sábado, 15 de agosto de 2026

Crónica | Eclipse da língua

 

 #línguaportuguesa

 


 
 
Foi há muitos anos. Fiquei surpreendido porque não me aconteceu com estagiário ou colega pouco rodado. Aconteceu-me com uma jornalista da minha idade e experiência. Reparei em algo no texto dela e fui chamar-lhe a atenção. “Distraíste-te aqui”, disse eu. E ela olhava e olhava e não via onde se tinha distraído. “Aqui”, repeti. “Aqui, quando escreves este verbo.” Continuava sem entender o que queria eu, mas qual o problema neste verbo.

Então percebi, com espanto, que ela pertencia à numerosa família dos escribas escravos dos sinónimos.

Vocês conhecem o sistema: consiste numa insuficiência qualquer na glândula jornalística que ataca cada caloiro que chega que o leva a desatar a escrever exactamente como toda a gente ao lado, numa ressonância sem critério ou hesitação.

O retrato mais fiel desta robotização progressiva do jornalismo assenta na incapacidade de repetir palavras. Quando pergunto por que não o fazem se servir melhor a comunicação (e que acontece na maio­ria dos nossos diálogos durante o dia), respondem-me, sem mais explicações, que assim foram ensinados. Algum professor de Jornalismo ou colega esperto lhes garantiu que é uma regra de ouro não repetir palavras. Não perderam dois segundos a interrogar-se.

Por isso a grande maioria dos textos jornalísticos segue um guião mais previsível do que o fogo posto. Imaginemos que lhes pedem prosa noticiosa sobre, por exemplo, algo que inclua o Presidente da República. Aposto com quem quiser arriscar perder uma nota de 500 paus que o mesmo homem terá designações diversas consoante os parágrafos. Se no primeiro ele for o Presidente da República, no segundo será António José Seguro, para no terceiro ser o chefe de Estado, e se houver um quarto ainda haverá espaço para nos recordar que ele é o comandante supremo das Forças Armadas.

Outro exemplo: a minuta do Vaticano. A notícia começará por falar do Papa, para depois referir o Sumo Pontífice, seguido do parágrafo com o líder (ou chefe) da Igreja Católica, fechando com Leão XIV. A ordem é amovível. E, já agora, se em vez de quatro parágrafos forem dez, como completa o texto o pobre escriba de notícia? A que saco sem fundo vai buscar os sinónimos?

A robotização progressiva não começou agora. Regressemos ao momento em que me espantei com o que vi no texto de uma jornalista e ela não viu. Um deficiente conhecimento do significado dos verbos.

Muitas vezes me senti na obrigação de repetir e repetir a inúmeros formandos: é nossa obrigação, não opcional, falar e escrever correctamente o português, tal como ao cirurgião se pede que saiba manejar o bisturi. Estamos na profissão de falar a língua sem mácula. É o dever que assinamos na carteira de jornalista. Há demasiada gente a escutar-nos e a tentar compreender o mundo connosco.

No caso em causa, na ânsia (insana, incompreensível) de estar constantemente a arranjar sinónimos sucessivos (o que não fazemos no linguajar oral), a jornalista decidira que “afirmar” e “confessar” são basicamente a mesma coisa.

Procurei explicar-lhe o que me parece simples. Mas não foi simples. Continuou a olhar-me de soslaio passivo-agressivo.

Argumentei que “afirmar” é irmão de “dizer” e que “confessar” será irmão de “admitir”. Tentei dar-lhe a imagem de um interrogatório, quando a tortura vai longa e os holofotes nos cegam, talvez confessemos finalmente o que quiserem, admitimos culpa. Confessar e admitir têm carga de significado que as distingue do simples dizer. Continuava sem perceber o meu ponto, uma vez que, defendeu-se, estava apenas a “variar” os verbos.

Pedi-lhe que lêssemos em voz alta. Talvez a luz se acendesse. É preciso explicar que a reportagem era sobre um actor qualquer bem-apessoado, chamemos-lhe fulano. Vejamos o que escreveu: “Fulano confessa que é um símbolo sexual.” Pedi-lhe que ouvíssemos as declarações do actor. Cito de memória: “Não tenho culpa se algumas pessoas resolveram olhar para mim mais como símbolo sexual do que como actor talentoso.”

Desisti. Não compreendeu na altura, nem nunca, que tinha realizado dupla falta jornalística. Um verbo fora de sítio e síntese mentirosa de declarações.

Estes dois perigos andam por aí, cada vez mais soltos, arremessados e inimputáveis, à medida que cresce o pontapé na língua, demasiadas vezes perdoado pelas chefias em nome da dinâmica velocidade de produção mimética e repetitiva.

É ouvir, todos os dias, em todos os horários, a disciplinada cacofonia de macacada de imitação a iniciar frases com “Então”, “Dizer que”, “Ora”. Já ninguém se ouve. Que digo eu? Claro que se ouvem, aliás só se escutam uns aos outros.

Talvez a língua não esteja ainda numa derrocada de avalancha cria­da pelo próprio jornalismo, mas está certamente num degelo preo­cupante. Da próxima vez falarei (não confessarei) sobre a espantosa designação que o jornalismo respeita acima de todas as outras. Chamar influencer a qualquer aberração de rede social.

Rodrigo Guedes de Carvalho. E-Revista Expresso, 14 de agosto de 2026 
 

Sem comentários: