terça-feira, 28 de julho de 2026

De que se alimentam os grandes modelos de IA?

 

#inteligenciaartificial

Estima-se que um quarto das fontes de IA são livros



 

Livros, web, redes sociais e artigos científicos na corrida para treinar LLMs (Modelos de Linguagem de Grande Escala)

 

Uma análise do cientista de dados Olivier Khatib, CEO da T1U.ai, estima a distribuição das principais fontes de dados usadas para treinar cinco dos modelos de linguagem mais importantes – ChatGPT (OpenAI), Claude (Anthropic), Gemini (Google), Llama (Meta) e Grok (xAI) – com base na documentação pública das empresas, dos seus relatórios técnicos e outras evidências disponíveis.

O estudo mostra que, embora todos esses modelos se baseem numa combinação de fontes semelhantes, cada um apresenta uma estratégia distinta de recolha e ponderação de dados que reflete tanto os seus objetivos técnicos como as forças das organizações que os desenvolvem.

Um dos resultados mais marcantes é que o Llama, o modelo da Meta, teria obtido cerca de um quarto de seus dados de treino a partir de livros, uma proporção maior do que a estimada para qualquer um dos outros modelos analisados. Isso é particularmente relevante porque o uso de livros protegidos por direitos autorais é atualmente um dos principais focos de litígio entre empresas de IA e detentores de direitos. Enquanto autores, editoras e organizações culturais entraram com inúmeros processos por uso não autorizado de suas obras, a investigação judicial também revelou o armazenamento de milhões de livros digitalizados para o treino de alguns modelos, intensificando o debate sobre os limites legais da aprendizagem de máquina e o uso legítimo de conteúdo protegido.

O estudo também mostra diferenças significativas entre os diferentes sistemas. O Claude destaca-se por incorporar uma proporção relativamente alta de artigos científicos e publicações académicas, consistente com a orientação que a Anthropic deu ao seu modelo para tarefas analíticas, pesquisa e raciocínio complexo. Por sua vez, o Gemini depende mais fortemente de dados provenientes do rastreamento web, aproveitando o enorme ecossistema de informações indexado pela Google para construir um modelo com ampla cobertura temática e linguística. No caso do Grok, desenvolvido pela xAI, o peso dos dados das redes sociais destaca-se, especialmente devido à integração com o ecossistema X (anteriormente Twitter), que oferece ao modelo acesso privilegiado a conversas e eventos recentes. O ChatGPT apresenta uma mistura mais equilibrada de fontes, distribuindo seu treino entre conteúdo web, livros, código, documentos e outras recolhas de dados.



Fonte predominante por modelo

ChatGPT (OpenAI) - Mistura equilibrada de páginas web, livros, código e documentos públicos.
Claude (Anthropic) - Maior presença de artigos científicos e literatura académica.
Gemini (Google) - Predominância do rastreamento da web.
Llama (Meta) - Alta proporção de livros (cerca de um quarto do conjunto de treino).
Grok (xAI) - Uso significativo das redes sociais, especialmente conteúdo do X (Twitter).

Além das diferenças quantitativas, o relatório ilustra a crescente importância da diversidade das fontes de treino como fator estratégico no desenvolvimento de modelos fundamentais. Os livros fornecem profundidade concetual e riqueza linguística; os artigos científicos fornecem conhecimento especializado e rigor técnico; o conteúdo do site oferece uma amplitude temática; as redes sociais incorporam atualidades e linguagem coloquial; enquanto outras fontes, como repositórios de código ou documentos públicos, enriquecem capacidades de programação e resolução de problemas. Essa combinação explica em grande parte as diferentes forças e limitações observadas entre os modelos atuais.

Por fim, o artigo coloca esses dados no contexto da crescente controvérsia legal sobre o treino de inteligência artificial. Processos por violação de direitos autorais continuam a multiplicar-se, especialmente contra empresas como a Meta e a Anthropic, à medida que os tribunais começam a restringir as práticas legais de recolha e armazenamento de dados e a clarificar as que infringem a propriedade intelectual. Como resultado, a composição dos conjuntos de treino já não é apenas uma questão técnica, tornando-se na questão central para o futuro da regulação, transparência e sustentabilidade do desenvolvimento da IA generativa.

Buchholz, Katharina. Estima-se que um quarto das fontes de IA de lhamas vieram de livros. Statista, 27 de julho de 2026. Disponível em: Statista

domingo, 26 de julho de 2026

360º Património Cultural

 

 

 #PatrimónioCultural

 



Já são 67 visitas virtuais a 90 espaços patrimoniais, em 45 concelhos, que tornam a nossa História, Cultura e identidade acessíveis a partir de qualquer lugar. GRATUITAMENTE!

Através de diversas formas de navegação — por tema, localização, período histórico ou pesquisa direta — pretende-se aproximar o público do património cultural, facilitando a descoberta, a exploração e a valorização da herança cultural portuguesa. 

Visite o Portal.

sábado, 25 de julho de 2026

Capa de honras - um símbolo de Trás-os-Montes

 


Leopoldina Nobre, ou Lili, como é conhecida em Miranda do Douro, trabalha com a irmã, Sandra Nobre, e a mãe, Maria Suzana de Castro. Juntas são das poucas artesãs deste ofício, fazendo os trajes dos pauliteiros e pauliteiras, assim como a capa de honras. O traje, já usado pelo Papa Francisco, é um dos símbolos da região do nordeste transmontano, sendo utilizado apenas em ocasiões especiais. Atualmente, para além desta família, apenas mais uma mulher produz este tipo de artesanato.

A capa de honras foi, em tempos, uma representação de estatuto social. O clima da região, com grandes amplitudes térmicas, levou a que os pastores criassem uma peça de vestuário que os protegesse dos invernos longos e frios. Com “nove meses de inverno e três de inferno”, dizia-se, os populares de Miranda do Douro criaram trajes extraídos de materiais naturais que os animais produziam. Os pastores tosquiavam os animais e retiravam o lixo que a lã destes podia ter apanhado no campo. Depois de lavada com água quente, pintava-se a lã com recursos naturais. “A cebola e a sua casca dava laranja, se não me engano”, relembra Alice Martins, de 57 anos, funcionária da Casa da Cultura Mirandesa (CCM), que recorda os tempos em que a lã era tratada de forma totalmente artesanal. O pardo, conhecido como burel em outras regiões do país, era trabalhado pelas mulheres nos teares da região.
 
Esta peça de vestuário, à base de lã, passa por um conjunto de processos de transformação antes de ser possível trabalhá-la. O tecido, agora produzido industrialmente, é cortado em motivos geométricos para produzir os recortes decorativos. “É no cabeção, na ponta do capuz e na honra que os elementos decorativos são mais elaborados, com recurso ao mesmo tipo de bordado aplicado a dois panos, com reservas abertas à tesoura e pespontado, pendendo também franjas largas”, segundo a completa explicação disponível no Museu da Terra de Miranda. Os recortes, que requerem precisão, são “bem fáceis”, para Leopoldina. “É o hábito, é o meu trabalho. Nada é difícil porque todo o nosso trabalho é feito com gosto. Independentemente se é um casaco, uma capa, uma carteira ou uma almofada”, acrescenta.

Além de Leopoldina Nobre, há poucas artesãs a criar a capa de honras: ​Maria Suzana de Castro e Sandra Nobre são duas delas, e as três trabalham juntas. A real origem da capa, em absoluto, é desconhecida, mas admite-se que tenha sido criada na Idade Média, devido às semelhanças com a capa de asperges eclesiástica e os motivos decorativos — e, inclusive, com o tradicional capote dos Açores. “Nos anos 70-80, deixou-se de usar a nossa cultura. Era uma vergonha sermos do Planalto Mirandês. As pessoas emigraram muito porque a pobreza, digamos, era um bocadinho grande. A minha mãe sempre foi costureira e começou a trabalhar nesta matéria-prima. Numa brincadeira para a escola, fez-nos uma mochila, casacos e uma saia. As pessoas começaram a ver o que fazíamos e gostaram do nosso trabalho”, conta Leopoldina, de 48 anos.
 
 

Homens com a capa de honras


Devido à crescente escassez de ovelhas na região, como conta Alice Martins, da CCM, a maioria dos tecidos utilizados são hoje produzidos industrialmente. Mas Leopoldina vê os aspetos positivos nisso: “A matéria-prima industrializada fica muito mais normal, mais maleável. É 100% de lã, mas não fica rígido”, conta. Apesar de ser uma arte mirandesa, a desertificação do interior e a dificuldade em encontrar lã mirandesa, obrigaram as artesãs a importar o burel da Serra da Estrela. Para além deste, as artesãs utilizam também o surrobeco, que “é a mesma matéria-prima, mas é relativamente mais fino. Costuma-se fazer saias e camisas”, explica a mestre deste ofício.

Tradição e mudança

Leopoldina confessa que não é apologista da mudança, mas acredita que há certos aspetos ligados à cultura e à arte mirandesa que deviam avançar. Dá como exemplo a língua mirandesa, que estava a desaparecer até ser integrada no currículo escolar. Compreende que esta medida foi essencial para não se perder a tradição, mas não concorda em alterar a forma como a cultura é feita.
 
 
 

A capa, uma tradição transmontana


Em 2017, Palmira Falcão, uma artesã de 70 anos e também natural de Sendim, foi desafiada a produzir a primeira capa para as mulheres: “Fiz o modelo e toda a gente gostou. A presidente da Câmara [de Miranda] anda sempre com ela”, recorda ao Expresso, orgulhosa. No entanto, o tema divide opiniões. Apesar de pouco mudar na estrutura da capa, Leopoldina recusa-se a chamar-lhe capa de honras: “A capa de honras é só de homem. Podemos fazer para as mulheres, se alguém pedir, mas não se vai chamar capa de honras, para mim não”. Palmira, que se dedica a este ofício há 30 anos, discorda abertamente: “Antigamente as mulheres também não usavam calças, agora usam. Uma mulher é tão honrada como um homem”.

Apesar das divergências, Palmira acredita que há espaço nesta arte para as diferentes visões. Atualmente, a artesã dá formações a iniciantes em Miranda do Douro, focando-se em transmitir este legado para que a cultura não morra: “O que eu queria era que toda a gente aprendesse. [Este traje] representa todos os portugueses, toda a gente que o queira usar”, afirma.

Além desta peça simbólica, Leopoldina, que faz a maioria dos trajes dos pauliteiros e pauliteiras da região, lembra que já se recusou a fazer trajes porque lhe pediram algo diferente. “Porque é que se vai mudar os trajes dos pauliteiros se toda a vida foram aqueles?”, questiona.

As artesãs demoram cerca de 15 dias a terminar uma capa de honras, cujo preço pode variar entre €1200 e €1500

A artesã de Miranda já trabalhou com o designer francês Christian Louboutin, criando uma carteira, a Portugaba, para uma das suas coleções, que chegou a custar €1659. A artesã e a sua família têm conhecimento de que há quem tente copiar a arte para a vender por milhares de euros. É também por isso que não vende online. “Artesanato a nível nacional ou mundial não se pode comprar online, tem de se ver, de se apaixonar e amar à primeira.” Exemplifica com uma situação relacionada com um modista americano que vendia peças inspiradas no ofício a 15.000 euros, mas não se assusta com isso, nem com cadeias de fast fashion: “Não interessa o que custa. O meu cliente sabe que não vai encontrar isso em mais lado nenhum”, afirma Leopoldina.

Tem uma loja em Miranda do Douro há cerca de 26 anos, mas antes já tinha uma em Sendim, uma freguesia do concelho, que está aberta há cerca de 35 anos. Participa em muitas feiras internacionais e nacionais de artesanato, mas são os portugueses quem mais compram as suas peças: “As pessoas admiram e compram, e não encontram isto em mais nenhum lado. É como um pintor, tens aquela identidade. Consegue-se diferenciar completamente o nosso trabalho em qualquer sítio”, acrescenta.

A capa de honras, que pode custar entre €1200 e €1500, é a peça mais demorada e trabalhada que fazem. Entre as três, demoram cerca de 15 dias a acabar uma capa. No entanto, o tempo compensa para ver a reação do cliente: “Para mim é uma honra dar uma capa de honras ao Papa e ao Presidente da República. O próprio Papa Francisco mandar uma grande carta de agradecimento, com o meu nome, o da minha mãe, entregue pelo senhor Bispo. Isso é o que interessa e dá gosto ao nosso trabalho, seja para mim ou outra pessoa”, afirma. Confessa que mais do que gostar do seu trabalho, gosta de fazer parte da mudança de mentalidade relacionada com a região. “Somos muito ricos, mais do que qualquer concelho. Ninguém tem um folclore tão rico como o nosso em relação a trabalhos.” Tem prazer em dar uma nova vida a objetos antigos. Conta que, há uns tempos, uma senhora lhe trouxe um saco de trigo e transformou-o numa manta. É este “renascer”, como lhe chama, que lhe traz satisfação.
 

Tudo sobre a capa
 
 


 
 
O que é?

De acordo com o Museu da Terra de Miranda, uma capa de honras “apresenta uma forma base em semicírculo, aplicando-se nesta uma sobrecapa curta (até aos cotovelos) e um capuz. A abertura da capa é guarnecida frontalmente com uma aplicação bordada a dois panos (originalmente um burel de lã), recortado e pespontado (técnica do picado), geralmente recorrendo a motivos padronizados de origem geométrica, fitomórfica, ou em ‘corações’”.

Quanto custa?

Uma capa de honra tradicional, em burel e adornada com bordados, poderá custar entre mil e 1200 euros.

Como nasceu?

As origens da capa de honras mirandesa perdem-se no tempo. Ainda assim, e de acordo com o Museu da Terra de Miranda, é provável que o seu surgimento remonte à Idade Média, “atendendo à grande proximidade desta peça de vestuário com a capa de asperges eclesiástica e aos motivos artísticos recorrentes”.
 
Margarida Nogueira. "O que é uma capa de honras: mais do que uma peça de roupa, um símbolo de Trás-os-Montes", Expresso, 23 de julho de 2026. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Antero de Quental em 2026

 

 #AnterodeQuental #aLerMaiseMelhor

 




Imaginámos o poeta e pensador português a descobrir um Portugal mais rápido, tecnológico e moderno. Mas a sua pergunta continua atual: estamos mais acordados?
 
Antero não deixou apenas poesia. Deixou inquietação, pensamento e perguntas.
E algumas perguntas também são legado. 
 

É a responsabilidade, meu caro

 

 #literaciadosmedia 






"Responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não."


Deixem-me bombardear-vos com opiniões avulsas e pensamentos voláteis sobre a tendência do momento. Bom, primeiro tenho de ir ver qual é desta vez, ora deixa cá ver, ora deixa cá ver, muito bem, pode ser a Odisseia que ninguém leu, mas que de repente agita as águas do Verão.

Calma, estou a brincar. Nada me interessa menos. Não vos maçarei com longas dissertações sobre fronteiras da história e da ficção e do que supostamente é lícito concluir sobre a cor da pele de Helena de Tróia. Não vos impingirei o milésimo debate étnico-ideológico mascarado de conversa sadia sobre uma obra que jaz adormecida nas catacumbas, ora injustamente esquecida, ora incensada com exagero de complexo intelectual. Sobretudo, não contribuirei para a parolice de trazer a saga de Ulisses para o único terreno em que tiktokers e instagramers sabem navegar: então e tu, gostaste mais do livro ou do filme?

Permitam-me, em vez disso, trazer-vos ao terreno do sonâmbulo (se não mesmo falecido) Correio do Leitor. Os companheiros da velha guarda jornalística lembram-se bem. Tirando o pontual telefonema de insulto breve ou pedido de informações, as cartas dirigidas à Redação eram a única forma de termos o que hoje responde pelo pomposo feedback, que é como que diz “o que o nosso público pensa de nós”.

A antiga escrita à mão traz uma pequena dificuldade. Por exemplo: o ódio é mais difícil de exprimir. Desenhar à mão as letrinhas todas para chamar filho desta e daquela, mais mandar-nos para o membro sexual masculino ou para a vagina da nossa progenitora, é coisa que pede algum tempo e paciência, e fica assim como que um espaço vazio entre a raiva que se sente e o que realmente passou para o papel.

Por isso o maravilhoso computador, ou o ainda mais deslizante teclado pequenito do telemóvel se tornaram a arma mais eficiente do ódio. Toda uma sociedade sabe hoje insultar e agredir com dedinhos rápidos. A precipitação tornou-se fácil e alimentou a irreflexão. Sabemos que parte do planeta acorda arrependida de uma mensagem que enviou às quatro da manhã. Com as cartas de antigamente havia tempo de voltar atrás e decidir não lamber o selo nem a enfiar na ranhura do correio.

E assim vamos, neste maravilhoso potencial de purga de frustrações. Eu não sou mais do que os outros e por isso também recebo o meu correio. Entre uma grande parte de lixo e asco, lá vem de vez em quando uma pergunta legítima. Esta semana destaco esta: ainda não percebi bem porque faz tanto paralelismo entre lógica de redes sociais e algum do jornalismo atual, quer explicar melhor? Quero, pelo menos quero tentar.

Aconteceu no início do mês, aquele autocarro que esmagou duas pessoas no Cacém. Liguei o televisor por volta da hora do almoço e toda a TV cavalgava a notícia o mais que podia. Poderia ser qualquer dos canais, como explicarei, mas no caso passava eu pela CNN e o jornalista falava em tom sério e grave, compenetrado, sobre imagens que eu, na altura, desconhecia.

Havia, pelos vistos, um vídeo de má qualidade do momento logo após a tragédia. Alguém que se pôs a filmar e apanhou fumo, confusão, pessoas a correr e sobretudo pessoas a gritar, o que dava bem a dimensão do choque que ali se gravava. Os gritos eram de quem se apercebia dos corpos das duas vítimas.

E agora o essencial, a espantosa impossível contradição que se instalou no jornalismo e parece ter criado raízes para nunca mais desaparecer. Repetir e repetir até à exaustão as imagens e sons mais horripilantes, desde que acompanhado de avisos de “conteúdo sensível”.

Depois, em cima disto, a cereja da suprema ironia. O jornalista entrevista uma psicóloga, a quem pergunta quais os factores mais terríveis para a cabeça das vítimas e familiares e população em geral na sequência de tragédias destas? Bom, para começar, tenta a psicóloga, as televisões deveriam travar o carrossel contínuo de imagens em repetição com os gritos aflitos. Isto poderia (deveria?) levar a TV a refletir naquele mesmo momento, e a parar o processo, já que a especialista convidada deu o conselho? Pois, sim, abelha. Se o parecer de um especialista da saúde mental choca com o interesse da competição jornalística, adivinhem quem perde e quem ganha essa contradição?

Aqui não há muitos anos, tive na SIC uma das mais acaloradas discussões entre colegas. Porque fizemos exatamente o mesmo com imagens terríveis de agressões entre alunas de uma escola. Repetição até à exaustão do fator potencialmente traumatizante.

E agora a resposta ao que me perguntou o leitor: o jornalismo não pode arrastar-se para uma lógica de rede social que busca cliques a todo o segundo quando está em causa a nossa responsabilidade social. Sim, a responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não. Não devemos, não podemos. Quanto mais a entregarmos, mais nos afundaremos num jogo para que nos querem arrastar, a fim de um dia nos esfregarem na cara que moralmente não somos melhores do que ninguém.

Rodrigo Guedes de Carvalho. É a responsabilidade, meu caro, Expresso23 julho 2026 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Camões 500 anos

 

 #500anosCamões  #VouTeCantar  #aLerMaiseMelhor

 

 

"Poucos escritores marcaram tanto a língua portuguesa como Luís de Camões.
 
Soldado, viajante e poeta, perdeu um olho em combate e viveu uma vida cheia de dificuldades. Segundo a tradição, durante um naufrágio salvou o manuscrito de Os Lusíadas, segurando-o acima da água enquanto lutava pela própria sobrevivência.
 
Mais do que contar as aventuras dos navegadores portugueses, Camões ajudou a construir uma identidade para um povo e deu à língua portuguesa uma das suas maiores obras.
 
Mais de quatro séculos depois, os seus versos continuam vivos."
 
👉Este vídeo faz parte da série “Vou te Cantar”, em que grandes personagens da história de Portugal e do Brasil são transformadas em música.

 

 

sábado, 18 de julho de 2026

O jornalismo devorado pela rede

 

#literaciadosmedia  #jornalismo  #redesSociais   #aLerMaiseMelhor 



Grande parte já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema em comportar-se como mais um aziado das redes.

Tenho sentido uma transformação do jornalismo, a que, em momentos de maior desilusão e cansaço, chamo um lento suicídio. É a imagem que me vem de cada vez que se coloca a comparação com as redes sociais. E o problema é que tudo hoje se faz em comparação com as redes, ou por causa delas, ou em nome delas.

É sabido que o maior truque do diabo sempre foi convencer-nos de que não existe. Pois o maior truque do progresso é fazer-nos acreditar que é inevitável. Sendo aqui a palavra “progresso” uma caricatura de traço largo imperfeito. O futuro e as suas mil e uma matizes será muito diferente para cada um.

O jornalismo começou por abraçar o progresso quando ele era só uma mais rápida tipografia ou quando a televisão ganhou todas as cores. Mas nas últimas décadas começou a tremer com o significado de moderno. Exemplo maior: o jornalismo não soube nunca conviver no mesmo mundo das redes criadas pela internet. Faz-me sempre lembrar um indivíduo que está na plataforma onde não passa o comboio, mas, aflito de medo, não lhe ocorre outra ideia que não seja atirar-se para debaixo do comboio. Explicará depois que era inevitável, uma vez que o comboio vinha muito depressa e não havia como fugir-lhe. É também assim que os papás e as mamãs explicam embebedar os bebés com telemóveis e mil ecrãs de luz, cor, som e trampa assim que podem, para os manter “distraídos”, e porque é “inevitável, é o progresso”.

Um dos mais lamacentos terrenos em que o jornalismo se deixa confundir com as redes é o da doentia relação com a fama e a riqueza. As redes sociais destaparam há muito a frágil tampa de um mar de esgoto. Grande parte das publicações e comentários mostram, de forma óbvia e feia, que todos gostariam de ser muito ricos e muito famosos e que, caso não o consigam (o que acontece muito) então passarão a odiar de morte os muito ricos. Este mecanismo não é novo, muito pelo contrário, nasceu certamente com a primeira tribo da Humanidade, acontece que estava confinado aos seus pequenos locais.

O fascínio pelo rico, a que se segue de imediato a inveja forte, logo, o desejo de queda do rico, está explicado há muito em toda a boa literatura. É portanto natural que alimente as redes sociais, pródigas em servir de espelho ao que somos. Sendo que houve em tempos aqueles sentimentos que faziam parte do “inconfessável”. Isso já acabou. Agredir por teclado, à distância, no conforto e solidão de um esconderijo qualquer, transformou todos os cobardes em “sinceros e frontais”.

A minha enorme mágoa é ver quanto do jornalismo se deixa arrastar para as mesmas pocilgas. Alguns fazem-no a céu aberto, explicando que não devem explicações a ninguém e que se marimbam para códigos de conduta ou imperativos morais. Mas já se vão multiplicando os outros, os ditos mais sérios, que a cada pontapé na seriedade argumentam que tem de ser, porque o mercado “mudou”.

No universo do embevecimento bacoco e novo-rico com o dinheiro e cargos e posses e fama, falemos, de formas muito diferentes, das obras do ministro Luís Neves e das férias de Cristina Ferreira. O caso do ministro não é mais do que um clássico da investigação jornalística. Alguém encontrou possível marosca no comportamento de um homem que serve o Estado. Por bem mais do que um século o jornalismo contribuiu para a limpeza da sociedade com investigações que resultaram em denúncia proveitosa. Também cometeu muitos erros e arruinou reputações sem sustentação. Mas para o que hoje me importa, nem é vital sabermos em que terreno estamos, uma vez que este caso ainda vai no adro e não faço a mínima ideia como terminará.

O que me interessa é o foco jornalístico, que sempre foi muito simples. Porque tardaram tanto a aparecer as faturas que o ministro dizia que obviamente existiam? O problema não é a piscina. A piscina faz parte do pacote, mas não é o coração da ilicitude. Mas grande parte do jornalismo já só nada de volta da magna questão, uma vez que as redes sociais saltaram de imediato ao verem as imagens do “tanque de rega”.

O caso de Cristina Ferreira não lhe cabe em exclusivo, ou seja, não é de perto nem longe a única estrela que vai de férias para paraísos e nos exibe, em forma de diário, como está tudo a ser tão maravilhoso. Há sempre o pormenor, nestas estrelas, de escolherem os resorts mais caros do planeta porque foram em busca das “coisas simples da vida”, como provam as fotos na praia ao pôr-do-sol e “sem maquilhagem”. Isso é o que é, consome quem quer. Só é pena o comportamento de cínica hiena de certa comunicação social, que num dia nos convida ao clique para vermos as fotos angelicais, e no outro coloca no título que “Grande parte dos portugueses não ganha na vida toda o que esta senhora gastou só nestas férias”. Grande parte do jornalismo já se rendeu. Sacia instintos básicos. E não tem problema nenhum em comportar-se como mais um aziado que comenta nas redes.

Rodrigo Guedes de Carvalho. O jornalismo devorado pela rede. Expresso, 16 de julho de 2026