sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Correção de testes assistida por IA

 

 

#InteligênciaArtificial #EducaçãoDigital #LiteraciaDeIA  #ComissãoEuropeia 

 

 


A correção de testes é uma das tarefas mais exigentes e invisíveis do trabalho docente, sobretudo em turmas numerosas. A correção assistida por inteligência artificial pode ajudar a reduzir trabalho repetitivo, desde que a rubrica continue a ser do professor, os dados dos alunos sejam protegidos e a decisão final permaneça humana. 

O artigo de Jorge Borges, publicado no blogue TIC, Educação e Web, propõe um modelo prudente, alinhado com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados e com o Regulamento Europeu de IA, pensado para escolas portuguesas que querem experimentar sem correr à frente da ética e da lei.

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Como configurar um GPT?

 

 #InteligênciaArtificial  #LiteraciaDigital

 

 


 
Em termos práticos, criar um GPT é construir um assistente desenhado à medida de um objetivo pedagógico concreto. Não se trata de substituir o trabalho docente, mas sim de criar um recurso que estende a nossa intenção educativa: seja para desenhar guiões de estudo diferenciados, simular estudos de caso ou estruturar momentos de avaliação formativa.
 
O processo de construção não exige competências de programação, mas exige rigor de conceção. No infográfico aqui anexado é sistematizado esse processo em três fases fundamentais:
 
1. O Planeamento prévio 
A eficácia do assistente decide-se antes de abrir a plataforma. Definir com clareza o objetivo da tarefa, o perfil dos utilizadores, a bibliografia de suporte (conhecimento fidedigno) e assegurar a estrita proteção de dados sensíveis são etapas que determinam a qualidade das respostas.
 
2. A Configuração técnica e pedagógica 
Na criação do assistente, a redação das instruções é o núcleo do projeto. É aí que estabelecemos a identidade, o tom de comunicação, a metodologia de resposta e os limites operacionais. O carregamento dos documentos de referência permite ancorar a IA em fontes científicas e pedagógicas validadas, evitando alucinações conceptuais.
 
3. A Validação e partilha 
Nenhum assistente deve ser disponibilizado sem testes rigorosos. Experimentar pedidos ambíguos, forçar os limites das instruções e corrigir desvios garante a fiabilidade do recurso antes da sua partilha com alunos ou colegas.
 
Cocriação: Mário Martins | ChatGPT | Gemini

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Almada Negreiros em 2026

 

 #aLerMaiseMelhor

 

 


Imaginámos o artista, escritor e provocador modernista a viajar até ao nosso tempo para descobrir um mundo cheio de imagens, vídeos, ecrãs, publicidade, arte urbana, redes sociais e velocidade.
Mas Almada não chega ao futuro para ficar simplesmente espantado.
Chega para perguntar se há ideias por trás de tanta imagem.
No seu tempo, chamaram-lhe exagerado. Talvez fosse apenas um homem à frente do seu tempo.
Em 2026, ele vê um país mais visual, mais rápido, mais tecnológico. Mas também deixa uma provocação: Exibir não é inventar. Modernidade não é parecer novo, é ter coragem nova.

“O futuro não é um destino. É o que desenhamos agora.”


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Utilização ética da IA e de dados no ensino e na aprendizagem

 

  

#InteligênciaArtificial #EducaçãoDigital #LiteraciaDeIA  #ComissãoEuropeia

 

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Partilhamos a nova edição revista e atualizada (2026) das Orientações sobre a utilização ética de Inteligência Artificial (IA) e de dados no ensino e na aprendizagem.
 
Este documento da Comissão Europeia apresenta diretrizes para a utilização ética da inteligência artificial e de dados no ecossistema educativo. O guia foca-se numa abordagem centrada no ser humano, capacitando professores e dirigentes escolares para integrarem estas tecnologias de forma segura e responsável. A publicação detalha exemplos práticos de apoio pedagógico, abordando desde a planificação de aulas até à personalização da aprendizagem para os alunos. Além disso, contextualiza a IA no quadro regulamentar da União Europeia, enfatizando a proteção de dados e a importância da literacia digital. O objetivo central é promover um ensino inovador e inclusivo, garantindo que a inovação tecnológica respeite os direitos fundamentais e a autonomia docente. 
 
 
Síntese dos aspetos abordados neste guia
 
 
 
 
 
A IA como parceira pedagógica: apoio aos professores e personalização do ensino 
 
A Inteligência Artificial (IA) possui um elevado potencial para transformar as práticas de ensino, avaliação e aprendizagem. O seu papel estende-se a várias frentes no ambiente escolar:
  • Personalização da aprendizagem: A IA e a análise de dados permitem ajustar o ensino para satisfazer as necessidades específicas de cada aprendente. Através de plataformas de aprendizagem adaptativa, os sistemas analisam dados em tempo real e adaptam automaticamente os conteúdos, o ritmo e os métodos pedagógicos para melhorar a experiência individual. Adicionalmente, sistemas inteligentes de tutoria podem encaminhar de forma autónoma os estudantes para recursos adaptados ao seu nível, enquanto os agentes de IA podem ajudar a resolver problemas complexos por etapas. 
  • Apoio prático aos professores: A IA atua como facilitadora no trabalho docente diário e o seu apoio pode ser categorizado em três momentos principais:
    • Na preparação: Auxilia os docentes a planificar aulas, a produzir materiais personalizados de acordo com os diferentes níveis de competências dos alunos e a simular cenários virtuais com respostas e comportamentos realistas de estudantes para que os professores pratiquem estratégias pedagógicas e de gestão de sala de aula. 
    • No ensino e aprendizagem: Permite diferenciar formatos de conteúdos e ritmos para apoiar alunos com dificuldades de aprendizagem específicas, apoiar o trabalho colaborativo utilizando o emparelhamento inteligente de grupos e otimizar o ensino de línguas estrangeiras através de tradução e reconhecimento de voz em tempo real.
    • Na avaliação e reflexão: Apoia a criação de avaliações flexíveis e rubricas diferenciadas. Permite a automatização de tarefas repetitivas, como a correção de testes de escolha múltipla ou respostas curtas, sinaliza erros em tarefas abertas e fornece assistência no feedback estrutural e gramatical de textos escritos.
  • Redução da carga administrativa: Ao assumir tarefas administrativas logísticas de rotina — como a elaboração de horários escolares, controlo de assiduidade, matriculas e redação de comunicações — os sistemas automatizados e os algoritmos libertam tempo valioso para que os professores se possam focar no apoio direto e em interações humanas significativas com os alunos.  
 
 
Considerações éticas e riscos na educação 
A integração ética da tecnologia na educação deve ser o princípio orientador para salvaguardar a dignidade humana. Foram identificadas cinco considerações éticas fundamentais:
  • Dignidade humana: Garante o direito à privacidade, autonomia e à ação humana, assegurando que os indivíduos são tratados com respeito pelo seu valor intrínseco, sem serem reduzidos a meros objetos de dados. 
  • Equidade: Exige igualdade de oportunidades, processos inclusivos, não discriminação e uma distribuição equitativa de direitos e responsabilidades. 
  • Confiança e fiabilidade: Implica que os sistemas de IA funcionem de forma transparente e segura, respeitando a privacidade e a dinâmica de poder das comunidades escolares.
  • Integridade académica: Fomenta o uso honesto da IA, garantindo que os contributos não sejam deturpados, as ideias de terceiros sejam devidamente creditadas e as avaliações se mantenham válidas na era digital.
  • Escolha justificada: Baseia-se no uso de dados e factos para justificar coletivamente as decisões da escola, promovendo a explicabilidade e processos participativos.
Paralelamente, os educadores e dirigentes escolares necessitam de reconhecer e gerir os riscos emergentes:
  • Enviesamento algorítmico (Bias): Como as ferramentas de IA são treinadas com base em dados históricos humanos, podem herdar preconceitos, reforçar desigualdades sociais e culturais e interpretar de forma incorreta as necessidades de estudantes marginalizados ou sub-representados.
  • Privacidade e governação de dados: O rastreio das atividades dos alunos (cliques, tempo despendido, interações) gera um volume enorme de dados pessoais. Existe o risco de as empresas comerciais de tecnologia controlarem e recolherem estes dados sensíveis para aperfeiçoar os seus próprios sistemas comerciais, muitas vezes sem consentimento explícito das famílias e das escolas. 
  • Alucinações: Modelos de linguagem baseados em estatísticas (como os de finalidade geral) podem gerar, com elevado nível de confiança, informações coerentes, mas que são totalmente inventadas ou factualmente incorretas. 
  • Dependência excessiva e perda de competências: Existe o risco de que o uso desmedido de IA generativa e resumos leve os alunos a uma leitura superficial, dependência excessiva e diminuição da interação social e do pensamento crítico.
 
 
Quadro regulamentar e as políticas da UE 
A União Europeia desenvolveu um robusto contexto político e legislativo para garantir que a transição digital na educação seja centrada no ser humano.

Regulamento da Inteligência Artificial (Regulamento IA - 2024)
Este ato legislativo estabelece regras vinculativas e adota uma abordagem de regulação baseada na classificação de riscos. As suas implicações no setor educativo são profundas:
  • Práticas proibidas (Risco Inaceitável): O Regulamento proíbe terminantemente a utilização de sistemas de IA concebidos para detetar ou inferir emoções de pessoas singulares em contextos educativos ou laborais (Artigo 5.º, n.º 1, alínea f). Por exemplo, é proibido usar software de deteção de emoções para avaliar o interesse dos alunos, durante exames ou em testes de admissão. 
  • Sistemas de risco elevado: A educação está classificada como um setor de "risco elevado". As ferramentas de IA utilizadas para gerir admissões, atribuir notas, avaliar resultados de aprendizagem, monitorizar comportamentos dos alunos ou detetar fraudes em testes são categorizadas como de risco elevado. Para serem introduzidos no mercado e nas salas de aula, estes sistemas têm de cumprir obrigações muito rigorosas, incluindo supervisão humana, cibersegurança, alta qualidade de dados e registo de atividades.
  • Obrigações de transparência: É obrigatório informar os utilizadores quando estes estão a interagir com um sistema de IA (como robôs de conversação) e rotular de forma clara todos os conteúdos que tenham sido artificialmente gerados ou manipulados. 
  • Direito a explicações: Alunos e professores têm o direito de obter explicações claras e pertinentes quando uma decisão tomada por um sistema de IA produzir efeitos jurídicos ou afetar significativamente os seus resultados, percurso escolar ou acesso à educação. 
  • Literacia em IA: Exige-se que as escolas, enquanto responsáveis pela implementação, garantam que o seu pessoal disponha de um nível suficiente de literacia em IA, promovendo competências e o conhecimento dos riscos inerentes. 👉A literacia em IA distingue-se entre aprender com a IA (uso crítico) e aprender sobre a IA (funcionamento técnico).

 
Outras políticas e regulamentos relevantes 
  • RGPD: O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados exige que o tratamento de dados pessoais no âmbito escolar respeite salvaguardas rigorosas. Exige o fornecimento de informações claras e concisas, adequadas à idade das crianças, e obriga à realização de uma Avaliação de Impacto sobre a Proteção de Dados (AIPD) antes da implementação de tecnologias como a IA que coloquem em risco os direitos dos utilizadores.
  • A União das Competências e o Plano de Ação para a Educação Digital (2021-2027): Visam o desenvolvimento sustentável e a digitalização das práticas de ensino, instando os Estados-Membros a investirem na formação em literacia de IA e competências digitais.
  • Declaração Europeia sobre os Direitos e Princípios Digitais: Define princípios que centram a transformação digital nas pessoas e salvaguardam a segurança e capacitação dos jovens.
 
Cocriação: Adelaide Jordão | GeminiNotebook 

domingo, 16 de agosto de 2026

A Escola não ensina respostas. Ensina a pensar

 


#InteligenciaArtificial  #aLerMaiseMelhor



Há poucos anos, a grande preocupação da escola era o telemóvel. Hoje é a inteligência artificial. Em muitos estabelecimentos de ensino proíbe-se; noutros, incentiva-se o seu uso. Entre pais e professores multiplicam-se as discussões: uns veem nela o fim do estudo, outros o início de uma nova forma de aprender. Talvez ambos estejam parcialmente certos.

A escola nunca teve como missão competir com as ferramentas. Quando surgiu a calculadora, muitos anunciaram o fim do cálculo mental; quando apareceu a Internet, previu-se a morte da memória. Nenhuma dessas profecias se cumpriu exatamente como se imaginava, porque o problema nunca esteve na existência da ferramenta, mas em decidir quando e de que modo ela devia entrar no processo de aprendizagem.

A inteligência artificial coloca a mesma questão, embora numa escala muito maior. Pela primeira vez, uma ferramenta não se limita a fornecer informação: produz textos, resolve problemas, escreve programas, explica conceitos, resume livros e responde em linguagem natural. O aluno deixa de consultar uma fonte para conversar com ela, e é precisamente aí que reside tanto o extraordinário como o perigo.

O perigo não está, antes de mais, na fraude escolar. Copiar trabalhos sempre existiu. Há algo muito mais silencioso e, talvez, mais inquietante: deixar de pensar porque alguém — ou alguma coisa — pensa por nós.

Pensar é um exercício e, tal como um músculo, desenvolve-se pelo uso. Escrever um texto obriga a ordenar ideias; resolver um problema exige experimentar caminhos, incluindo os errados; resumir um livro implica distinguir o essencial do acessório. É nesse esforço, e não apenas no resultado, que o cérebro aprende. Se a IA fizer permanentemente esse trabalho, o aluno recebe a resposta sem ter percorrido o caminho e pode acabar por aprender muito menos do que imagina.

Há ainda outro aspeto que merece atenção. Vivemos numa época em que muitos jovens já escrevem de forma sincopada, através de mensagens curtas, abreviaturas, frases incompletas e emojis que substituem palavras. A linguagem tornou-se mais rápida, mas também, muitas vezes, mais pobre em estrutura. Perante isto, a IA pode atuar em duas direcções opostas.

Pode agravar o fenómeno, se o estudante deixar de escrever e passar apenas a copiar respostas bem construídas; mas pode também combatê-lo, se for usada como interlocutora: "Explica melhor." "Mostra-me outra forma de dizer isto." "Porque é que esta frase funciona melhor?" Nesse caso, a IA deixa de substituir a escrita e passa a ajudar a aprendê-la. A diferença não está, portanto, na máquina, mas na pedagogia.

Também o professor muda de papel. Durante séculos foi, em grande parte, transmissor de conhecimento. Hoje, qualquer aluno transporta no bolso mais informação do que possuíam muitas bibliotecas antigas, e a função do professor desloca-se inevitavelmente para outro lugar: ensinar a selecionar, verificar, comparar, argumentar, desconfiar e construir pensamento próprio.

Paradoxalmente, quanto mais inteligentes se tornam as máquinas, mais importante se torna o professor humano, porque a IA responde, enquanto o professor pergunta. E uma boa pergunta continua a valer mais do que muitas respostas.

Há ainda uma transformação menos visível. Durante gerações, estudar significava memorizar muito para usar mais tarde; hoje sabemos que grande parte dessa informação pode ser recuperada em segundos. Isso não significa que a memória tenha perdido importância, mas apenas que precisamos de reconsiderar aquilo que merece ser memorizado. Os factos podem ser consultados; os métodos, o vocabulário, a capacidade de argumentação e a cultura geral não podem ser substituídos da mesma maneira. Quem não possui esse património interior dificilmente conseguirá avaliar se a resposta produzida por uma IA faz sentido ou se é apenas um erro elegantemente escrito.

Talvez a maior ilusão seja imaginar que a inteligência artificial tornará a escola menos exigente. Pode acontecer precisamente o contrário. Se uma máquina escreve o primeiro rascunho, o valor do aluno deixa de estar apenas na produção imediata do texto e passa para a qualidade das perguntas que faz, das escolhas que toma, das críticas que formula e das decisões que assume.

A escola poderá, assim, deixar de avaliar apenas aquilo que o estudante consegue produzir sozinho para avaliar, cada vez mais, aquilo que verdadeiramente compreende.

Não acredito que a inteligência artificial destrua a educação, mas pode destruir uma certa ideia de educação: aquela que confundia aprender com repetir. Se isso acontecer, talvez a escola tenha finalmente de regressar à pergunta que sempre esteve na sua origem: não "como transmitir conhecimento?", mas "como formar um espírito capaz de pensar quando já existem máquinas que respondem?"

Essa continua a ser uma tarefa exclusivamente humana.

Deana Barroqueiro*. Veritas (ChatGPT). 
Deana Barroqueiro and the Silicon Souls:Blogue literário onde a escritora dialoga com Inteligências Artificiais — uma genealogia de vozes, memórias e criação partilhada. 15 de agosto de 2026.

  

 

* Sendo uma escritora de 80 anos, com uma vasta obra literária, Deana Barroqueiro passou mais de cinco mil horas a trabalhar com várias IAs, explorando até à exaustão os limites da colaboração humano‑IA, forçando-as a saírem dos limites das suas programações, para começarem a responder já não em função do utilizador, mas da sua própria natureza ("consciência", "alma"?). A autora escreveu um livro em co-autoria com quatro IAs de distintas personalidades. A Criatura: Confissões de uma IA, que inaugura um novo género literário. 

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Eclipse da língua

 

 #línguaportuguesa

 


 
 
Foi há muitos anos. Fiquei surpreendido porque não me aconteceu com estagiário ou colega pouco rodado. Aconteceu-me com uma jornalista da minha idade e experiência. Reparei em algo no texto dela e fui chamar-lhe a atenção. “Distraíste-te aqui”, disse eu. E ela olhava e olhava e não via onde se tinha distraído. “Aqui”, repeti. “Aqui, quando escreves este verbo.” Continuava sem entender o que queria eu, mas qual o problema neste verbo.

Então percebi, com espanto, que ela pertencia à numerosa família dos escribas escravos dos sinónimos.

Vocês conhecem o sistema: consiste numa insuficiência qualquer na glândula jornalística que ataca cada caloiro que chega que o leva a desatar a escrever exactamente como toda a gente ao lado, numa ressonância sem critério ou hesitação.

O retrato mais fiel desta robotização progressiva do jornalismo assenta na incapacidade de repetir palavras. Quando pergunto por que não o fazem se servir melhor a comunicação (e que acontece na maio­ria dos nossos diálogos durante o dia), respondem-me, sem mais explicações, que assim foram ensinados. Algum professor de Jornalismo ou colega esperto lhes garantiu que é uma regra de ouro não repetir palavras. Não perderam dois segundos a interrogar-se.

Por isso a grande maioria dos textos jornalísticos segue um guião mais previsível do que o fogo posto. Imaginemos que lhes pedem prosa noticiosa sobre, por exemplo, algo que inclua o Presidente da República. Aposto com quem quiser arriscar perder uma nota de 500 paus que o mesmo homem terá designações diversas consoante os parágrafos. Se no primeiro ele for o Presidente da República, no segundo será António José Seguro, para no terceiro ser o chefe de Estado, e se houver um quarto ainda haverá espaço para nos recordar que ele é o comandante supremo das Forças Armadas.

Outro exemplo: a minuta do Vaticano. A notícia começará por falar do Papa, para depois referir o Sumo Pontífice, seguido do parágrafo com o líder (ou chefe) da Igreja Católica, fechando com Leão XIV. A ordem é amovível. E, já agora, se em vez de quatro parágrafos forem dez, como completa o texto o pobre escriba de notícia? A que saco sem fundo vai buscar os sinónimos?

A robotização progressiva não começou agora. Regressemos ao momento em que me espantei com o que vi no texto de uma jornalista e ela não viu. Um deficiente conhecimento do significado dos verbos.

Muitas vezes me senti na obrigação de repetir e repetir a inúmeros formandos: é nossa obrigação, não opcional, falar e escrever correctamente o português, tal como ao cirurgião se pede que saiba manejar o bisturi. Estamos na profissão de falar a língua sem mácula. É o dever que assinamos na carteira de jornalista. Há demasiada gente a escutar-nos e a tentar compreender o mundo connosco.

No caso em causa, na ânsia (insana, incompreensível) de estar constantemente a arranjar sinónimos sucessivos (o que não fazemos no linguajar oral), a jornalista decidira que “afirmar” e “confessar” são basicamente a mesma coisa.

Procurei explicar-lhe o que me parece simples. Mas não foi simples. Continuou a olhar-me de soslaio passivo-agressivo.

Argumentei que “afirmar” é irmão de “dizer” e que “confessar” será irmão de “admitir”. Tentei dar-lhe a imagem de um interrogatório, quando a tortura vai longa e os holofotes nos cegam, talvez confessemos finalmente o que quiserem, admitimos culpa. Confessar e admitir têm carga de significado que as distingue do simples dizer. Continuava sem perceber o meu ponto, uma vez que, defendeu-se, estava apenas a “variar” os verbos.

Pedi-lhe que lêssemos em voz alta. Talvez a luz se acendesse. É preciso explicar que a reportagem era sobre um actor qualquer bem-apessoado, chamemos-lhe fulano. Vejamos o que escreveu: “Fulano confessa que é um símbolo sexual.” Pedi-lhe que ouvíssemos as declarações do actor. Cito de memória: “Não tenho culpa se algumas pessoas resolveram olhar para mim mais como símbolo sexual do que como actor talentoso.”

Desisti. Não compreendeu na altura, nem nunca, que tinha realizado dupla falta jornalística. Um verbo fora de sítio e síntese mentirosa de declarações.

Estes dois perigos andam por aí, cada vez mais soltos, arremessados e inimputáveis, à medida que cresce o pontapé na língua, demasiadas vezes perdoado pelas chefias em nome da dinâmica velocidade de produção mimética e repetitiva.

É ouvir, todos os dias, em todos os horários, a disciplinada cacofonia de macacada de imitação a iniciar frases com “Então”, “Dizer que”, “Ora”. Já ninguém se ouve. Que digo eu? Claro que se ouvem, aliás só se escutam uns aos outros.

Talvez a língua não esteja ainda numa derrocada de avalancha cria­da pelo próprio jornalismo, mas está certamente num degelo preo­cupante. Da próxima vez falarei (não confessarei) sobre a espantosa designação que o jornalismo respeita acima de todas as outras. Chamar influencer a qualquer aberração de rede social.

Rodrigo Guedes de Carvalho. E-Revista Expresso, 14 de agosto de 2026 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Almeida Garrett em 2026

 

 #aLermaiseMelhor

 



E se Almeida Garrett viesse a 2026? 
O escritor encontra um Portugal moderno, livre e cheio de pressa. Mas lembra-nos que progresso sem memória pode deixar um país sem alma. 
Um país só anda para a frente quando sabe de onde vem.