Sobretudo, não contribuirei para a parolice de trazer a saga de Ulisses para o único terreno em que tiktokers e instagramers sabem navegar: então e tu, gostaste mais do livro ou do filme?

Permitam-me, em vez disso, trazer-vos ao terreno do sonâmbulo (se não mesmo falecido) Correio do Leitor. Os companheiros da velha guarda jornalística lembram-se bem. Tirando o pontual telefonema de insulto breve ou pedido de informações, as cartas dirigidas à Redação eram a única forma de termos o que hoje responde pelo pomposo feedback, que é como que diz “o que o nosso público pensa de nós”.

A antiga escrita à mão traz uma pequena dificuldade. Por exemplo: o ódio é mais difícil de exprimir. Desenhar à mão as letrinhas todas para chamar filho desta e daquela, mais mandar-nos para o membro sexual masculino ou para a vagina da nossa progenitora, é coisa que pede algum tempo e paciência, e fica assim como que um espaço vazio entre a raiva que se sente e o que realmente passou para o papel.

Por isso o maravilhoso computador, ou o ainda mais deslizante teclado pequenito do telemóvel se tornaram a arma mais eficiente do ódio. Toda uma sociedade sabe hoje insultar e agredir com dedinhos rápidos. A precipitação tornou-se fácil e alimentou a irreflexão. Sabemos que parte do planeta acorda arrependida de uma mensagem que enviou às quatro da manhã. Com as cartas de antigamente havia tempo de voltar atrás e decidir não lamber o selo nem a enfiar na ranhura do correio.

E assim vamos, neste maravilhoso potencial de purga de frustrações. Eu não sou mais do que os outros e por isso também recebo o meu correio. Entre uma grande parte de lixo e asco, lá vem de vez em quando uma pergunta legítima. Esta semana destaco esta: ainda não percebi bem porque faz tanto paralelismo entre lógica de redes sociais e algum do jornalismo atual, quer explicar melhor? Quero, pelo menos quero tentar.

Aconteceu no início do mês, aquele autocarro que esmagou duas pessoas no Cacém. Liguei o televisor por volta da hora do almoço e toda a TV cavalgava a notícia o mais que podia. Poderia ser qualquer dos canais, como explicarei, mas no caso passava eu pela CNN e o jornalista falava em tom sério e grave, compenetrado, sobre imagens que eu, na altura, desconhecia.

Havia, pelos vistos, um vídeo de má qualidade do momento logo após a tragédia. Alguém que se pôs a filmar e apanhou fumo, confusão, pessoas a correr e sobretudo pessoas a gritar, o que dava bem a dimensão do choque que ali se gravava. Os gritos eram de quem se apercebia dos corpos das duas vítimas.

E agora o essencial, a espantosa impossível contradição que se instalou no jornalismo e parece ter criado raízes para nunca mais desaparecer. Repetir e repetir até à exaustão as imagens e sons mais horripilantes, desde que acompanhado de avisos de “conteúdo sensível”.

Depois, em cima disto, a cereja da suprema ironia. O jornalista entrevista uma psicóloga, a quem pergunta quais os factores mais terríveis para a cabeça das vítimas e familiares e população em geral na sequência de tragédias destas? Bom, para começar, tenta a psicóloga, as televisões deveriam travar o carrossel contínuo de imagens em repetição com os gritos aflitos. Isto poderia (deveria?) levar a TV a refletir naquele mesmo momento, e a parar o processo, já que a especialista convidada deu o conselho? Pois, sim, abelha. Se o parecer de um especialista da saúde mental choca com o interesse da competição jornalística, adivinhem quem perde e quem ganha essa contradição?

Aqui não há muitos anos, tive na SIC uma das mais acaloradas discussões entre colegas. Porque fizemos exatamente o mesmo com imagens terríveis de agressões entre alunas de uma escola. Repetição até à exaustão do fator potencialmente traumatizante.

E agora a resposta ao que me perguntou o leitor: o jornalismo não pode arrastar-se para uma lógica de rede social que busca cliques a todo o segundo quando está em causa a nossa responsabilidade social. Sim, a responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não. Não devemos, não podemos. Quanto mais a entregarmos, mais nos afundaremos num jogo para que nos querem arrastar, a fim de um dia nos esfregarem na cara que moralmente não somos melhores do que ninguém.

Rodrigo Guedes de Carvalho. É a responsabilidade, meu caro, Expresso23 julho 2026 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Camões 500 anos

 

 #500anosCamões  #VouTeCantar  #aLerMaiseMelhor

 

 

"Poucos escritores marcaram tanto a língua portuguesa como Luís de Camões.
 
Soldado, viajante e poeta, perdeu um olho em combate e viveu uma vida cheia de dificuldades. Segundo a tradição, durante um naufrágio salvou o manuscrito de Os Lusíadas, segurando-o acima da água enquanto lutava pela própria sobrevivência.
 
Mais do que contar as aventuras dos navegadores portugueses, Camões ajudou a construir uma identidade para um povo e deu à língua portuguesa uma das suas maiores obras.
 
Mais de quatro séculos depois, os seus versos continuam vivos."
 
👉Este vídeo faz parte da série “Vou te Cantar”, em que grandes personagens da história de Portugal e do Brasil são transformadas em música.

 

 

sábado, 18 de julho de 2026

O jornalismo devorado pela rede

 

#literaciadosmedia  #jornalismo  #redesSociais   #aLerMaiseMelhor 



Grande parte já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema em comportar-se como mais um aziado das redes.

Tenho sentido uma transformação do jornalismo, a que, em momentos de maior desilusão e cansaço, chamo um lento suicídio. É a imagem que me vem de cada vez que se coloca a comparação com as redes sociais. E o problema é que tudo hoje se faz em comparação com as redes, ou por causa delas, ou em nome delas.

É sabido que o maior truque do diabo sempre foi convencer-nos de que não existe. Pois o maior truque do progresso é fazer-nos acreditar que é inevitável. Sendo aqui a palavra “progresso” uma caricatura de traço largo imperfeito. O futuro e as suas mil e uma matizes será muito diferente para cada um.

O jornalismo começou por abraçar o progresso quando ele era só uma mais rápida tipografia ou quando a televisão ganhou todas as cores. Mas nas últimas décadas começou a tremer com o significado de moderno. Exemplo maior: o jornalismo não soube nunca conviver no mesmo mundo das redes criadas pela internet. Faz-me sempre lembrar um indivíduo que está na plataforma onde não passa o comboio, mas, aflito de medo, não lhe ocorre outra ideia que não seja atirar-se para debaixo do comboio. Explicará depois que era inevitável, uma vez que o comboio vinha muito depressa e não havia como fugir-lhe. É também assim que os papás e as mamãs explicam embebedar os bebés com telemóveis e mil ecrãs de luz, cor, som e trampa assim que podem, para os manter “distraídos”, e porque é “inevitável, é o progresso”.

Um dos mais lamacentos terrenos em que o jornalismo se deixa confundir com as redes é o da doentia relação com a fama e a riqueza. As redes sociais destaparam há muito a frágil tampa de um mar de esgoto. Grande parte das publicações e comentários mostram, de forma óbvia e feia, que todos gostariam de ser muito ricos e muito famosos e que, caso não o consigam (o que acontece muito) então passarão a odiar de morte os muito ricos. Este mecanismo não é novo, muito pelo contrário, nasceu certamente com a primeira tribo da Humanidade, acontece que estava confinado aos seus pequenos locais.

O fascínio pelo rico, a que se segue de imediato a inveja forte, logo, o desejo de queda do rico, está explicado há muito em toda a boa literatura. É portanto natural que alimente as redes sociais, pródigas em servir de espelho ao que somos. Sendo que houve em tempos aqueles sentimentos que faziam parte do “inconfessável”. Isso já acabou. Agredir por teclado, à distância, no conforto e solidão de um esconderijo qualquer, transformou todos os cobardes em “sinceros e frontais”.

A minha enorme mágoa é ver quanto do jornalismo se deixa arrastar para as mesmas pocilgas. Alguns fazem-no a céu aberto, explicando que não devem explicações a ninguém e que se marimbam para códigos de conduta ou imperativos morais. Mas já se vão multiplicando os outros, os ditos mais sérios, que a cada pontapé na seriedade argumentam que tem de ser, porque o mercado “mudou”.

No universo do embevecimento bacoco e novo-rico com o dinheiro e cargos e posses e fama, falemos, de formas muito diferentes, das obras do ministro Luís Neves e das férias de Cristina Ferreira. O caso do ministro não é mais do que um clássico da investigação jornalística. Alguém encontrou possível marosca no comportamento de um homem que serve o Estado. Por bem mais do que um século o jornalismo contribuiu para a limpeza da sociedade com investigações que resultaram em denúncia proveitosa. Também cometeu muitos erros e arruinou reputações sem sustentação. Mas para o que hoje me importa, nem é vital sabermos em que terreno estamos, uma vez que este caso ainda vai no adro e não faço a mínima ideia como terminará.

O que me interessa é o foco jornalístico, que sempre foi muito simples. Porque tardaram tanto a aparecer as faturas que o ministro dizia que obviamente existiam? O problema não é a piscina. A piscina faz parte do pacote, mas não é o coração da ilicitude. Mas grande parte do jornalismo já só nada de volta da magna questão, uma vez que as redes sociais saltaram de imediato ao verem as imagens do “tanque de rega”.

O caso de Cristina Ferreira não lhe cabe em exclusivo, ou seja, não é de perto nem longe a única estrela que vai de férias para paraísos e nos exibe, em forma de diário, como está tudo a ser tão maravilhoso. Há sempre o pormenor, nestas estrelas, de escolherem os resorts mais caros do planeta porque foram em busca das “coisas simples da vida”, como provam as fotos na praia ao pôr-do-sol e “sem maquilhagem”. Isso é o que é, consome quem quer. Só é pena o comportamento de cínica hiena de certa comunicação social, que num dia nos convida ao clique para vermos as fotos angelicais, e no outro coloca no título que “Grande parte dos portugueses não ganha na vida toda o que esta senhora gastou só nestas férias”. Grande parte do jornalismo já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema nenhum em comportar-se como mais um aziado que comenta nas redes.

Rodrigo Guedes de Carvalho. O jornalismo devorado pela rede. Expresso, 16 de julho de 2026

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Carta de amor ao cinema (e aos rituais de família)

 

 




A televisão não matou a rádio, o streaming não matou os livros, os videojogos não mataram o teatro, o digital não matou o analógico, mas.

As novas tecnologias raramente eliminam totalmente as anteriores, mas uma coisa é certa: retiram-lhes centralidade e vitalidade.

Ora bem, há duas semanas fui ao cinema ver o mais recente filme de Spielberg. Estávamos sete pessoas na sala, quatro eram da minha família: eu, o meu pai e o meu filho, três gerações. Fiquei a pensar nisto. Nasci em 1983 e por isso consigo montar uma cronologia de vida praticamente paralela aos filmes de Steven Spielberg.

Ou seja, lembro-me de poucos eventos concretos na infância, mas consigo identificar a altura em que tive medo de tubarões que não existiam, de ter acreditado em bicicletas a voar no céu, de ter desejado conhecer aventureiros em busca de tesouros e de ter pesadelos com a ideia de regresso dos dinossauros. Aliás, lembro-me bem do meu irmão em pânico, a esconder-se debaixo da cadeira, no dia em que vimos Jurassic Park no cinema. Eu tinha 10 anos, ele tinha 7. Pormenor sem grande importância nos anos 90: o filme era para maiores de 12.

Isto para dizer que cresci numa altura em que IR AO CINEMA era uma festa, um dia diferente na dinâmica familiar, um evento coletivo, um RITUAL.

Estamos em 2026, mais concretamente numa sala de cinema da periferia do Porto, e o meu pai, meio sem jeito, pede-me ajuda para subir os degraus da sala. Comovo-me só de pensar que foi no colo dele que vi os primeiros filmes e lembro-me de repente do primeiro filme que ele viu, o clássico King Kong. Devia ser 1952 ou 1953, no Cinema Batalha, no Porto. Ele tinha seis anos, estava sentado nas primeiras filas com os pais. A certa altura ficou tão assustado com o gorila que se levantou e fugiu a correr da sala.

O mais engraçado é que, décadas depois, o meu pai ainda conta este episódio com o mesmo entusiasmo de quem está a fugir do gorila. “Imagina, o raio do macaco vinha mesmo na minha direção e eu desato a correr, aos berros”. Enfim, é uma das minhas histórias preferidas.

Mas, como nos melhores filmes, o tempo passou depressa e hoje sou eu que levo o meu filho ao cinema. Agora mesmo, enquanto escrevo, há qualquer coisa que me torna ainda mais sentimental nesta matéria. Não é o filme no ecrã, é o ritual que atravessa gerações.

E talvez seja precisamente isso que Spielberg tenha compreendido melhor do que qualquer outro realizador da sua geração. Nenhum dos seus filmes foi pensado para um ecrã pequeno, mas sim para provocar espanto coletivo em multidões.

Spielberg foi um dos criadores do blockbuster moderno. Quando um filme dele estreava nos anos 80 ou 90, era um acontecimento nacional. Hoje pode estrear um Spielberg e quem é que quer saber? Ver o último filme dele perante sete espectadores é esquisito.

Os extraterrestres, arqueólogos e dinossauros de Spielberg são a camada mais fina do cinema. O que ele filmou foi uma ideia de comunidade. A ideia de que as histórias ganham uma dimensão diferente quando são partilhadas.

É por isso que o cinema é uma tecnologia social antes de ser uma tecnologia audiovisual.

O século XX criou rituais sincronizados, o XXI mudou o cinema de lugar. Quanto tempo vão resistir as salas só com 7, 10 pessoas? Será que as pessoas nascidas no século XXI vão valorizar esse lugar de partilha que é a sala de cinema, a hora marcada, a escolha de um programador? Um espaço onde, durante duas ou três horas, estamos todos a ver exatamente a mesma coisa?

Uma ida ao cinema em família sai cara. Uma subscrição mensal de streaming oferece centenas de conteúdos, liberdade de escolha e o conforto do sofá.

Mas quais são os rituais equivalentes ao cinema? Quem assiste à mesma série no mesmo momento que nós? Quem ri na mesma cena? Quem prende a respiração no mesmo instante? Quem nos obriga a descobrir aquilo que nunca procuraríamos sozinhos?

Os algoritmos das plataformas online conhecem-nos demasiado bem para nos levarem verdadeiramente para longe.




Joana Beleza. Conversas ao ouvido, Newsletter - Expresso, 16 de julho de 2026

quarta-feira, 15 de julho de 2026

O "Bookstreaming" pode ser a resposta para a crise de literacia?



#Bookstreaming  #aLerMaiseMelhor  #BibliotecaCCBvr

 

 

 

Do Twitch ao TikTok, os criadores fazem os livros parecerem sociais, divertidos e impossíveis de ignorar.

Há anos que tem soado o alarme sobre a diminuição da capacidade de atenção, a diminuição dos hábitos de leitura e uma crise crescente de literacia. Os professores culpam os smartphones. Os pais culpam o TikTok. Todos culpam as redes sociais em geral. Mas agora, numa reviravolta um pouco inesperada, a internet também pode estar a tentar salvar a leitura.

O que é Bookstreaming?

Bookstreaming é uma tendência em que os criadores transmitem-se ao vivo a si mesmos lendo livros, discutindo literatura ou reagindo a histórias em tempo real online. Pense em streams na Twitch, lives no YouTube ou maratonas de leitura onde os espetadores sintonizam do mesmo modo que fariam com o conteúdo de jogos.



 

Crédito da foto: Twitch

 

O formato tem raízes na cultura mais ampla de transmissão ao vivo que explodiu durante e após a pandemia. A Twitch, lançada como plataforma de jogos em 2011, já tinha provado que as pessoas assistiam a estranhos que faziam praticamente qualquer coisa ao vivo, desde cozinhar até programar e dormir. A categoria "Apenas Conversando", onde streamers conversam simplesmente com o seu público, tem sido consistentemente uma das categorias mais vistas na plataforma nos últimos anos. O bookstreaming é, de muitas formas, uma extensão natural disso: a experiência silenciosa e coletiva de assistir alguém lendo.

Parece algo de nicho, talvez até um pouco estranho, mas os apoiantes acham que se pode tornar uma das formas mais interessantes de fazer o público mais jovem se empolgar com os livros novamente. 

Como é realmente um bookstream? Imagine um streamer sentado com um livro físico na frente da câmara, a ler em voz alta ou a ler em silêncio enquanto o chat dele rola ao vivo na tela. Os espetadores enviam comentários em tempo real, discutindo sobre uma reviravolta, perguntando o que significa uma palavra, incentivando o streamer a continuar além do tempo que estabeleceram. Quando um capítulo termina, o streamer pode fazer uma pausa para reagir, rir ou partilhar o que pensou, e o público reage com ele. As sessões costumam durar de duas a quatro horas. É menos do que assistir a uma resenha de livro e mais do que ler ao lado de alguém, uma versão digital do que uma biblioteca sempre tentou ser.


Por que é que isso pode fazer diferença?

O empolgamento em torno do streaming de livros está intimamente ligado às preocupações com a literacia. Em vários países, as taxas de leitura entre os mais jovens têm caído, enquanto a capacidade de atenção parece cada vez mais fragmentada por conteúdos de formato curto.

 



 

É aí que os apoiantes do bookstreaming veem uma oportunidade. Em vez de lutar contra a cultura digital, eles argumentam: por que não usá-la? Se o público jovem já passa horas a assistir a transmissões ao vivo, talvez os livros precisem de os encontrar lá em vez de exigirem que abandonem as plataformas completamente.

Uma das maiores mudanças que as redes sociais trouxeram para a música, moda e jogos foi a visibilidade. As pessoas podiam de repente ver os outros a participar em hobbies em tempo real. A leitura, em comparação, muitas vezes permaneceu invisível porque geralmente é privada. Raramente sabemos o que os estranhos estão a ler no comboio hoje em dia. O Bookstreaming muda essa dinâmica ao transformar livros em experiências compartilháveis.


A leitura como conteúdo




 

As redes sociais já antes tinham transformado os livros. O BookTok ajudou a transformar romances relativamente desconhecidos em best-sellers internacionais quase da noite para o dia. A publicação de romances explodiu online porque os leitores começaram a recomendar livros com o mesmo entusiasmo normalmente reservado para programas de TV.

O bookstreaming é um próximo passo lógico

As transmissões ao vivo são diferentes do BookTok ou BookTube. Elas podem durar horas. O público constrói as suas rotinas em torno dos seus streamers favoritos e da uma conexão genuína que estabelece com eles. No caso do bookstreaming, essa conexão estende-se ao próprio livro.

Essa conexão é extremamente importante. Os hábitos de leitura são frequentemente moldados socialmente. As pessoas têm mais probabilidade de pegar num livro se se sentirem parte de uma conversa cultural. Quando vemos pessoas que respeitamos a ler, é mais provável que participemos.

 

 

Crédito da foto: Falhas no LiveStream & Reddit

 

O efeito pode ser imediato e mensurável, e já era visível antes mesmo dos maiores streamers entrarem. Em julho de 2024, um streamer menor da Twitch conhecido como DuckBoxing descobriu que um de seus espetadores, Laan Cham, tinha escrito e ilustrado um livro infantil, Somewhere In Between. Ele comprou-o e leu-o em voz alta na live como uma história para dormir, com a própria Cham a assistir e a conversar. Um clipe do momento foi divulgado no Reddit, onde um tópico celebrando o gesto "saudável" recebeu mais de mil votos positivos, e os espetadores correram a comprar o livro também, vários comentadores diziam que estavam a pedir cópias para os seus próprios filhos. Um comprador relatou que a loja tinha esgotado rapidamente na Amazon, algo que outro chamou de um testemunho do "poder da internet."

Isso é especialmente importante para o público mais jovem, que muitas vezes só interage com livros quando são designados como trabalho de casa. Ver criadores a rir, chorar e a curtir um livro retira essa associação e reposiciona a leitura como algo que as pessoas escolhem, não algo que são obrigadas a fazer.

Além disso, o Bookstreaming também elimina um elemento de intimidação. Não há necessidade de falar academicamente, nem de debater sobre a patética falácia de tudo isso.

Os espetadores podem fazer qualquer pergunta que quiserem e aproveitar os livros de que realmente gostem, em vez daqueles que os fazem parecer bem lidos.


Os Grandes Nomes


Alguns criadores construíram toda a sua presença online em torno da leitura. Oliver James, por exemplo, é um jovem que documenta a sua jornada aprendendo a ler no TikTok. Ao compartilhar seu progresso de forma honesta e sem constrangimento, ele conquistou um público de 359.600 (até este momento) — pessoas que sintonizam não por comentários de especialistas, mas por algo mais valioso: a experiência de ver alguém crescer.

Se James mostra como é o bookstreaming de base, outros trazem o peso das instituições por trás disso. Mychal Threets, conhecido online como Mychal, o Bibliotecário, tem mais de um milhão de seguidores no TikTok e Instagram. Ele viralizou pelos seus vídeos calorosos e entusiasmados defendendo o que ele chama de "alegria na biblioteca", defendendo o acesso aos livros e a crença de que todos pertencem a uma biblioteca.
 Crédito da foto: PBS 



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 O seu alcance agora vai muito além do app. Em setembro de 2025, a PBS anunciou que a Threets apresentaria a retomada digital de Reading Rainbow no canal KidZuko no YouTube, quase 20 anos após o fim da série original apresentada por LeVar Burton em 2006. A sua presença na interseção entre as redes sociais e a literacia infantil torna-o uma das figuras mais importantes nesse espaço.
 
 
 
Crédito da foto: @jackbenedwards

 
 
Depois há os formadores de opinião, os criadores cuja palavra sozinha pode mover um livro. Jack Edwards, conhecido online como o bibliotecário residente da internet, é um YouTuber, autor e influenciador de redes sociais, inglês de Brighton, que publica sobre livros, cultura popular e vida universitária desde 2016. Ele tem mais de 1,5 milhão de inscritos no YouTube e mais de um milhão de seguidores no TikTok e Instagram, além de estar associado às comunidades BookTube, BookTok e EduTube.
 
seu alcance é genuinamente impressionante: quando ele recomendou uma história obscura de Dostoiévski, Noites Brancas, ela passou da sala dos fundos para as mesas da frente das livrarias quase imediatamente. Edwards foi convidado a apresentar a cerimónia do Prémio Internacional Booker 2024 e a transmiti-la ao vivo, um momento que ilustrou exatamente o quanto os criadores de conteúdo de livros avançaram. Ele é a prova de que uma paixão profunda e genuína pela literatura, transmitida através de uma câmara, pode moldar hábitos de leitura numa escala muito grande.
 
 
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Crédito da foto: Kai Cenat / YouTube

Mas o maior salto do bookstreaming é que ele não está confinado a pessoas relacionadas com livros. O seu maior nome nunca construiu a sua carreira com base na leitura. Kai Cenat, após um hiato de meses, voltou à Twitch com um livro na mão, trabalhando em títulos como The Four Agreements, de Don Miguel Ruiz, Atomic Habits, de James Clear, e The Wretched of the Earth, de Frantz Fanon.
 
Os seus fluxos de leitura tornaram-se instantaneamente populares, e parte do apelo é o quão vulnerável ele é neles: admitindo quando precisa de procurar uma palavra que não conhece, lendo além dos temporizadores que define sempre que um livro o chama para ele. É emocionante, e não é surpresa que as pessoas estejam envolvidas. Ele disse que os vídeos são uma tentativa de "se expressar melhor."
 
[...]
 
Mais do que apenas conteúdo?
 
 


Alguns argumentam que o crescimento do bookstreaming pode fazer uma diferença real nas taxas de literacia e na diminuição do tempo de atenção. Os dados são preocupantes, e o declínio está bem documentado. Mas será que uma tendência assim realmente ajudará a reverter a situação?

Alguns críticos argumentam que ver alguém a ler ou a falar sobre um livro não é o mesmo que realmente lê-lo. E eles estão meio certos, a crise reduzida da literacia não pode ser resolvida apenas pelas tendências da internet. Mas ninguém está a dizer que o bookstreaming é uma cura milagrosa. É só uma ponte de ligação, e uma boa ponte.
 
 
 

 
Há um precedente útil aqui. Os audiolivros já foram descartados por muitos puristas dos livros como um formato inferior ou um atalho que não contava realmente como leitura. Esse estigma praticamente desapareceu. Os audiolivros estão mais populares do que nunca, e muitos leitores usam-nos juntamente com os livros impressos e ebooks para ler mais no geral.

Se uma transmissão ao vivo incentiva alguém a terminar o seu primeiro romance desde que saiu da escola, ou apresenta a um adolescente Frantz Fanon ou uma história de Dostoiévski que ele nunca teria encontrado numa sala de aula, isso é uma vitória genuína. O objetivo nunca foi substituir o ato de ler, mas sim fazer as pessoas quererem ler em primeiro lugar.

A crise de literacia é real, e não será resolvida apenas por uma tendência. Mas as tendências moldam a cultura, e a cultura molda hábitos. E agora, um dos maiores streamers do mundo está sentado na frente de uma câmara, lendo um livro e procurando as palavras que não conhece. Isso importa. Isso é, na verdade, um começo. 

Millie Ramm. Could “Bookstreaming” Be the Answer to the Literacy Crisis?, magazine.1000libraries.com, 12 de julho de 2026


terça-feira, 14 de julho de 2026

Camilo em 2026

 

 #camilocastelobranco 

 


 Imaginámos o escritor a descobrir que Amor de Perdição continua vivo, que a sua casa se tornou memória e que Portugal ainda lê as palavras nascidas da dor, do amor e do escândalo.

A dor acabou nele.

Mas as palavras continuaram.


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Aguarela de Paris, o novo romance de João Pinto Coelho

 

 #aLerMaiseMelhor



Começou com Perguntem a Sarah Gross, em 2015, e uma dúzia de anos depois João Pinto Coelho continua a deslizar no Holocausto, seu indesmentível território primordial na literatura. Entre os escritores portugueses, nenhum mergulhou assim nas vísceras de Auschwitz e Birkenau.

Lê-se João Pinto Coelho como se lê a História, mas a partir de dentro
★★★★
AGUARELA DE PARIS
João Pinto Coelho
D. Quixote, 2026, 424 págs.
Romance


No novo romance, quinto do autor, começamos nas Terras Altas da Escócia, seguindo Franca e Giullietta, duas gémeas indistinguíveis, que abrem ao leitor as portas para uma dinastia de banqueiros judeus da Europa. Ora, os muros da aristocracia irão contrastar com os dos campos de concentração: sem surpresa, é aí que o autor mais voa, como já o fizera antes. O romance é audaz, tanto do ponto de vista formal, saltitando entre lugares e pontos da vida (Giullietta desfila em Paris como artista destacada, Franca cruza-se com espiões na costa do Estoril), quanto do ponto de vista das temáticas, já que o autor entrelaça, sem que se vejam as costuras, as questões históricas com os arcos das vidas individuais das personagens. É através delas que o autor observa os traços mais marcantes do século XX, e que mais uma vez escancara o horror. Para essa sensação de visão do horror a céu aberto, muito contribui a capacidade de que tem de fazer uma prosa despojada de entulho. 
 
De livro em livro, o autor parece fazer uma cartografia do Holocausto, sem ceder a uma coetânea tendência para o comercializar ou romantizar. 
Em vez disso, lê-se Pinto Coelho como se lê a História, embora a partir de dentro. Em vez da descrição por cima, através de números, tem-se gente a viver entre “a extensa coluna de fumo ou o cheiro a carne queimada que se espalhava pelo campo”. Com a prosa limpa do autor, vê-se o mesmo que as personagens: “homens, mulheres e crianças a caminharem em fila para a morte disciplinada que os aguardava.” 
 
Ana Bárbara Pedrosa. "Lê-se João Pinto Coelho como se lê a História, mas a partir de dentro", Expresso, 2 de julho de 2026 
 
 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Prémio Camões 2026

 

 




A escritora Lídia Jorge é a vencedora do Prémio Camões 2026, a mais importante distinção da literatura em língua portuguesa.

O júri deliberou, unanimemente, atribuir a Lídia Jorge o Prémio Camões 2026, salientando "o diversificado conjunto da sua obra e o grande contributo para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa", valorizando uma escrita "marcada por uma prosa poética densa, que aborda o passado ditatorial e a transição democrática de Portugal, a condição feminina, o impacto das transformações históricas na vida quotidiana, o significado das revoluções, a emigração, as tensões entre a sociedade moderna e pós-moderna, os conflitos entre gerações, as ruturas familiares", que nunca abandona o seu "estilo literário de forte carga lírica e o foco na memória coletiva".