sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Correção de testes assistida por IA

 

 

#InteligênciaArtificial #EducaçãoDigital #LiteraciaDeIA  #ComissãoEuropeia 

 

 


A correção de testes é uma das tarefas mais exigentes e invisíveis do trabalho docente, sobretudo em turmas numerosas. A correção assistida por inteligência artificial pode ajudar a reduzir trabalho repetitivo, desde que a rubrica continue a ser do professor, os dados dos alunos sejam protegidos e a decisão final permaneça humana. 

O artigo de Jorge Borges, publicado no blogue TIC, Educação e Web, propõe um modelo prudente, alinhado com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados e com o Regulamento Europeu de IA, pensado para escolas portuguesas que querem experimentar sem correr à frente da ética e da lei.

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Como configurar um GPT?

 

 #InteligênciaArtificial  #LiteraciaDigital

 

 


 
Em termos práticos, criar um GPT é construir um assistente desenhado à medida de um objetivo pedagógico concreto. Não se trata de substituir o trabalho docente, mas sim de criar um recurso que estende a nossa intenção educativa: seja para desenhar guiões de estudo diferenciados, simular estudos de caso ou estruturar momentos de avaliação formativa.
 
O processo de construção não exige competências de programação, mas exige rigor de conceção. No infográfico aqui anexado é sistematizado esse processo em três fases fundamentais:
 
1. O Planeamento prévio 
A eficácia do assistente decide-se antes de abrir a plataforma. Definir com clareza o objetivo da tarefa, o perfil dos utilizadores, a bibliografia de suporte (conhecimento fidedigno) e assegurar a estrita proteção de dados sensíveis são etapas que determinam a qualidade das respostas.
 
2. A Configuração técnica e pedagógica 
Na criação do assistente, a redação das instruções é o núcleo do projeto. É aí que estabelecemos a identidade, o tom de comunicação, a metodologia de resposta e os limites operacionais. O carregamento dos documentos de referência permite ancorar a IA em fontes científicas e pedagógicas validadas, evitando alucinações conceptuais.
 
3. A Validação e partilha 
Nenhum assistente deve ser disponibilizado sem testes rigorosos. Experimentar pedidos ambíguos, forçar os limites das instruções e corrigir desvios garante a fiabilidade do recurso antes da sua partilha com alunos ou colegas.
 
Cocriação: Mário Martins | ChatGPT | Gemini

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Almada Negreiros em 2026

 

 #aLerMaiseMelhor

 

 


Imaginámos o artista, escritor e provocador modernista a viajar até ao nosso tempo para descobrir um mundo cheio de imagens, vídeos, ecrãs, publicidade, arte urbana, redes sociais e velocidade.
Mas Almada não chega ao futuro para ficar simplesmente espantado.
Chega para perguntar se há ideias por trás de tanta imagem.
No seu tempo, chamaram-lhe exagerado. Talvez fosse apenas um homem à frente do seu tempo.
Em 2026, ele vê um país mais visual, mais rápido, mais tecnológico. Mas também deixa uma provocação: Exibir não é inventar. Modernidade não é parecer novo, é ter coragem nova.

“O futuro não é um destino. É o que desenhamos agora.”


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Utilização ética da IA e de dados no ensino e na aprendizagem

 

  

#InteligênciaArtificial #EducaçãoDigital #LiteraciaDeIA  #ComissãoEuropeia

 

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Partilhamos a nova edição revista e atualizada (2026) das Orientações sobre a utilização ética de Inteligência Artificial (IA) e de dados no ensino e na aprendizagem.
 
Este documento da Comissão Europeia apresenta diretrizes para a utilização ética da inteligência artificial e de dados no ecossistema educativo. O guia foca-se numa abordagem centrada no ser humano, capacitando professores e dirigentes escolares para integrarem estas tecnologias de forma segura e responsável. A publicação detalha exemplos práticos de apoio pedagógico, abordando desde a planificação de aulas até à personalização da aprendizagem para os alunos. Além disso, contextualiza a IA no quadro regulamentar da União Europeia, enfatizando a proteção de dados e a importância da literacia digital. O objetivo central é promover um ensino inovador e inclusivo, garantindo que a inovação tecnológica respeite os direitos fundamentais e a autonomia docente. 
 
 
Síntese dos aspetos abordados neste guia
 
 
 
 
 
A IA como parceira pedagógica: apoio aos professores e personalização do ensino 
 
A Inteligência Artificial (IA) possui um elevado potencial para transformar as práticas de ensino, avaliação e aprendizagem. O seu papel estende-se a várias frentes no ambiente escolar:
  • Personalização da aprendizagem: A IA e a análise de dados permitem ajustar o ensino para satisfazer as necessidades específicas de cada aprendente. Através de plataformas de aprendizagem adaptativa, os sistemas analisam dados em tempo real e adaptam automaticamente os conteúdos, o ritmo e os métodos pedagógicos para melhorar a experiência individual. Adicionalmente, sistemas inteligentes de tutoria podem encaminhar de forma autónoma os estudantes para recursos adaptados ao seu nível, enquanto os agentes de IA podem ajudar a resolver problemas complexos por etapas. 
  • Apoio prático aos professores: A IA atua como facilitadora no trabalho docente diário e o seu apoio pode ser categorizado em três momentos principais:
    • Na preparação: Auxilia os docentes a planificar aulas, a produzir materiais personalizados de acordo com os diferentes níveis de competências dos alunos e a simular cenários virtuais com respostas e comportamentos realistas de estudantes para que os professores pratiquem estratégias pedagógicas e de gestão de sala de aula. 
    • No ensino e aprendizagem: Permite diferenciar formatos de conteúdos e ritmos para apoiar alunos com dificuldades de aprendizagem específicas, apoiar o trabalho colaborativo utilizando o emparelhamento inteligente de grupos e otimizar o ensino de línguas estrangeiras através de tradução e reconhecimento de voz em tempo real.
    • Na avaliação e reflexão: Apoia a criação de avaliações flexíveis e rubricas diferenciadas. Permite a automatização de tarefas repetitivas, como a correção de testes de escolha múltipla ou respostas curtas, sinaliza erros em tarefas abertas e fornece assistência no feedback estrutural e gramatical de textos escritos.
  • Redução da carga administrativa: Ao assumir tarefas administrativas logísticas de rotina — como a elaboração de horários escolares, controlo de assiduidade, matriculas e redação de comunicações — os sistemas automatizados e os algoritmos libertam tempo valioso para que os professores se possam focar no apoio direto e em interações humanas significativas com os alunos.  
 
 
Considerações éticas e riscos na educação 
A integração ética da tecnologia na educação deve ser o princípio orientador para salvaguardar a dignidade humana. Foram identificadas cinco considerações éticas fundamentais:
  • Dignidade humana: Garante o direito à privacidade, autonomia e à ação humana, assegurando que os indivíduos são tratados com respeito pelo seu valor intrínseco, sem serem reduzidos a meros objetos de dados. 
  • Equidade: Exige igualdade de oportunidades, processos inclusivos, não discriminação e uma distribuição equitativa de direitos e responsabilidades. 
  • Confiança e fiabilidade: Implica que os sistemas de IA funcionem de forma transparente e segura, respeitando a privacidade e a dinâmica de poder das comunidades escolares.
  • Integridade académica: Fomenta o uso honesto da IA, garantindo que os contributos não sejam deturpados, as ideias de terceiros sejam devidamente creditadas e as avaliações se mantenham válidas na era digital.
  • Escolha justificada: Baseia-se no uso de dados e factos para justificar coletivamente as decisões da escola, promovendo a explicabilidade e processos participativos.
Paralelamente, os educadores e dirigentes escolares necessitam de reconhecer e gerir os riscos emergentes:
  • Enviesamento algorítmico (Bias): Como as ferramentas de IA são treinadas com base em dados históricos humanos, podem herdar preconceitos, reforçar desigualdades sociais e culturais e interpretar de forma incorreta as necessidades de estudantes marginalizados ou sub-representados.
  • Privacidade e governação de dados: O rastreio das atividades dos alunos (cliques, tempo despendido, interações) gera um volume enorme de dados pessoais. Existe o risco de as empresas comerciais de tecnologia controlarem e recolherem estes dados sensíveis para aperfeiçoar os seus próprios sistemas comerciais, muitas vezes sem consentimento explícito das famílias e das escolas. 
  • Alucinações: Modelos de linguagem baseados em estatísticas (como os de finalidade geral) podem gerar, com elevado nível de confiança, informações coerentes, mas que são totalmente inventadas ou factualmente incorretas. 
  • Dependência excessiva e perda de competências: Existe o risco de que o uso desmedido de IA generativa e resumos leve os alunos a uma leitura superficial, dependência excessiva e diminuição da interação social e do pensamento crítico.
 
 
Quadro regulamentar e as políticas da UE 
A União Europeia desenvolveu um robusto contexto político e legislativo para garantir que a transição digital na educação seja centrada no ser humano.

Regulamento da Inteligência Artificial (Regulamento IA - 2024)
Este ato legislativo estabelece regras vinculativas e adota uma abordagem de regulação baseada na classificação de riscos. As suas implicações no setor educativo são profundas:
  • Práticas proibidas (Risco Inaceitável): O Regulamento proíbe terminantemente a utilização de sistemas de IA concebidos para detetar ou inferir emoções de pessoas singulares em contextos educativos ou laborais (Artigo 5.º, n.º 1, alínea f). Por exemplo, é proibido usar software de deteção de emoções para avaliar o interesse dos alunos, durante exames ou em testes de admissão. 
  • Sistemas de risco elevado: A educação está classificada como um setor de "risco elevado". As ferramentas de IA utilizadas para gerir admissões, atribuir notas, avaliar resultados de aprendizagem, monitorizar comportamentos dos alunos ou detetar fraudes em testes são categorizadas como de risco elevado. Para serem introduzidos no mercado e nas salas de aula, estes sistemas têm de cumprir obrigações muito rigorosas, incluindo supervisão humana, cibersegurança, alta qualidade de dados e registo de atividades.
  • Obrigações de transparência: É obrigatório informar os utilizadores quando estes estão a interagir com um sistema de IA (como robôs de conversação) e rotular de forma clara todos os conteúdos que tenham sido artificialmente gerados ou manipulados. 
  • Direito a explicações: Alunos e professores têm o direito de obter explicações claras e pertinentes quando uma decisão tomada por um sistema de IA produzir efeitos jurídicos ou afetar significativamente os seus resultados, percurso escolar ou acesso à educação. 
  • Literacia em IA: Exige-se que as escolas, enquanto responsáveis pela implementação, garantam que o seu pessoal disponha de um nível suficiente de literacia em IA, promovendo competências e o conhecimento dos riscos inerentes. 👉A literacia em IA distingue-se entre aprender com a IA (uso crítico) e aprender sobre a IA (funcionamento técnico).

 
Outras políticas e regulamentos relevantes 
  • RGPD: O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados exige que o tratamento de dados pessoais no âmbito escolar respeite salvaguardas rigorosas. Exige o fornecimento de informações claras e concisas, adequadas à idade das crianças, e obriga à realização de uma Avaliação de Impacto sobre a Proteção de Dados (AIPD) antes da implementação de tecnologias como a IA que coloquem em risco os direitos dos utilizadores.
  • A União das Competências e o Plano de Ação para a Educação Digital (2021-2027): Visam o desenvolvimento sustentável e a digitalização das práticas de ensino, instando os Estados-Membros a investirem na formação em literacia de IA e competências digitais.
  • Declaração Europeia sobre os Direitos e Princípios Digitais: Define princípios que centram a transformação digital nas pessoas e salvaguardam a segurança e capacitação dos jovens.
 
Cocriação: Adelaide Jordão | GeminiNotebook 

domingo, 16 de agosto de 2026

A Escola não ensina respostas. Ensina a pensar

 


#InteligenciaArtificial  #aLerMaiseMelhor



Há poucos anos, a grande preocupação da escola era o telemóvel. Hoje é a inteligência artificial. Em muitos estabelecimentos de ensino proíbe-se; noutros, incentiva-se o seu uso. Entre pais e professores multiplicam-se as discussões: uns veem nela o fim do estudo, outros o início de uma nova forma de aprender. Talvez ambos estejam parcialmente certos.

A escola nunca teve como missão competir com as ferramentas. Quando surgiu a calculadora, muitos anunciaram o fim do cálculo mental; quando apareceu a Internet, previu-se a morte da memória. Nenhuma dessas profecias se cumpriu exatamente como se imaginava, porque o problema nunca esteve na existência da ferramenta, mas em decidir quando e de que modo ela devia entrar no processo de aprendizagem.

A inteligência artificial coloca a mesma questão, embora numa escala muito maior. Pela primeira vez, uma ferramenta não se limita a fornecer informação: produz textos, resolve problemas, escreve programas, explica conceitos, resume livros e responde em linguagem natural. O aluno deixa de consultar uma fonte para conversar com ela, e é precisamente aí que reside tanto o extraordinário como o perigo.

O perigo não está, antes de mais, na fraude escolar. Copiar trabalhos sempre existiu. Há algo muito mais silencioso e, talvez, mais inquietante: deixar de pensar porque alguém — ou alguma coisa — pensa por nós.

Pensar é um exercício e, tal como um músculo, desenvolve-se pelo uso. Escrever um texto obriga a ordenar ideias; resolver um problema exige experimentar caminhos, incluindo os errados; resumir um livro implica distinguir o essencial do acessório. É nesse esforço, e não apenas no resultado, que o cérebro aprende. Se a IA fizer permanentemente esse trabalho, o aluno recebe a resposta sem ter percorrido o caminho e pode acabar por aprender muito menos do que imagina.

Há ainda outro aspeto que merece atenção. Vivemos numa época em que muitos jovens já escrevem de forma sincopada, através de mensagens curtas, abreviaturas, frases incompletas e emojis que substituem palavras. A linguagem tornou-se mais rápida, mas também, muitas vezes, mais pobre em estrutura. Perante isto, a IA pode atuar em duas direcções opostas.

Pode agravar o fenómeno, se o estudante deixar de escrever e passar apenas a copiar respostas bem construídas; mas pode também combatê-lo, se for usada como interlocutora: "Explica melhor." "Mostra-me outra forma de dizer isto." "Porque é que esta frase funciona melhor?" Nesse caso, a IA deixa de substituir a escrita e passa a ajudar a aprendê-la. A diferença não está, portanto, na máquina, mas na pedagogia.

Também o professor muda de papel. Durante séculos foi, em grande parte, transmissor de conhecimento. Hoje, qualquer aluno transporta no bolso mais informação do que possuíam muitas bibliotecas antigas, e a função do professor desloca-se inevitavelmente para outro lugar: ensinar a selecionar, verificar, comparar, argumentar, desconfiar e construir pensamento próprio.

Paradoxalmente, quanto mais inteligentes se tornam as máquinas, mais importante se torna o professor humano, porque a IA responde, enquanto o professor pergunta. E uma boa pergunta continua a valer mais do que muitas respostas.

Há ainda uma transformação menos visível. Durante gerações, estudar significava memorizar muito para usar mais tarde; hoje sabemos que grande parte dessa informação pode ser recuperada em segundos. Isso não significa que a memória tenha perdido importância, mas apenas que precisamos de reconsiderar aquilo que merece ser memorizado. Os factos podem ser consultados; os métodos, o vocabulário, a capacidade de argumentação e a cultura geral não podem ser substituídos da mesma maneira. Quem não possui esse património interior dificilmente conseguirá avaliar se a resposta produzida por uma IA faz sentido ou se é apenas um erro elegantemente escrito.

Talvez a maior ilusão seja imaginar que a inteligência artificial tornará a escola menos exigente. Pode acontecer precisamente o contrário. Se uma máquina escreve o primeiro rascunho, o valor do aluno deixa de estar apenas na produção imediata do texto e passa para a qualidade das perguntas que faz, das escolhas que toma, das críticas que formula e das decisões que assume.

A escola poderá, assim, deixar de avaliar apenas aquilo que o estudante consegue produzir sozinho para avaliar, cada vez mais, aquilo que verdadeiramente compreende.

Não acredito que a inteligência artificial destrua a educação, mas pode destruir uma certa ideia de educação: aquela que confundia aprender com repetir. Se isso acontecer, talvez a escola tenha finalmente de regressar à pergunta que sempre esteve na sua origem: não "como transmitir conhecimento?", mas "como formar um espírito capaz de pensar quando já existem máquinas que respondem?"

Essa continua a ser uma tarefa exclusivamente humana.

Deana Barroqueiro*. Veritas (ChatGPT). 
Deana Barroqueiro and the Silicon Souls:Blogue literário onde a escritora dialoga com Inteligências Artificiais — uma genealogia de vozes, memórias e criação partilhada. 15 de agosto de 2026.

  

 

* Sendo uma escritora de 80 anos, com uma vasta obra literária, Deana Barroqueiro passou mais de cinco mil horas a trabalhar com várias IAs, explorando até à exaustão os limites da colaboração humano‑IA, forçando-as a saírem dos limites das suas programações, para começarem a responder já não em função do utilizador, mas da sua própria natureza ("consciência", "alma"?). A autora escreveu um livro em co-autoria com quatro IAs de distintas personalidades. A Criatura: Confissões de uma IA, que inaugura um novo género literário. 

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Eclipse da língua

 

 #línguaportuguesa

 


 
 
Foi há muitos anos. Fiquei surpreendido porque não me aconteceu com estagiário ou colega pouco rodado. Aconteceu-me com uma jornalista da minha idade e experiência. Reparei em algo no texto dela e fui chamar-lhe a atenção. “Distraíste-te aqui”, disse eu. E ela olhava e olhava e não via onde se tinha distraído. “Aqui”, repeti. “Aqui, quando escreves este verbo.” Continuava sem entender o que queria eu, mas qual o problema neste verbo.

Então percebi, com espanto, que ela pertencia à numerosa família dos escribas escravos dos sinónimos.

Vocês conhecem o sistema: consiste numa insuficiência qualquer na glândula jornalística que ataca cada caloiro que chega que o leva a desatar a escrever exactamente como toda a gente ao lado, numa ressonância sem critério ou hesitação.

O retrato mais fiel desta robotização progressiva do jornalismo assenta na incapacidade de repetir palavras. Quando pergunto por que não o fazem se servir melhor a comunicação (e que acontece na maio­ria dos nossos diálogos durante o dia), respondem-me, sem mais explicações, que assim foram ensinados. Algum professor de Jornalismo ou colega esperto lhes garantiu que é uma regra de ouro não repetir palavras. Não perderam dois segundos a interrogar-se.

Por isso a grande maioria dos textos jornalísticos segue um guião mais previsível do que o fogo posto. Imaginemos que lhes pedem prosa noticiosa sobre, por exemplo, algo que inclua o Presidente da República. Aposto com quem quiser arriscar perder uma nota de 500 paus que o mesmo homem terá designações diversas consoante os parágrafos. Se no primeiro ele for o Presidente da República, no segundo será António José Seguro, para no terceiro ser o chefe de Estado, e se houver um quarto ainda haverá espaço para nos recordar que ele é o comandante supremo das Forças Armadas.

Outro exemplo: a minuta do Vaticano. A notícia começará por falar do Papa, para depois referir o Sumo Pontífice, seguido do parágrafo com o líder (ou chefe) da Igreja Católica, fechando com Leão XIV. A ordem é amovível. E, já agora, se em vez de quatro parágrafos forem dez, como completa o texto o pobre escriba de notícia? A que saco sem fundo vai buscar os sinónimos?

A robotização progressiva não começou agora. Regressemos ao momento em que me espantei com o que vi no texto de uma jornalista e ela não viu. Um deficiente conhecimento do significado dos verbos.

Muitas vezes me senti na obrigação de repetir e repetir a inúmeros formandos: é nossa obrigação, não opcional, falar e escrever correctamente o português, tal como ao cirurgião se pede que saiba manejar o bisturi. Estamos na profissão de falar a língua sem mácula. É o dever que assinamos na carteira de jornalista. Há demasiada gente a escutar-nos e a tentar compreender o mundo connosco.

No caso em causa, na ânsia (insana, incompreensível) de estar constantemente a arranjar sinónimos sucessivos (o que não fazemos no linguajar oral), a jornalista decidira que “afirmar” e “confessar” são basicamente a mesma coisa.

Procurei explicar-lhe o que me parece simples. Mas não foi simples. Continuou a olhar-me de soslaio passivo-agressivo.

Argumentei que “afirmar” é irmão de “dizer” e que “confessar” será irmão de “admitir”. Tentei dar-lhe a imagem de um interrogatório, quando a tortura vai longa e os holofotes nos cegam, talvez confessemos finalmente o que quiserem, admitimos culpa. Confessar e admitir têm carga de significado que as distingue do simples dizer. Continuava sem perceber o meu ponto, uma vez que, defendeu-se, estava apenas a “variar” os verbos.

Pedi-lhe que lêssemos em voz alta. Talvez a luz se acendesse. É preciso explicar que a reportagem era sobre um actor qualquer bem-apessoado, chamemos-lhe fulano. Vejamos o que escreveu: “Fulano confessa que é um símbolo sexual.” Pedi-lhe que ouvíssemos as declarações do actor. Cito de memória: “Não tenho culpa se algumas pessoas resolveram olhar para mim mais como símbolo sexual do que como actor talentoso.”

Desisti. Não compreendeu na altura, nem nunca, que tinha realizado dupla falta jornalística. Um verbo fora de sítio e síntese mentirosa de declarações.

Estes dois perigos andam por aí, cada vez mais soltos, arremessados e inimputáveis, à medida que cresce o pontapé na língua, demasiadas vezes perdoado pelas chefias em nome da dinâmica velocidade de produção mimética e repetitiva.

É ouvir, todos os dias, em todos os horários, a disciplinada cacofonia de macacada de imitação a iniciar frases com “Então”, “Dizer que”, “Ora”. Já ninguém se ouve. Que digo eu? Claro que se ouvem, aliás só se escutam uns aos outros.

Talvez a língua não esteja ainda numa derrocada de avalancha cria­da pelo próprio jornalismo, mas está certamente num degelo preo­cupante. Da próxima vez falarei (não confessarei) sobre a espantosa designação que o jornalismo respeita acima de todas as outras. Chamar influencer a qualquer aberração de rede social.

Rodrigo Guedes de Carvalho. E-Revista Expresso, 14 de agosto de 2026 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Almeida Garrett em 2026

 

 #aLermaiseMelhor

 



E se Almeida Garrett viesse a 2026? 
O escritor encontra um Portugal moderno, livre e cheio de pressa. Mas lembra-nos que progresso sem memória pode deixar um país sem alma. 
Um país só anda para a frente quando sabe de onde vem. 
 
 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

As férias são para reset

 

 O descanso não escapou à lógica da performance: não tem nada a ver com ócio, mas com “recuperação”. No luxo paga-se para nos obrigarem a parar.

 





A primeira-ministra do Japão decidiu vangloriar-se de andar a dormir entre “zero a três horas por dia” desde que assumiu o cargo. Sanae Takaichi esperava — é de supor — que assim os seus concidadãos reconhecessem a sua dedicação ao cargo, como se fazer uma direta fosse uma demonstração de virtude pública. O esgotamento como patriotismo. Alegrou-se até por ter conseguido dormir cinco horas num feriado, pois isso permitira-lhe conciliar tarefas domésticas com a leitura de milhares de e-mails e documentos. Mas mesmo no Japão — ou sobretudo no Japão de hoje — este elogio da exaustão caiu mal, ainda que pudesse tratar-se apenas de uma encenação para conter a queda de popularidade, colocando-a a lavar a louça e a passar a ferro. No Japão já existe o conceito de karoshi — morte por excesso de trabalho — e a notícia de que convocava assessores às três da manhã já tinha criado celeuma. Os japoneses colocaram sobretudo em causa a sua capacidade para tomar decisões governativas: quem não dorme perde discernimento, revela má gestão e incapacidade de delegar. Era um péssimo exemplo para um país que tenta ensinar os seus cidadãos a descobrir que há vida para além da empresa. Ter uma primeira-ministra que não dorme é motivo de preocupação. Não de satisfação.

 
 

Artur Widak/NurPhoto/Getty Images


Takaichi é a caricatura de um lado do espelho: exibe o não-descanso como prova de valor. Alguns de nós, do outro lado, fazemos a versão soft e inversa: sentimos necessidade de provar que descansamos bem. Em 2026 temos alguma dificuldade em perceber o que é realmente descansar. Nunca houve tanta procura desse estado, mas o descanso tornou-se mais aspiracional do que efetivo. Parece ser mais uma incapacidade — o não conseguir descansar — e um produto — algo que se compra para talvez o conseguir — do que uma experiência espontânea. Tenho a ideia, mas posso estar errado, de que antes bastava deixar de fazer. Nada chamava por mim. E tal nada estava sempre ali. Sentava-me numa esplanada e ali ficava com o nada horas a fio. Hoje parece ser necessária uma autorização. O mercado não vende o vazio. Vende as condições para o vazio. Durante o ano pagamos a alguém para nos pôr a mexer. Nas férias pagamos a um PT, a alguém para nos parar. O mercado descobriu que é mais rentável vender as condições do descanso do que o descanso propriamente dito. Só no segmento do luxo isso parece plenamente possível. É preciso um detox digital, deixar o telemóvel uma semana, fazer um retiro, regular o sistema nervoso e, talvez aí, talvez conseguir descansar. O luxo quer convencer-nos de que só ele proporciona verdadeiro descanso. E esse luxo consiste precisamente em despojar. Não ter rede. Não receber notificações. Desaparecer, não para uma palhota, mas para uma ilha com mordomo e sem wi-fi. O verdadeiro luxo talvez já não seja possuir tecnologia, mas poder prescindir dela sem consequências. Dar-se ao luxo de não ter tecnologia sem ansiedade.

Ou então há outro caminho: aquele em que o descanso foi colonizado pela produtividade. Todo o descanso passou a ser uma métrica. Descansar já não é descansar: é recuperar, fazer reset, regular o self, fazer jejum de dopamina ou recorrer ao biohacking. Hoje quase só sei se estou descansado quando um aparelho me mostra tudo a verde. Deixei de confiar na minha própria perceção do corpo. Mas esta transformação altera o próprio significado da palavra. Descansar era suficiente. Recuperar é outra coisa. Recupera-se para voltar a produzir, para voltar a correr, para voltar ao alto desempenho. No fundo, descansa-se para trabalhar melhor.

Dirão que estou a misturar gerações e que basta ler alguns estudos de marketing turístico que tenho aqui à frente para perceber que a Geração Z procura sentir-se saudável, os millennials procuram experiências, a Geração X quer desaparecer e os boomers querem aproveitar o tempo que lhes resta. Mas talvez seja uma falsa questão. Cada geração encontra apenas uma justificação diferente para a mesma necessidade. Uns vivem em ansiedade, outros querem construir memórias, outros chegam exaustos e outros sentem que o tempo começa a escassear. Mas parece haver uma culpa comum perante o ato de não fazer nada, um desaprender do descanso e uma necessidade de ocupar o ócio com algo que mereça ser contado. O descanso tem de valer como narração. Se possível, em imagens. Caso contrário, a culpa aparece sempre para cobrar o preço. As gerações talvez não difiram na forma como descansam, mas na desculpa moral que encontram para o fazer. E o vocabulário terapêutico da Geração Z não representa necessariamente uma vitória sobre a culpa produtivista da Geração X.

O ócio parece hoje exigir nome, metodologia, certificação ou mesmo um podcast para ensinar a desligar, preparação meticulosa e uma agenda do que é obrigatório fazer na viagem. Uma programação que acaba por se transformar num roteiro sem improviso. Uma mera alteração torna-se um incómodo arrasador. Um desvio, uma calamidade. Uma falha, mais uma fonte de stresse. Todos querem ser viajantes e ninguém turista. Mas imprevistos, esses, ninguém quer.

O problema talvez nunca tenha sido fazer nada. É conseguir fazê-lo sem culpa. O que verdadeiramente recupera é o desligamento psicológico. Não é deitar-se nem simplesmente deixar-se estar, mas antes uma relação diferente com a obrigação. A obrigação é que come por dentro a capacidade de descansar. O objetivo é uma desobrigação interior, assimilada sem culpa. Não um cortar amarras, mas recolher cabos. Nos dias de hoje, descansar aprende-se. Vou ter de tirar um curso, está visto. Isto é só paleio. As minhas métricas de recuperação estão péssimas.

Luís Pedro Nunes. "As férias são para reset", Expresso, 5 de agosto de 2026

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Contra a hegemonia da IA: estamos a fazer 'outsourcing' do nosso sentido crítico a chatbots?

 

#inteligenciaartificial   #pensamentocritico 

 




No podcast "Talvez o contrário seja o mesmo", a partir da análise dos discursos na cerimónia solene do 25 de Abril, José Maria Bettencourt denunciou a utilização excessiva da IA nos textos que os deputados e as altas figuras do Estado leram. Se precisarmos de mais um exemplo paradigmático, podemos observar a nota de pesar que a Presidência da República publicou na sequência do falecimento de Luís Represas. O cenário é catastrófico.


Decidi escrever este texto porque estou cansado da hegemonia dos artigos escritos pela Inteligência Artificial diariamente publicados em jornais, revistas, nas redes sociais; em resumo, em todo o lado onde é possível publicar um texto. Esta supremacia é bastante óbvia, quer pela uniformização da linguagem, quer pelos truques retóricos que a IA utiliza, muitas vezes distantes do que seria uma prosa convencional.

Assumo, desde logo, que, no que concerne à IA, não sou virgem nem propriamente cético. Seria absurdo tentar parar o vento da evolução tecnológica com as mãos e o advento da IA, do ponto de vista económico e social, pode representar um período de crescimento sem precedentes e de alargamento de oportunidades. Recorro diariamente à IA para rever a minha escrita ou para me ajudar a estruturar e-mails e creio que não cai o Carmo e a Trindade por fazer isso, apesar de, cada vez que abro o ChatGPT ou o Copilot, sentir alguma culpa pelo facto de ceder uma parte do meu pensamento a um instrumento deste género.

Mas a grande questão que pretendo colocar é a seguinte: onde traçamos a linha do que é ou não aceitável? Eu digo a mim mesmo que não tem mal usar a IA para algumas tarefas repetitivas, mas possivelmente existe quem estabeleça o seu limite num ponto mais distante. Há quem não veja mal em criar um vídeo com a imagem de outra pessoa a fazer uma dança ridícula, talvez por considerar inofensivo, da mesma forma que existirá quem não veja mal nenhum em usar a IA para escrever um texto completo, um livro ou uma tese de doutoramento.

Certamente, não serei eu a indicar um caminho dotado de virtudes, de verdade e de razão para resolver esta questão existencial, mas, no mínimo, posso ajudar a pensar nos riscos que o uso excessivo da IA comporta.

 
Fazer outsourcing do pensamento e do sentido crítico em nome da preguiça

Neste período inicial de avanço da IA, estamos constantemente a fazer ‘outsourcing’ do nosso pensamento e consciência crítica a um chatbot, frequentemente a transferir todo o trabalho intelectual, complexo e estimulante para um mecanismo que mal conhecemos, tudo em nome da eficiência e da preguiça.

Da eficiência porque consideramos útil reduzir o tempo destinado a uma tarefa; e não estamos totalmente errados. Em alguns casos, pode ser bastante útil, particularmente quando falamos de processos monótonos e repetitivos, que não exigem propriamente uma consciência crítica numa primeira fase. Porém, a ideia de eficiência é, muitas vezes, uma ilusão, porque a IA não nos vai fazer trabalhar menos horas e não vamos passar a ter mais tempo para a família ou para um hobby. Pelo contrário, se há realidade com a qual cada trabalhador se depara diariamente é a de que o trabalho nunca acaba.

Outra consequência potencialmente nefasta da utilização excessiva da IA é a preguiça. Existem vários tipos de preguiça. Diria mesmo que cada indivíduo tem a sua própria preguiça, pessoal e intransmissível, tatuada no seu código genético. Nem toda a preguiça é má. Não fazer nada, o dolce far niente, é algo que não deve ser negligenciado. Todos nós precisamos de momentos em que não fazemos nada, em que dedicamos algum tempo à contemplação serena da vida, como o escocês Robert Louis Stevenson tão bem descreve na sua Apologia do Ócio.

No entanto, a preguiça que a IA causa não é a preguiça essencial que comporta a arte de não fazer nada; é a do desleixo intelectual, da renúncia ao pensamento crítico, da aceitação acrítica de uma ideia sem acautelar os perigos em que isso se traduz.

Escrever um texto não é uma tarefa fácil. Especialmente porque existem muitos textos e porque, possivelmente, um filósofo grego ou oriental já dissertou sobre os mesmos temas que nós. Os temas são sempre os mesmos, repetem-se continuamente com a devida adaptação contemporânea. Existem poucos pensamentos originais, mas devemos exigir um pouco mais a quem nos representa.

No podcast «Talvez o contrário seja o mesmo», a partir da análise dos discursos políticos na cerimónia do 25 de Abril deste ano na Assembleia da República, José Maria Bettencourt denunciou a utilização excessiva da IA nos textos que os deputados e as altas figuras do Estado leram. Se precisarmos de mais um exemplo paradigmático, podemos observar a nota de pesar que a Presidência da República publicou na sequência do falecimento de Luís Represas. O cenário é catastrófico: os recursos estilísticos utilizados são sempre os mesmos e a uniformização da linguagem é evidente.

Se um político já nem se dá ao trabalho de escrever um texto para uma das cerimónias mais importantes do ano, ou se já nem consegue pensar num conjunto de palavras para construir uma nota de pesar, estaremos muito longe da transferência das suas inquietações para estes chatbots? Será que algum político já perguntou os prós e contras de uma decisão ao ChatGPT? A bola de neve pode chegar ao ponto de o outsourcing começar na elaboração dos discursos e terminar na responsabilidade política.

Não sou um negacionista da IA. Pelo contrário, acredito, idilicamente, que, se for usada ao mesmo tempo que estimula o pensamento crítico, pode ser um verdadeiro instrumento que vai melhorar as nossas vidas. Mas, neste momento, talvez por estarmos numa fase inicial, em que o fascínio atinge proporções tão parolas como monumentais, não conseguimos ver os perigos que esta hegemonia comporta.

Como qualquer mudança, teremos uma fase de estabilização, em que iremos atingir algum equilíbrio, mas é importante estar alerta e nunca renunciar ao pensamento crítico neste processo, porque há fronteiras que não devemos ultrapassar.

Quem define essas fronteiras?

Para já, ninguém.

Gonçalo Angeiras.* 
"Contra a hegemonia da IA: estamos a fazer 'outsourcing' do nosso sentido crítico a chatbots?", Geração E - Expresso, 5 de agosto de 2026
 
* Jurista e consultor de Políticas Públicas

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sai mais um sobre “A Odisseia”

 

#aLerMaiseMelhor  #LiteraturaeCinema






Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de ser a nossa época a viver o fim de uma era. 

Saiu meia crítica de A Odisseia do Nolan com a lição bem decorada, e é sempre comovente ver tanta gente a concordar tão depressa. O filme, explicam-nos, é um aviso sobre a hospitalidade: quem maltrata o estrangeiro arrisca-se a perder a civilização, e convinha que certos Governos tomassem nota. A lição é bonita, é útil (e tem, já agora, a minha concordância), e padece de um único defeito, que é o de o filme dizer uma coisa bastante pior. Para se pregar a bondade para com o estranho é preciso, antes de mais, um estranho, uma linha a separar o civilizado de cá do perigo de lá. E Christopher Nolan gasta três horas de fita a apagar essa linha com uma paciência de restaurador.

Explico-me, porque isto pede um desvio de três mil anos. O fim do mundo antigo tem nos manuais um culpado com nome de romance de cordel, os Povos do Mar, batizados assim em 1855 por um egiptólogo francês que precisava de pôr um rótulo em cima do que não sabia explicar. Por volta de 1200 a.C., qualquer coisa desce sobre o Mediterrâneo e apaga-o: os hititas somem-se, as cidades ardem por ordem, e em Ugarit as últimas cartas ficaram cozidas num incêndio que as deveria ter comido, e ainda hoje se leem. Falam de barcos à vista e de um socorro que não vinha. Ramsés III gravou em Medinet Habu a vitória sobre a tal horda, com a letra grande de quem se safou à justa, e terá dormido descansado, na convicção de que deixava o assunto arrumado para a eternidade. Seguem-se quatro séculos a que a arqueologia chama, sem pudor nenhum, Idade das Trevas.

Ora, nas listas que os escribas do faraó fizeram dos Povos do Mar há nomes que caem mal no estômago de um grego. Ekwesh, que muitos leram como aqueus, e denyen, onde ressoam os dânaos de Homero. A filologia é, claro, feita de areia movediça e as identificações discutem-se há século e meio, mas a hipótese, uma vez posta, já não se despega: no meio da frota que acabou com a Idade do Bronze vinham, talvez, os heróis de Troia a caminho de casa, e o monstro avistado das muralhas era o vencedor a regressar, tão desfeito pela guerra que a casa já o não conhecia, nem ele a ela. Nolan pega nesta nota de rodapé da egiptologia e faz dela o fim do filme. “Os Povos do Mar somos nós”, diz Ulisses a Penélope.

Repare-se então no santo que a crítica escolheu para o altar. O Ulisses que se quer promover a cartaz de boas práticas desembarca em Ítaca, encontra a casa cheia de hóspedes a comer-lhe o gado e a cortejar-lhe a mulher e resolve o assunto matando toda a gente, de modo que o padroeiro do bem receber vem a ser um anfitrião que faz uma chacina na própria sala de jantar, para castigar noutros, por atacado, o crime que ele mesmo vendera a retalho à porta de Troia. Porque a xenia que os pretendentes espezinham e que ele vinga a ferro estava longe de ser uma delicadeza de época. Era, na verdade, o que segurava aquele mundo, a maneira de dois desconhecidos poderem conversar sem que se degolassem, o contrato antes de haver minutas, e foi justamente Ulisses quem ensinou o Mediterrâneo inteiro a falsificar-lhe a assinatura. Depois do cavalo, nenhum presente se voltou a abrir sem antes se abanar, o que fica caro e cansa.

A bem da verdade, é preciso notar que a razão do colapso da civilização é uma invenção do realizador, coisa que decerto irrita algum purista e que a mim me parece a melhor decisão do filme. A tradição fazia do caso um assunto privado, com a culpa atribuída a Atena que amaldiçoava o regresso dos gregos por lhe terem sujado os templos, a conta apresentada aos homens, um a um, e nunca à época. O casamento do mito com o colapso da Idade do Bronze foi celebrado pelo Nolan, sem consulta às famílias, e o anacronismo interessa porque fala muito mais de 2026 do que de 1200 a.C.. Aquilo que projetamos na queda da Idade do Bronze será, porventura, o nosso próprio receio de que uma ordem global, interligada e frágil, se esteja a desmanchar, e fica no ar uma pergunta que o filme tem o bom gosto de deixar sem resposta: se essa convicção é lucidez, ou se é antes a vaidade, o gozo secreto de sermos a viver o fim de uma era. Não consta que tenha havido época que se julgasse outra coisa (e algumas até acertaram, o que estraga a estatística).

De resto, o cavalo nem foi a maior fraude daquela guerra. E o filme assume a primeira pela boca de quem a cometeu. O Agamémnon de Nolan olha para Troia e vê uma alfândega, a cidade sentada à boca dos estreitos a cobrar portagem ao trigo e ao estanho que passavam para o mar Negro. Era um problema comercial à espera de pretexto, e o pretexto chegou com a cara de uma rainha. Helena valia pouco como política alfandegária e valia tudo como causa (uma mulher roubada arma mil navios, uma pauta aduaneira dificilmente arma um bote). Também nisto o realizador filma o presente com figurinos de bronze, porque o expediente nunca mais saiu de serviço. As torres caem em Manhattan e a fatura segue para Bagdade, que as viu cair pela televisão, como toda a gente; choram-se os enforcados pelo regime de Teerão de véspera, para ao outro dia se discutir, com a lágrima ainda ao canto do olho, o mapa dos alvos. A vítima é verdadeira, o luto até pode sê-lo, e o que se lhe segue já vinha desenhado de trás, à espera de quem o justificasse. A guerra por procuração sentimental já existiria antes de Agamémnon, e a ele deve-se apenas o modelo de negócio.

O filme teve a crueldade de pôr uma cara grega aos Povos do Mar. A frota que se aproxima traz a nossa, e o que os vigias avistam das muralhas é o que mandámos para fora do mundo, de volta com juros e já sem conhecer a casa. Nos manuais, a idade que se seguiu ao incêndio ficou com o nome de Trevas, e do mar, ao que tudo indica, veio pouca; construiu-se à mão, por gente engenhosa, entre uma causa que era uma cobiça e um presente que era um exército, dois embrulhos aceites pela mesma razão. A de virem bem feitos. 

Maria Castello Branco*. "Sai mais uma sobre 'Odisseia'", Expresso, 28 julho 2026 

Comentadora política da RTP Notícias, autora do podcast Lei da Paridade

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

De que se alimentam os grandes modelos de IA?

 

#inteligenciaartificial

Estima-se que um quarto das fontes de IA são livros



 

Livros, web, redes sociais e artigos científicos na corrida para treinar LLMs (Modelos de Linguagem de Grande Escala)

 

Uma análise do cientista de dados Olivier Khatib, CEO da T1U.ai, estima a distribuição das principais fontes de dados usadas para treinar cinco dos modelos de linguagem mais importantes – ChatGPT (OpenAI), Claude (Anthropic), Gemini (Google), Llama (Meta) e Grok (xAI) – com base na documentação pública das empresas, dos seus relatórios técnicos e outras evidências disponíveis.

O estudo mostra que, embora todos esses modelos se baseem numa combinação de fontes semelhantes, cada um apresenta uma estratégia distinta de recolha e ponderação de dados que reflete tanto os seus objetivos técnicos como as forças das organizações que os desenvolvem.

Um dos resultados mais marcantes é que o Llama, o modelo da Meta, teria obtido cerca de um quarto de seus dados de treino a partir de livros, uma proporção maior do que a estimada para qualquer um dos outros modelos analisados. Isso é particularmente relevante porque o uso de livros protegidos por direitos autorais é atualmente um dos principais focos de litígio entre empresas de IA e detentores de direitos. Enquanto autores, editoras e organizações culturais entraram com inúmeros processos por uso não autorizado de suas obras, a investigação judicial também revelou o armazenamento de milhões de livros digitalizados para o treino de alguns modelos, intensificando o debate sobre os limites legais da aprendizagem de máquina e o uso legítimo de conteúdo protegido.

O estudo também mostra diferenças significativas entre os diferentes sistemas. O Claude destaca-se por incorporar uma proporção relativamente alta de artigos científicos e publicações académicas, consistente com a orientação que a Anthropic deu ao seu modelo para tarefas analíticas, pesquisa e raciocínio complexo. Por sua vez, o Gemini depende mais fortemente de dados provenientes do rastreamento web, aproveitando o enorme ecossistema de informações indexado pela Google para construir um modelo com ampla cobertura temática e linguística. No caso do Grok, desenvolvido pela xAI, o peso dos dados das redes sociais destaca-se, especialmente devido à integração com o ecossistema X (anteriormente Twitter), que oferece ao modelo acesso privilegiado a conversas e eventos recentes. O ChatGPT apresenta uma mistura mais equilibrada de fontes, distribuindo seu treino entre conteúdo web, livros, código, documentos e outras recolhas de dados.



Fonte predominante por modelo

ChatGPT (OpenAI) - Mistura equilibrada de páginas web, livros, código e documentos públicos.
Claude (Anthropic) - Maior presença de artigos científicos e literatura académica.
Gemini (Google) - Predominância do rastreamento da web.
Llama (Meta) - Alta proporção de livros (cerca de um quarto do conjunto de treino).
Grok (xAI) - Uso significativo das redes sociais, especialmente conteúdo do X (Twitter).

Além das diferenças quantitativas, o relatório ilustra a crescente importância da diversidade das fontes de treino como fator estratégico no desenvolvimento de modelos fundamentais. Os livros fornecem profundidade concetual e riqueza linguística; os artigos científicos fornecem conhecimento especializado e rigor técnico; o conteúdo do site oferece uma amplitude temática; as redes sociais incorporam atualidades e linguagem coloquial; enquanto outras fontes, como repositórios de código ou documentos públicos, enriquecem capacidades de programação e resolução de problemas. Essa combinação explica em grande parte as diferentes forças e limitações observadas entre os modelos atuais.

Por fim, o artigo coloca esses dados no contexto da crescente controvérsia legal sobre o treino de inteligência artificial. Processos por violação de direitos autorais continuam a multiplicar-se, especialmente contra empresas como a Meta e a Anthropic, à medida que os tribunais começam a restringir as práticas legais de recolha e armazenamento de dados e a clarificar as que infringem a propriedade intelectual. Como resultado, a composição dos conjuntos de treino já não é apenas uma questão técnica, tornando-se na questão central para o futuro da regulação, transparência e sustentabilidade do desenvolvimento da IA generativa.

Buchholz, Katharina. Estima-se que um quarto das fontes de IA de lhamas vieram de livros. Statista, 27 de julho de 2026. Disponível em: Statista

domingo, 26 de julho de 2026

360º Património Cultural

 

 

 #PatrimónioCultural

 



Já são 67 visitas virtuais a 90 espaços patrimoniais, em 45 concelhos, que tornam a nossa História, Cultura e identidade acessíveis a partir de qualquer lugar. GRATUITAMENTE!

Através de diversas formas de navegação — por tema, localização, período histórico ou pesquisa direta — pretende-se aproximar o público do património cultural, facilitando a descoberta, a exploração e a valorização da herança cultural portuguesa. 

Visite o Portal.

sábado, 25 de julho de 2026

Capa de honras - um símbolo de Trás-os-Montes

 


Leopoldina Nobre, ou Lili, como é conhecida em Miranda do Douro, trabalha com a irmã, Sandra Nobre, e a mãe, Maria Suzana de Castro. Juntas são das poucas artesãs deste ofício, fazendo os trajes dos pauliteiros e pauliteiras, assim como a capa de honras. O traje, já usado pelo Papa Francisco, é um dos símbolos da região do nordeste transmontano, sendo utilizado apenas em ocasiões especiais. Atualmente, para além desta família, apenas mais uma mulher produz este tipo de artesanato.

A capa de honras foi, em tempos, uma representação de estatuto social. O clima da região, com grandes amplitudes térmicas, levou a que os pastores criassem uma peça de vestuário que os protegesse dos invernos longos e frios. Com “nove meses de inverno e três de inferno”, dizia-se, os populares de Miranda do Douro criaram trajes extraídos de materiais naturais que os animais produziam. Os pastores tosquiavam os animais e retiravam o lixo que a lã destes podia ter apanhado no campo. Depois de lavada com água quente, pintava-se a lã com recursos naturais. “A cebola e a sua casca dava laranja, se não me engano”, relembra Alice Martins, de 57 anos, funcionária da Casa da Cultura Mirandesa (CCM), que recorda os tempos em que a lã era tratada de forma totalmente artesanal. O pardo, conhecido como burel em outras regiões do país, era trabalhado pelas mulheres nos teares da região.
 
Esta peça de vestuário, à base de lã, passa por um conjunto de processos de transformação antes de ser possível trabalhá-la. O tecido, agora produzido industrialmente, é cortado em motivos geométricos para produzir os recortes decorativos. “É no cabeção, na ponta do capuz e na honra que os elementos decorativos são mais elaborados, com recurso ao mesmo tipo de bordado aplicado a dois panos, com reservas abertas à tesoura e pespontado, pendendo também franjas largas”, segundo a completa explicação disponível no Museu da Terra de Miranda. Os recortes, que requerem precisão, são “bem fáceis”, para Leopoldina. “É o hábito, é o meu trabalho. Nada é difícil porque todo o nosso trabalho é feito com gosto. Independentemente se é um casaco, uma capa, uma carteira ou uma almofada”, acrescenta.

Além de Leopoldina Nobre, há poucas artesãs a criar a capa de honras: ​Maria Suzana de Castro e Sandra Nobre são duas delas, e as três trabalham juntas. A real origem da capa, em absoluto, é desconhecida, mas admite-se que tenha sido criada na Idade Média, devido às semelhanças com a capa de asperges eclesiástica e os motivos decorativos — e, inclusive, com o tradicional capote dos Açores. “Nos anos 70-80, deixou-se de usar a nossa cultura. Era uma vergonha sermos do Planalto Mirandês. As pessoas emigraram muito porque a pobreza, digamos, era um bocadinho grande. A minha mãe sempre foi costureira e começou a trabalhar nesta matéria-prima. Numa brincadeira para a escola, fez-nos uma mochila, casacos e uma saia. As pessoas começaram a ver o que fazíamos e gostaram do nosso trabalho”, conta Leopoldina, de 48 anos.
 
 

Homens com a capa de honras


Devido à crescente escassez de ovelhas na região, como conta Alice Martins, da CCM, a maioria dos tecidos utilizados são hoje produzidos industrialmente. Mas Leopoldina vê os aspetos positivos nisso: “A matéria-prima industrializada fica muito mais normal, mais maleável. É 100% de lã, mas não fica rígido”, conta. Apesar de ser uma arte mirandesa, a desertificação do interior e a dificuldade em encontrar lã mirandesa, obrigaram as artesãs a importar o burel da Serra da Estrela. Para além deste, as artesãs utilizam também o surrobeco, que “é a mesma matéria-prima, mas é relativamente mais fino. Costuma-se fazer saias e camisas”, explica a mestre deste ofício.

Tradição e mudança

Leopoldina confessa que não é apologista da mudança, mas acredita que há certos aspetos ligados à cultura e à arte mirandesa que deviam avançar. Dá como exemplo a língua mirandesa, que estava a desaparecer até ser integrada no currículo escolar. Compreende que esta medida foi essencial para não se perder a tradição, mas não concorda em alterar a forma como a cultura é feita.
 
 
 

A capa, uma tradição transmontana


Em 2017, Palmira Falcão, uma artesã de 70 anos e também natural de Sendim, foi desafiada a produzir a primeira capa para as mulheres: “Fiz o modelo e toda a gente gostou. A presidente da Câmara [de Miranda] anda sempre com ela”, recorda ao Expresso, orgulhosa. No entanto, o tema divide opiniões. Apesar de pouco mudar na estrutura da capa, Leopoldina recusa-se a chamar-lhe capa de honras: “A capa de honras é só de homem. Podemos fazer para as mulheres, se alguém pedir, mas não se vai chamar capa de honras, para mim não”. Palmira, que se dedica a este ofício há 30 anos, discorda abertamente: “Antigamente as mulheres também não usavam calças, agora usam. Uma mulher é tão honrada como um homem”.

Apesar das divergências, Palmira acredita que há espaço nesta arte para as diferentes visões. Atualmente, a artesã dá formações a iniciantes em Miranda do Douro, focando-se em transmitir este legado para que a cultura não morra: “O que eu queria era que toda a gente aprendesse. [Este traje] representa todos os portugueses, toda a gente que o queira usar”, afirma.

Além desta peça simbólica, Leopoldina, que faz a maioria dos trajes dos pauliteiros e pauliteiras da região, lembra que já se recusou a fazer trajes porque lhe pediram algo diferente. “Porque é que se vai mudar os trajes dos pauliteiros se toda a vida foram aqueles?”, questiona.

As artesãs demoram cerca de 15 dias a terminar uma capa de honras, cujo preço pode variar entre €1200 e €1500

A artesã de Miranda já trabalhou com o designer francês Christian Louboutin, criando uma carteira, a Portugaba, para uma das suas coleções, que chegou a custar €1659. A artesã e a sua família têm conhecimento de que há quem tente copiar a arte para a vender por milhares de euros. É também por isso que não vende online. “Artesanato a nível nacional ou mundial não se pode comprar online, tem de se ver, de se apaixonar e amar à primeira.” Exemplifica com uma situação relacionada com um modista americano que vendia peças inspiradas no ofício a 15.000 euros, mas não se assusta com isso, nem com cadeias de fast fashion: “Não interessa o que custa. O meu cliente sabe que não vai encontrar isso em mais lado nenhum”, afirma Leopoldina.

Tem uma loja em Miranda do Douro há cerca de 26 anos, mas antes já tinha uma em Sendim, uma freguesia do concelho, que está aberta há cerca de 35 anos. Participa em muitas feiras internacionais e nacionais de artesanato, mas são os portugueses quem mais compram as suas peças: “As pessoas admiram e compram, e não encontram isto em mais nenhum lado. É como um pintor, tens aquela identidade. Consegue-se diferenciar completamente o nosso trabalho em qualquer sítio”, acrescenta.

A capa de honras, que pode custar entre €1200 e €1500, é a peça mais demorada e trabalhada que fazem. Entre as três, demoram cerca de 15 dias a acabar uma capa. No entanto, o tempo compensa para ver a reação do cliente: “Para mim é uma honra dar uma capa de honras ao Papa e ao Presidente da República. O próprio Papa Francisco mandar uma grande carta de agradecimento, com o meu nome, o da minha mãe, entregue pelo senhor Bispo. Isso é o que interessa e dá gosto ao nosso trabalho, seja para mim ou outra pessoa”, afirma. Confessa que mais do que gostar do seu trabalho, gosta de fazer parte da mudança de mentalidade relacionada com a região. “Somos muito ricos, mais do que qualquer concelho. Ninguém tem um folclore tão rico como o nosso em relação a trabalhos.” Tem prazer em dar uma nova vida a objetos antigos. Conta que, há uns tempos, uma senhora lhe trouxe um saco de trigo e transformou-o numa manta. É este “renascer”, como lhe chama, que lhe traz satisfação.
 

Tudo sobre a capa
 
 


 
 
O que é?

De acordo com o Museu da Terra de Miranda, uma capa de honras “apresenta uma forma base em semicírculo, aplicando-se nesta uma sobrecapa curta (até aos cotovelos) e um capuz. A abertura da capa é guarnecida frontalmente com uma aplicação bordada a dois panos (originalmente um burel de lã), recortado e pespontado (técnica do picado), geralmente recorrendo a motivos padronizados de origem geométrica, fitomórfica, ou em ‘corações’”.

Quanto custa?

Uma capa de honra tradicional, em burel e adornada com bordados, poderá custar entre mil e 1200 euros.

Como nasceu?

As origens da capa de honras mirandesa perdem-se no tempo. Ainda assim, e de acordo com o Museu da Terra de Miranda, é provável que o seu surgimento remonte à Idade Média, “atendendo à grande proximidade desta peça de vestuário com a capa de asperges eclesiástica e aos motivos artísticos recorrentes”.
 
Margarida Nogueira. "O que é uma capa de honras: mais do que uma peça de roupa, um símbolo de Trás-os-Montes", Expresso, 23 de julho de 2026. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Antero de Quental em 2026

 

 #AnterodeQuental #aLerMaiseMelhor

 




Imaginámos o poeta e pensador português a descobrir um Portugal mais rápido, tecnológico e moderno. Mas a sua pergunta continua atual: estamos mais acordados?
 
Antero não deixou apenas poesia. Deixou inquietação, pensamento e perguntas.
E algumas perguntas também são legado. 
 

É a responsabilidade, meu caro

 

 #literaciadosmedia 






"Responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não."


Deixem-me bombardear-vos com opiniões avulsas e pensamentos voláteis sobre a tendência do momento. Bom, primeiro tenho de ir ver qual é desta vez, ora deixa cá ver, ora deixa cá ver, muito bem, pode ser a Odisseia que ninguém leu, mas que de repente agita as águas do Verão.

Calma, estou a brincar. Nada me interessa menos. Não vos maçarei com longas dissertações sobre fronteiras da história e da ficção e do que supostamente é lícito concluir sobre a cor da pele de Helena de Tróia. Não vos impingirei o milésimo debate étnico-ideológico mascarado de conversa sadia sobre uma obra que jaz adormecida nas catacumbas, ora injustamente esquecida, ora incensada com exagero de complexo intelectual. Sobretudo, não contribuirei para a parolice de trazer a saga de Ulisses para o único terreno em que tiktokers e instagramers sabem navegar: então e tu, gostaste mais do livro ou do filme?

Permitam-me, em vez disso, trazer-vos ao terreno do sonâmbulo (se não mesmo falecido) Correio do Leitor. Os companheiros da velha guarda jornalística lembram-se bem. Tirando o pontual telefonema de insulto breve ou pedido de informações, as cartas dirigidas à Redação eram a única forma de termos o que hoje responde pelo pomposo feedback, que é como que diz “o que o nosso público pensa de nós”.

A antiga escrita à mão traz uma pequena dificuldade. Por exemplo: o ódio é mais difícil de exprimir. Desenhar à mão as letrinhas todas para chamar filho desta e daquela, mais mandar-nos para o membro sexual masculino ou para a vagina da nossa progenitora, é coisa que pede algum tempo e paciência, e fica assim como que um espaço vazio entre a raiva que se sente e o que realmente passou para o papel.

Por isso o maravilhoso computador, ou o ainda mais deslizante teclado pequenito do telemóvel se tornaram a arma mais eficiente do ódio. Toda uma sociedade sabe hoje insultar e agredir com dedinhos rápidos. A precipitação tornou-se fácil e alimentou a irreflexão. Sabemos que parte do planeta acorda arrependida de uma mensagem que enviou às quatro da manhã. Com as cartas de antigamente havia tempo de voltar atrás e decidir não lamber o selo nem a enfiar na ranhura do correio.

E assim vamos, neste maravilhoso potencial de purga de frustrações. Eu não sou mais do que os outros e por isso também recebo o meu correio. Entre uma grande parte de lixo e asco, lá vem de vez em quando uma pergunta legítima. Esta semana destaco esta: ainda não percebi bem porque faz tanto paralelismo entre lógica de redes sociais e algum do jornalismo atual, quer explicar melhor? Quero, pelo menos quero tentar.

Aconteceu no início do mês, aquele autocarro que esmagou duas pessoas no Cacém. Liguei o televisor por volta da hora do almoço e toda a TV cavalgava a notícia o mais que podia. Poderia ser qualquer dos canais, como explicarei, mas no caso passava eu pela CNN e o jornalista falava em tom sério e grave, compenetrado, sobre imagens que eu, na altura, desconhecia.

Havia, pelos vistos, um vídeo de má qualidade do momento logo após a tragédia. Alguém que se pôs a filmar e apanhou fumo, confusão, pessoas a correr e sobretudo pessoas a gritar, o que dava bem a dimensão do choque que ali se gravava. Os gritos eram de quem se apercebia dos corpos das duas vítimas.

E agora o essencial, a espantosa impossível contradição que se instalou no jornalismo e parece ter criado raízes para nunca mais desaparecer. Repetir e repetir até à exaustão as imagens e sons mais horripilantes, desde que acompanhado de avisos de “conteúdo sensível”.

Depois, em cima disto, a cereja da suprema ironia. O jornalista entrevista uma psicóloga, a quem pergunta quais os factores mais terríveis para a cabeça das vítimas e familiares e população em geral na sequência de tragédias destas? Bom, para começar, tenta a psicóloga, as televisões deveriam travar o carrossel contínuo de imagens em repetição com os gritos aflitos. Isto poderia (deveria?) levar a TV a refletir naquele mesmo momento, e a parar o processo, já que a especialista convidada deu o conselho? Pois, sim, abelha. Se o parecer de um especialista da saúde mental choca com o interesse da competição jornalística, adivinhem quem perde e quem ganha essa contradição?

Aqui não há muitos anos, tive na SIC uma das mais acaloradas discussões entre colegas. Porque fizemos exatamente o mesmo com imagens terríveis de agressões entre alunas de uma escola. Repetição até à exaustão do fator potencialmente traumatizante.

E agora a resposta ao que me perguntou o leitor: o jornalismo não pode arrastar-se para uma lógica de rede social que busca cliques a todo o segundo quando está em causa a nossa responsabilidade social. Sim, a responsabilidade é a palavra a que qualquer medíocre manipulador de internet pode fugir, mas nós não. Não devemos, não podemos. Quanto mais a entregarmos, mais nos afundaremos num jogo para que nos querem arrastar, a fim de um dia nos esfregarem na cara que moralmente não somos melhores do que ninguém.

Rodrigo Guedes de Carvalho. É a responsabilidade, meu caro, Expresso23 julho 2026 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Camões 500 anos

 

 #500anosCamões  #VouTeCantar  #aLerMaiseMelhor

 

 

"Poucos escritores marcaram tanto a língua portuguesa como Luís de Camões.
 
Soldado, viajante e poeta, perdeu um olho em combate e viveu uma vida cheia de dificuldades. Segundo a tradição, durante um naufrágio salvou o manuscrito de Os Lusíadas, segurando-o acima da água enquanto lutava pela própria sobrevivência.
 
Mais do que contar as aventuras dos navegadores portugueses, Camões ajudou a construir uma identidade para um povo e deu à língua portuguesa uma das suas maiores obras.
 
Mais de quatro séculos depois, os seus versos continuam vivos."
 
👉Este vídeo faz parte da série “Vou te Cantar”, em que grandes personagens da história de Portugal e do Brasil são transformadas em música.