sábado, 27 de julho de 2019
João Tordo | Entrevista
A propósito da publicação do seu último romance A mulher que correu atrás do vento
A mulher que correu atrás do vento
+ Leitur@s
Companhia das Letras, 2019
O
último romance de João Tordo não é “uma história de amor e perda narrada por quatro vozes femininas, ambientada em três cidades diferentes ao longo de um século”, conforme li, assim transcrito ou declinado em variáveis similares. Também é. Mas não apenas. Como primeira experiência, o romance corre o risco de ser confuso na forma e pretensioso no conteúdo; mas, na realidade, “A Mulher que Correu Atrás do Vento” é uma indeclinável experiência de leitura, tanto mais deliciosa quando melhor se conheça e se tenha aprendido a fruir do universo do escritor.
Começa por não ser fácil “endireitar” a linha da narrativa, uma vez que o arco espaciotemporal transcorre entre 1891, na Baviera (onde a professora de piano Lisbeth Lorentz se envolve sentimentalmente com Jost, um aluno autista de 13 anos), e outubro de 2017, algures em Lisboa, num café na Rua do Poço dos Negros, onde Beatriz, estudante e tradutora de Joyce, reencontra Jaime Toledo. Ter-se-ão passado décadas, pelas minhas contas, sobre o dia em que o autor de “A História do Silêncio”, romance sobre Lisbeth Lorentz, abandona Beatriz, concretamente 26 anos em 1992, a que acrescem quase os mesmos até 2017. A diferença é que neste encontro, voltando a chamá-la Gaivota, ele acede por fim a responder à pergunta que Beatriz lhe colocou antes da rutura, guardada durante todos aqueles anos e que se revela crucial para a narradora e para a narrativa: o que aconteceu a Jost. Intuímos que a resposta constitui a pedra basilar, mas o instante em que Jaime Toledo se dispõe a revelar o que desde sempre omitira coincide com as derradeiras duas linhas do livro de João Tordo.
Algures entre tempos e modos, delimitando contextos, Beatriz conhece Lia, uma adolescente destruída por circunstâncias de vida devastadoras. O inimaginável toma então as rédeas do romance e remete para o simbólico e para o translato, interagindo entre quem conta e quem é contado e assim validando a asserção de que uma personagem era o “anjo” da outra, as duas faces da privação e do desamparo.
Entretanto, desfiam os anos num vaivém entre Lisboa e Londres, vertidos para o próximo presente no relato que um dos dois anjos (Lia, ou Lia na versão de Beatriz?) faz a uma terapeuta, ajuda inestimável para o enquadramento da história, “assombrosas criaturas” que partilham muito mais do que suscita o relato linear. Todo o texto está, aliás, polvilhado de múltiplos registos de alguma maneira extemporâneos na sua relação com ele. Refiro-me principalmente a duas ordens de apontamento. A primeira, muito interessante, tem a ver com a capacidade que Tordo tem de plasmar anotações que se encadeiam, de forma muito sensitiva, trazendo ao leitor toques de pele, aromas, sons, olhares e sabores com uma mestria próxima da perfeição; a segunda, menos aliciante, tem por eixo um emaranhado de referências díspares, por vezes ao ponto de “atrapalhar” o fluxo da narrativa ao lhe subtrair a consistência, como quando mais de uma dezena de compositores irrompem em catadupa e desfraldam cultura ao lado de outros tantos escritores, vinculando mais o desígnio do escritor do que o sentido da diagonal narrativa.
A polifonia que corresponde a um lugar perfeito é o excerto perfeito, algures contido na tradução do último conto de “Dubliners”, que Beatriz segura como um amuleto e que denomina o capítulo medial do livro: “os Mortos”, entendidos numa sequência de emoções remissíveis para um mesmo sentimento de ausência, quer este se decline em abandono, suicídio, não-existência, negação, perda ou fuga. Este quarto capítulo permite aceder aos dois seguintes que, engastados, articulam todos os outros: “O Lugar Perfeito” que constitui o núcleo central e recorrente ao longo de toda a narrativa (quadro, paisagem, estado de alma, cenário, melodia) e “Ensaio Geral”, disruptivo no formato, fraturante no teor. Os dois aglutinam a trama, subvertem-na e alteram a trajetória depois de deixar o leitor atónito e a braços com a resolução do puzzle em que se transformou a história. Porque, no limite, o escritor desarticula a temática, e toda a história, a começar pelo título, remete, não para nenhuma das quatro mulheres, das três cidades, do século que permeia a ação, mas para o ato primordial de escrever: “(...) esta compulsão inútil de que padecem os escritores (...) os que escrevem porque, se não o fizerem, continuarão a correr infinitamente atrás do vento?” João Tordo, no seu melhor.
Luísa MELLID-FRANCO
E-Expresso Revista, 20 de julho de 2019
E-Expresso Revista, 20 de julho de 2019
Sobre os tabus

Os tabus, embora não admitidos, são potentes. O que temem as pessoas? O que não entendem. O civilizado não difere do selvagem.
Henry Miller (1891-1980). O Pesadelo do Ar Condicionado
Nós e os outros
Maria Filomena Mónica
E-Revista Expresso
Q
uando tiveram de enfrentar os persas, os gregos antigos descreveram-nos como “barbaroi”, ou seja, como seres incapazes de se comportarem de acordo com as suas próprias leis. Não foram apenas eles a assim olharem os estrangeiros. O retrato estereotipado do ‘outro’ tornou-se um passatempo vulgar, repetido pela escolástica medieval e, depois, adoptado pelos filósofos do Renascimento, obcecados com o apogeu e o declínio dos impérios e das nações. Após o Iluminismo do século XVIII, quando os philosophes passaram a defender a ideia de uma humanidade universal, a visão caiu em desuso mas nunca desapareceu.
Como é evidente, sobre os portugueses também existem estereótipos. Há o retrato, que vem do Iluminismo, de uma terra povoada por homens atrasados, incultos e brutos; mais tarde, fruto da mentalidade romântica, o de um país habitado por seres pitorescos, excêntricos e anárquicos; e finalmente o de uma Arcádia que teria resistido às investidas do mundo moderno.
Em 1977, Castelo Branco Chaves, que estudou os relatos dos viajantes que vieram a Portugal no século XVIII, afirmou que, embora houvesse retratos positivos, a maioria caracterizava os portugueses como vaidosos e impostores; altivos e arrogantes; hipócritas; vingativos; ignorantes; velhacos; traiçoeiros; desonestos; pedinchões; inconstantes; supersticiosos; fanfarrões; sensuais; ciumentos e preguiçosos.
Após o exaltado debate sobre o racismo — note-se que muitos jovens com ascendência africana são tão portugueses quanto eu — penso que é útil ouvir a voz de Pêro Vaz de Caminha
Mas vamos à questão do comportamento dos negros. Basta olhar os dois quadros, há pouco expostos no Museu de Arte Antiga, que retratam a Rua Nova dos Mercadores de Lisboa no século XVI, para constatar os muitos negros, alguns bem vestidos, que por ali se passeavam entre nobres e burgueses. Em 1551, alguém estimou que 10% dos 100 mil lisboetas eram negros. Em 1578, a percentagem aumentara para 20% dos 250 mil habitantes. Claro que sei que este foi um período excepcional, mas existiu.
A cidade onde eu nasci conviveu sempre com negros. Sim, a maioria era pobre, mas nós víamo-los na rua, sem que eu tivesse notado incidentes de racismo, situação que, reconheço, se alterou depois de 1974, quando muitos residentes das ex-colónias fugiram para Portugal. Infelizmente, não encontraram aqui emprego, tendo sido obrigados a viver em bairros que depressa se tornaram ‘guetos’. A pobreza foi sobretudo dramática na segunda geração: daí os ocasionais distúrbios. Não os estou a desculpar, mas a tentar compreender o que se tem passado.
Após o exaltado debate sobre o racismo — note-se que muitos jovens com ascendência africana são tão portugueses quanto eu — penso que é útil ouvir a voz de Pêro Vaz de Caminha aquando do ‘achamento’ do Brasil. Eis como, em 1500, ele descreve o encontro entre os nativos e o primeiro branco: “Acudiram pela praia homens, quando dois, quando três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, estavam ali dezoito ou vinte homens pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas (…) e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pusessem os arcos. E eles os depuseram.”
Expresso, 2o de julho de 2019
Maria Filomena Mónica escreve de acordo com a antiga ortografia
sexta-feira, 26 de julho de 2019
Coisas que acontecem
Desafios Ler+ | Texto de opinião
Coisas que acontecem é um livro indicado para adolescentes pois é nesta mesma fase da vida que a autora se inspira para o escrever.
Inês Barata Raposo mostra um lado da adolescência que nem todos são capazes de ver, o lado da imaginação. E é essa imaginação que torna este livro diferente. Para além da imaginação, a autora também refere a realidade de se ser adolescente.
A autora mostra um grande interesse pela palavra amizade, assim sendo, esta ocupa grande parte do livro e grande parte da autora.
Concluindo, na minha opinião este é um livro bastante interessante pois dá a ver o que realmente se passa na cabeça de um adolescente.
E agora navega a ler pois há Coisas que acontecem!
Anabela Morais Pereira*
Férias 2019
* A Anabela está a participar nos Desafios Ler+ promovidos pelo Plano Nacional de Leitura para o período de férias.
Violência escolar e bullying
Relatório UNESCO
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A publicação “Behind the numbers: ending school violence and bullying”, da responsabilidade da UNESCO, apresenta uma visão abrangente e atualizada não só da prevalência, mas também das tendências globais e regionais, relacionadas com a violência na escola, e examina a natureza e o impacto da violência escolar e do bullying.
O relatório refere que quase um aluno, em cada três, foi intimidado pelos colegas, na escola, no último mês. Este estudo, que envolveu 144 países, é a maior investigação feita, até à data, sobre estas problemáticas.
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