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sexta-feira, 24 de julho de 2026

É a responsabilidade, meu caro

 

 #literaciadosmedia 






"Responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não."


Deixem-me bombardear-vos com opiniões avulsas e pensamentos voláteis sobre a tendência do momento. Bom, primeiro tenho de ir ver qual é desta vez, ora deixa cá ver, ora deixa cá ver, muito bem, pode ser a Odisseia que ninguém leu, mas que de repente agita as águas do Verão.

Calma, estou a brincar. Nada me interessa menos. Não vos maçarei com longas dissertações sobre fronteiras da história e da ficção e do que supostamente é lícito concluir sobre a cor da pele de Helena de Tróia. Não vos impingirei o milésimo debate étnico-ideológico mascarado de conversa sadia sobre uma obra que jaz adormecida nas catacumbas, ora injustamente esquecida, ora incensada com exagero de complexo intelectual. Sobretudo, não contribuirei para a parolice de trazer a saga de Ulisses para o único terreno em que tiktokers e instagramers sabem navegar: então e tu, gostaste mais do livro ou do filme?

Permitam-me, em vez disso, trazer-vos ao terreno do sonâmbulo (se não mesmo falecido) Correio do Leitor. Os companheiros da velha guarda jornalística lembram-se bem. Tirando o pontual telefonema de insulto breve ou pedido de informações, as cartas dirigidas à Redação eram a única forma de termos o que hoje responde pelo pomposo feedback, que é como que diz “o que o nosso público pensa de nós”.

A antiga escrita à mão traz uma pequena dificuldade. Por exemplo: o ódio é mais difícil de exprimir. Desenhar à mão as letrinhas todas para chamar filho desta e daquela, mais mandar-nos para o membro sexual masculino ou para a vagina da nossa progenitora, é coisa que pede algum tempo e paciência, e fica assim como que um espaço vazio entre a raiva que se sente e o que realmente passou para o papel.

Por isso o maravilhoso computador, ou o ainda mais deslizante teclado pequenito do telemóvel se tornaram a arma mais eficiente do ódio. Toda uma sociedade sabe hoje insultar e agredir com dedinhos rápidos. A precipitação tornou-se fácil e alimentou a irreflexão. Sabemos que parte do planeta acorda arrependida de uma mensagem que enviou às quatro da manhã. Com as cartas de antigamente havia tempo de voltar atrás e decidir não lamber o selo nem a enfiar na ranhura do correio.

E assim vamos, neste maravilhoso potencial de purga de frustrações. Eu não sou mais do que os outros e por isso também recebo o meu correio. Entre uma grande parte de lixo e asco, lá vem de vez em quando uma pergunta legítima. Esta semana destaco esta: ainda não percebi bem porque faz tanto paralelismo entre lógica de redes sociais e algum do jornalismo atual, quer explicar melhor? Quero, pelo menos quero tentar.

Aconteceu no início do mês, aquele autocarro que esmagou duas pessoas no Cacém. Liguei o televisor por volta da hora do almoço e toda a TV cavalgava a notícia o mais que podia. Poderia ser qualquer dos canais, como explicarei, mas no caso passava eu pela CNN e o jornalista falava em tom sério e grave, compenetrado, sobre imagens que eu, na altura, desconhecia.

Havia, pelos vistos, um vídeo de má qualidade do momento logo após a tragédia. Alguém que se pôs a filmar e apanhou fumo, confusão, pessoas a correr e sobretudo pessoas a gritar, o que dava bem a dimensão do choque que ali se gravava. Os gritos eram de quem se apercebia dos corpos das duas vítimas.

E agora o essencial, a espantosa impossível contradição que se instalou no jornalismo e parece ter criado raízes para nunca mais desaparecer. Repetir e repetir até à exaustão as imagens e sons mais horripilantes, desde que acompanhado de avisos de “conteúdo sensível”.

Depois, em cima disto, a cereja da suprema ironia. O jornalista entrevista uma psicóloga, a quem pergunta quais os factores mais terríveis para a cabeça das vítimas e familiares e população em geral na sequência de tragédias destas? Bom, para começar, tenta a psicóloga, as televisões deveriam travar o carrossel contínuo de imagens em repetição com os gritos aflitos. Isto poderia (deveria?) levar a TV a refletir naquele mesmo momento, e a parar o processo, já que a especialista convidada deu o conselho? Pois, sim, abelha. Se o parecer de um especialista da saúde mental choca com o interesse da competição jornalística, adivinhem quem perde e quem ganha essa contradição?

Aqui não há muitos anos, tive na SIC uma das mais acaloradas discussões entre colegas. Porque fizemos exatamente o mesmo com imagens terríveis de agressões entre alunas de uma escola. Repetição até à exaustão do fator potencialmente traumatizante.

E agora a resposta ao que me perguntou o leitor: o jornalismo não pode arrastar-se para uma lógica de rede social que busca cliques a todo o segundo quando está em causa a nossa responsabilidade social. Sim, a responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não. Não devemos, não podemos. Quanto mais a entregarmos, mais nos afundaremos num jogo para que nos querem arrastar, a fim de um dia nos esfregarem na cara que moralmente não somos melhores do que ninguém.

Rodrigo Guedes de Carvalho. É a responsabilidade, meu caro, Expresso23 julho 2026 

sábado, 18 de julho de 2026

O jornalismo devorado pela rede

 

#literaciadosmedia  #jornalismo  #redesSociais   #aLerMaiseMelhor 



Grande parte já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema em comportar-se como mais um aziado das redes.

Tenho sentido uma transformação do jornalismo, a que, em momentos de maior desilusão e cansaço, chamo um lento suicídio. É a imagem que me vem de cada vez que se coloca a comparação com as redes sociais. E o problema é que tudo hoje se faz em comparação com as redes, ou por causa delas, ou em nome delas.

É sabido que o maior truque do diabo sempre foi convencer-nos de que não existe. Pois o maior truque do progresso é fazer-nos acreditar que é inevitável. Sendo aqui a palavra “progresso” uma caricatura de traço largo imperfeito. O futuro e as suas mil e uma matizes será muito diferente para cada um.

O jornalismo começou por abraçar o progresso quando ele era só uma mais rápida tipografia ou quando a televisão ganhou todas as cores. Mas nas últimas décadas começou a tremer com o significado de moderno. Exemplo maior: o jornalismo não soube nunca conviver no mesmo mundo das redes criadas pela internet. Faz-me sempre lembrar um indivíduo que está na plataforma onde não passa o comboio, mas, aflito de medo, não lhe ocorre outra ideia que não seja atirar-se para debaixo do comboio. Explicará depois que era inevitável, uma vez que o comboio vinha muito depressa e não havia como fugir-lhe. É também assim que os papás e as mamãs explicam embebedar os bebés com telemóveis e mil ecrãs de luz, cor, som e trampa assim que podem, para os manter “distraídos”, e porque é “inevitável, é o progresso”.

Um dos mais lamacentos terrenos em que o jornalismo se deixa confundir com as redes é o da doentia relação com a fama e a riqueza. As redes sociais destaparam há muito a frágil tampa de um mar de esgoto. Grande parte das publicações e comentários mostram, de forma óbvia e feia, que todos gostariam de ser muito ricos e muito famosos e que, caso não o consigam (o que acontece muito) então passarão a odiar de morte os muito ricos. Este mecanismo não é novo, muito pelo contrário, nasceu certamente com a primeira tribo da Humanidade, acontece que estava confinado aos seus pequenos locais.

O fascínio pelo rico, a que se segue de imediato a inveja forte, logo, o desejo de queda do rico, está explicado há muito em toda a boa literatura. É portanto natural que alimente as redes sociais, pródigas em servir de espelho ao que somos. Sendo que houve em tempos aqueles sentimentos que faziam parte do “inconfessável”. Isso já acabou. Agredir por teclado, à distância, no conforto e solidão de um esconderijo qualquer, transformou todos os cobardes em “sinceros e frontais”.

A minha enorme mágoa é ver quanto do jornalismo se deixa arrastar para as mesmas pocilgas. Alguns fazem-no a céu aberto, explicando que não devem explicações a ninguém e que se marimbam para códigos de conduta ou imperativos morais. Mas já se vão multiplicando os outros, os ditos mais sérios, que a cada pontapé na seriedade argumentam que tem de ser, porque o mercado “mudou”.

No universo do embevecimento bacoco e novo-rico com o dinheiro e cargos e posses e fama, falemos, de formas muito diferentes, das obras do ministro Luís Neves e das férias de Cristina Ferreira. O caso do ministro não é mais do que um clássico da investigação jornalística. Alguém encontrou possível marosca no comportamento de um homem que serve o Estado. Por bem mais do que um século o jornalismo contribuiu para a limpeza da sociedade com investigações que resultaram em denúncia proveitosa. Também cometeu muitos erros e arruinou reputações sem sustentação. Mas para o que hoje me importa, nem é vital sabermos em que terreno estamos, uma vez que este caso ainda vai no adro e não faço a mínima ideia como terminará.

O que me interessa é o foco jornalístico, que sempre foi muito simples. Porque tardaram tanto a aparecer as faturas que o ministro dizia que obviamente existiam? O problema não é a piscina. A piscina faz parte do pacote, mas não é o coração da ilicitude. Mas grande parte do jornalismo já só nada de volta da magna questão, uma vez que as redes sociais saltaram de imediato ao verem as imagens do “tanque de rega”.

O caso de Cristina Ferreira não lhe cabe em exclusivo, ou seja, não é de perto nem longe a única estrela que vai de férias para paraísos e nos exibe, em forma de diário, como está tudo a ser tão maravilhoso. Há sempre o pormenor, nestas estrelas, de escolherem os resorts mais caros do planeta porque foram em busca das “coisas simples da vida”, como provam as fotos na praia ao pôr-do-sol e “sem maquilhagem”. Isso é o que é, consome quem quer. Só é pena o comportamento de cínica hiena de certa comunicação social, que num dia nos convida ao clique para vermos as fotos angelicais, e no outro coloca no título que “Grande parte dos portugueses não ganha na vida toda o que esta senhora gastou só nestas férias”. Grande parte do jornalismo já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema nenhum em comportar-se como mais um aziado que comenta nas redes.

Rodrigo Guedes de Carvalho. O jornalismo devorado pela rede. Expresso, 16 de julho de 2026

sexta-feira, 22 de maio de 2026

7 Dias com os media | Ódio online

 

#literaciadosmedia  #7diascomosmedia2026 #alermaisemelhor






No passado dia 21 de maio, os alunos do 2.º B1‑B2 estiveram na Biblioteca Escolar, das 8:15 às 10:05, para participar na Operação 7 Dias com os Media 2026. A sessão, dinamizada pela professora coordenadora da biblioteca, centrou-se numa das propostas da Rede de Bibliotecas Escolares: “Ódio online: desmascarar e combater”.

Ao longo da atividade, os alunos refletiram sobre a presença do discurso de ódio nos ambientes digitais, analisaram exemplos reais e discutiram estratégias para o identificar, desconstruir e contrariar. A sessão procurou ainda reforçar a importância de uma participação digital responsável, empática e informada.

Os objetivos principais desta sessão de (in)formação foram: 

  • Identificar e combater o discurso de ódio online;
  • Promover a cidadania digital e o respeito pelos direitos humanos;
  • Contribuir para os ODS 4, 5, 10 e 16 da Agenda 2030, reforçando a educação de qualidade, a igualdade de género, a redução das desigualdades e a promoção da paz, justiça e instituições eficazes.

Uma atividade que desafiou os alunos a pensar criticamente sobre a sua presença nas redes e a assumir uma postura ativa na construção de uma comunidade digital mais segura, inclusiva e humana.

 

👉Plano da aula 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Projeto Lidera & Operação 7 dias com os media

 

 #literaciadosmedia  #7diascomosmedia2026  #aLerMaiseMelhor

 

 


 



No passado dia 12 de maio, os alunos do 10.º F participaram, na Biblioteca Escolar, em mais uma sessão do projeto LIDERA – Ler Informação Diária para Escolher, Refletir. 

A sessão foi dedicada ao tema “Revista de Imprensa: comparação de fontes de informação e perspetivas”, desafiando os estudantes a observar criticamente a forma como diferentes meios de comunicação selecionam, hierarquizam e apresentam as notícias do dia.

A partir da análise das primeiras páginas de jornais diários, semanários e revistas, os alunos exploraram: 
  • diferenças editoriais entre órgãos de comunicação,
  • critérios de relevância noticiosa,
  • diversidade (ou ausência) de perspetivas,
  • impacto das escolhas mediáticas na construção da opinião pública.
Num segundo momento, os estudantes assumiram o papel de editores e produziram a sua própria revista de imprensa em formato podcast, selecionando notícias, organizando conteúdos e gravando comentários informados sobre os temas em destaque.

Esta atividade permitiu desenvolver competências de literacia mediática, pensamento crítico e produção digital, reforçando a importância de uma relação consciente e responsável com a informação — princípios centrais da Operação 7 Dias com os Media, promovida pelo GILM, e com o tema selecionado para este ano - Direitos Humanos: Em rede ou sem rede?


domingo, 3 de maio de 2026

Mensagem de A. Guterres para o dia mundial da imprensa

 

 


#diamundialdaliberdadedeimprens
#FreedomOfExpression #UNESCO #Journalism 


 



Mensagem do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para o Dia Mundial da Imprensa:

"Costuma-se dizer que, na guerra, a verdade é a primeira vítima. Mas, com demasiada frequência, as primeiras vítimas são os jornalistas que arriscam tudo para relatar a verdade, não apenas na guerra, mas em todas as situações onde aqueles que detêm o poder receiam o escrutínio. 

Em todo o mundo, os profissionais da comunicação social enfrentam os riscos de censura, vigilância, assédio legal e até a morte. Os últimos anos registaram um aumento acentuado no número de jornalistas mortos, muitas vezes visados deliberadamente em zonas de guerra. Oitenta e cinco por cento de todos os crimes cometidos contra jornalistas não são investigados e ficam sem sentença: um nível de impunidade inaceitável. 

Pressões económicas, novas tecnologias e manipulação ativa estão também a colocar a liberdade de imprensa sob uma pressão sem precedentes. Quando o acesso a informação fidedigna acaba, a desconfiança ganha raiz. Quando o debate público é distorcido, a coesão social enfraquece. E quando o jornalismo é sabotado, as crises tornam-se mais difíceis de prevenir e de resolver. 

Toda a liberdade depende da liberdade de imprensa. Sem ela, não existem direitos humanos, nem desenvolvimento sustentável, nem paz. 

Neste Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, vamos proteger os direitos dos jornalistas e construir um mundo onde a verdade, e as pessoas que dizem a verdade, estejam em segurança."

 

Cartoon | Censurado

 

 

#diamundialdaliberdadedeimprens#FreedomOfExpression #UNESCO #Journalism  

 

 

Cartoon de Fahd Bahady, Síria

 

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

 

  

#diamundialdaliberdadedeimprens#FreedomOfExpression #UNESCO #Journalism 




Shaping a Future of Peace” / "Moldando um futuro de paz" é mote do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa 2026, que se celebra a 3 de maio. 

"Ao promover o acesso a informações confiáveis, a responsabilização, o diálogo e a confiança, a liberdade de imprensa e o jornalismo independente são fundamentais para a paz, a recuperação económica, o desenvolvimento sustentável e os direitos humanos.


De acordo com o Relatório de Tendências Mundiais da UNESCO 2022-2025 , a liberdade de imprensa sofreu o seu declínio mais acentuado desde 2012. Esse declínio é comparável ao observado durante os períodos mais instáveis ​​do século XX – as duas guerras mundiais e a Guerra Fria.

A manipulação da informação, incluindo o uso de inteligência artificial por agentes maliciosos, está a minar a confiança e a segurança nacional. Ao mesmo tempo, os media independentes enfrentam uma crescente fragilidade económica.

A autocensura cresceu mais de 60%, impulsionada pelo medo de represálias, assédio online, intimidação judicial e pressão económica.

 



 

O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (DMLP) de 2026 oferece um momento crucial para reafirmar a liberdade de expressão e alinhar jornalistas, profissionais da tecnologia (incluindo inteligência artificial) e defensores dos direitos humanos em torno de maneiras práticas de fortalecer os ecossistemas de informação para o futuro."

Unesco

 

sábado, 2 de maio de 2026

Exposição | Supercharged by AI – Synthetic and Out of Control

 

 #LiteraciadosMedia   #InteligênciaArtificial  #BibliotecaCCBvr

 

 




De 5 a 9 de maio, a Biblioteca acolhe, no seu espaço de exposições, o projeto Supercharged by AI – Synthetic and Out of Control, uma iniciativa que a Rede de Bibliotecas Escolares integrou desde a sua fase inicial e à qual dá agora continuidade de forma autónoma.

A exposição convida a comunidade educativa a refletir sobre o impacto da Inteligência Artificial nas nossas vidas online, promovendo a literacia mediática e digital através de experiências interativas e de ações formativas dedicadas a áreas emergentes deste domínio.

O percurso expositivo integra quatro núcleos temáticos que exploram riscos, desafios e mecanismos de influência presentes no ambiente online: 
  • O espectro do assédio
  • Máquinas de estereótipos
  • Influência política
  • Fraudes online
Para além da vertente expositiva, o projeto inclui ainda: 
  • Formação de docentes sobre as áreas temáticas da exposição.
  • Dinamização de workshops apoiados pela exposição, para alunos do Ensino Secundário.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Alunos do 10º F participam no projeto Lidera

 

 #projetoLidera  #literaciafosmedia #bibliotecasescolares  #bibliotecaccbvr





 Esta manhã, os alunos do 10º F estiveram na biblioteca, na primeira sessão do projeto Lidera.

Tema da sessão: Introdução ao jornalismo e à leitura de conteúdos jornalísticos, focando-se na responsabilidade na informação.


Conteúdos abordados

1. O que é o jornalismo
2. Quem são os profissionais do jornalismo
3. Órgãos de comunicação social
    a. A área editorial (produção de conteúdos) e a área de negócio
    b. Regulação dos órgãos de comunicação social
4. Ética, direito e deontologia
5. O que são os conteúdos jornalísticos e onde os encontramos?
    a. Como reconhecer conteúdos jornalísticos?
    b. Separação entre conteúdos jornalísticos e conteúdos publicitários/comerciais
    c. Ler e analisar conteúdos jornalísticos 

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

O que é a "rage bait"?

 

#literaciadosmedia  #bibliotecasscolares

 




Palavra do Ano de Oxford 2025: “rage bait”
 
Todos os anos, a Oxford University Press elege uma palavra que reflete tendências culturais, sociais e linguísticas do nosso tempo. Em 2025, a escolhida foi “rage bait”: conteúdos criados para provocar indignação, gerar reações emocionais intensas e aumentar o envolvimento nas plataformas digitais. Esta escolha é um sinal claro de como a economia da atenção, os algoritmos e a comunicação digital influenciam emoções, comportamentos e a forma como a informação circula na sociedade atual.

A escolha de "rage bait" como Palavra do Ano sublinha a urgência de reforçar a literacia mediática e digital no contexto educativo. 
 
Neste contexto, as bibliotecas escolares e os professores, em conjunto, desempenham um papel decisivo na construção de uma cidadania digital crítica, ética e informada. 
 
Para saber mais, consulte o artigo "Rage Bait" e os desafios da literacia mediática, disponível no Blogue da Rede de Bibliotecas Escolares.

 

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Devem as redes sociais ser proibidas a menores de 16 anos?

 

 #literaciadosmedia 

  

 Três mulheres olhando para seus telefones em uma mesa de café.

 

Há necessidade de mais literacia e capacidade de auto-regulação, para que os indivíduos sejam capazes de utilizar determinadas ferramentas. Mas também precisamos de regulação das plataformas.

O Parlamento Europeu propôs recentemente a proibição do acesso a redes sociais a menores de 16 anos, à semelhança de uma medida já abordada na Austrália e que se baseia nos riscos que colocam a menores de idade. Quer pela generalização do uso de redes sociais, quer pela preocupação social que existe sobre este assunto, é natural que aquela proposta esteja a gerar debate e a identificação de prós e contras.

Será necessário perceber os detalhes, já que a forma de operacionalização de qualquer ideia conta e muito. Se tivermos uma medida que simplesmente diz que, antes dos 16 anos é proibido o acesso às redes, mas depois abrem-se as comportas do acesso a partir dessa idade, isso é insuficiente face ao que é necessário fazer para responder aos objetivos de quem a propõe.

As preocupações que estão subjacentes àquela proposta são legítimas. Desde logo, porque é importante relembrar a clara associação entre a utilização excessiva das redes sociais (normalmente através de smartphones) e múltiplos indicadores de sofrimento psicológico e alterações com significado clínico, por exemplo, na esfera da autoimagem e autoestima, da irritabilidade, da ansiedade, da depressão, entre outros.?

A natureza e a magnitude da situação requer uma ação que remete para uma compatibilização entre duas dimensões: a individual e a social. Há necessidade de mais literacia e capacidade de auto-regulação, para que os indivíduos sejam capazes de utilizar determinadas ferramentas. Mas também precisamos de regulação das plataformas.?

Certamente que cada pessoa deve ter competências para lidar com as redes e outras plataformas, isto é, temos de trabalhar a auto-regulação, a capacidade de cada pessoa gerir o seu próprio comportamento, de ter crítica, de literacia. E, neste âmbito, há um papel de quem educa e cuida, isto é, dos adultos?

Dito isto, não podemos ignorar duas coisas. Em primeiro lugar, que crianças e jovens adolescentes serem capazes de regular a sua utilização das redes não é propriamente uma expetativa realista. E, em segundo, que esta problemática não é apenas uma questão individual, um assunto que diga respeito apenas a cada um. Estamos a falar de uma questão de saúde pública. Na verdade, se o mesmo problema não acontece com uma, duas ou três, mas com milhões de pessoas, então há aqui uma ação que precisa de existir num plano mais alargado, ao nível da regulação das redes sociais e outras plataformas digitais. Digamos que, da mesma forma que, como comunidade, não aceitamos que uma criança esteja a fumar, também deve existir um consenso e uma mobilização social em não aceitar outros comportamentos que também são nefastos.

As plataformas têm de agir - e, não agindo, como se vê, têm de ser obrigadas a agir -, para que não estejamos numa espécie de selva digital. Até porque sabemos que os mecanismos pelos quais se regem muitas das plataformas têm como objetivo manter as pessoas ligadas, agarradas ao feed, e num registo de grande opacidade.

Naturalmente, a questão da regulação envolve detalhes, como fazer isso de uma forma que funcione. Há ainda riscos de atribuir poder de monitorização a determinados agentes. Mas o princípio essencial mantém-se: aquilo a que estamos a assistir no que se refere às redes sociais não é apenas uma questão individual, mas também social?

Se não se fizer nada, estão bem diante de nós os vários riscos para a saúde mental, para a convivência social e a própria democracia.

Renato Gomes Carvalho. Revista Sábado, 30 de outubro de 2025

 

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Jornalismo e violência: um romance

 

 #literaciadosmedia  #pensamentocritico

 

Máquina De Escrever, Vintage, Silhueta

Tenho dois ou três cretinos de estimação. Acontecerá a muitos de nós, calculo. Atenção: ninguém é cretino por me insultar, embora eu prefira quem discorda sem baixar o nível. Mas, enfim, estaremos ainda dentro dessa malha, tão discutível quanto ampla, da liberdade de expressão. O cretino revela-se quando ao insulto junta a estupidez, clara, declarada, tantas vezes orgulhosa e petulante, como qualquer boa ignorância. Por vezes é-me difícil dar por eles. Como de momento basicamente não publico nada nas minhas páginas, lá têm eles de ir deixar o fel numa qualquer publicação muito antiga, o que tem o seu quê de cómico, como seja chamarem-me isto ou aquilo sobre jornalismo ou política ou coisa do género mesmo debaixo de uma foto onde simplesmente mostrei o meu cão a dormir descansado, sem legenda, considerandos, ironia ou mensagem criptada. Mas os meus dois ou três cretinos dão-se ao trabalho de criar uma página anónima, com respetivo nome falso e ausência de foto, para me enviarem mensagem privada, sempre a uma distância tão comprida quanto sensata: nunca me dizem quem são. Adiante.

Quero com isto trazer aqui uma das “bombas” mais cretinas do cretino: quando me acusam de ser hipócrita porque por vezes deixo críticas ao jornalismo. Ahahaha, ri o cretino, então este gajo é jornalista e está a malhar no jornalismo, escreve-me o cretino, julgando atingir-me em cheio com uma criptonite que não previ e que me deixaria supostamente embaraçado. Desconhecem os cretinos o conceito de pensar. Desconhecem que uma das maiores riquezas de empresas e ramos profissionais (riqueza em perda…) é a interrogação constante, a autocrítica, a análise de comportamentos, para verificação sistemática do que andamos a fazer, se respeitamos os valores que jurámos um dia abraçar. Há óptimos exemplos nas mais variadas profissões (quem dera que em todas…), médicos, advogados, engenheiros, políticos, militares, cozinheiros, empresários disto e daquilo. O que são, aliás, as Ordens de tantas e tão nobres atividades senão uma constante vigilância de valores basilares? Mas não adianta, os cretinos não alcançam que fiscalização e exigência começam por dentro.

Pertenço à equipa fundadora da SIC. E torna-se hoje, e cada vez mais, difícil conseguir explicar a plenitude do que foi esse período da televisão e do jornalismo. Sou grato por ter vivido momentos inéditos e irrepetíveis, dos quais realço a espantosa capacidade que as redacções tinham para conversa e reflexão constantes. Grande parte dos dias eram passados entre discussões bem quentes. E é curioso, e tão diferente de hoje; podia haver amuos breves aqui e ali, mas não havia quem se sentisse “ofendido” por ouvir o que não queria. Tínhamos mentalidade de pugilista, sabíamos que se íamos dar era provável também levarmos. Tínhamos ideias e posturas diferentes, mas no centro de tudo estava uma rocha que todos respeitavam: o que andamos a fazer, quais são os nossos deveres para com o público?

Em 2001, na SIC, discordei abertamente da fome de sangue com que investimos tanto numa ida ao Brasil para entrevistar Luís Militão, que acabara de mandar matar com requintes de crueldade seis portugueses que atraiu a Fortaleza. Não está em causa a qualidade do trabalho da equipa da SIC, acontece que sempre me causou enorme estranheza a relevância de ouvirmos assassinos confessos. Ainda assim, há um pormenor importante. À época, era o drama mais mediático, que deixara em choque um país inteiro pela aparente futilidade dos crimes e, acima de tudo, a lenta macabra violência. E a entrevista, conduzida pela Maria João Ruela poucos dias após o horror, levaria Militão a respostas tão aberrantes e desconcertantes que se tornavam parte integrante da notícia e levantavam cada vez mais dúvidas sobre os motivos reais. Ou seja, acabou por ser relevante, não o nego.

Já me parece despropositado todo este folclore, 24 anos depois, de ver televisões a anunciarem com orgulho um “exclusivo” com o monstro. Não percebo o valor acrescentado de deixá-lo revisitar e voltar a esfregar-nos na cara a crueldade, muito menos compreendo que uma das missões destas entrevistas seja, de alguma forma, “compreender” o assassino, primeiro passo para uma busca de absolvição pública. Não importa ter sido noutras estações, a SIC tem a sua boa parte de situações parecidas. É uma coisa minha, um arrepio que não me permite entender tempo de antena aos criminosos, à face mais feia do mundo que nos calhou. Não, não quero saber de mais pormenores que “ainda não se sabiam”. Dispenso. Mas eu é que estou deslocado.

O jornalismo tem uma história romântica com a violência, um pacto de venda que me impressiona. E há que lembrar que só se vende a quem compra. No limite, participamos todos nesta dança com o horror, ou não haveria tanto documentário, filme e série sobre “crimes reais”, negócio que nunca conheceu crise e só sabe crescer.

Rodrigo Guedes de Carvalho. Jornalismo e violência: um romance, Jornal Expresso, 25 de setembro de 2025

 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Concurso | Isto também é comigo!

 

 #publiconaescola

 

 

 



O concurso “Isto também é comigo!” vem desafiar os jovens a darem voz aos seus pensamentos.

A partir da leitura do Jornal PÚBLICO, será selecionado o melhor artigo de opinião escrito por alunos do ensino secundário sobre um tema da atualidade mediática. Um júri, constituído por jornalistas, professores e alunos, reunirá, mensalmente, para apreciar os textos submetidos pelos professores bibliotecários de todo o país.

Os alunos do ensino secundário têm oportunidade de fazer ouvir a sua voz, na sequência de conteúdos publicados na edição impressa ou online do Jornal PÚBLICO que lhes tenham despertado a atenção.

Os vencedores terão os seus textos publicados nas plataformas digitais do PÚBLICO na Escola e da RBE e nas respetivas redes sociais. Além disso, os alunos têm direito a uma oferta de livro(s) do PÚBLICO e a biblioteca escolar a uma assinatura digital anual do jornal.


Documentos 

 
 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Concurso | Jornalistas em Rede

 

 

 

 

Jornalistas em Rede é o concurso que incentiva os alunos do terceiro ciclo do ensino básico a olharem para a realidade que os cerca e a colocarem-se na pele de verdadeiros jornalistas. Nas modalidades de entrevista ou de reportagem, poderão escrever e dar a conhecer temas e fenómenos de interesse para o público em geral.

Os textos, as fotos e a identificação dos alunos será submetida pelos professores bibliotecários até 4 de maio.

Apurados os vencedores, a entrevista e a reportagem serão publicadas nas plataformas digitais do PÚBLICO na Escola e da RBE e respetivas redes sociais. Além disso, os alunos receberão um voucher de 150 euros e a biblioteca ganhará uma assinatura digital do jornal com a duração de um ano.
 
Documentos 
 

 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

O mundo na escola

 

 

 Como dinamizar meios de comunicação escolares

 

Pode ser uma imagem de 2 pessoas e a texto 

 

 


Sinopse

Este livro parte do reconhecimento dos meios de comunicação escolares como espaços privilegiados para dar voz a crianças e jovens e promover a literacia mediática em contexto educativo. Com base num estudo desenvolvido em 12 escolas do ensino básico e secundário, no âmbito do projeto bYou, analisa-se o papel destes meios na promoção da participação, da expressão e da aprendizagem crítica sobre os media e sobre o mundo.

 A obra reúne ainda um conjunto de estratégias para fomentar e diversificar a abordagem jornalística nos media escolares, bem como diversas propostas e recursos para a sua dinamização. Os media escolares são aqui apresentados como laboratórios de cidadania, capazes de contribuir para uma escola mais democrática, inclusiva e preparada para os desafios da era digital.

 Sara Pereira, Daniel Brandão e Joana Fillol (org.). O mundo na escola - Como dinamizar meios de comunicação escolares.  Edição UMinho: Braga, 2025.


sexta-feira, 5 de setembro de 2025

AI SLOP - Inteligência Artificial para criar reações e render dinheiro

 

 

Reconhece esta imagem?

 

 

Imagem criada por Inteligência Artificial mostra alegado bombeiro a chorar num cenário de incêndio florestal.
Na página que a publicou são pedidos "corações" em apoio.



O Expresso lançou um episódio do “O Futuro do Futuro” [Podcast] que desmonta uma história comovente, mas completamente inventada, sobre um bombeiro chamado Tiago.

O vídeo circulou a toda a velocidade nas redes sociais numa altura em que Portugal se debatia com graves fogos. Nessa imagem aparecia um bombeiro (Tiago) com a cara suja do fumo e os olhos vermelhos a relatar um salvamento dramático durante um incêndio. Só que… nada daquilo era real.

Os ingredientes para uma história dramática estavam todos lá, mas… tinha sido tudo gerado por Inteligência Artificial.

Nem existe o Tiago, nem o incêndio, nem o carro. Mas isto tem um nome.

Chama-se AI SLOP e significa: conteúdo emocionalmente intenso, mas de qualidade duvidosa, feito para "entupir" os algoritmos dos nossos telemóveis e subir nos feeds das redes sociais.

O vídeo foi publicado em páginas que pareciam ligadas ao Santuário de Fátima, o que só adensou o mistério. Mas o próprio Santuário já veio dizer que não tem nada a ver com isso e que há perfis a usar abusivamente o seu nome. Entretanto, o Facebook apagou o vídeo depois de este ter sido exposto no podcast do Expresso.

Mas fica a pergunta: quantos mais vídeos falsos estarão por aí, à espera de serem descobertos?





Imagem criada por Inteligência Artificial mostra alegada bombeira após um salvamento mal-sucedido. 
Na página que a publicou são pedidos "comentários de força"


Atenção, separar o real da ficção está a tornar-se um desafio diário.

A inteligência artificial está a evoluir a um ritmo alucinante, duplicando capacidades a cada três meses (mais coisa menos coisa). E se até os bombeiros fictícios conseguem emocionar-nos, talvez esteja na altura de afinarmos a nossa atenção digital. Porque nem tudo o que parece… é.

Se quiser ficar a saber o essencial sobre AI Slop, clique aqui
 
 
Joana Beleza. Expresso, Newsletter, 4 de setembro de 2025
 

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Ebook | Crianças, Jovens e media: Vidas (Des)Ligadas?

 

 

 

Sara Pereira & Daniel Brandão (eds), UMinho Editora, julho 2025

 



A obra Crianças, Jovens e Media: Vidas (Des)Ligadas? Atas do Congresso bYou reúne, na primeira parte, o texto de introdução do congresso e os textos dos dois oradores da conferência de abertura: Ana Beatriz Pereira, aluna do 12.º ano da Escola Secundária Vitorino Nemésio, e João Marecos, advogado e investigador ligado a vários projetos culturais, jornalísticos e de cidadania. 
 
Na segunda parte, são apresentados 10 textos de investigadores nacionais e internacionais que participaram no evento. 
 
A terceira parte inclui o Manifesto produzido a partir da discussão, das conclusões e das recomendações dos dois dias de trabalho. Inclui igualmente um texto poético da autoria de José Miguel Braga, inspirado nos resumos das comunicações dos participantes, bem como em textos produzidos no âmbito do projeto bYou.
 

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Passam a vida online, mas qual a real literacia mediática dos jovens? Os resultados não são animadores

 

 








As gerações mais novas parecem especialistas natas em tecnologia, mas a análise às competências mais finas da literacia mediática deixa os jovens portugueses aquém do esperado

“Vivemos num mundo onde os media são omnipresentes”, arranca a “Declaração de Grünwald sobre Educação para os Media”, assinada por representantes de 19 países num simpósio organizado pela UNESCO em 1982 — muito antes de a generalização do uso da internet levar essa omnipresença a novas alturas. “O papel da comunicação e dos media no processo de desenvolvimento não deve ser subestimado, tal como não deve ser subestimada a função desses meios como instrumentos ao serviço da participação ativa dos cidadãos na sociedade”, continua o documento que foi o primeiro ímpeto para a educação sobre os meios de comunicação social que se desenvolveria a nível internacional nas décadas seguintes. “Os sistemas político e educativo devem reconhecer as suas respetivas obrigações na promoção de uma compreensão crítica do fenómeno da comunicação entre os seus cidadãos.”

A aposta na promoção da literacia mediática em Portugal tem dado passos relevantes, nomeadamente através do Plano de Ação para a Comunicação Social, lançado em outubro de 2024, que contempla o Plano Nacional de Literacia Mediática e a oferta de assinaturas digitais de títulos generalistas e económicos para estudantes do ensino secundário, duas medidas aprovadas em março deste ano em Conselho de Ministros.


Repertório mediático dos jovens

 

6º ano (11, 12 anos)

Table with 2 columns and 5 rows.
1Telemóvel
29,1%
2Internet
19,3%
3Livros
15,1%
4Videojogos
10,9%
5Redes Sociais
7,3%



9º ano (14, 15 anos)

Table with 2 columns and 5 rows.
1Telemóvel
37%
2Internet
28,2%
3Redes Sociais
8,9%
4Videojogos
8%
5Computador
6,4%



12º ano (17, 18 anos)

Table with 2 columns and 5 rows.
1Telemóvel
29,1%
2Internet
19,3%
3Livros
15,1%
4Videojogos
10,9%
5Redes Sociais
7,3%


Segundo o “Reuters Digital News Report”, 39% dos jovens dos 18 aos 24 anos utilizam como principal fonte de notícias as redes sociais, e apenas um terço dos jovens inquiridos declarou confiar nas notícias que lê nas redes. Em Portugal, a televisão e a internet (incluindo redes sociais) são os meios dominantes, havendo uma clara preferência da primeira pela população a partir dos 44 anos, enquanto os mais jovens consultam mais a internet. Isto segundo o “Digital Media Report Portugal” relativo a 2024, lançado pelo centro de investigação OberCom, que também indica que “mais de 8 em cada 10 acessos a notícias online (84%) são feitos de forma indireta e apenas 16% ocorrem através da visita direta ao website das marcas de notícias”. Uma avaliação recente do projeto bYou, do Observatório sobre Média, Informação e Literacia (MILObs) da Universidade do Minho, destaca a predominância do telemóvel e das redes sociais no tempo despendido pelos jovens a interagir com meios de comunicação (entre três e quatro horas diárias) face à televisão (duas horas) e a jornais, rádios ou podcasts (até meia hora por dia).

“As escolas têm sido excecionais no trabalho para a literacia mediática, através das bibliotecas, mas precisamos de mais consistência. Temos as práticas, mas ainda não tínhamos a política; e a política permite-lhes dar continuidade às práticas”, reflete Sara Pereira, professora e investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), da Universidade do Minho, especializada em literacia mediática e na relação dos jovens com os media. “O Plano Nacional poderá significar um incremento grande da literacia mediática da população portuguesa, mas não há ações para o público adulto com a mesma intensidade que há para o público escolar”, lamenta, notando que “as famílias deviam ser o grupo prioritário do plano”. Isto porque os seus hábitos mediáticos — além das habilitações — influenciam diretamente os hábitos das gerações mais novas.


49%

dos estudantes de 15 anos dos países da OCDE afirmaram não serem capazes de avaliar facilmente a qualidade da informação online

Fonte: PISA 2022

O teste-piloto da ferramenta digital EduMediaTest — que permitirá a educadores avaliarem os níveis de literacia mediática dos jovens e cuja avaliação em Portugal, em 2020, coordenada pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), envolveu quase três mil alunos dos 14 aos 18 anos —, reportou que quase dois terços dos estudantes não tinham acesso a jornais e revistas e mais de metade indicava não ter literatura em casa. A avaliação de competências tem seis componentes, entre elas a tecnologia (as competências técnicas do acesso e da navegação na internet) e a estética (a sensibilidade de relacionar produções mediáticas com obras artísticas) — rubricas em que os alunos portugueses tiveram melhores resultados, acima da média da pontuação nos sete países envolvidos no projeto: Espanha, França, Irlanda, Eslováquia, Croácia e Grécia. Já a linguagem foi a que teve piores cotações. No piloto português concluiu-se que os resultados no teste melhoram com a idade, que as raparigas tiveram melhores resultados do que os rapazes, em média, e que o grau académico da mãe ou encarregada de educação parece influenciar positivamente a performance dos alunos. Entre as recomendações resultantes, o relatório destaca, a propósito dos bons resultados no que toca à tecnologia, “a contradição das escolas em reduzir a literacia para os media a uma mera aptidão digital (essencialmente, a sua dimensão instrumental)”, expressando que “tendem a oferecer a maior parte da sua formação na única dimensão na qual os alunos já são qualificados”.


Literacia Mediática
Índice entre 41 países. Máximo 100 pontos

Table with 2 columns and 12 rows.
1Finlândia
74
2Dinamarca
73
3Noruega
72
4Estónia
71
5Suécia
71
6Irlanda
70
7Suíça
67
8Países Baixos
64
9Islândia
62
10Bélgica
61
11Alemanha
61
12Portugal
60


Um outro estudo das competências de literacia mediática de jovens do 12º ano de escolaridade, realizado em 2015 em resposta a um desafio do Grupo de Peritos da Media Literacy Unit da Comissão Europeia, espelha iguais conclusões. Enquanto identifica bons níveis de literacia funcional nos cerca de 700 estudantes avaliados, “as questões que implicavam uma análise crítica, que ultrapassavam os documentos fornecidos e que exigiam um certo conhecimento do campo mediático por parte dos alunos foram muito menos bem-sucedidas nas suas respostas”, expressa o estudo realizado pelo CECS da Universidade do Minho, com o apoio do Gabinete para os Meios de Comunicação Social e da Rede de Bibliotecas Escolares. A análise conclui “níveis muito baixos de literacia para os media”, com uma média que não ultrapassa os 29,01 valores em 100 possíveis. “Os resultados francamente baixos derivam dos exercícios propostos ou da falta de conhecimentos sobre os media? Parece-nos que a explicação estará na interação entre estes dois fatores”, expressam os autores. “Um dos dilemas recorrentes envolveu uma questão que ficou por responder: o que é que estes jovens estudantes devem saber? Sem ter isto bem definido torna-se difícil escolher o que avaliar ou ensinar. Para esta dificuldade em muito contribui o espaço reduzido que a Educação para os Media ocupa nos curricula escolares”. Dez anos volvidos, Sara Pereira, uma das autoras, defende a revisão da análise, denunciando a falta de informação sistemática e atualizada sobre a realidade nacional no que toca à literacia mediática.

O último Índice de Literacia Mediática relativo a 2023, avaliado pelo Open Society Institute — Sofia para 35 países europeus, firma Portugal no 12º lugar, uma subida na qualificação de 2022 (14º), mas uma descida na pontuação, de 61 para 60. A Finlândia, que trabalha a literacia mediática nas escolas há três décadas e é considerada o modelo a seguir no que toca a políticas de educação para os media, lidera o índice. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), o maior instrumento de avaliação da educação a nível internacional, foca-se nos alunos com 15 anos e nas suas competências em leitura, matemática e ciências. Na edição mais recente, de 2022, analisaram-se as capacidades digitais dos alunos e concluiu-se que, embora 64% afirmassem ser capazes de procurar informação relevante online, 49% admitiam não ser capazes de avaliar facilmente a qualidade da mesma informação. A próxima edição do PISA, que será conhecida em 2026, vai integrar uma avaliação mais aprofundada das competências digitais, e um outro estudo, a ser aplicado em 2029, vai focar-se na literacia dos media e de inteligência artificial dos alunos dos países da OCDE. Sara Pereira defende que se deve apostar em estratégias que partam “do mundo jovem para o mundo adulto”, e não o contrário, justificando que é pela participação que os jovens conseguem ganhar consciência crítica das suas práticas. Exemplo disto serão os meios de comunicação escolares, como jornais, rádios ou televisões, que são o “espaço fundamental do desenvolvimento não só da literacia dos media mas também da literacia cívica”, descreve a investigadora do MILObs.

Inês Loureiro Pinto (texto), Jaime Figueiredo (Jornalista/Coordenador-Geral de Infografia) e Cristiano Salgado (Ilustrador). E-Revista, Semanário Expresso, dia 6 de junho de 2025.