Mostrar mensagens com a etiqueta filmes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta filmes. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sai mais um sobre “A Odisseia”

 

#aLerMaiseMelhor  #LiteraturaeCinema






Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de ser a nossa época a viver o fim de uma era. 

Saiu meia crítica de A Odisseia do Nolan com a lição bem decorada, e é sempre comovente ver tanta gente a concordar tão depressa. O filme, explicam-nos, é um aviso sobre a hospitalidade: quem maltrata o estrangeiro arrisca-se a perder a civilização, e convinha que certos Governos tomassem nota. A lição é bonita, é útil (e tem, já agora, a minha concordância), e padece de um único defeito, que é o de o filme dizer uma coisa bastante pior. Para se pregar a bondade para com o estranho é preciso, antes de mais, um estranho, uma linha a separar o civilizado de cá do perigo de lá. E Christopher Nolan gasta três horas de fita a apagar essa linha com uma paciência de restaurador.

Explico-me, porque isto pede um desvio de três mil anos. O fim do mundo antigo tem nos manuais um culpado com nome de romance de cordel, os Povos do Mar, batizados assim em 1855 por um egiptólogo francês que precisava de pôr um rótulo em cima do que não sabia explicar. Por volta de 1200 a.C., qualquer coisa desce sobre o Mediterrâneo e apaga-o: os hititas somem-se, as cidades ardem por ordem, e em Ugarit as últimas cartas ficaram cozidas num incêndio que as deveria ter comido, e ainda hoje se leem. Falam de barcos à vista e de um socorro que não vinha. Ramsés III gravou em Medinet Habu a vitória sobre a tal horda, com a letra grande de quem se safou à justa, e terá dormido descansado, na convicção de que deixava o assunto arrumado para a eternidade. Seguem-se quatro séculos a que a arqueologia chama, sem pudor nenhum, Idade das Trevas.

Ora, nas listas que os escribas do faraó fizeram dos Povos do Mar há nomes que caem mal no estômago de um grego. Ekwesh, que muitos leram como aqueus, e denyen, onde ressoam os dânaos de Homero. A filologia é, claro, feita de areia movediça e as identificações discutem-se há século e meio, mas a hipótese, uma vez posta, já não se despega: no meio da frota que acabou com a Idade do Bronze vinham, talvez, os heróis de Troia a caminho de casa, e o monstro avistado das muralhas era o vencedor a regressar, tão desfeito pela guerra que a casa já o não conhecia, nem ele a ela. Nolan pega nesta nota de rodapé da egiptologia e faz dela o fim do filme. “Os Povos do Mar somos nós”, diz Ulisses a Penélope.

Repare-se então no santo que a crítica escolheu para o altar. O Ulisses que se quer promover a cartaz de boas práticas desembarca em Ítaca, encontra a casa cheia de hóspedes a comer-lhe o gado e a cortejar-lhe a mulher e resolve o assunto matando toda a gente, de modo que o padroeiro do bem receber vem a ser um anfitrião que faz uma chacina na própria sala de jantar, para castigar noutros, por atacado, o crime que ele mesmo vendera a retalho à porta de Troia. Porque a xenia que os pretendentes espezinham e que ele vinga a ferro estava longe de ser uma delicadeza de época. Era, na verdade, o que segurava aquele mundo, a maneira de dois desconhecidos poderem conversar sem que se degolassem, o contrato antes de haver minutas, e foi justamente Ulisses quem ensinou o Mediterrâneo inteiro a falsificar-lhe a assinatura. Depois do cavalo, nenhum presente se voltou a abrir sem antes se abanar, o que fica caro e cansa.

A bem da verdade, é preciso notar que a razão do colapso da civilização é uma invenção do realizador, coisa que decerto irrita algum purista e que a mim me parece a melhor decisão do filme. A tradição fazia do caso um assunto privado, com a culpa atribuída a Atena que amaldiçoava o regresso dos gregos por lhe terem sujado os templos, a conta apresentada aos homens, um a um, e nunca à época. O casamento do mito com o colapso da Idade do Bronze foi celebrado pelo Nolan, sem consulta às famílias, e o anacronismo interessa porque fala muito mais de 2026 do que de 1200 a.C.. Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de sermos a viver o fim de uma era. Não consta que tenha havido época que se julgasse outra coisa (e algumas até acertaram, o que estraga a estatística).

De resto, o cavalo nem foi a maior fraude daquela guerra. E o filme assume a primeira pela boca de quem a cometeu. O Agamémnon de Nolan olha para Troia e vê uma alfândega, a cidade sentada à boca dos estreitos a cobrar portagem ao trigo e ao estanho que passavam para o mar Negro. Era um problema comercial à espera de pretexto, e o pretexto chegou com a cara de uma rainha. Helena valia pouco como política alfandegária e valia tudo como causa (uma mulher roubada arma mil navios, uma pauta aduaneira dificilmente arma um bote). Também nisto o realizador filma o presente com figurinos de bronze, porque o expediente nunca mais saiu de serviço. As torres caem em Manhattan e a fatura segue para Bagdade, que as viu cair pela televisão, como toda a gente; choram-se os enforcados pelo regime de Teerão de véspera, para ao outro dia se discutir, com a lágrima ainda ao canto do olho, o mapa dos alvos. A vítima é verdadeira, o luto até pode sê-lo, e o que se lhe segue já vinha desenhado de trás, à espera de quem o justificasse. A guerra por procuração sentimental já existiria antes de Agamémnon, e a ele deve-se apenas o modelo de negócio.

O filme teve a crueldade de pôr uma cara grega aos Povos do Mar. A frota que se aproxima traz a nossa, e o que os vigias avistam das muralhas é o que mandámos para fora do mundo, de volta com juros e já sem conhecer a casa. Nos manuais, a idade que se seguiu ao incêndio ficou com o nome de Trevas, e do mar, ao que tudo indica, veio pouca; construiu-se à mão, por gente engenhosa, entre uma causa que era uma cobiça e um presente que era um exército, dois embrulhos aceites pela mesma razão. A de virem bem feitos. 

Maria Castello Branco*. "Sai mais uma sobre 'Odisseia'", Expresso, 28 julho 2026 

* Comentadora política da RTP Notícias, autora do podcast Lei da Paridade

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Mostra - Do livro ao filme

 

 #literaturaEcinema  #alermaisemelhor

 

 



 

A Biblioteca Escolar organizou, no seu espaço polivalente, uma mostra dedicada ao diálogo entre a literatura e o cinema, reunindo um conjunto de obras do seu fundo documental que conheceram adaptações cinematográficas marcantes.

Nesta exposição, cada dupla livro–filme permite descobrir como as narrativas se transformam ao transitar da página para o ecrã: o que se mantém, o que se reinventa e de que forma a linguagem cinematográfica interpreta o universo criado pelos autores.

A mostra convida alunos, professores e toda a comunidade educativa a explorar estas relações entre palavras e imagens, incentivando a leitura, o pensamento crítico e o gosto pela sétima arte. 
 
 
 

 
Visita a Biblioteca Escolar, percorre os títulos em exposição e deixa-te inspirar por estas histórias que viajaram da imaginação escrita para a magia do cinema.
 
Podes ver o filme na Biblioteca.😉
 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

1 Livro, 1 Filme | Ler, é para já!

 

 

 













A publicação Ler, é para já! disponibiliza materiais/ ideias que visam a promoção da leitura recreativa junto de jovens entre os 15-17 anos com poucos hábitos de leitura e que necessitam de aumentar os níveis de literacia e de consolidar as aprendizagens necessárias à qualificação profissional. 

A publicação pretende contribuir para: 
. motivar para a leitura; 
. incentivar o prazer da leitura; 
. contribuir para desenvolver leitores confiantes e competentes; 
. desenvolver competências necessárias às exigências profissionais do mundo atual; 
. contribuir para o pleno exercício da cidadania. 

Uma vez que se dirige a um público específico, os critérios adotados para a seleção das obras devem permitir: 
. a identificação imediata com as obras propostas; 
. a escolha de autores contemporâneos, novidades, best sellers...; 
. a valorização dos interesses e gostos particulares; 
. a seleção de obras acessíveis, preferencialmente de dimensão reduzida e de fácil leitura.

Consulte a edição de 2023 da brochura: Um livro, um filme.


quarta-feira, 14 de setembro de 2022

O Professor Bachman e a sua turma

 

Hoje, dia 14 de setembro, na RTP2, às 23:25






Em Stadtallendorf, cidade alemã com uma história complexa no que concerne à integração e exclusão de estrangeiros, o professor Dieter Bachmann oferece aos seus alunos a chave para o sentimento de pertença. Com idades entre os 12 e os 14 anos, os estudantes são provenientes de doze países diferentes e alguns ainda não dominam a língua alemã.

Bachmann está empenhado em inspirar estes cidadãos-em-construção com o sentido de curiosidade para que tenham vontade de desenvolver um vasto conjunto de saberes, disciplinas, culturas e opiniões.



FICHA TÉCNICA
Título original : Herr Bachmann Und Seine Klasse
Género : Documentário
Ano : 2021
Realização : Maria Speth
Elenco : Dieter Bachmann, Aynur Bal, Önder Cavdar
País(es) : Alemanha
Duração : 3h 37m

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

1 livro, 1 filme | A Jangada de Pedra

 

#CentenárioSaramago




















Com diálogos em Espanhol e legendas em Português / 105 min.



Adaptação para cinema por George Sluizer, realizador holandês, do romance homónimo de José Saramago

Na sequência de um tremor de terra, que nenhum sismógrafo registou, abre-se uma fenda enorme ao longo da fronteira entre Espanha e França. Aos poucos, a Península Ibérica separa-se do continente europeu e parte à deriva no Atlântico, como uma gigantesca jangada de pedra. Portugueses e espanhóis veem o seu quotidiano abalado por essa nova realidade.
Antes do sucedido surgem sinais: Joana traça uma linha no chão que ninguém consegue apagar; o pescador Joaquim lança uma enorme pedra ao mar que desafia a gravidade e não se afunda; um bando de estorninhos acompanha José para todo o lado; num canto perdido de Espanha, Pedro é o único que sente a terra a tremer e da mão de Maria escapa-se um novelo que jamais termina.
Três homens, duas mulheres e um cão que o ocaso reuniu...ou talvez o destino, veem-se à deriva numa longa e imprevisível viagem. Os acontecimentos parecem ter apenas uma finalidade: fazer com que as pessoas se encontrem, desvendando pelo caminho inesperados enigmas.


Poderá (re)ver esta adaptação cinematográfica de A jangada de Pedra na RTP2, dia 28 de agosto, às 00:05.


📌 ... ou dirigir-se à Biblioteca da Camilo: o livro e o DVD estão disponíveis para consulta.



quarta-feira, 16 de março de 2022

Saramagueando | Visionamento do filme "Ensaio sobre a Cegueira"

 

Dia do patrono
#centenáriosaramago






















Título original:Blindness
De:Fernando Meirelles
Com:Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Gael García Bernal
Género: Drama, Thriller
Classificação:M/16


Visionamento do filme "Ensaio sobre a Cegueira", uma adaptação do romance homónimo de Saramago, por Fernando Meirelles
Local: Biblioteca da Camilo
Dia: 16 de março
Hora: 9:00
Turmas: 11º F, 12º A, 12º D, 12º I




Sinopse:

Uma cidade é devastada por uma misteriosa epidemia de cegueira, uma cegueira branca, leitosa, inexplicável e aparentemente incurável. Devido à rapidez com que a epidemia se propaga, os primeiros indivíduos afetados são colocados em quarentena num hospital abandonado, mas são deixados entregues a si próprios. Rapidamente, o sentido primitivo da sobrevivência desperta e o grupo entra em colapso, com os mais fortes a sobreporem-se aos mais fracos, numa luta pela comida. São cometidos atos atrozes, vistos apenas pela única testemunha do pesadelo, uma mulher que, estranhamente e sem explicação, não foi tocada pela cegueira. A mulher do médico, que resolveu fingir-se cega para poder acompanhar o marido. São os seus olhos que ainda os podem conduzir ao caminho de regresso à condição humana e escaparem aos instintos mais vis.


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Cinema e divulgação científica

 


Por Joana Silva, Luís Calafate


"Tanto a terapia génica como as questões éticas levantadas pela mesma são complexas e, como tal, não é fácil visualizar este conceito ou imaginar as suas consequências. No entanto, felizmente, a ficção científica tem provado ser uma excelente ferramenta de divulgação científica, permitindo contextualizar e enquadrar conceitos científicos dentro de uma narrativa fictícia, facilitando a compreensão do tema por parte do público e fornecendo um ponto de partida para debates em sociedade.






Um ótimo exemplo é GATTACA (1997), de Andrew Niccol, que, entre os vários filmes de ficção científica que incorporam temáticas como a terapia génica, reprodução medicamente assistida, determinismo e eugenismo, é dos poucos cuja abordagem é tão bem aclamada, tendo sido bem recebido tanto pelos críticos de cinema como pela comunidade científica como uma representação séria e correta destes temas, especialmente no que diz respeito às suas implicações éticas e sociais."

Leia o artigo completo aqui.




O título do filme “GATTACA” é composto inteiramente pelas letras usadas para rotular as bases de nucleotídeos do DNA. As quatro bases nucleotídeas do DNA são Adenina, Timina, Citosina e Guanina.

Personagens (Atores)
Vincent Anton – Ethan Hawke
Irene – Uma Thurman
Detetive Hugo – Alan Arkin
Jerome Eugene – Jude Law
Investigador Anton – Loren Dean
Diretor Josef – Gore Vidal
Casear – Ernest Borgnine
Dr. Lamar – Xander Berkeley
Direção: Andrew Niccol


Saiba mais sobre o filme aqui.



quinta-feira, 30 de abril de 2020

Palavras na lombada | Vale Abraão






Vale Abraão! Palavra e utopia: o sal da terra. Sangue do meu sangue: Os Maias.


Divulgação do Fundo Documental
Elaboração de frases a partir da leitura das lombadas das caixas de filmes/documentários, em português, do Fundo Digital da Biblioteca.


sábado, 25 de abril de 2020

Palavras na lombada | Escritores a Norte







Camilo Castelo Branco - Escritores a Norte. Mondim de Basto - Terras de cortar a respiração. O Douro nos caminhos da literatura: Miguel Torga, João de Araújo Correia, Trindade Coelho, Aquilino Ribeiro. 
Liceu Velho, Liceu Novo!




Divulgação do Fundo Documental
Elaboração de frases a partir da leitura das lombadas das caixas de filmes/documentários, em português, do Fundo Digital da Biblioteca.


terça-feira, 21 de abril de 2020

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Palavras na lombada | Mensagem






Mensagem: Cartas da guerra - Sem sombra de pecado, Outros amarão as coisas que eu amei -, Capitães de areia.


terça-feira, 31 de março de 2020

Palavras na lombada | Paula Rego






Paula Rego - Histórias e Segredos: O primo Basílio, Mistérios de Lisboa, Frei Luís de Sousa e As bodas de Deus




sábado, 28 de março de 2020

Palavras na lombada | A ilha dos escravos







A ilha dos escravos, a gaiola dourada, capitães de Abril. Cartas a uma Ditadura, Os gatos não têm vertigem.



Divulgação do Fundo Documental


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Glossário online de termos filmográficos





file:///C:/Users/a/Downloads/GlossaryMasterCombo19.htm








O Glossário de Termos Filmográficos da FIAF - Federação Internacional de Arquivos de Filmes destina-se a auxiliar catalogadores de filmes e outros na identificação e tradução de termos de crédito que aparecem tanto na tela quanto em fontes de documentação. Clique AQUI para obter a introdução completa do glossário. 

A edição atual inclui 13 idiomas, sete (inglês, francês, espanhol, chinês, alemão, italiano e português) com termos e definições completos, dois (finlandês e lituano) com termos completos (sem definições) e outros quatro (dinamarquês, Holandês, húngaro e russo) com termos parciais e sem definições. Continuaremos a atualizar o Glossário à medida que conteúdo adicional, incluindo idiomas adicionais, estiver disponível.


Para usar o mecanismo de pesquisa abaixo, digite o termo desejado; os resultados retornarão todas as correspondências exatas. Você pode clicar em um termo específico com hiperlink e receber uma lista de resultados com definições e traduções em todos os idiomas disponíveis no momento. Observe que o banco de dados pesquisa apenas palavras com mais de três letras (por exemplo, uma pesquisa por 'conjunto' não retorna resultados), mas você obterá resultados com 'designer de cenários' ou 'decorador de cenários'); portanto, use termos com mais de três letras. Para procurar entradas que contenham partes de palavras, use um asterisco no final da palavra parcial que você deseja procurar.

Os dados também estão disponíveis em formato de folha de cálculo clicando AQUI.






segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Trinta Clássicos das Letras|25. Hamlet, de William Shakespeare





AGIP/Bridgeman Images
Jean-Louis Trintignant no papel de Hamlet, no Théâtre de la Musique, Paris, 1971




A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca é da autoria de William Shakespeare (1564-1616) e foi escrita entre 1599 e 1601, tendo lugar no Reino da Dinamarca. Conta a história de como o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, Hamlet, o rei, executado por Cláudio, seu irmão que o envenenou e em seguida usurpou o trono, casando-se com a rainha Gertrude.
A Dinamarca estava em luta com a Noruega e havia o risco de uma invasão liderada pelo príncipe Fórtinbras. O tema deriva da lenda de “Amleth”, preservada no século XIII pelo cronista Saxo Gramaticus, na sua Gesta Danorum. O reino da Dinamarca é o mais antigo da Europa e começou a consolidar-se no final do século VIII, numa história complexa e rica.

Tudo começa numa noite fria no Castelo de Elsinore. As sentinelas dizem a Horácio, amigo de Hamlet, que viram o fantasma do rei morto. E Horácio encontra-se com o Fantasma. Então Hamlet deseja vê-lo com seus próprios olhos e consegue. O espírito revela a Hamlet que Cláudio matou o pai com veneno e pede que o filho vingue tal crime. Hamlet concorda, apesar das dúvidas, decidindo aparentar a loucura para não levantar suspeitas. Ocupados com os assuntos de Estado, Cláudio e Gertrude tentam defender-se da invasão norueguesa. 

Preocupados com o comportamento de Hamlet e com a sua profunda depressão pela morte do pai, pedem a Rosencrantz e Guildenstern, para descobrirem a causa da estranha mudança de comportamento de Hamlet. Polónio, o primeiro conselheiro de Cláudio, e Laertes, seu filho, de partida para França, não acreditam na sinceridade dos amores de Hamlet por Ofélia, filha de Polónio, dissuadindo-a dessa ligação. Ofélia também está preocupada com o comportamento estranho de Hamlet, mas confessa ao pai que o príncipe vai encontrar-se com ela no palácio. Polónio percebe que Ofélia ama Hamlet, e interpreta a loucura do Príncipe em virtude desse amor – e avisa Cláudio e Gertrude do que se passa. Hamlet mantém a dúvida sobre o segredo revelado pelo espetro e aproveita a chegada a Elsinore de uma trupe de cómicos para encenar a representação do assassinato, para tentar demonstrar a culpa ou a inocência de Cláudio. Quando ocorre a representação do crime, Cláudio ergue-se e abandona a sala, o que Hamlet interpreta como prova de sua culpabilidade. 

Cláudio teme pela própria vida e decide enviar Hamlet para Inglaterra, com Rosencrantz e Guildenstern, para ser eliminado. Gertrude chama o filho ao seu quarto. No caminho, Hamlet hesita em matar Cláudio, mas não o faz porque este está em oração. Polónio espia por detrás das cortinas, mas denuncia a sua presença. Hamlet julga tratar-se de Cláudio e mata-o com uma estocada certeira através do cortinado. O Fantasma volta a aparecer, continua a pedir vingança, mas pede que Hamlet trate a sua mãe com doçura. 

Conhecendo a morte do pai, Ofélia enlouquece. Laertes regressa de França e não duvida da culpa de Hamlet. Cláudio propõe a Laertes uma luta à espada com Hamlet onde o primeiro utilizará uma espada envenenada, enquanto a Hamlet será dada uma taça de vinho com veneno. Gertrude dá a notícia de que Ofélia morreu afogada. Junto da que será a sepultura de Ofélia, Hamlet aparece com Horácio e segura o crânio que deve ser do velho bobo Yorick, que conheceu na infância. “Ser ou não ser, eis a questão”. Quando o cortejo fúnebre surge liderado por Laertes, este envolve-se com Hamlet, mas os circunstantes separam-nos. No regresso a Elsinore, Hamlet é desafiado a lutar à espada com Laertes. O duelo inicia-se e Hamlet atinge Laertes três vezes sem ser atingido por ele. Cláudio oferece a taça envenenada a Hamlet, mas este recusa-a e é a Rainha que bebe o vinho. O duelo prossegue e Laertes atinge Hamlet, mas o príncipe da Dinamarca também atinge o antagonista num estoque fatal. A Rainha morre e Laertes também, revelando o plano de Cláudio. Então Hamlet consuma o pedido de seu pai e põe fim à vida do rei. 

Ao morrer, Hamlet pede a Horácio que viva para poder contar a todos a sua história e a verdade sobre o que havia de podre no Reino da Dinamarca. 


(Sophia de Mello Breyner Andresen é autora de uma das mais belas traduções em português desta obra-prima).

Agostinho de Morais
Raíz e Utopia,  Centro Nacional de Cultura, 25 de agosto de 2019




📌 Livro disponível na Biblioteca


📌 Hamlet foi várias vezes adaptado ao cinema. Poderá assistir, aqui, à versão de 1948, protagonizada por Laurence Olivier:







domingo, 25 de agosto de 2019

Trinta Clássicos das Letras|23. As vinhas da ira, de John Steinbeck








John Steinbeck (1902-1968) baseou-se numa passagem do célebre poema de Júlia Ward Howe (1819-1910) para intitular esta saga (The Grapes of Wrath, 1939), passada nos tempos negros da grande crise americana dos anos trinta do século XX. Não podemos compreender, aliás, o “New Deal” de Franklin Delano Roosevelt e a determinação em iniciar uma era de políticas sociais, orientada para a justiça das pessoas concretas, sem lermos esta obra fundamental de Steinbeck.
Em pano de fundo deste romance heroico está a corajosa atitude do Presidente democrata no sentido de ultrapassar os dogmatismos económicos, fundando um novo contrato social, que marcaria todo o século e o pós-guerra. O romance é protagonizado pela família dos Joads, pobres rendeiros expulsos da sua quinta no Oklahoma pelos efeitos tremendos da crise, pela pressão dos bancos na cobrança de dívidas, pela seca, pela mecanização e pela falta de resposta da produção agrícola. À “grande depressão” somaram-se os efeitos do “Dust Bowl”, fenómeno climático originado pelas erradas práticas agrícolas intensivas de muitas décadas, que secaram os terrenos e geraram condições para a ocorrência de tempestades de areia que destruíam a produção agrícola. Os Joads foram obrigados a partir para a Califórnia, em busca de emprego, terra e dignidade.
O livro é o relato desse caminho trágico e foi muito criticado pelos fazendeiros, por o considerarem alarmista e exagerado. No entanto, logo em 1939, foi um grande sucesso editorial, com muitos milhares de obras vendidas, quer pelo interesse do tema, quer pela escrita fluida e brilhante, obtendo o Prémio Pulitzer e o National Book Award, os mais prestigiados prémios literários americanos. Steinbeck receberia em 1962 o Prémio Nobel da Literatura.
Pode dizer-se que, na prática, a política de Roosevelt compreendeu bem a essência do drama desta família e de toda a América. A personagem principal, Tom Joad (Henry Fonda no filme de John Ford, de 1940), regressa a casa saído da prisão e encontra a família decidida a abandonar a terra, depois de um ano de colheitas desastrosas e da decisão dos proprietários assumirem diretamente a titularidade da terra, mercê de novos métodos e maquinaria. O desemprego atingira os 25% da população e os rendimentos tinham sofrido uma quebra de mais de 30%. 
O romance relata o duro percurso para a incerteza e o desconhecido, onde o desespero e a esperança, o egoísmo e a generosidade se articulam permanentemente. Com o muito pouco dinheiro que ainda têm, transformam um velho Hudson numa carrinha onde cabe toda a família de doze pessoas, e partem para oeste, até à Califórnia, como se fora o Eldorado. Durante o caminho, entre mil peripécias, desde o início ao fim, de vida e de morte, cruzam-se com muitos outros que seguem na mesma direção e com o mesmo objetivo, atraídos por promessas de trabalho e de melhores salários. E há a evidência de uma metáfora bíblica, cheia de referências, como a Arca de Noé, Moisés, o Êxodo, a Terra Prometida… chegados à Califórnia, as melhores expectativas saem frustradas. Há muita concorrência no desemprego, o trabalho que há é pouco e mal pago. E assim os migrantes são obrigados a viver em acampamentos temporários, sob os efeitos da ganância e da exploração.
Procurando não adulterar o sentido geral da obra de Steinbeck, em que o egoísmo e a exploração se manifestam ao lado de pequenos gestos de genuína solidariedade e generosa entrega, John Ford deixa, para além do livro, uma referência ao “New Deal” e à determinação de Franklin D. Roosevelt, ele mesmo alvo de tantas incompreensões (a começar no Supremo Tribunal Federal), aludindo ao acampamento do Departamento da Agricultura, no qual a família encontra um mínimo de dignidade humana. 
O romance mantém atualidade sempre, uma vez que são os direitos fundamentais e a dignidade pessoal que estão em causa, compreendendo-se a economia não um modo de olhar a riqueza enquanto fim em si, mas como realidade humana.

Agostinho de Morais
Raíz e Utopia, Centro Nacional de Cultura, 23 de agosto de 2019




📌 Livro disponível na Biblioteca





📌 Veja também a adaptação cinematográfica do romance por John Ford (1940):






sábado, 24 de agosto de 2019

Literatura e cinema | 1984





1ª Adaptação ao cinema do romance de George Orwell, 1984



 

Filme de 1956. Legendado. 



Trinta Clássicos das Letras | 21. Mil novecentos e oitenta e quatro, de George Orwell










George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair (1903-1950), é porventura o mais célebre dos cultores da literatura distópica no século XX, tendo escrito Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949) e Animal Farm (O Triunfo dos Porcos, 1945), obras referenciais ao lado de Farenheit 451, de Ray Bradbury (1963), O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932), e Nós, de Yvegeny Zamyatin (1924).

Winston Smith é o protagonista da novela, membro do Partido Externo (Outer Party), que trabalha para o Ministério da Verdade, responsável pela propaganda. Reescreve notícias dos jornais do passado, no sentido de as pôr de acordo com a ideologia do Partido. O Ministério destrói igualmente todos os documentos que contrariem a versão oficial dos acontecimentos. Smith é um trabalhador diligente, mas odeia intimamente o Partido e sonha com a rebelião contra o Grande Irmão. A tirania era supervisionada pelo Big Brother (o Grande Irmão), líder do Partido, que pratica o culto da personalidade, buscando o poder próprio pelo poder, com subalternização do bem dos outros. Uma ostensiva preocupação em definir a verdade como realidade exclusiva e incontestável (hoje falaríamos em pós-verdade) levou George Orwell a utilizar expressões e termos como: duplipensar, crime de pensamento, novilíngua, teletela ou 2 mais 2 igual a 5.

O romance tem lugar na “Pista Número Um”, o novo nome de Inglaterra, sob o regime totalitário do Grande Irmão e da sua ideologia “IngSoc”. Diariamente, os cidadãos deveriam parar de trabalhar durante dois minutos para se dedicarem a exorcizar o “traidor” foragido Emmanuel Goldstein e, em seguida, para idolatrar a figura do Grande Irmão. Smith não tem memória da infância ou dos anos anteriores à mudança política e, ironicamente, trabalha no serviço de retificação de notícias já publicadas, publicando versões retroativas e “retificadas” de edições históricas do jornal “The Times”. Estranhamente, começa a interessar-se perigosamente pela sua colega de trabalho Julia, numa sociedade em que o sexo sem procriação é considerado crime. Ao mesmo tempo, Winston é persuadido por O'Brien, um burocrata do círculo interno do “IngSoc”, no sentido de impedir que abandone a fé no Grande Irmão.

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro é uma metáfora sobre o poder. George Orwell escreveu-o para denunciar o risco das sociedades modernas se deixarem dominar pela tirania do pensamento único, da idolatria e da mistificação confundida com a verdade. São os totalitarismos de diversas orientações que estão em causa, uma vez que Orwell antecipa o risco de o Estado controlar o pensamento dos cidadãos, designadamente através da manipulação da língua. Daí a criação pelos especialistas do Ministério da Verdade da “novilíngua”, que, uma vez completa, impediria qualquer opinião contrária ao regime. “Duplipensar” era, aliás, uma das mais curiosas palavras da Novilíngua correspondente a um conceito segundo o qual era possível ao indivíduo aceitar simultaneamente duas crenças diametralmente opostas – justificando a mentira. A Teletela era um televisor que permitia ver como ser visto, sendo o padrão de fundo a figura inanimada do Big Brother.

Segundo a teoria da Guerra, o objetivo desta não seria vencer um inimigo nem lutar por uma causa, mas sim manter o poder das classes dominantes, limitando o acesso à educação, à cultura e aos bens materiais. A guerra serviria para destruir os bens materiais produzidos pelos mais pobres e impedir que acumulassem cultura e riqueza. Assim, um dos lemas do Partido, "guerra é paz", era explicado por Emmanuel Goldstein: "Uma paz verdadeiramente permanente seria o mesmo que a guerra permanente".

Muito se discutiu sobre a razão de ser do título por extenso de 1984, mas a explicação mais plausível é que se trata do anagrama do ano em que o romance foi escrito, trocando os dois últimos algarismos, para aproximar a realidade da Inglaterra de 1948…

Agostinho de Morais
Raíz e Utopia, Centro Nacional de Cultura, 21 de agosto de 2019




📌 Livro disponível na Biblioteca