sábado, 18 de julho de 2026

O jornalismo devorado pela rede

 

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Grande parte já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema em comportar-se como mais um aziado das redes.

Tenho sentido uma transformação do jornalismo, a que, em momentos de maior desilusão e cansaço, chamo um lento suicídio. É a imagem que me vem de cada vez que se coloca a comparação com as redes sociais. E o problema é que tudo hoje se faz em comparação com as redes, ou por causa delas, ou em nome delas.

É sabido que o maior truque do diabo sempre foi convencer-nos de que não existe. Pois o maior truque do progresso é fazer-nos acreditar que é inevitável. Sendo aqui a palavra “progresso” uma caricatura de traço largo imperfeito. O futuro e as suas mil e uma matizes será muito diferente para cada um.

O jornalismo começou por abraçar o progresso quando ele era só uma mais rápida tipografia ou quando a televisão ganhou todas as cores. Mas nas últimas décadas começou a tremer com o significado de moderno. Exemplo maior: o jornalismo não soube nunca conviver no mesmo mundo das redes criadas pela internet. Faz-me sempre lembrar um indivíduo que está na plataforma onde não passa o comboio, mas, aflito de medo, não lhe ocorre outra ideia que não seja atirar-se para debaixo do comboio. Explicará depois que era inevitável, uma vez que o comboio vinha muito depressa e não havia como fugir-lhe. É também assim que os papás e as mamãs explicam embebedar os bebés com telemóveis e mil ecrãs de luz, cor, som e trampa assim que podem, para os manter “distraídos”, e porque é “inevitável, é o progresso”.

Um dos mais lamacentos terrenos em que o jornalismo se deixa confundir com as redes é o da doentia relação com a fama e a riqueza. As redes sociais destaparam há muito a frágil tampa de um mar de esgoto. Grande parte das publicações e comentários mostram, de forma óbvia e feia, que todos gostariam de ser muito ricos e muito famosos e que, caso não o consigam (o que acontece muito) então passarão a odiar de morte os muito ricos. Este mecanismo não é novo, muito pelo contrário, nasceu certamente com a primeira tribo da Humanidade, acontece que estava confinado aos seus pequenos locais.

O fascínio pelo rico, a que se segue de imediato a inveja forte, logo, o desejo de queda do rico, está explicado há muito em toda a boa literatura. É portanto natural que alimente as redes sociais, pródigas em servir de espelho ao que somos. Sendo que houve em tempos aqueles sentimentos que faziam parte do “inconfessável”. Isso já acabou. Agredir por teclado, à distância, no conforto e solidão de um esconderijo qualquer, transformou todos os cobardes em “sinceros e frontais”.

A minha enorme mágoa é ver quanto do jornalismo se deixa arrastar para as mesmas pocilgas. Alguns fazem-no a céu aberto, explicando que não devem explicações a ninguém e que se marimbam para códigos de conduta ou imperativos morais. Mas já se vão multiplicando os outros, os ditos mais sérios, que a cada pontapé na seriedade argumentam que tem de ser, porque o mercado “mudou”.

No universo do embevecimento bacoco e novo-rico com o dinheiro e cargos e posses e fama, falemos, de formas muito diferentes, das obras do ministro Luís Neves e das férias de Cristina Ferreira. O caso do ministro não é mais do que um clássico da investigação jornalística. Alguém encontrou possível marosca no comportamento de um homem que serve o Estado. Por bem mais do que um século o jornalismo contribuiu para a limpeza da sociedade com investigações que resultaram em denúncia proveitosa. Também cometeu muitos erros e arruinou reputações sem sustentação. Mas para o que hoje me importa, nem é vital sabermos em que terreno estamos, uma vez que este caso ainda vai no adro e não faço a mínima ideia como terminará.

O que me interessa é o foco jornalístico, que sempre foi muito simples. Porque tardaram tanto a aparecer as faturas que o ministro dizia que obviamente existiam? O problema não é a piscina. A piscina faz parte do pacote, mas não é o coração da ilicitude. Mas grande parte do jornalismo já só nada de volta da magna questão, uma vez que as redes sociais saltaram de imediato ao verem as imagens do “tanque de rega”.

O caso de Cristina Ferreira não lhe cabe em exclusivo, ou seja, não é de perto nem longe a única estrela que vai de férias para paraísos e nos exibe, em forma de diário, como está tudo a ser tão maravilhoso. Há sempre o pormenor, nestas estrelas, de escolherem os resorts mais caros do planeta porque foram em busca das “coisas simples da vida”, como provam as fotos na praia ao pôr-do-sol e “sem maquilhagem”. Isso é o que é, consome quem quer. Só é pena o comportamento de cínica hiena de certa comunicação social, que num dia nos convida ao clique para vermos as fotos angelicais, e no outro coloca no título que “Grande parte dos portugueses não ganha na vida toda o que esta senhora gastou só nestas férias”. Grande parte do jornalismo já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema nenhum em comportar-se como mais um aziado que comenta nas redes.

Rodrigo Guedes de Carvalho. O jornalismo devorado pela rede. Expresso, 16 de julho de 2026

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