O descanso não escapou à lógica da performance: não tem nada a ver com ócio, mas com “recuperação”. No luxo paga-se para nos obrigarem a parar.

A primeira-ministra do Japão decidiu vangloriar-se de andar a dormir entre “zero a três horas por dia” desde que assumiu o cargo. Sanae Takaichi esperava — é de supor — que assim os seus concidadãos reconhecessem a sua dedicação ao cargo, como se fazer uma direta fosse uma demonstração de virtude pública. O esgotamento como patriotismo. Alegrou-se até por ter conseguido dormir cinco horas num feriado, pois isso permitira-lhe conciliar tarefas domésticas com a leitura de milhares de e-mails e documentos. Mas mesmo no Japão — ou sobretudo no Japão de hoje — este elogio da exaustão caiu mal, ainda que pudesse tratar-se apenas de uma encenação para conter a queda de popularidade, colocando-a a lavar a louça e a passar a ferro. No Japão já existe o conceito de karoshi — morte por excesso de trabalho — e a notícia de que convocava assessores às três da manhã já tinha criado celeuma. Os japoneses colocaram sobretudo em causa a sua capacidade para tomar decisões governativas: quem não dorme perde discernimento, revela má gestão e incapacidade de delegar. Era um péssimo exemplo para um país que tenta ensinar os seus cidadãos a descobrir que há vida para além da empresa. Ter uma primeira-ministra que não dorme é motivo de preocupação. Não de satisfação.

Artur Widak/NurPhoto/Getty Images
Takaichi é a caricatura de um lado do espelho: exibe o não-descanso como prova de valor. Alguns de nós, do outro lado, fazemos a versão soft e inversa: sentimos necessidade de provar que descansamos bem. Em 2026 temos alguma dificuldade em perceber o que é realmente descansar. Nunca houve tanta procura desse estado, mas o descanso tornou-se mais aspiracional do que efetivo. Parece ser mais uma incapacidade — o não conseguir descansar — e um produto — algo que se compra para talvez o conseguir — do que uma experiência espontânea. Tenho a ideia, mas posso estar errado, de que antes bastava deixar de fazer. Nada chamava por mim. E tal nada estava sempre ali. Sentava-me numa esplanada e ali ficava com o nada horas a fio. Hoje parece ser necessária uma autorização. O mercado não vende o vazio. Vende as condições para o vazio. Durante o ano pagamos a alguém para nos pôr a mexer. Nas férias pagamos a um PT, a alguém para nos parar. O mercado descobriu que é mais rentável vender as condições do descanso do que o descanso propriamente dito. Só no segmento do luxo isso parece plenamente possível. É preciso um detox digital, deixar o telemóvel uma semana, fazer um retiro, regular o sistema nervoso e, talvez aí, talvez conseguir descansar. O luxo quer convencer-nos de que só ele proporciona verdadeiro descanso. E esse luxo consiste precisamente em despojar. Não ter rede. Não receber notificações. Desaparecer, não para uma palhota, mas para uma ilha com mordomo e sem wi-fi. O verdadeiro luxo talvez já não seja possuir tecnologia, mas poder prescindir dela sem consequências. Dar-se ao luxo de não ter tecnologia sem ansiedade.
Ou então há outro caminho: aquele em que o descanso foi colonizado pela produtividade. Todo o descanso passou a ser uma métrica. Descansar já não é descansar: é recuperar, fazer reset, regular o self, fazer jejum de dopamina ou recorrer ao biohacking. Hoje quase só sei se estou descansado quando um aparelho me mostra tudo a verde. Deixei de confiar na minha própria perceção do corpo. Mas esta transformação altera o próprio significado da palavra. Descansar era suficiente. Recuperar é outra coisa. Recupera-se para voltar a produzir, para voltar a correr, para voltar ao alto desempenho. No fundo, descansa-se para trabalhar melhor.
Dirão que estou a misturar gerações e que basta ler alguns estudos de marketing turístico que tenho aqui à frente para perceber que a Geração Z procura sentir-se saudável, os millennials procuram experiências, a Geração X quer desaparecer e os boomers querem aproveitar o tempo que lhes resta. Mas talvez seja uma falsa questão. Cada geração encontra apenas uma justificação diferente para a mesma necessidade. Uns vivem em ansiedade, outros querem construir memórias, outros chegam exaustos e outros sentem que o tempo começa a escassear. Mas parece haver uma culpa comum perante o ato de não fazer nada, um desaprender do descanso e uma necessidade de ocupar o ócio com algo que mereça ser contado. O descanso tem de valer como narração. Se possível, em imagens. Caso contrário, a culpa aparece sempre para cobrar o preço. As gerações talvez não difiram na forma como descansam, mas na desculpa moral que encontram para o fazer. E o vocabulário terapêutico da Geração Z não representa necessariamente uma vitória sobre a culpa produtivista da Geração X.
O ócio parece hoje exigir nome, metodologia, certificação ou mesmo um podcast para ensinar a desligar, preparação meticulosa e uma agenda do que é obrigatório fazer na viagem. Uma programação que acaba por se transformar num roteiro sem improviso. Uma mera alteração torna-se um incómodo arrasador. Um desvio, uma calamidade. Uma falha, mais uma fonte de stresse. Todos querem ser viajantes e ninguém turista. Mas imprevistos, esses, ninguém quer.
O problema talvez nunca tenha sido fazer nada. É conseguir fazê-lo sem culpa. O que verdadeiramente recupera é o desligamento psicológico. Não é deitar-se nem simplesmente deixar-se estar, mas antes uma relação diferente com a obrigação. A obrigação é que come por dentro a capacidade de descansar. O objetivo é uma desobrigação interior, assimilada sem culpa. Não um cortar amarras, mas recolher cabos. Nos dias de hoje, descansar aprende-se. Vou ter de tirar um curso, está visto. Isto é só paleio. As minhas métricas de recuperação estão péssimas.
Luís Pedro Nunes. "As férias são para reset", Expresso, 5 de agosto de 2026




