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Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de ser a nossa época a viver o fim de uma era.
Saiu meia crítica de A Odisseia do Nolan com a lição bem decorada, e é sempre comovente ver tanta gente a concordar tão depressa. O filme, explicam-nos, é um aviso sobre a hospitalidade: quem maltrata o estrangeiro arrisca-se a perder a civilização, e convinha que certos Governos tomassem nota. A lição é bonita, é útil (e tem, já agora, a minha concordância), e padece de um único defeito, que é o de o filme dizer uma coisa bastante pior. Para se pregar a bondade para com o estranho é preciso, antes de mais, um estranho, uma linha a separar o civilizado de cá do perigo de lá. E Christopher Nolan gasta três horas de fita a apagar essa linha com uma paciência de restaurador.
Explico-me, porque isto pede um desvio de três mil anos. O fim do mundo antigo tem nos manuais um culpado com nome de romance de cordel, os Povos do Mar, batizados assim em 1855 por um egiptólogo francês que precisava de pôr um rótulo em cima do que não sabia explicar. Por volta de 1200 a.C., qualquer coisa desce sobre o Mediterrâneo e apaga-o: os hititas somem-se, as cidades ardem por ordem, e em Ugarit as últimas cartas ficaram cozidas num incêndio que as deveria ter comido, e ainda hoje se leem. Falam de barcos à vista e de um socorro que não vinha. Ramsés III gravou em Medinet Habu a vitória sobre a tal horda, com a letra grande de quem se safou à justa, e terá dormido descansado, na convicção de que deixava o assunto arrumado para a eternidade. Seguem-se quatro séculos a que a arqueologia chama, sem pudor nenhum, Idade das Trevas.
Ora, nas listas que os escribas do faraó fizeram dos Povos do Mar há nomes que caem mal no estômago de um grego. Ekwesh, que muitos leram como aqueus, e denyen, onde ressoam os dânaos de Homero. A filologia é, claro, feita de areia movediça e as identificações discutem-se há século e meio, mas a hipótese, uma vez posta, já não se despega: no meio da frota que acabou com a Idade do Bronze vinham, talvez, os heróis de Troia a caminho de casa, e o monstro avistado das muralhas era o vencedor a regressar, tão desfeito pela guerra que a casa já o não conhecia, nem ele a ela. Nolan pega nesta nota de rodapé da egiptologia e faz dela o fim do filme. “Os Povos do Mar somos nós”, diz Ulisses a Penélope.
Repare-se então no santo que a crítica escolheu para o altar. O Ulisses que se quer promover a cartaz de boas práticas desembarca em Ítaca, encontra a casa cheia de hóspedes a comer-lhe o gado e a cortejar-lhe a mulher e resolve o assunto matando toda a gente, de modo que o padroeiro do bem receber vem a ser um anfitrião que faz uma chacina na própria sala de jantar, para castigar noutros, por atacado, o crime que ele mesmo vendera a retalho à porta de Troia. Porque a xenia que os pretendentes espezinham e que ele vinga a ferro estava longe de ser uma delicadeza de época. Era, na verdade, o que segurava aquele mundo, a maneira de dois desconhecidos poderem conversar sem que se degolassem, o contrato antes de haver minutas, e foi justamente Ulisses quem ensinou o Mediterrâneo inteiro a falsificar-lhe a assinatura. Depois do cavalo, nenhum presente se voltou a abrir sem antes se abanar, o que fica caro e cansa.
A bem da verdade, é preciso notar que a razão do colapso da civilização é uma invenção do realizador, coisa que decerto irrita algum purista e que a mim me parece a melhor decisão do filme. A tradição fazia do caso um assunto privado, com a culpa atribuída a Atena que amaldiçoava o regresso dos gregos por lhe terem sujado os templos, a conta apresentada aos homens, um a um, e nunca à época. O casamento do mito com o colapso da Idade do Bronze foi celebrado pelo Nolan, sem consulta às famílias, e o anacronismo interessa porque fala muito mais de 2026 do que de 1200 a.C.. Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de sermos a viver o fim de uma era. Não consta que tenha havido época que se julgasse outra coisa (e algumas até acertaram, o que estraga a estatística).
De resto, o cavalo nem foi a maior fraude daquela guerra. E o filme assume a primeira pela boca de quem a cometeu. O Agamémnon de Nolan olha para Troia e vê uma alfândega, a cidade sentada à boca dos estreitos a cobrar portagem ao trigo e ao estanho que passavam para o mar Negro. Era um problema comercial à espera de pretexto, e o pretexto chegou com a cara de uma rainha. Helena valia pouco como política alfandegária e valia tudo como causa (uma mulher roubada arma mil navios, uma pauta aduaneira dificilmente arma um bote). Também nisto o realizador filma o presente com figurinos de bronze, porque o expediente nunca mais saiu de serviço. As torres caem em Manhattan e a fatura segue para Bagdade, que as viu cair pela televisão, como toda a gente; choram-se os enforcados pelo regime de Teerão de véspera, para ao outro dia se discutir, com a lágrima ainda ao canto do olho, o mapa dos alvos. A vítima é verdadeira, o luto até pode sê-lo, e o que se lhe segue já vinha desenhado de trás, à espera de quem o justificasse. A guerra por procuração sentimental já existiria antes de Agamémnon, e a ele deve-se apenas o modelo de negócio.
O filme teve a crueldade de pôr uma cara grega aos Povos do Mar. A frota que se aproxima traz a nossa, e o que os vigias avistam das muralhas é o que mandámos para fora do mundo, de volta com juros e já sem conhecer a casa. Nos manuais, a idade que se seguiu ao incêndio ficou com o nome de Trevas, e do mar, ao que tudo indica, veio pouca; construiu-se à mão, por gente engenhosa, entre uma causa que era uma cobiça e um presente que era um exército, dois embrulhos aceites pela mesma razão. A de virem bem feitos.
Maria Castello Branco*. "Sai mais uma sobre 'Odisseia'", Expresso, 28 julho 2026
* Comentadora política da RTP Notícias, autora do podcast Lei da Paridade
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