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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Sofrimento, resistência e luta. Ressonâncias na Literatura Portuguesa do século XX

 













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Título: Sofrimento, resistência e luta. Ressonâncias na Literatura Portuguesa do século XX

Nome (Autores/Coord. principais): Ana Isabel Queiroz (coord.), Fernanda Cunha e Isabel Vasconcelos Ferreira

Ano de publicação: 2013

Editora: IELT, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa

Resumo: Sofrimento, resistência e luta. Ressonâncias na Literatura Portuguesa do século XX responde ao desafio lançado ao projeto Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental pela comissão científica do I Congresso sobre os Movimentos Sociais e Operários, realizado na NOVA FCSH, em março de 2012. Os textos que agora se publicam são reflexões que tiveram neste evento uma apresentação preliminar, preparada coletivamente pelas autoras. Em conjunto, selecionaram um corpus literário constituído por 11 romances do século XX, tomados como exemplos. São obras que reportam a momentos da História Contemporânea, desde a crise da Monarquia até à Revolução do 25 de abril de 1974 (Figura 1), incluídas na denominada literatura de intenção social – expressão usada por Urbano Tavares Rodrigues (1981) para caracterizar Ferreira de Castro -, neo-realista – período datado entre 1935 e 1950 por Alexandre Pinheiro Torres (2002), embora outros se refiram ao seu prolongamento para décadas mais recentes -, e de realismo ético – como Vitor Viçoso (2011) classifica a obra de José Rodrigues Miguéis. Estas obras distinguem-se do romance rural e do romance de costumes, produzidos anteriormente sob a influência do naturalismo e do realismo, pela integração de «um etnografismo emancipador», onde «o mito edénico» é contrariado (Viçoso 2009, 16).

Referência bibliográfica completa: Queiroz, Ana Isabel, Cunha, Fernanda, e Ferreira, Isabel Vasconcelos (2013). Sofrimento, resistência e luta. Ressonâncias na Literatura Portuguesa do século XX. IELT, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa.

ISBN/ISSN: 978-972-9347-11-5


quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Sugestão de Leitura

 




Se os Gatos Desaparecessem do Mundo
Genki Kawamura
Presença Editora
agosto 2021
ISBN 9789722367660
Nº de Páginas: 136




Sinopse 

Tão belo quanto comovente, este é um romance sobre a perda e sobre o quão importante é estarmos próximos e presentes na vida de quem amamos. Em pleno século XXI, o que importa realmente na vida?
Os dias do jovem carteiro estão contados. Afastado da família, vive sozinho e tem por companhia o seu gato Repolho. Nada o preparou para a notícia que acaba de receber: o médico diz-lhe que tem apenas alguns meses de vida. Mesmo antes de começar a escrever a lista de coisas que tem de fazer antes de morrer, o Diabo aparece para lhe propor um trato: se ele fizer desaparecer apenas uma coisa do mundo, ganha um dia de vida. Assim começa uma estranhíssima semana…
Pensemos: como podemos escolher o que conta realmente na nossa vida? Como separamos as coisas sem as quais viveríamos daquelas de que mais gostamos? Perante a oferta do Diabo, o protagonista desta história e o seu adorado gato são levados até aos limites da escolha, da aceitação e da reconciliação.
Um romance-fábula sobre um homem e a sua luta para descobrir o que realmente importa na vida.

                                                      

segunda-feira, 26 de julho de 2021

O simulador simulado

 

A ANOMALIA
Hervé Le Tellier
Editorial Presença, 2021
276 págs




T

alvez a vida comece quando sabemos que não a temos.” A afirmação pertence a uma das personagens do livro “A Anomalia” e, se tal fosse necessário, poderia resumi-lo: o que acontece à vida perante a possibilidade da sua negação? Como seria viver suspeitando que a vida não passa de uma simulação virtual e que cada um de nós é apenas um programa que “deseja, ama e sofre”, idealizado por “outros seres igualmente simulados numa simulação ainda maior, em que todos os universos simulados se encaixam uns nos outros, como mesas de empilhar”?

O romance, que há um ano venceu o Prémio Goncourt e vendeu um milhão de exemplares em França — por cá vai na quarta edição em pouco mais de um mês —, é feito de perguntas destas. Feito de personagens que formulam perguntas destas. Feito da ausência de respostas a que este tipo de perguntas conduz. E feito da mestria de um escritor, Hervé Le Tellier, que, do início ao fim das escassas 276 páginas, coloca sobre a mesa a mais alta, última e primeira, questão filosófica, sociológica, técnica, matemática, lógica, antropológica, psicológica e física, a única questão que nos ocupa desde os tempos mais antigos e aquela cuja abordagem deu origem a milhares de páginas e de teorias: a questão sobre o que somos.

Dividido em três partes, cada uma delas contém os capítulos que, a pouco e pouco, nos fazem penetrar na história. E esta é aparentemente simples: um avião aterra com duas centenas de pessoas a bordo e, descobre-se, é a duplicação exata de um outro voo que fizera a mesma travessia 106 dias antes. A complexidade da trama deriva da identificação das personagens e do que cada uma faz com a circunstância de se ver confrontada com o seu duplo. Os sentimentos variam, do ódio profundo ao ciúme, do assassínio à solidariedade e ao sacrifício. Há um homem velho que tentará ajudar o seu segundo ‘eu’ a não cometer os mesmos erros na relação com uma mulher. Um assassino profissional que vê no seu duplo a pior das ameaças. A mãe que se recusa a partilhar tal estatuto perante o filho. A mulher que prefere “desaparecer” a destruir um casal. O homem que morre de cancro e tem uma segunda chance. O cantor que sente o duplo como um irmão. O escritor que não chega a conhecer o seu duplo porque este se suicida depois de ter escrito um livro intitulado “A Anomalia”.

Além de escritor e jornalista, Hervé Le Tellier tem formação em matemática e em linguística. Isso permite-lhe estruturar o romance de modo a que não resvale para o terreno da distopia: não há, aqui, um futuro a ser retratado, mas um presente a decorrer hoje, em pleno 2021. O autor recorre a diversas hipóteses científicas para justificar a ideia da duplicação e acaba por escolher a teoria da simulação de Nick Bostrom, que serve de alicerce ao livro. Resolvido o assunto da verosimilhança (o ser humano acede à verdade sobre a sua situação graças a uma ‘anomalia’, isto é, a duplicação dos aviões), Le Tellier parte para uma digressão sobre o que aconteceria se, de repente, descobríssemos que tudo aquilo em que acreditamos e no qual a nossa vida assenta é virtual, sendo o real por nós desconhecido ou irreconhecível. “De que serve saber?”, pergunta alguém a dada altura, condensando a mensagem do romance: se não fôssemos o que somos, se o mundo fosse o interior penumbroso da Caverna de Platão, isso faria alguma diferença?

E, se resulta impossível não pensar no “sonhador sonhado” de um dos mais célebres contos de Jorge Luis Borges, ou no Calvino de “Se numa Noite de Inverno um Viajante”, Le Tellier vai revelando as suas referências — Tolstoi, Coetzee, Adam C. Clarke, Gary, Perec, Carroll, Shakespeare, Nietzsche —, que farão sorrir alguns, embora isso seja o menos importante.

Luciana Leiderfarb. E - Revista Expresso, Semanário#2543, 23 de julho de 2021 



domingo, 17 de maio de 2020

Senti o beijo como o mar deve sentir a onda



Cena do filme de O ano da morte de Ricardo Reis, realizado por João Botelho, protagonizado por Chico Diaz (Ricardo Reis) e Vitória Guerra (Marcenda)





Ricardo Reis pega-lhe na mão direita, não para a cumprimentar, apenas quer guiá-la neste labirinto doméstico, para o quarto nunca, por impróprio, para a sala de jantar seria ridículo, em que cadeiras da comprida mesa se sentariam, um ao lado do outro, defronte, e aí quantos seriam, inúmeros ele, ela decerto não única, seja então para o escritório, ela num sofá, eu noutro, entraram já, estão enfim todas as luzes acesas, a do teto, a da secretária, Marcenda olha em redor os móveis pesados, as duas estantes com os poucos livros, o mata-borrão verde, então Ricardo Reis diz, Vou beijá-la, ela não respondeu, num gesto lento segurou o cotovelo esquerdo com a mão direita, que significado poderá ter o movimento, um protesto, um pedido de trégua, uma rendição, o braço assim cruzado por diante do corpo é uma barreira, talvez, uma recusa, Ricardo Reis avançou um passo, ela não se mexeu, outro passo, quase lhe toca, então Marcenda solta o cotovelo, deixa cair a mão direita, sente-a morta como a outra está, a vida que há em si divide-se entre o coração violento e os joelhos trémulos, vê o rosto do homem aproximar-se devagar, sente um soluço a formar-se-lhe na garganta, na sua, na dele, os lábios tocam-se, é isto um beijo, pensa, mas isto é só o princípio do beijo, a boca dele aperta-se contra a boca dela, são os lábios dele que descerram os lábios dela, é esse o destino do corpo, abrir-se, agora os braços de Ricardo Reis apertam-na pela cintura e pelos ombros, puxam-na, e o seio comprime-se pela primeira vez contra o peito de um homem, ela compreende que o beijo ainda não acabou, que neste momento não é sequer concebível que possa terminar, e voltar o mundo ao princípio, à sua primeira ignorância, compreende também que deve fazer mais alguma coisa que estar de braços caídos, a mão direita sobe até ao ombro de Ricardo Reis, a mão esquerda está morta, ou adormecida, por isso sonha, e no sonho relembra os movimentos que fez noutro tempo, escolhe, liga, encadeia os que, a sonhar, a erguem até à outra mão, agora já se podem entrelaçar os dedos com os dedos, cruzarem-se por trás da nuca do homem, não deve nada a Ricardo Reis, responde ao beijo com o beijo, às mãos com as mãos, pensei-o quando decidi vir, pensei-o quando saí do hotel, pensei-o quando subia aquela escada e o vi debruçado do corrimão, Vai beijar-me. A mão direita retira-se do ombro, escorrega, exausta, a esquerda nunca lá esteve, é a altura de o corpo ter um movimento ondulatório de retração, o beijo atingiu aquele limite em que já não se pode bastar a si mesmo, separemo-nos antes que a tensão acumulada nos faça passar ao estádio seguinte, o da explosão doutros beijos, precipitados, breves, ofegantes, em que a boca se não satisfaz com a boca, mas a ela volta constantemente, quem de beijos tiver alguma experiência sabe que é assim, não Marcenda, pela primeira vez abraçada e beijada por um homem, no entanto percebe, percebe-o todo o seu corpo dentro e fora da pele, que quanto mais o beijo se prolongar maior se tornará a necessidade de o repetir, sofregamente, num crescendo sem remate possível em si mesmo, será outro o caminho, como este soluço da garganta que não cresce e não se desata, é a voz que pede, sumida, Deixe-me, e acrescenta, movida não sabe por que escrúpulos, como se tivesse medo de o ter ofendido, Deixe-me sentar. Ricardo Reis encaminha-a até ao sofá, ajuda-a, não sabe o que fará a seguir, que palavra lhe compete dizer, se recitará uma declaração de amor, se pedirá desculpa simplesmente, se ajoelhará aos pés dela para isto ou aquilo, se ficará em silêncio à espera de que ela fale, tudo lhe parecia falso, desonesto, a única verdade profunda foi dizer, Vou beijá-la, e tê-lo feito. Marcenda está sentada, pousou a mão esquerda no regaço, bem à vista, como se a tomasse por testemunha, Ricardo Reis sentou-se também, olhavam-se, sentindo ambos o seu próprio corpo como um grande búzio murmurante, e Marcenda disse, Talvez não devesse dizer-lho, mas eu esperava que me beijasse. Ricardo Reis inclinou-se para a frente, agarrou-lhe a mão direita, levou-a aos lábios, falou enfim, Não sei se foi por amor ou desespero que a beijei, e ela respondeu, Ninguém me beijou antes, por isso não sei distinguir entre o desespero e o amor, Mas, pelo menos, saberá o que sentiu, Senti o beijo como o mar deve sentir a onda, se fazem algum sentido estas palavras, mas ainda é dizer o que sinto agora, não o que senti então, Tenho estado todos estes dias à sua espera, a perguntar-me o que iria acontecer se viesse, e nunca pensei que as coisas se passariam assim, foi quando aqui entrámos que compreendi que beijá-la seria o único ato com algum sentido, e quando há pouco lhe disse que não sabia se a tinha beijado por amor ou por desespero, se nesse momento soube o que significava, agora já não sei, Quer dizer que afinal não está desesperado, ou que afinal não me tem amor, Creio que todo o homem ama sempre a mulher a quem está a beijar, ainda que seja por desespero, Que razões tem para sentir-se desesperado, Uma só, este vazio, Um homem que pode servir-se das suas duas mãos, a queixar-se, Mas eu não estou a queixar-me, digo só que é preciso estar muito desesperado para dizer a uma mulher, assim, como eu disse, vou beijá-la, Podia tê-lo dito por amor, Por amor beijá-la-ia, não o diria primeiro, Então não me ama, Gosto de si, Eu também gosto de si, E contudo não foi por isso que nos beijámos, Pois não, Que vamos fazer agora, depois do que aconteceu, Estou aqui sentada, na sua casa, diante de um homem com quem falei três vezes na vida, vim cá para o ver, falar-lhe e ser beijada, no resto não quero pensar, Um dia talvez tenhamos de o fazer, Um dia, talvez, hoje não [...]. 


José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago, Editorial Caminho, 1985 [capítulo XI].



sexta-feira, 15 de maio de 2020

LeV - Literatura em Viagem | José Luís Peixoto








Dia 15 de maio, às 17:00, José Luís Peixoto estará, via streaming, numa conversa com moderação de Manuella Bezerra de Melo.


Assista às sessões em direto, na página de Facebook da Câmara Municipal de Matosinhos: facebook.com/CamaraMunicipalMatosinhos/





terça-feira, 21 de abril de 2020

Como José Saramago encontrou Ricardo Reis e o levou para um romance







 https://ensina.rtp.pt/artigo/como-jose-saramago-encontrou-ricardo-reis-e-o-levou-para-um-romance/#






"Leu as Odes do poeta e julgou-o a existir, em carne e osso. Descobriu depois que Ricardo Reis era uma ficção saída da cabeça de Fernando Pessoa. Fascinado com a filosofia do médico-viajante, aprendeu de cor versos, como "regras de comportamento". Mas houve um que desafiou José Saramago para a escrita do romance: "Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo". O Nobel da Literatura considerou a frase monstruosa.

Ricardo Reis é o viajante que José Saramago faz chegar a Lisboa em 1935. Regressa do Brasil, onde residia por imposição biográfica de Fernando Pessoa. Poeta de Odes, médico de profissão, nascido em 1887, eis o heterónimo que se apresentou nas páginas da revista Athena ao aprendiz de serralheiro e agora deambula na ficção do Nobel da Literatura, num tempo imaginado mas cercado de acontecimentos históricos." - RTP Ensina



💻 A biblioteca no E@D



quarta-feira, 18 de março de 2020

O altivo peito, tão pequeno


+Leitur@s




Disponível na Biblioteca



Gonçalo M. Tavares é um artista do ínfimo. Dirige o seu ímpeto para o facto mínimo, relata com pormenor o que já é pequeno. Interessa-lhe o mundo das coisas ao alcance dos dedos, seu infinito mistério, sua verdade inacessível. De tanto olhar para baixo, e com sentidos apurados, tornou-se perito do comezinho, acomodando-o com abastado conforto nas formas breves. E tão vasto é seu fôlego curto que, ainda no meio do caminho de sua vida, ele criou um bairro inteiro de micronarrativas, um conjunto bibliográfico de casas onde respeitáveis senhores se entregam com avidez ao mesquinho: O Senhor Kraus, O Senhor Brecht, O Senhor Juarroz, O Senhor Calvino. Discípulo aplicado, Gonçalo M. Tavares bem valeria a retribuição da homenagem a este último mestre: com tão lépidas mãos exerce seu ofício que Italo Calvino poderia achar nele a encarnação de seu ideal de escritor para o novo milénio, o exemplo maior da leveza, da rapidez e da exatidão por ele prescritas.

Surpreende, então, ou deveria surpreender, a magnitude que esse escritor português resolveu buscar no seu mais recente empenho, a altivez de pescoço erguido a perscrutar o horizonte, certo anseio pelo absoluto que não pôde senão converter-se em epopeia. Não faltam ambições a Uma Viagem à Índia, o seu longo e prosaico poema que agora chega ao Brasil pela editora LeYa. O argumento, a epígrafe, os dez cantos em que se organiza, as 1.102 estrofes de versos livres em vez de decassílabos, esses e vários outros elementos mais intangíveis evocam Os Lusíadas, de Camões, qualificando a obra de Tavares como atualização ou reescrita.

Caso restasse dúvida impossível, “Bloom” foi o nome escolhido para o viajante-protagonista (em referência óbvia ao Leopold Bloom de Ulisses, a recriação joyceana da Odisseia), proporcionando ao livro uma segunda leitura paralela, épica do homem comum deslocada um século, do 20 para o 21. Mas também não se resumem a isso as suas pretensões assumidas, e cito só mais uma fazendo às demais injustiça imerecida: Uma Viagem à Índia propõe-se também como poema-ensaio, um itinerário especulativo da melancolia contemporânea.

O que fez com que uma disposição primeira se transformasse no seu inverso talvez esteja explicado numa passagem que não se deixa perder no intermédio, pensamentos de Bloom que lhe surgem quase sem contexto: “É interessante que um acontecimento tem sempre a possibilidade de não estar completo, de faltar algo, de existir um resto. Uma coisa minúscula ser incompleta, que estranho! É a prova de uma existência duplamente incompetente. Pelo menos ser grande, murmurou Bloom. (…) Que de entre a enorme lista de coisas que nos faltam não esteja a grandeza, ou o potente orgulho, ou a enorme coragem”. O risco que decorre dessa evidência, o risco de que Tavares não se salva apesar de sua consciência, será expresso com a sagácia habitual um canto mais tarde: “impossível associar leveza a grandes acontecimentos: toda a mudança é mudança súbita de peso. E, claro, ainda: incapacidade para o carregar”.


Lassidão constitutiva

Não que a grandeza seja em si um defeito congénito, pelo contrário. É louvável que Tavares, como Bloom no seu camoniano périplo até a Índia, tente sondar o insondável, possuir o impossível, avançar para o outro lado do mundo, esquadrinhar um caminho desconhecido da maioria – carece muito a literatura recente desse olhar voltado ao sublime. O caso é que a obra tanto se mune de modelos e parâmetros externos que acaba por sofrer de uma incoesão interna, uma ausência de parâmetros próprios, uma lassidão constitutiva.

Habitante de um mundo em que “os deuses atuam como se não existissem, e assim não existem, com extrema eficácia”, refém de um “Destino, que por ser invenção antiga, já vai evidenciando cansaço e até incompetência”, o herói da nova epopeia ocupa um espaço, real ou textual, que nunca de facto se organiza. Na sua dispersiva trilha passeia por Londres, Paris e outras metrópoles de uma Europa febril, mas nunca chega a alçar-se à condição de viajante ou andarilho. Teoricamente é “levado por si próprio, a si próprio mandando e obedecendo”, mas a desnecessidade de seus atos e trajetos parece responder apenas a certo desmando narrativo.

Quem é este Bloom, pouco sabemos. Os caracteres que lhe vão sendo atribuídos são anteriores ao tempo, externos ao espaço corrente, sem nunca se cristalizar na materialidade da história e dos versos. “Por que razão não é a vida apenas uma ordem que respira, onde para cada momento existe uma única ação certa?” A pergunta é pertinente e exata, mas, como bem sabe Tavares, resulta frágil a literatura que quer imitar a vida e encampar a tal ponto seu sem sentido.


Enciclopédia de epígrafes

Bloom, na sua abstrata vivência, existe apenas para dar vazão a uma infinidade de máximas, aforismos, taxonomias poéticas, revelando-se a um só tempo conhecedor de tudo quanto é humano e expoente maior de sua impreterível melancolia. Aqui desfilam, ninguém se engane, toda a virtuose estilística do autor e sua admirável perspicácia analítica, o olhar mitológico que ele dirige ao mundo, as suas divertidas parábolas incorrendo em sutis epifanias. Da passagem dos pequenos contos à epopeia, entretanto, já sabemos que o peso das palavras se altera, e o livro acaba padecendo de um ligeiro excedente de verdades. Não estamos no campo da ingenuidade, esteja claro, e Tavares define bem que “metade das grandes verdades são pequenas mentiras”. Mas leitores mais incrédulos poderão perguntar-se o que fazer com a outra metade.

Se personagens e enredo se mostram quase descartáveis, é esta segunda metade o legado principal do hercúleo empreendimento de Gonçalo M. Tavares. A sua narrativa não será emulada dentro de cinco séculos, Bloom não passará de pálido fantasma de seu homónimo. Mas basta que voltemos a baixar os olhos, a atentar à dimensão do ínfimo e seus pormenores, para descobrir na obra um sem-número de boas frases, sentenças felizes, ideias precisas, incontestes achados, uma bela enciclopédia de futuras epígrafes.

Julián Fuks.* O altivo peito, tão pequeno: Gonçalo M. Tavares cria uma enciclopédia de máximas, aforismos e taxonomias. Revista Cult.


* Escritor e jornalista brasileiro. 


quarta-feira, 11 de março de 2020

A Viagem do Elefante, de José Saramago | Pilar del Río, João Amaral e João Caldeira








A propósito da adaptação d' A Viagem do Elefante, da obra de José Saramago, prémio Nobel da Literatura, para a banda desenhada, aqui se reúnem em conversa Pilar del Río, João Amaral e João Caldeira. Pilar del Río, Presidenta da Fundação José Saramago, dispensa apresentações, João Amaral é o autor da BD e João Caldeira o fundador da Casa das Artes e Conhecimentos. 

A Obra de Saramago e as suas múltiplas adaptações, bem como o valor dessas adaptações e o lugar que ocupam, é dos assuntos abordados. A Viagem do Elefante e as suas mensagens profundas é um tópico de destaque nesta conversa. Uma conversa que revela um pouco mais sobre esta obra inserida no mundo de Saramago. 

Um apontamento realizado na Fundação José Saramago.



sexta-feira, 6 de março de 2020

Fase Intermunicipal do CNL | Obras selecionadas




No próximo dia 22 de abril, os alunos de Vila Real, aprovados na fase municipal do Concurso Nacional de Leitura, estarão em Carrazeda de Ansiães, a representar a escola na fase intermunicipal do Concurso.

Esta fase serve para apurar dois alunos por ciclo de ensino, em cada Comunidade Intermunicipal, para a Final que se realizará em Oeiras, no dia 6 de junho de 2019.



Obras selecionadas para a prova: 


3º Ciclo | Título:

Quero Ser Outro, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada




Sinopse

Alexandre estava farto da escola, farto da família, farto da rapariga que o persegue e de quem não gosta, farto da paixão pela rapariga de quem gosta e que não gosta dele, farto de si próprio.
Uma noite, nas Docas, encontra um rapaz muito parecido com ele que lhe diz andar embarcado ao serviço de um milionário e estar farto do patrão, das viagens constantes e de ver só mar dias seguidos. Resolvem então trocar de identidades por um mês e partem para a grande aventura de ser outro.





Secundário | Título:

A Fúria das Vinhas, de Francisco Moita Flores



Sinopse

Este romance narra a epopeia da luta contra a filoxera, uma praga que, na segunda metade do século XIX, ia destruindo definitivamente as vinhas do Douro. Na mesma altura em que, por toda a Europa, surgiam as primeiras técnicas e tentativas de criação de um método para a investigação criminal.

O autor criou um bacharel detective – Vespúcio Ortigão – que, na Régua, persegue um serial killer, confrontando-se com o medo, com as superstições, com as crenças do Portugal Antigo que, temente a Deus e ao Demónio, estremecia perante o flagelo da praga e dos crimes. É uma ficção, é certo, mas também um retalho de vida feita de muitos caminhos que a memória vai aconchegando conforme pode.

Francisco Moita Flores é um especialista na área da criminologia e tem escrito obras de grande sucesso quer em livro quer para televisão. A crítica considera-o um dos melhores argumentistas portugueses e algumas das suas séries são marcos de excelência da ficção portuguesa, como foi o caso d’ A Ferreirinha. Pese o facto de ter dedicado a sua vida ao estudo da violência, da polícia e à ficção, é a primeira vez que escreve um romance policial. A ação decorre no século XIX, nos primórdios da investigação criminal como hoje a conhecemos. Uma história emocionante ocorrida nas vinhas do Douro num tempo que abriu as portas da ciência e do conhecimento ao tempo que é o nosso presente.




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Centenário | José Mauro de Vasconcellos




O escritor de 'O Meu Pé de Laranja Lima', José Mauro de Vasconcellos, nasceu em 26 de fevereiro de 1920.








terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

+Leitur@s | A primeira viagem em redor do mundo









Autor : Antonio Pigafetta
Editor : Oficina do Livro
Data de lançamento : 11/02/2020 
ISBN : 9789896607609 
Nº Páginas : 152





Relato na primeira pessoa da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães, feito pelo representante da Corte de Veneza, que sobreviveu para contá-la — foi um dos 18 homens, entre 237, que voltaram.

Em agosto de 1519, Fernão de Magalhães içou âncoras do porto de Sevilha, ao serviço da Coroa espanhola. Tinha início a primeira viagem em redor do Mundo, que descobriria novas rotas de navegação e alteraria todos os mapas da Terra existentes até então. Comandava cinco navios e 237 homens. 

Embarcado como representante da corte de Veneza na expedição espanhola, Antonio Pigafetta sobreviveu à terrível viagem e celebrizou-se como cronista da grande aventura. Cruzaram aquele que seria batizado de estreito de Magalhães, descobriram o maior oceano da Terra (o Pacífico), passaram pela Ásia onde Magalhães foi tragicamente morto por nativos filipinos, contornaram a África e então regressaram a Espanha, em setembro de 1522. 

A armada havia sido reduzida a um só navio, o Victoria, e 18 homens famintos, entre eles Pigafetta.



+Leitur@s | O silêncio das mulheres









Autor : Pat Barker
Editor : Quetzal Editores
Data de lançamento : 14/02/2020 
ISBN : 9789897225918 
Nº Páginas : 384




O romance da escritora britânica distinguida com o Booker Prize, qualificado pelo “The Times” como “soberbo”, conta a história esquecida das mulheres da “Ilíada”, de Homero.

As mulheres no coração da guerra de Troia. Uma Ilíada feminista. Conhecemos da Ilíada o nome de heróis masculinos, como Aquiles, Ulisses, Páris, Agamémnon ou Heitor — mas este romance, narrado por Briseida, rainha de Lirnesso (cidade vizinha de Troia e dos seus campos de batalha), troféu e concubina de Aquiles após a tomada da cidade pelos Gregos, é a história das mulheres do poema de Homero, figuras frequentemente esquecidas ou desvalorizadas: as escravas, as prostitutas, as enfermeiras, as que cuidam dos mortos e dos vivos, as que observam as batalhas e primeiro sofrem os seus horrores. Reenviando-nos às grandes páginas da literatura da Antiguidade, O Silêncio das Mulheres é um convite a escutar as vozes silenciadas pela História e pelo poder — e um livro belíssimo sobre a realidade brutal da guerra e da escravidão, e também do amor e suas controvérsias.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Kafka | A sombra do pai (1)








Mikhail Bahktine escreveu na sua Estética e Teoria do Romance: «O objeto principal do género romanesco, aquele que o “especifica”, aquele que cria a sua originalidade estilística, é o homem que fala e a sua palavra». Creio que raramente uma asserção de âmbito geral como esta é terá sido tão exata como no caso humano e literário de Franz Kafka.

Desrespeitando certos teóricos que, não destituídos de razão, se têm insurgido contra a tendência “romântica” de ir procurar à existência de um escritor os sinais da passagem do vivido para o escrito, o que, supostamente, seria a final explicação da obra, Kafka não esconde em nenhum momento (e parece fazer mesmo questão de que se note) o quadro de factores que determinaram a sua dramática vida e, em consequência, o seu trabalho de escritor: o conflito com o pai, o desentendimento com a comunidade judaica, a impossibilidade de deixar a vida celibatária pelo casamento, a enfermidade. Penso que o primeiro daqueles fatores, isto é, o antagonismo nunca superado que opôs o pai ao filho e o filho ao pai, é o que constitui a trave mestra de toda a obra kafkiana, dele derivando, como os ramos de uma árvore derivam do tronco principal, o profundo desassossego íntimo que o levou à deriva metafísica, à visão de um mundo agonizando pelo absurdo, à mistificação da consciência.

A primeira referência a O Processo encontra-se nos Diários, foi escrita em 29 de Julho de 1914 (a guerra desencadeara-se no dia anterior) e começa com as seguintes palavras. “Uma noite, Josef K…, filho de um rico comerciante, depois de uma grande discussão que tinha tido com o pai…”. Sabemos que não é assim que o romance irá principiar, mas o nome da personagem principal – Josef K… - já ficou anunciado, tal como em três rápidas linhas de A Metamorfose, escrito quase dois anos antes, já se anunciava o que viria a ser o núcleo temático central de O Processo

Quando, transformado da noite para o dia, sem qualquer explicação do narrador, num bicharoco nojento, misto de escaravelho e de barata, se queixa dos sofrimentos imerecidos que caem sobre o viajante de comércio em geral e sobre ele próprio em particular, Gregorio Samsa expressa-se de uma maneira que não deixa margem para dúvidas: “muitas vezes é vítima de uma simples murmuração, de um acaso, de uma reclamação gratuita, e é-lhe absolutamente impossível defender-se, uma vez que nem sequer sabe de que o acusam”. Todo O Processo está contido nestas palavras. É certo que o pai, “rico comerciante”, desapareceu da história, que a mãe só é mencionada em dois dos capítulos inacabados, e mesmo assim fugazmente e sem caridade filial, mas não me parece um excesso temerário, salvo se estou demasiado equivocado sobre as intenções do autor Kafka, imaginar que a omnipotente e ameaçadora autoridade paterna terá sido, pela estratégia da ficção, transferida para as alturas inacessíveis da Lei Última, essa que, sem precisar de enunciar uma culpa concreta recolhida nos códigos, será sempre implacável na aplicação do castigo. O angustiante e ao mesmo tempo grotesco episódio da agressão executada pelo pai de Gregorio Samsa para expulsar o filho da sala familiar, atirando-lhe com maçãs até que uma delas se lhe vai incrustar na carapaça, descreve uma agonia sem nome, a morte de qualquer esperança de comunicação.

Continua

SARAMAGO, José (2009). Outros Cadernos de Saramago.



domingo, 29 de dezembro de 2019

Levantado do Chão | A paisagem e as palavras que lá estão



Paisagem e literatura










Registo Audio visual da apresentação do livro "A paisagem e as palavras que lá estão, Levantado do chão, um romance politico", com o Apoio do IELT-FCSH e da Fundação José Saramago. 

Participação de Pilar del Rio, presidente da fundação José Saramago, Viriato Soromenho Marques, professor na Universidade de Lisboa, e a autora do livro e colaboradora do IELT-FCSH,  Fernanda Cunha.

9 de Outubro de 2012

domingo, 15 de dezembro de 2019

+ Leitur@s | As crianças Invisíveis, de Patrícia Reis




Resgatar da Indiferença


<p class="legenda">A partir do seu texto, Patrícia Reis exige um confronto moral com o que pode sentir uma criança que “não serve” <span class="creditofoto">josé caria</span></p>
A partir do seu texto, Patrícia Reis exige um confronto moral com o que pode 
sentir uma criança que “não serve” José Caria








Este “As Crianças Invisíveis” é um romance que me acompanha desde o verão e para cuja abordagem precisei de tempo. Tempo para assimilar uma narrativa arriscada e para interpelar a essência do que o livro deixou plantado no meu espírito. O risco que a escritora correu parece-me assumido desde antes do incipit, no título que evoca (sem o artigo inicial) o enorme filme franco-italiano, datado de 2005, com que vários realizadores, entre os quais Emir Kusturica, quiseram sacudir a banalidade de imagens mil vezes repetidas. O suporte era, porém, o mesmo, e faltava-lhe o milagre da palavra despojada, lenta, avassaladora, apropriável à velocidade de cada um. Patrícia Reis consegue ir mais longe (ou mais perto), decompondo o drama numa identidade específica, fazendo emergir sem complexos o impercetível do visível e resgatando da indiferença casos catalogados sobre cuja justiça é comum pontificar.

O espectro emocional desenhado suscita questões como quantas famílias pode uma criança, protegida ou exposta atrás de um projeto de nome reduzido a uma capitular, abarcar; ou quantas horas e vidas consegue um escritor recuperar dos seus dias de jornalista a pisar cristais de tempo, para que este se transforme em modo e circunstância; ou o que significa ter uma família “de verdade”; ou ainda o que é a casa de cada um. A invisibilidade esconde situações devastadoras de crianças sem pais, ou porque foram abandonadas, ou porque a eles foram retiradas. As razões parecem ser, no caso, tão acessórias quanto as condições em que vivem e o jogo de cabra-cega a que estão sujeitas para cumprir protocolos e quadros teóricos desenhados a regra e esquadro, que impelem, sistematicamente, a agir por rotina e não por convicção. Até porque é preciso tempo e enternecimento para a convicção. E tempo não há para tantas crianças; e o enternecimento é uma perigosa armadilha para bons lutos.

No imaginário infantil, um homem invisível pode proteger-se e ser poderoso. Mas uma criança invisível é exibida na sua qualidade de candidata à “normalidade” de uma família e o seu poder é nulo na sua condição de produto transacionável. E, sem rosto além de uma espécie de holograma, sem nome além da sua primeira letra, também o género da criança conforma o eixo do enigma, É, aliás, o fator que rompe com a previsibilidade do leitor, habituado que está a imagens e a iniciais que pretendem proteger do que na realidade desprotegem: da perda, do luto, do medo. A perda do teto conhecido a que chamam “casa”; do luto que repetidamente fazem ou não conseguem fazer; do medo do “outro” que o adota; e, ainda mais, do medo de ser inadotável, devolvido no período da pré-adoção. A autora faz neste particular a diferença, ao exigir, a partir do texto, um confronto moral inevitável sobre o que realmente pode sentir, e como pode legitimamente reagir, uma criança que “não serve” ou de cujos candidatos a adotantes foi resgatada a tempo. Na narrativa são duas circunstâncias diametralmente diferentes; na vida de milhares de crianças invisíveis são catástrofes dificilmente ultrapassadas, feridas de que apenas sobrevivem se tropeçarem em sentimentos gratificantes ou em modos de ferozmente se blindarem. São estes os dois polos que pautarão uma “vida adulta” quando a sociedade lhes outorgar o direito de deixarem de ser uma unidade estatística e puderem recuperar a voz com que atribuem o resto do seu nome a uma identidade com rosto, como se acabassem de nascer.

Luísa Mellid-Franco, Semanário Expresso, 7 de dezembro de 2019




domingo, 27 de outubro de 2019

O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares




RTP Ensina




http://ensina.rtp.pt/artigo/fernando-pessoa-2/




Publicado em 1982, quarenta e sete anos após a morte de Fernando Pessoa, "O Livro do Desassossego", tem como autor Bernardo Soares, personagem criada pelo próprio Pessoa. É um livro biográfico com os pensamentos de um dos maiores autores do século XX.

“São as minhas confissões e, se nelas nada digo, é que nada tenho para dizer.” É como Fernando Pessoa apresenta o livro que escreveu sob o heterónimo Bernardo Soares e onde revela a sua vida oculta.

A obra começou a ser escrita aos vinte e cinco anos de Pessoa, acompanhando-a o resto da vida e é como um labirinto onde o autor procura responder a questões como “quem sou eu?” ou “como posso explicar a realidade?” Dúvidas fundamentais do modernismo, que teve em Fernando Pessoa um dos seus representantes máximos. A obra levou vinte anos a ser escrita e ficou incompleta. São mais de 500 textos sem principio, meio nem fim, escritos por aquele que criou três identidades distintas para o acompanharem na criação poética: o mestre Alberto Caeiro, o médico Ricardo Reis e o engenheiro Álvaro de Campos. Como testemunha de um Fernando Pessoa desconhecido, ficaram Bernardo Soares e “O Livro do Desassossego”.


Biografia breve de Fernando Pessoa
A infinita busca de Fernando Pessoa
Mário Viegas é Fernando Pessoa em Palavras Ditas


Poesia lida de Fernando Pessoa no Ensina:
“Liberdade”
“Eros e psique”
“Nevoeiro”

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O amor não cresce nas árvores|1 romance, 5 histórias









Sinopse: 

Cinco cores, cinco géneros, milhões de possibilidades de sequência de leitura, um só romance.

O Amor Não Cresce nas Árvores é provavelmente o livro mais original que terá a oportunidade de ler. Pode lê-lo como todos os outros, do princípio até ao fim, sem se preocupar com as cores.

Pode ler a história completa de cada uma das cores, separadamente e de forma contínua.

No final, será sempre o mesmo romance mas terá vivido uma experiência diferente em cada uma das opções.



Excerto:


Ama-se a imperfeição que encaixa melhor na nossa. Ama-se o encontro perfeito entre duas imperfeições. Somos uma construção imaculada. O que ele é em mim ocupa o espaço perfeito que deve ocupar. Ocupamo-nos na totalidade, pertencemo-nos na totalidade. Somos o instante da salvação.
Há sempre um território que é nosso quando se ama assim.
O amor é um território partilhado.




Boas Leituras!




📚 Outubro- Mês Internacional das Bibliotecas Escolares



quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Trinta Clássicos das Letras|27. O Poder e a Glória, de Graham Greene




Graham Greene





O Poder e a Glória foi publicado em 1940 e constitui uma reflexão muito séria sobre o compromisso cristão.
No final dos anos trinta, Graham Greene (1904-1991), então jornalista, foi enviado ao México para avaliar naquele país a situação das perseguições religiosas na região central, derivadas da “guerra cristera”, especialmente nos estados de Tabasco e de Chiapas e em Laredo. Dessa viagem resultou um relato intitulado The Lawless Road e depois este extraordinário romance. Aqui se narra a perseguição a um padre fugitivo feita por um tenente fanático que deseja capturá-lo sob a pressão do governador da província.
O relato remete-nos para a lembrança das perseguições dos primeiros cristãos e tem como paradigma nas suas duas faces a figura de Paulo de Tarso, como perseguidor e como perseguido, na Estrada de Damasco. O perseguidor, o tenente, qual fariseu intolerante, consegue a autorização para matar o padre que protagoniza o romance. Finalmente preso, após percorrer fazendas e povoados, o sacerdote é executado para a satisfação do tenente. Mas este clérigo é um pobre homem que vive dominado pelo álcool e que tem um filho para cuidar. Ele tenta fugir, mas o dever e a misericórdia chamam-no sempre que alguém pede o seu auxílio.
Como afirmou François Mauriac, que não poupou elogios ao romance, que considerou ser uma obra-prima: “mesmo quando crê que a sua ajuda é vã, e não ignora que é de uma emboscada que se trata e que aquele que o chama já o traiu, este padre bêbedo, impuro, que treme perante a morte, dá a sua vida sem perder em nenhum momento o sentimento da sua baixeza e da sua vergonha”. O drama de O Poder e a Glória corresponde, assim, a um relato dramático em que a Graça e o Pecado se encontram e desencontram – uma vez que o romancista britânico nos diz que é na situação limite e no afrontamento do mal que a Graça se manifesta. Muitos não o compreenderam, porém, mas o tempo veio a revelar que o livro se tornou uma referência do nosso tempo – colocando-nos no centro da dúvida e da fé.
De que vale ficarmo-nos apenas na comum normalidade? É preciso interrogarmo-nos sobre a essência das coisas, o que obriga a ir até às fronteiras onde os sentimentos, as virtudes e o pecado se encontram. A samaritana surpreende-se por encontrar Cristo àquela hora na fonte. Muitos se escandalizam… Tal como no drama do México, perante a perseguição e a incerteza, devemos lembrar, por exemplo, o caso de Thérèse Desqueiroux, em que François Mauriac também afronta a humanidade pelo lado da presença constante de um confronto de resultado incerto entre o bem e o mal. A Graça e a liberdade encontram-se e não se anulam. Como disse Paul Henri Simon: «Mauriac engendra um outro trágico, mais complexo e mais moderno, do homem que age e que luta, suspenso entre duas eternidades, do nada e da salvação, entre o infinito deserto e a plenitude infinita do amor, sem que saibamos por que lado se deixará levar…».
Greene sentiu a atração emocional pelo catolicismo no México, perante uma Igreja proscrita com os seus crentes perseguidos. “Vi os índios descerem das montanhas e entrarem nas igrejas, onde tentavam recordar os velhos ritos”. Além do culto do paradoxo, é a recusa do tédio que o levou a escrever, do mesmo modo que as injustiças lhe trouxeram os temas. “As injustiças de que me apercebo não me encolerizam (repetia tantas vezes); antes melhoram os meus poderes de observação. A distância é um dos requisitos da boa literatura”. E é a melhor literatura que encontramos neste romance muito intenso e duro, imortalizado por Henry Fonda em “The Fugitive”, de John Ford (1947), que transpôs para a tela o extraordinário romance de Graham Greene. Se nos lembrarmos de novo de Steinbeck e de As Vinhas da Ira, é um outro lado da paixão bíblica que encontramos…

Agostinho de Morais
Raíz e Utopia, Centro Nacional de Cultura, 27 de agosto de 2019



📹 Veja extratos da adaptação do romance ao cinema, por John Ford:


Tributo a John Ford, o protagonista de O Fugitivo (1947).
A música/hino é do CD de Gordon Berry, "The Potters House - Broken Pieces".




Please draw me, oh Lamb
(Frail as I am)
Lead me to Calvary

You laid down your life,
In all of your strife
Your love revealed at Calvary

Please draw me, oh Lamb
(Frail as I am)
Lead me to Calvary

On the cross, broken breath
Shimmering cup, filled with dread
Your communion at Calvary

Please draw me, oh Lamb
(Frail as I am)
Lead me to Calvary

Take His body, eat the bread
Drink the wine that He's bled
He lives now in you and me

Redeemed by the Lamb
Precious Saviour, great I am
I am the child of the lion and the lamb

I come, precious Lamb
(Frail as I am)
Transform me at Calvary

I come, precious Lamb
(Frail as I am)
Transform me at Calvary

Please draw me, oh Lamb
(Frail as I am)
Lead me to Calvary

I come, precious Lamb
(Frail as I am)
Transform me at Calvary


Trinta Clássicos das Letras|26. A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares




Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares






A Invenção de Morel (1940) é uma obra que ombreia com os grandes clássicos que temos vindo a analisar, com uma característica muito singular, a de ligar dois geniais autores. Tendo sido escrita por Adolfo Bioy Casares (1914-1999), um dos grandes nomes da literatura argentina, associa outro nome fundamental, que é Jorge Luís Borges (1899-1986), companheiro fraterno de Casares, a quem não podemos deixar de associar as duas irmãs Ocampo, Victória (1890-1979) e Silvina (1903-1993), ligadas a ambos (Silvina era mulher de Bioy) e grandes animadoras da revista Sur. Borges tantas vezes lembrou a simbiose entre dois grandes autores britânicos, Chesterton e Belloc, e podemos dizer que há uma semelhante relação entre Casares e Borges e até inventaram um pseudónimo comum: Bustos Domecq.
Para eles, o romance tinha tudo de prazer, de jogo, de enigma, de labirinto e de caleidoscópio. Leia-se Aleph (1949) de J. L. Borges, compreenda-se o diálogo dos teólogos com Deus ou o significado do labirinto do deserto, para o qual nenhum Teseu poderia encontrar um fio de Ariadne… Eis por que associamos os dois – explicando o sentido destas trinta obras-primas das letras, que, todas elas, faziam parte da Biblioteca de Buenos Aires, de que Borges era guardião, e que Umberto Eco retratou em O Nome da Rosa, que poderia ter sido integrada nesta biblioteca mágica. E também explicamos que os textos que apresentamos não constituem resumos, contra os quais vimos combatendo com denodo. Há apenas pistas, pontos em branco, para que o leitor se possa aventurar, como Borges e Casares sempre desejaram.
O que é a Biblioteca senão a representação do mundo? Que é um livro senão um caminho que tem de ser trilhado. Oiçamos Borges sobre o livro de Casares: "Discuti com o autor os pormenores do enredo, reli-o; não me pareceu uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-lo de perfeito (…). Casares desdobra uma odisseia de prodígio, que não parece admitir outra chave senão a alucinação ou o símbolo, e acaba por os decifrar completamente por meio de um único postulado, fantástico mas não sobrenatural". E Bioy Casares disse: "Sempre tentei fugir do fantástico, mas ele agarrava-me de imediato". Mais do que a literatura mágica, o que encontramos aqui é paradoxo e ironia, dando à literatura a força de se tornar mais real que a própria vida.
É uma história de amor destituída de personagens. É uma história de amor numa ilha supostamente deserta, que corresponde à construção alucinada de uma figura feminina, mitificada num jogo de espelhos, uma paixão inatingível e ao mesmo tempo uma história de aventuras que se situa na fronteira da realidade. O fantástico corresponde à definição da própria vida e do concreto que nos cerca. Vem à lembrança Chesterton, a dizer-nos que os fantasmas dos castelos da Escócia desapareceram quando morreram as pessoas que com eles conviviam.
Um fugitivo condenado na Venezuela chega a uma ilha aparentemente deserta do Pacífico (porventura Tuvalu) e sente-se invisível. A ilha parece estar afetada por uma perigosa e doentia radiação. Morel é um cientista e jogador de ténis que fala com uma mulher bela, a que chama Faustine, que se parece tremendamente com Louise Brooks, heroína do cinema mudo. O fugitivo apaixona-se por essa mulher fatal que todos os dias olha o pôr-do-sol na costa oeste da ilha. Entretanto, descobre que Morel inventou uma máquina capaz de reproduzir a realidade, e aí está a explicação para o mistério com que o fugitivo se confronta. Dalmácio Ombrellieri, Alec, Dora, Irene, a Senhora Idosa, Haynes ou Stoever povoam um mundo dividido entre a ilusão e a realidade, o mundo é duplicado. E aos poucos, descobre-se a verdade sobre essas estranhas personagens que têm a ver com os náufragos do navio fantasma descoberto perto da ilha e cujos espíritos são reanimados pela máquina de Morel. Mas à imagem falta a consciência, e é essa a limitação da invenção de Morel. E ouvimos o fugitivo: «A minha alma ainda não passou para a imagem senão eu teria morrido, teria porventura deixado de ver Faustine, numa visão que ninguém recolherá». E há o apelo a quem inventar uma máquina capaz de reunir imagem e consciência: «Procure-nos, a Faustine e mim, faça-me penetrar no céu da consciência dela. Seria um ato piedoso!»…

Agostinho de Morais
Raíz e Utopia, Centro Nacional de Cultura, 26 de agosto de 2019