Leopoldina Nobre, ou Lili, como é conhecida em Miranda do Douro, trabalha com a irmã, Sandra Nobre, e a mãe, Maria Suzana de Castro. Juntas são das poucas artesãs deste ofício, fazendo os trajes dos pauliteiros e pauliteiras, assim como a capa de honras. O traje, já usado pelo Papa Francisco, é um dos símbolos da região do nordeste transmontano, sendo utilizado apenas em ocasiões especiais. Atualmente, para além desta família, apenas mais uma mulher produz este tipo de artesanato.
A capa de honras foi, em tempos, uma representação de estatuto social. O clima da região, com grandes amplitudes térmicas, levou a que os pastores criassem uma peça de vestuário que os protegesse dos invernos longos e frios. Com “nove meses de inverno e três de inferno”, dizia-se, os populares de Miranda do Douro criaram trajes extraídos de materiais naturais que os animais produziam. Os pastores tosquiavam os animais e retiravam o lixo que a lã destes podia ter apanhado no campo. Depois de lavada com água quente, pintava-se a lã com recursos naturais. “A cebola e a sua casca dava laranja, se não me engano”, relembra Alice Martins, de 57 anos, funcionária da Casa da Cultura Mirandesa (CCM), que recorda os tempos em que a lã era tratada de forma totalmente artesanal. O pardo, conhecido como burel em outras regiões do país, era trabalhado pelas mulheres nos teares da região.
Além de Leopoldina Nobre, há poucas artesãs a criar a capa de honras: Maria Suzana de Castro e Sandra Nobre são duas delas, e as três trabalham juntas. A real origem da capa, em absoluto, é desconhecida, mas admite-se que tenha sido criada na Idade Média, devido às semelhanças com a capa de asperges eclesiástica e os motivos decorativos — e, inclusive, com o tradicional capote dos Açores. “Nos anos 70-80, deixou-se de usar a nossa cultura. Era uma vergonha sermos do Planalto Mirandês. As pessoas emigraram muito porque a pobreza, digamos, era um bocadinho grande. A minha mãe sempre foi costureira e começou a trabalhar nesta matéria-prima. Numa brincadeira para a escola, fez-nos uma mochila, casacos e uma saia. As pessoas começaram a ver o que fazíamos e gostaram do nosso trabalho”, conta Leopoldina, de 48 anos.

Homens com a capa de honras
Devido à crescente escassez de ovelhas na região, como conta Alice Martins, da CCM, a maioria dos tecidos utilizados são hoje produzidos industrialmente. Mas Leopoldina vê os aspetos positivos nisso: “A matéria-prima industrializada fica muito mais normal, mais maleável. É 100% de lã, mas não fica rígido”, conta. Apesar de ser uma arte mirandesa, a desertificação do interior e a dificuldade em encontrar lã mirandesa, obrigaram as artesãs a importar o burel da Serra da Estrela. Para além deste, as artesãs utilizam também o surrobeco, que “é a mesma matéria-prima, mas é relativamente mais fino. Costuma-se fazer saias e camisas”, explica a mestre deste ofício.
Tradição e mudança
Leopoldina confessa que não é apologista da mudança, mas acredita que há certos aspetos ligados à cultura e à arte mirandesa que deviam avançar. Dá como exemplo a língua mirandesa, que estava a desaparecer até ser integrada no currículo escolar. Compreende que esta medida foi essencial para não se perder a tradição, mas não concorda em alterar a forma como a cultura é feita.

A capa, uma tradição transmontana
Em 2017, Palmira Falcão, uma artesã de 70 anos e também natural de Sendim, foi desafiada a produzir a primeira capa para as mulheres: “Fiz o modelo e toda a gente gostou. A presidente da Câmara [de Miranda] anda sempre com ela”, recorda ao Expresso, orgulhosa. No entanto, o tema divide opiniões. Apesar de pouco mudar na estrutura da capa, Leopoldina recusa-se a chamar-lhe capa de honras: “A capa de honras é só de homem. Podemos fazer para as mulheres, se alguém pedir, mas não se vai chamar capa de honras, para mim não”. Palmira, que se dedica a este ofício há 30 anos, discorda abertamente: “Antigamente as mulheres também não usavam calças, agora usam. Uma mulher é tão honrada como um homem”.
Apesar das divergências, Palmira acredita que há espaço nesta arte para as diferentes visões. Atualmente, a artesã dá formações a iniciantes em Miranda do Douro, focando-se em transmitir este legado para que a cultura não morra: “O que eu queria era que toda a gente aprendesse. [Este traje] representa todos os portugueses, toda a gente que o queira usar”, afirma.
Além desta peça simbólica, Leopoldina, que faz a maioria dos trajes dos pauliteiros e pauliteiras da região, lembra que já se recusou a fazer trajes porque lhe pediram algo diferente. “Porque é que se vai mudar os trajes dos pauliteiros se toda a vida foram aqueles?”, questiona.
As artesãs demoram cerca de 15 dias a terminar uma capa de honras, cujo preço pode variar entre €1200 e €1500
A artesã de Miranda já trabalhou com o designer francês Christian Louboutin, criando uma carteira, a Portugaba, para uma das suas coleções, que chegou a custar €1659. A artesã e a sua família têm conhecimento de que há quem tente copiar a arte para a vender por milhares de euros. É também por isso que não vende online. “Artesanato a nível nacional ou mundial não se pode comprar online, tem de se ver, de se apaixonar e amar à primeira.” Exemplifica com uma situação relacionada com um modista americano que vendia peças inspiradas no ofício a 15.000 euros, mas não se assusta com isso, nem com cadeias de fast fashion: “Não interessa o que custa. O meu cliente sabe que não vai encontrar isso em mais lado nenhum”, afirma Leopoldina.
Tem uma loja em Miranda do Douro há cerca de 26 anos, mas antes já tinha uma em Sendim, uma freguesia do concelho, que está aberta há cerca de 35 anos. Participa em muitas feiras internacionais e nacionais de artesanato, mas são os portugueses quem mais compram as suas peças: “As pessoas admiram e compram, e não encontram isto em mais nenhum lado. É como um pintor, tens aquela identidade. Consegue-se diferenciar completamente o nosso trabalho em qualquer sítio”, acrescenta.
A capa de honras, que pode custar entre €1200 e €1500, é a peça mais demorada e trabalhada que fazem. Entre as três, demoram cerca de 15 dias a acabar uma capa. No entanto, o tempo compensa para ver a reação do cliente: “Para mim é uma honra dar uma capa de honras ao Papa e ao Presidente da República. O próprio Papa Francisco mandar uma grande carta de agradecimento, com o meu nome, o da minha mãe, entregue pelo senhor Bispo. Isso é o que interessa e dá gosto ao nosso trabalho, seja para mim ou outra pessoa”, afirma. Confessa que mais do que gostar do seu trabalho, gosta de fazer parte da mudança de mentalidade relacionada com a região. “Somos muito ricos, mais do que qualquer concelho. Ninguém tem um folclore tão rico como o nosso em relação a trabalhos.” Tem prazer em dar uma nova vida a objetos antigos. Conta que, há uns tempos, uma senhora lhe trouxe um saco de trigo e transformou-o numa manta. É este “renascer”, como lhe chama, que lhe traz satisfação.
Tudo sobre a capa

De acordo com o Museu da Terra de Miranda, uma capa de honras “apresenta uma forma base em semicírculo, aplicando-se nesta uma sobrecapa curta (até aos cotovelos) e um capuz. A abertura da capa é guarnecida frontalmente com uma aplicação bordada a dois panos (originalmente um burel de lã), recortado e pespontado (técnica do picado), geralmente recorrendo a motivos padronizados de origem geométrica, fitomórfica, ou em ‘corações’”.
Quanto custa?
Uma capa de honra tradicional, em burel e adornada com bordados, poderá custar entre mil e 1200 euros.
Como nasceu?
As origens da capa de honras mirandesa perdem-se no tempo. Ainda assim, e de acordo com o Museu da Terra de Miranda, é provável que o seu surgimento remonte à Idade Média, “atendendo à grande proximidade desta peça de vestuário com a capa de asperges eclesiástica e aos motivos artísticos recorrentes”.








.png)


