quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Contra a hegemonia da IA: estamos a fazer 'outsourcing' do nosso sentido crítico a chatbots?

 

#inteligenciaartificial   #pensamentocritico 

 




No podcast "Talvez o contrário seja o mesmo", a partir da análise dos discursos na cerimónia solene do 25 de Abril, José Maria Bettencourt denunciou a utilização excessiva da IA nos textos que os deputados e as altas figuras do Estado leram. Se precisarmos de mais um exemplo paradigmático, podemos observar a nota de pesar que a Presidência da República publicou na sequência do falecimento de Luís Represas. O cenário é catastrófico.


Decidi escrever este texto porque estou cansado da hegemonia dos artigos escritos pela Inteligência Artificial diariamente publicados em jornais, revistas, nas redes sociais; em resumo, em todo o lado onde é possível publicar um texto. Esta supremacia é bastante óbvia, quer pela uniformização da linguagem, quer pelos truques retóricos que a IA utiliza, muitas vezes distantes do que seria uma prosa convencional.

Assumo, desde logo, que, no que concerne à IA, não sou virgem nem propriamente cético. Seria absurdo tentar parar o vento da evolução tecnológica com as mãos e o advento da IA, do ponto de vista económico e social, pode representar um período de crescimento sem precedentes e de alargamento de oportunidades. Recorro diariamente à IA para rever a minha escrita ou para me ajudar a estruturar e-mails e creio que não cai o Carmo e a Trindade por fazer isso, apesar de, cada vez que abro o ChatGPT ou o Copilot, sentir alguma culpa pelo facto de ceder uma parte do meu pensamento a um instrumento deste género.

Mas a grande questão que pretendo colocar é a seguinte: onde traçamos a linha do que é ou não aceitável? Eu digo a mim mesmo que não tem mal usar a IA para algumas tarefas repetitivas, mas possivelmente existe quem estabeleça o seu limite num ponto mais distante. Há quem não veja mal em criar um vídeo com a imagem de outra pessoa a fazer uma dança ridícula, talvez por considerar inofensivo, da mesma forma que existirá quem não veja mal nenhum em usar a IA para escrever um texto completo, um livro ou uma tese de doutoramento.

Certamente, não serei eu a indicar um caminho dotado de virtudes, de verdade e de razão para resolver esta questão existencial, mas, no mínimo, posso ajudar a pensar nos riscos que o uso excessivo da IA comporta.

 
Fazer outsourcing do pensamento e do sentido crítico em nome da preguiça

Neste período inicial de avanço da IA, estamos constantemente a fazer ‘outsourcing’ do nosso pensamento e consciência crítica a um chatbot, frequentemente a transferir todo o trabalho intelectual, complexo e estimulante para um mecanismo que mal conhecemos, tudo em nome da eficiência e da preguiça.

Da eficiência porque consideramos útil reduzir o tempo destinado a uma tarefa; e não estamos totalmente errados. Em alguns casos, pode ser bastante útil, particularmente quando falamos de processos monótonos e repetitivos, que não exigem propriamente uma consciência crítica numa primeira fase. Porém, a ideia de eficiência é, muitas vezes, uma ilusão, porque a IA não nos vai fazer trabalhar menos horas e não vamos passar a ter mais tempo para a família ou para um hobby. Pelo contrário, se há realidade com a qual cada trabalhador se depara diariamente é a de que o trabalho nunca acaba.

Outra consequência potencialmente nefasta da utilização excessiva da IA é a preguiça. Existem vários tipos de preguiça. Diria mesmo que cada indivíduo tem a sua própria preguiça, pessoal e intransmissível, tatuada no seu código genético. Nem toda a preguiça é má. Não fazer nada, o dolce far niente, é algo que não deve ser negligenciado. Todos nós precisamos de momentos em que não fazemos nada, em que dedicamos algum tempo à contemplação serena da vida, como o escocês Robert Louis Stevenson tão bem descreve na sua Apologia do Ócio.

No entanto, a preguiça que a IA causa não é a preguiça essencial que comporta a arte de não fazer nada; é a do desleixo intelectual, da renúncia ao pensamento crítico, da aceitação acrítica de uma ideia sem acautelar os perigos em que isso se traduz.

Escrever um texto não é uma tarefa fácil. Especialmente porque existem muitos textos e porque, possivelmente, um filósofo grego ou oriental já dissertou sobre os mesmos temas que nós. Os temas são sempre os mesmos, repetem-se continuamente com a devida adaptação contemporânea. Existem poucos pensamentos originais, mas devemos exigir um pouco mais a quem nos representa.

No podcast «Talvez o contrário seja o mesmo», a partir da análise dos discursos políticos na cerimónia do 25 de Abril deste ano na Assembleia da República, José Maria Bettencourt denunciou a utilização excessiva da IA nos textos que os deputados e as altas figuras do Estado leram. Se precisarmos de mais um exemplo paradigmático, podemos observar a nota de pesar que a Presidência da República publicou na sequência do falecimento de Luís Represas. O cenário é catastrófico: os recursos estilísticos utilizados são sempre os mesmos e a uniformização da linguagem é evidente.

Se um político já nem se dá ao trabalho de escrever um texto para uma das cerimónias mais importantes do ano, ou se já nem consegue pensar num conjunto de palavras para construir uma nota de pesar, estaremos muito longe da transferência das suas inquietações para estes chatbots? Será que algum político já perguntou os prós e contras de uma decisão ao ChatGPT? A bola de neve pode chegar ao ponto de o outsourcing começar na elaboração dos discursos e terminar na responsabilidade política.

Não sou um negacionista da IA. Pelo contrário, acredito, idilicamente, que, se for usada ao mesmo tempo que estimula o pensamento crítico, pode ser um verdadeiro instrumento que vai melhorar as nossas vidas. Mas, neste momento, talvez por estarmos numa fase inicial, em que o fascínio atinge proporções tão parolas como monumentais, não conseguimos ver os perigos que esta hegemonia comporta.

Como qualquer mudança, teremos uma fase de estabilização, em que iremos atingir algum equilíbrio, mas é importante estar alerta e nunca renunciar ao pensamento crítico neste processo, porque há fronteiras que não devemos ultrapassar.

Quem define essas fronteiras?

Para já, ninguém.

Gonçalo Angeiras.* 
"Contra a hegemonia da IA: estamos a fazer 'outsourcing' do nosso sentido crítico a chatbots?", Geração E - Expresso, 5 de agosto de 2026
 
* Jurista e consultor de Políticas Públicas

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sai mais um sobre “A Odisseia”

 

#aLerMaiseMelhor  #LiteraturaeCinema






Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de ser a nossa época a viver o fim de uma era. 

Saiu meia crítica de A Odisseia do Nolan com a lição bem decorada, e é sempre comovente ver tanta gente a concordar tão depressa. O filme, explicam-nos, é um aviso sobre a hospitalidade: quem maltrata o estrangeiro arrisca-se a perder a civilização, e convinha que certos Governos tomassem nota. A lição é bonita, é útil (e tem, já agora, a minha concordância), e padece de um único defeito, que é o de o filme dizer uma coisa bastante pior. Para se pregar a bondade para com o estranho é preciso, antes de mais, um estranho, uma linha a separar o civilizado de cá do perigo de lá. E Christopher Nolan gasta três horas de fita a apagar essa linha com uma paciência de restaurador.

Explico-me, porque isto pede um desvio de três mil anos. O fim do mundo antigo tem nos manuais um culpado com nome de romance de cordel, os Povos do Mar, batizados assim em 1855 por um egiptólogo francês que precisava de pôr um rótulo em cima do que não sabia explicar. Por volta de 1200 a.C., qualquer coisa desce sobre o Mediterrâneo e apaga-o: os hititas somem-se, as cidades ardem por ordem, e em Ugarit as últimas cartas ficaram cozidas num incêndio que as deveria ter comido, e ainda hoje se leem. Falam de barcos à vista e de um socorro que não vinha. Ramsés III gravou em Medinet Habu a vitória sobre a tal horda, com a letra grande de quem se safou à justa, e terá dormido descansado, na convicção de que deixava o assunto arrumado para a eternidade. Seguem-se quatro séculos a que a arqueologia chama, sem pudor nenhum, Idade das Trevas.

Ora, nas listas que os escribas do faraó fizeram dos Povos do Mar há nomes que caem mal no estômago de um grego. Ekwesh, que muitos leram como aqueus, e denyen, onde ressoam os dânaos de Homero. A filologia é, claro, feita de areia movediça e as identificações discutem-se há século e meio, mas a hipótese, uma vez posta, já não se despega: no meio da frota que acabou com a Idade do Bronze vinham, talvez, os heróis de Troia a caminho de casa, e o monstro avistado das muralhas era o vencedor a regressar, tão desfeito pela guerra que a casa já o não conhecia, nem ele a ela. Nolan pega nesta nota de rodapé da egiptologia e faz dela o fim do filme. “Os Povos do Mar somos nós”, diz Ulisses a Penélope.

Repare-se então no santo que a crítica escolheu para o altar. O Ulisses que se quer promover a cartaz de boas práticas desembarca em Ítaca, encontra a casa cheia de hóspedes a comer-lhe o gado e a cortejar-lhe a mulher e resolve o assunto matando toda a gente, de modo que o padroeiro do bem receber vem a ser um anfitrião que faz uma chacina na própria sala de jantar, para castigar noutros, por atacado, o crime que ele mesmo vendera a retalho à porta de Troia. Porque a xenia que os pretendentes espezinham e que ele vinga a ferro estava longe de ser uma delicadeza de época. Era, na verdade, o que segurava aquele mundo, a maneira de dois desconhecidos poderem conversar sem que se degolassem, o contrato antes de haver minutas, e foi justamente Ulisses quem ensinou o Mediterrâneo inteiro a falsificar-lhe a assinatura. Depois do cavalo, nenhum presente se voltou a abrir sem antes se abanar, o que fica caro e cansa.

A bem da verdade, é preciso notar que a razão do colapso da civilização é uma invenção do realizador, coisa que decerto irrita algum purista e que a mim me parece a melhor decisão do filme. A tradição fazia do caso um assunto privado, com a culpa atribuída a Atena que amaldiçoava o regresso dos gregos por lhe terem sujado os templos, a conta apresentada aos homens, um a um, e nunca à época. O casamento do mito com o colapso da Idade do Bronze foi celebrado pelo Nolan, sem consulta às famílias, e o anacronismo interessa porque fala muito mais de 2026 do que de 1200 a.C.. Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de sermos a viver o fim de uma era. Não consta que tenha havido época que se julgasse outra coisa (e algumas até acertaram, o que estraga a estatística).

De resto, o cavalo nem foi a maior fraude daquela guerra. E o filme assume a primeira pela boca de quem a cometeu. O Agamémnon de Nolan olha para Troia e vê uma alfândega, a cidade sentada à boca dos estreitos a cobrar portagem ao trigo e ao estanho que passavam para o mar Negro. Era um problema comercial à espera de pretexto, e o pretexto chegou com a cara de uma rainha. Helena valia pouco como política alfandegária e valia tudo como causa (uma mulher roubada arma mil navios, uma pauta aduaneira dificilmente arma um bote). Também nisto o realizador filma o presente com figurinos de bronze, porque o expediente nunca mais saiu de serviço. As torres caem em Manhattan e a fatura segue para Bagdade, que as viu cair pela televisão, como toda a gente; choram-se os enforcados pelo regime de Teerão de véspera, para ao outro dia se discutir, com a lágrima ainda ao canto do olho, o mapa dos alvos. A vítima é verdadeira, o luto até pode sê-lo, e o que se lhe segue já vinha desenhado de trás, à espera de quem o justificasse. A guerra por procuração sentimental já existiria antes de Agamémnon, e a ele deve-se apenas o modelo de negócio.

O filme teve a crueldade de pôr uma cara grega aos Povos do Mar. A frota que se aproxima traz a nossa, e o que os vigias avistam das muralhas é o que mandámos para fora do mundo, de volta com juros e já sem conhecer a casa. Nos manuais, a idade que se seguiu ao incêndio ficou com o nome de Trevas, e do mar, ao que tudo indica, veio pouca; construiu-se à mão, por gente engenhosa, entre uma causa que era uma cobiça e um presente que era um exército, dois embrulhos aceites pela mesma razão. A de virem bem feitos. 

Maria Castello Branco*. "Sai mais uma sobre 'Odisseia'", Expresso, 28 julho 2026 

Comentadora política da RTP Notícias, autora do podcast Lei da Paridade

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

De que se alimentam os grandes modelos de IA?

 

#inteligenciaartificial

Estima-se que um quarto das fontes de IA são livros



 

Livros, web, redes sociais e artigos científicos na corrida para treinar LLMs (Modelos de Linguagem de Grande Escala)

 

Uma análise do cientista de dados Olivier Khatib, CEO da T1U.ai, estima a distribuição das principais fontes de dados usadas para treinar cinco dos modelos de linguagem mais importantes – ChatGPT (OpenAI), Claude (Anthropic), Gemini (Google), Llama (Meta) e Grok (xAI) – com base na documentação pública das empresas, dos seus relatórios técnicos e outras evidências disponíveis.

O estudo mostra que, embora todos esses modelos se baseem numa combinação de fontes semelhantes, cada um apresenta uma estratégia distinta de recolha e ponderação de dados que reflete tanto os seus objetivos técnicos como as forças das organizações que os desenvolvem.

Um dos resultados mais marcantes é que o Llama, o modelo da Meta, teria obtido cerca de um quarto de seus dados de treino a partir de livros, uma proporção maior do que a estimada para qualquer um dos outros modelos analisados. Isso é particularmente relevante porque o uso de livros protegidos por direitos autorais é atualmente um dos principais focos de litígio entre empresas de IA e detentores de direitos. Enquanto autores, editoras e organizações culturais entraram com inúmeros processos por uso não autorizado de suas obras, a investigação judicial também revelou o armazenamento de milhões de livros digitalizados para o treino de alguns modelos, intensificando o debate sobre os limites legais da aprendizagem de máquina e o uso legítimo de conteúdo protegido.

O estudo também mostra diferenças significativas entre os diferentes sistemas. O Claude destaca-se por incorporar uma proporção relativamente alta de artigos científicos e publicações académicas, consistente com a orientação que a Anthropic deu ao seu modelo para tarefas analíticas, pesquisa e raciocínio complexo. Por sua vez, o Gemini depende mais fortemente de dados provenientes do rastreamento web, aproveitando o enorme ecossistema de informações indexado pela Google para construir um modelo com ampla cobertura temática e linguística. No caso do Grok, desenvolvido pela xAI, o peso dos dados das redes sociais destaca-se, especialmente devido à integração com o ecossistema X (anteriormente Twitter), que oferece ao modelo acesso privilegiado a conversas e eventos recentes. O ChatGPT apresenta uma mistura mais equilibrada de fontes, distribuindo seu treino entre conteúdo web, livros, código, documentos e outras recolhas de dados.



Fonte predominante por modelo

ChatGPT (OpenAI) - Mistura equilibrada de páginas web, livros, código e documentos públicos.
Claude (Anthropic) - Maior presença de artigos científicos e literatura académica.
Gemini (Google) - Predominância do rastreamento da web.
Llama (Meta) - Alta proporção de livros (cerca de um quarto do conjunto de treino).
Grok (xAI) - Uso significativo das redes sociais, especialmente conteúdo do X (Twitter).

Além das diferenças quantitativas, o relatório ilustra a crescente importância da diversidade das fontes de treino como fator estratégico no desenvolvimento de modelos fundamentais. Os livros fornecem profundidade concetual e riqueza linguística; os artigos científicos fornecem conhecimento especializado e rigor técnico; o conteúdo do site oferece uma amplitude temática; as redes sociais incorporam atualidades e linguagem coloquial; enquanto outras fontes, como repositórios de código ou documentos públicos, enriquecem capacidades de programação e resolução de problemas. Essa combinação explica em grande parte as diferentes forças e limitações observadas entre os modelos atuais.

Por fim, o artigo coloca esses dados no contexto da crescente controvérsia legal sobre o treino de inteligência artificial. Processos por violação de direitos autorais continuam a multiplicar-se, especialmente contra empresas como a Meta e a Anthropic, à medida que os tribunais começam a restringir as práticas legais de recolha e armazenamento de dados e a clarificar as que infringem a propriedade intelectual. Como resultado, a composição dos conjuntos de treino já não é apenas uma questão técnica, tornando-se na questão central para o futuro da regulação, transparência e sustentabilidade do desenvolvimento da IA generativa.

Buchholz, Katharina. Estima-se que um quarto das fontes de IA de lhamas vieram de livros. Statista, 27 de julho de 2026. Disponível em: Statista

domingo, 26 de julho de 2026

360º Património Cultural

 

 

 #PatrimónioCultural

 



Já são 67 visitas virtuais a 90 espaços patrimoniais, em 45 concelhos, que tornam a nossa História, Cultura e identidade acessíveis a partir de qualquer lugar. GRATUITAMENTE!

Através de diversas formas de navegação — por tema, localização, período histórico ou pesquisa direta — pretende-se aproximar o público do património cultural, facilitando a descoberta, a exploração e a valorização da herança cultural portuguesa. 

Visite o Portal.

sábado, 25 de julho de 2026

Capa de honras - um símbolo de Trás-os-Montes

 


Leopoldina Nobre, ou Lili, como é conhecida em Miranda do Douro, trabalha com a irmã, Sandra Nobre, e a mãe, Maria Suzana de Castro. Juntas são das poucas artesãs deste ofício, fazendo os trajes dos pauliteiros e pauliteiras, assim como a capa de honras. O traje, já usado pelo Papa Francisco, é um dos símbolos da região do nordeste transmontano, sendo utilizado apenas em ocasiões especiais. Atualmente, para além desta família, apenas mais uma mulher produz este tipo de artesanato.

A capa de honras foi, em tempos, uma representação de estatuto social. O clima da região, com grandes amplitudes térmicas, levou a que os pastores criassem uma peça de vestuário que os protegesse dos invernos longos e frios. Com “nove meses de inverno e três de inferno”, dizia-se, os populares de Miranda do Douro criaram trajes extraídos de materiais naturais que os animais produziam. Os pastores tosquiavam os animais e retiravam o lixo que a lã destes podia ter apanhado no campo. Depois de lavada com água quente, pintava-se a lã com recursos naturais. “A cebola e a sua casca dava laranja, se não me engano”, relembra Alice Martins, de 57 anos, funcionária da Casa da Cultura Mirandesa (CCM), que recorda os tempos em que a lã era tratada de forma totalmente artesanal. O pardo, conhecido como burel em outras regiões do país, era trabalhado pelas mulheres nos teares da região.
 
Esta peça de vestuário, à base de lã, passa por um conjunto de processos de transformação antes de ser possível trabalhá-la. O tecido, agora produzido industrialmente, é cortado em motivos geométricos para produzir os recortes decorativos. “É no cabeção, na ponta do capuz e na honra que os elementos decorativos são mais elaborados, com recurso ao mesmo tipo de bordado aplicado a dois panos, com reservas abertas à tesoura e pespontado, pendendo também franjas largas”, segundo a completa explicação disponível no Museu da Terra de Miranda. Os recortes, que requerem precisão, são “bem fáceis”, para Leopoldina. “É o hábito, é o meu trabalho. Nada é difícil porque todo o nosso trabalho é feito com gosto. Independentemente se é um casaco, uma capa, uma carteira ou uma almofada”, acrescenta.

Além de Leopoldina Nobre, há poucas artesãs a criar a capa de honras: ​Maria Suzana de Castro e Sandra Nobre são duas delas, e as três trabalham juntas. A real origem da capa, em absoluto, é desconhecida, mas admite-se que tenha sido criada na Idade Média, devido às semelhanças com a capa de asperges eclesiástica e os motivos decorativos — e, inclusive, com o tradicional capote dos Açores. “Nos anos 70-80, deixou-se de usar a nossa cultura. Era uma vergonha sermos do Planalto Mirandês. As pessoas emigraram muito porque a pobreza, digamos, era um bocadinho grande. A minha mãe sempre foi costureira e começou a trabalhar nesta matéria-prima. Numa brincadeira para a escola, fez-nos uma mochila, casacos e uma saia. As pessoas começaram a ver o que fazíamos e gostaram do nosso trabalho”, conta Leopoldina, de 48 anos.
 
 

Homens com a capa de honras


Devido à crescente escassez de ovelhas na região, como conta Alice Martins, da CCM, a maioria dos tecidos utilizados são hoje produzidos industrialmente. Mas Leopoldina vê os aspetos positivos nisso: “A matéria-prima industrializada fica muito mais normal, mais maleável. É 100% de lã, mas não fica rígido”, conta. Apesar de ser uma arte mirandesa, a desertificação do interior e a dificuldade em encontrar lã mirandesa, obrigaram as artesãs a importar o burel da Serra da Estrela. Para além deste, as artesãs utilizam também o surrobeco, que “é a mesma matéria-prima, mas é relativamente mais fino. Costuma-se fazer saias e camisas”, explica a mestre deste ofício.

Tradição e mudança

Leopoldina confessa que não é apologista da mudança, mas acredita que há certos aspetos ligados à cultura e à arte mirandesa que deviam avançar. Dá como exemplo a língua mirandesa, que estava a desaparecer até ser integrada no currículo escolar. Compreende que esta medida foi essencial para não se perder a tradição, mas não concorda em alterar a forma como a cultura é feita.
 
 
 

A capa, uma tradição transmontana


Em 2017, Palmira Falcão, uma artesã de 70 anos e também natural de Sendim, foi desafiada a produzir a primeira capa para as mulheres: “Fiz o modelo e toda a gente gostou. A presidente da Câmara [de Miranda] anda sempre com ela”, recorda ao Expresso, orgulhosa. No entanto, o tema divide opiniões. Apesar de pouco mudar na estrutura da capa, Leopoldina recusa-se a chamar-lhe capa de honras: “A capa de honras é só de homem. Podemos fazer para as mulheres, se alguém pedir, mas não se vai chamar capa de honras, para mim não”. Palmira, que se dedica a este ofício há 30 anos, discorda abertamente: “Antigamente as mulheres também não usavam calças, agora usam. Uma mulher é tão honrada como um homem”.

Apesar das divergências, Palmira acredita que há espaço nesta arte para as diferentes visões. Atualmente, a artesã dá formações a iniciantes em Miranda do Douro, focando-se em transmitir este legado para que a cultura não morra: “O que eu queria era que toda a gente aprendesse. [Este traje] representa todos os portugueses, toda a gente que o queira usar”, afirma.

Além desta peça simbólica, Leopoldina, que faz a maioria dos trajes dos pauliteiros e pauliteiras da região, lembra que já se recusou a fazer trajes porque lhe pediram algo diferente. “Porque é que se vai mudar os trajes dos pauliteiros se toda a vida foram aqueles?”, questiona.

As artesãs demoram cerca de 15 dias a terminar uma capa de honras, cujo preço pode variar entre €1200 e €1500

A artesã de Miranda já trabalhou com o designer francês Christian Louboutin, criando uma carteira, a Portugaba, para uma das suas coleções, que chegou a custar €1659. A artesã e a sua família têm conhecimento de que há quem tente copiar a arte para a vender por milhares de euros. É também por isso que não vende online. “Artesanato a nível nacional ou mundial não se pode comprar online, tem de se ver, de se apaixonar e amar à primeira.” Exemplifica com uma situação relacionada com um modista americano que vendia peças inspiradas no ofício a 15.000 euros, mas não se assusta com isso, nem com cadeias de fast fashion: “Não interessa o que custa. O meu cliente sabe que não vai encontrar isso em mais lado nenhum”, afirma Leopoldina.

Tem uma loja em Miranda do Douro há cerca de 26 anos, mas antes já tinha uma em Sendim, uma freguesia do concelho, que está aberta há cerca de 35 anos. Participa em muitas feiras internacionais e nacionais de artesanato, mas são os portugueses quem mais compram as suas peças: “As pessoas admiram e compram, e não encontram isto em mais nenhum lado. É como um pintor, tens aquela identidade. Consegue-se diferenciar completamente o nosso trabalho em qualquer sítio”, acrescenta.

A capa de honras, que pode custar entre €1200 e €1500, é a peça mais demorada e trabalhada que fazem. Entre as três, demoram cerca de 15 dias a acabar uma capa. No entanto, o tempo compensa para ver a reação do cliente: “Para mim é uma honra dar uma capa de honras ao Papa e ao Presidente da República. O próprio Papa Francisco mandar uma grande carta de agradecimento, com o meu nome, o da minha mãe, entregue pelo senhor Bispo. Isso é o que interessa e dá gosto ao nosso trabalho, seja para mim ou outra pessoa”, afirma. Confessa que mais do que gostar do seu trabalho, gosta de fazer parte da mudança de mentalidade relacionada com a região. “Somos muito ricos, mais do que qualquer concelho. Ninguém tem um folclore tão rico como o nosso em relação a trabalhos.” Tem prazer em dar uma nova vida a objetos antigos. Conta que, há uns tempos, uma senhora lhe trouxe um saco de trigo e transformou-o numa manta. É este “renascer”, como lhe chama, que lhe traz satisfação.
 

Tudo sobre a capa
 
 


 
 
O que é?

De acordo com o Museu da Terra de Miranda, uma capa de honras “apresenta uma forma base em semicírculo, aplicando-se nesta uma sobrecapa curta (até aos cotovelos) e um capuz. A abertura da capa é guarnecida frontalmente com uma aplicação bordada a dois panos (originalmente um burel de lã), recortado e pespontado (técnica do picado), geralmente recorrendo a motivos padronizados de origem geométrica, fitomórfica, ou em ‘corações’”.

Quanto custa?

Uma capa de honra tradicional, em burel e adornada com bordados, poderá custar entre mil e 1200 euros.

Como nasceu?

As origens da capa de honras mirandesa perdem-se no tempo. Ainda assim, e de acordo com o Museu da Terra de Miranda, é provável que o seu surgimento remonte à Idade Média, “atendendo à grande proximidade desta peça de vestuário com a capa de asperges eclesiástica e aos motivos artísticos recorrentes”.
 
Margarida Nogueira. "O que é uma capa de honras: mais do que uma peça de roupa, um símbolo de Trás-os-Montes", Expresso, 23 de julho de 2026. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Antero de Quental em 2026

 

 #AnterodeQuental #aLerMaiseMelhor

 




Imaginámos o poeta e pensador português a descobrir um Portugal mais rápido, tecnológico e moderno. Mas a sua pergunta continua atual: estamos mais acordados?
 
Antero não deixou apenas poesia. Deixou inquietação, pensamento e perguntas.
E algumas perguntas também são legado. 
 

É a responsabilidade, meu caro

 

 #literaciadosmedia 






"Responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não."


Deixem-me bombardear-vos com opiniões avulsas e pensamentos voláteis sobre a tendência do momento. Bom, primeiro tenho de ir ver qual é desta vez, ora deixa cá ver, ora deixa cá ver, muito bem, pode ser a Odisseia que ninguém leu, mas que de repente agita as águas do Verão.

Calma, estou a brincar. Nada me interessa menos. Não vos maçarei com longas dissertações sobre fronteiras da história e da ficção e do que supostamente é lícito concluir sobre a cor da pele de Helena de Tróia. Não vos impingirei o milésimo debate étnico-ideológico mascarado de conversa sadia sobre uma obra que jaz adormecida nas catacumbas, ora injustamente esquecida, ora incensada com exagero de complexo intelectual. Sobretudo, não contribuirei para a parolice de trazer a saga de Ulisses para o único terreno em que tiktokers e instagramers sabem navegar: então e tu, gostaste mais do livro ou do filme?

Permitam-me, em vez disso, trazer-vos ao terreno do sonâmbulo (se não mesmo falecido) Correio do Leitor. Os companheiros da velha guarda jornalística lembram-se bem. Tirando o pontual telefonema de insulto breve ou pedido de informações, as cartas dirigidas à Redação eram a única forma de termos o que hoje responde pelo pomposo feedback, que é como que diz “o que o nosso público pensa de nós”.

A antiga escrita à mão traz uma pequena dificuldade. Por exemplo: o ódio é mais difícil de exprimir. Desenhar à mão as letrinhas todas para chamar filho desta e daquela, mais mandar-nos para o membro sexual masculino ou para a vagina da nossa progenitora, é coisa que pede algum tempo e paciência, e fica assim como que um espaço vazio entre a raiva que se sente e o que realmente passou para o papel.

Por isso o maravilhoso computador, ou o ainda mais deslizante teclado pequenito do telemóvel se tornaram a arma mais eficiente do ódio. Toda uma sociedade sabe hoje insultar e agredir com dedinhos rápidos. A precipitação tornou-se fácil e alimentou a irreflexão. Sabemos que parte do planeta acorda arrependida de uma mensagem que enviou às quatro da manhã. Com as cartas de antigamente havia tempo de voltar atrás e decidir não lamber o selo nem a enfiar na ranhura do correio.

E assim vamos, neste maravilhoso potencial de purga de frustrações. Eu não sou mais do que os outros e por isso também recebo o meu correio. Entre uma grande parte de lixo e asco, lá vem de vez em quando uma pergunta legítima. Esta semana destaco esta: ainda não percebi bem porque faz tanto paralelismo entre lógica de redes sociais e algum do jornalismo atual, quer explicar melhor? Quero, pelo menos quero tentar.

Aconteceu no início do mês, aquele autocarro que esmagou duas pessoas no Cacém. Liguei o televisor por volta da hora do almoço e toda a TV cavalgava a notícia o mais que podia. Poderia ser qualquer dos canais, como explicarei, mas no caso passava eu pela CNN e o jornalista falava em tom sério e grave, compenetrado, sobre imagens que eu, na altura, desconhecia.

Havia, pelos vistos, um vídeo de má qualidade do momento logo após a tragédia. Alguém que se pôs a filmar e apanhou fumo, confusão, pessoas a correr e sobretudo pessoas a gritar, o que dava bem a dimensão do choque que ali se gravava. Os gritos eram de quem se apercebia dos corpos das duas vítimas.

E agora o essencial, a espantosa impossível contradição que se instalou no jornalismo e parece ter criado raízes para nunca mais desaparecer. Repetir e repetir até à exaustão as imagens e sons mais horripilantes, desde que acompanhado de avisos de “conteúdo sensível”.

Depois, em cima disto, a cereja da suprema ironia. O jornalista entrevista uma psicóloga, a quem pergunta quais os factores mais terríveis para a cabeça das vítimas e familiares e população em geral na sequência de tragédias destas? Bom, para começar, tenta a psicóloga, as televisões deveriam travar o carrossel contínuo de imagens em repetição com os gritos aflitos. Isto poderia (deveria?) levar a TV a refletir naquele mesmo momento, e a parar o processo, já que a especialista convidada deu o conselho? Pois, sim, abelha. Se o parecer de um especialista da saúde mental choca com o interesse da competição jornalística, adivinhem quem perde e quem ganha essa contradição?

Aqui não há muitos anos, tive na SIC uma das mais acaloradas discussões entre colegas. Porque fizemos exatamente o mesmo com imagens terríveis de agressões entre alunas de uma escola. Repetição até à exaustão do fator potencialmente traumatizante.

E agora a resposta ao que me perguntou o leitor: o jornalismo não pode arrastar-se para uma lógica de rede social que busca cliques a todo o segundo quando está em causa a nossa responsabilidade social. Sim, a responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não. Não devemos, não podemos. Quanto mais a entregarmos, mais nos afundaremos num jogo para que nos querem arrastar, a fim de um dia nos esfregarem na cara que moralmente não somos melhores do que ninguém.

Rodrigo Guedes de Carvalho. É a responsabilidade, meu caro, Expresso23 julho 2026