Portugal é dos países europeus onde os jovens mais recorrem à Inteligência Artificial para desabafar e pedir conselhos. Nas redes sociais, está a aumentar a exposição dos mais novos a discurso de ódio, teorias da conspiração e conteúdos violentos
“Às vezes sinto vergonha de com quem é que eu vou falar. E faço isso [usar o Chat GPT] bastantes vezes para tirar as minhas próprias dúvidas em questões de saúde, ou cenas mais pessoais, de relações, amizades”, conta Laura, de 15 anos, uma das inquiridas neste estudo, conduzido no ano passado, que contou com uma amostra de mais de 2000 crianças e jovens portugueses entre os 9 e os 17 anos. “É amizade, porque partilho praticamente a mesma coisa”, explica Henrique, de 13 anos, outro dos entrevistados. “É como se estivéssemos a falar com alguém de quem gostamos muito”, resume Maria, da mesma idade.
[...]
De acordo com o estudo, a esmagadora maioria dos jovens portugueses (85%) usa ferramentas de IA, sobretudo para a realização de trabalhos escolares, mas há um grande desconhecimento sobre o seu funcionamento. “Os miúdos usam mas não sabem como funciona, que limitações têm, de onde vêm os dados e como são geradas as respostas. Acreditam que todas as respostas são boas, verdadeiras e exatas e não percebem que pode haver conteúdos errados ou enviesados. Rapidamente podem desenvolver relações de grande proximidade [com os robôs de conversação] sem perceberem os riscos envolvidos. Há muita ingenuidade em relação a estas ferramentas”, diz Cristina Ponte, investigadora do Instituto de Comunicação da Nova e coordenadora da equipa portuguesa da rede EU Kids Online desde o seu início, em 2006.
O mesmo desconhecimento verifica-se no que diz respeito às redes sociais, nomeadamente em relação ao funcionamento dos algoritmos, aos seus mecanismos para captar e reter a atenção e aos impactos que têm a vários níveis. Para Cristina Ponte, é fundamental abordar estes conteúdos em contexto de sala de aula, o que ainda não acontece, pelo menos na medida do que seria desejável. “Literacia digital não é só saber usar estas tecnologias, mas perceber como é que funcionam, o que está por trás delas e quais são as implicações do seu uso. São questões que têm mesmo de ser trabalhadas nas escolas”, frisa a investigadora.
Discurso de ódio, desinformação e violência
Segundo dados da EU Kids Online, cerca de metade das crianças e jovens portugueses já se confrontou com discurso de ódio online. A exposição a conteúdos xenófobos ou misóginos, por exemplo, cresce exponencialmente com a idade, abrangendo 72% dos jovens na faixa etária entre os 15 e os 17 anos.
“É preocupante a força com que emergiram novas situações de risco que resultam do agravamento de um ambiente de polarização e extremismo”, diz Cristina Ponte.
De acordo com um estudo, mais de um terço (37%) dos jovens contactam com “teorias da conspiração”, 31% já se depararam com “sugestões de automutilação” e entre 22% e 29% foram expostos online, de forma não intencional, a “pornografia de adultos, outras práticas corporais danosas e imagens nojentas e violentas”.
Quase 40% referem ter tido pelo menos uma experiência negativa no último ano e a maioria (53%) confessa que não se sente segura no espaço online.


.png)

