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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Árvore de leituras










Partilhamos a árvore dos poetas de Maria de Fátima Roldão, editora da revista de poesia contemporânea "Nervo" .

A Bibloteca tem dois números desta revista, oferecidos por Maria F. Roldão, disponíveis para consulta .



👉Quem quiser partilhar connosco a sua árvore de leituras/autores, pode enviá-la por email para a Biblioteca para ser publicada.  


domingo, 22 de setembro de 2019

Gato que brincas na rua





Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
1-1931
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). 
 - 131.


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Alberto Caeiro por Mário Viegas



RTP Ensina


Quem é Fernando Pessoa? Quem é Alberto Caeiro e como nasceu este heterónimo? Mário Viegas faz as perguntas ao poeta e escritor, convidado especial deste programa, numa reconstituição do quadro de Almada Negreiros. E diz poemas do livro Guardador de Margens.



 http://ensina.rtp.pt/artigo/mario-viegas-e-fernando-pessoa-em-palavras-ditas/?utm_term=No+Ensina+Fernando+Pessoa%2C+por+Mario+Viegas%3B+jovens+e+sexualidade%3B+Nacoes+Unidas+explicada+aos+mais+novos+e+a+historia+do+cobertor.&utm_campaign=RTP+Newsletters&utm_source=e-goi&utm_medium=email




quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Voa coração. Ou então arde.






Foto de Pietro Cataudella




Epitáfio


Barcos ou não
ardem na tarde.


No ardor do verão
todo o rumor é ave.


Voa coração.
Ou então arde.


Eugénio de Andrade
(1923-2005)



domingo, 14 de julho de 2019

Uns, com os olhos postos no passado




Clips RITCS (Royal Institute for Theater, Cinema & Sound)





Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
28-8-1933
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 
 - 154.



sexta-feira, 19 de abril de 2019

A leitura é um encontro entre duas peças imperfeitas




Esculturas feitas de páginas de livros, criadas por Jodi Harvey Brown





«É que o livro tem de ter estilo. Mas o leitor, caramba, também tem de ter estilo.»

«Eu, para ler um livro, tenho de ter estilo?»

«Estilo, personalidade, voz própria, idiossincrasia, temperamento, pinta, podes chamar-lhe o que quiseres que vai dar ao mesmo.»

«Mas eu nunca tive grande jeito para...»

«É essa precisamente a ideia. Mas tens de encontrar um jeito. E, quando o encontrares, esse passa a ser o teu jeito.»

«Não estou...»

«Digamos que, como no amor, a leitura é um encontro entre duas peças imperfeitas que se podem complementar na perfeição.»



Zink, Rui (2004). O Anibaleitor. Teodolito: Lisboa. pp. 98-99




quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A felicidade exige desassossego



Palavra de autor : #Afonso Cruz  






A ideia com que Tolstoi inicia Anna Karenina (de que todas as famílias felizes se parecem e as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira) tem sido um dos grandes motores da literatura que lhe sucedeu. Afonso Cruz pega nela, disseca-a, multiplica-a e questiona: O que é uma família feliz? No seu último livro, vai da Mealhada à Cochinchina, do desejo de perfeição às muitas variáveis da imperfeição, tentando acercar-se da felicidade “como textura”, para concluir que é possível ser feliz até quando se sofre.

Em Palavra de Autor, Afonso Cruz conversa com Cristina Margato e lê passagens de Princípio de Karenina.





Autor: Afonso Cruz
Editor: Companhia das Letras
Data de lançamento: 06/11/2018 
ISBN : 9789896656928 
Nº Páginas : 168






sábado, 29 de dezembro de 2018

Labirinto




Trabalho escolar (pormenor) 




LABIRINTO

Perdi-me nos teus braços, alamedas 
Onde o tempo caminha e descaminha. 
Pus a força que tinha 
Na instintiva defesa 
De encontrar a saída, a liberdade. 
Mas agora Teseu era um poeta, 
E Ariane a poesia, o labirinto. 
Desajudado, 
Só me resta cantar, deixar marcado 
O pânico que sinto.

Miguel Torga, Diário VII

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Na última página de uma antologia nova








Tantos bons poetas!

Tantos bons poemas!

São realmente bons e bons,

Com tanta concorrência não fica ninguém,

Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,

Obtendo lugares por capricho do Empresário.

Tantos bons poetas!

Para que escrevo eu versos?

Quando os escrevo parecem-me

O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —

A única coisa grande no mundo...

Enche o universo de frio o pavor de mim.

Depois, escritos, visíveis, legíveis...

Ora... E nesta antologia de poetas menores?

Tantos bons poetas!

O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue

O génio, e os bons poemas dos bons poetas?

Sei lá se realmente se distingue...

O melhor é dormir...

Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —

Sou vulgar?...

Há tantos bons poetas!

Santo Deus!...
1-5-1928
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. 
 - 83.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Sois uma dama de grão merecer





A arte e engenho de Camões, associados ao ludismo e ao humor, estão presentes neste poema, resultando daí uma dupla chave de leitura: o retrato disfórico da dama, que evoca as cantigas de escárnio e maldizer dos trovadores medievais, e o retrato elogioso, que evoca a poesia provençal de superlativação da mulher.

O primeiro retrato resulta da leitura da primeira parte de cada verso (excluindo, portanto, tudo o que surge escrito a azul). 

O segundo retrato emerge da leitura integral do poema (ignorando a diferenciação da cor).  



Sois uma dama de grão merecer

das feias do mundo andais apartada

de todas da má fama andais alongada

sois cabo profundo de bem parecer

a vossa figura bem claro mostrais

não é pera ver em vós fealdade

em vosso poder não há i maldade

não há formosura que não precedais.



Vós fostes dotada de fresco carão

de toda a maldade vos vejo ausente

perfeita beldade em vós é presente

de vós é tirada a má condição

sois muito acabada em ter perfeição

de tacha e de glosa mui alheia estais

pois quanto a fermosa mui muito alcançais

em vós não há nada de pouca razão.

Luís Vaz de Camões


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Entrevista a Gonçalo M. Tavares



"As pessoas leem para ter lucidez." 








Eu não quero mudar o mundo. 
Não tenho tempo para isso. 
Quem quer mudar o lugar do mundo actua como quem muda o lugar de um móvel: 
empurra primeiro para um lado, 
foi força demais, 
empurra então para o outro lado, 
agora com força de menos, 
depois mais um pequeno toque para lá 
e um ainda mais pequeno toque para lá, 
e agora sim: 
o móvel está no lugar. 
Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam 
lá dentro se encontram todos partidos. Estão a ver? 

Os copos todos partidos. Que aborrecimento. 
Não nos lembrámos da fragilidade do vidro. 

Gonçalo M. Tavares, in O homem ou é tonto ou é mulher


sexta-feira, 8 de junho de 2018

O universo da infância


Disponível na Biblioteca



Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura
3º Ciclo | Leitura Autónoma


Enquanto Lúcia se deslumbra com o brilho da alta sociedade e deixa tudo para trás para pertencer a esse mundo, Hans desafia os mares para fazer cumprir o seu destino. Nestas histórias, em terra e no mar, as personagens procuram a sua verdadeira vida, que se revela nos espaços, na noite, no silêncio, no som do mar.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Depus a máscara e vi-me ao espelho






Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos. 
Não tinha mudado nada... 
É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 
É-se sempre a criança, 
O passado que foi 
A criança. 
Depus a máscara, e tornei a pô-la. 
Assim é melhor, 
Assim sem a máscara. 
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos

sábado, 28 de abril de 2018

Obra de Camilo traduzida em mirandês









Está disponível para consulta na biblioteca a tradução em mirandês de A queda dum anjo, romance de Camilo Castelo Branco.

O livro foi oferecido à escola pelo Dr. José Manuel Oliveira, Diretor da Casa de Camilo e do Centro de Estudos Camilianos.



quarta-feira, 25 de abril de 2018

Quero dos deuses só que me não lembrem








Quero dos deuses só que me não lembrem. 
Serei livre — sem dita nem desdita, 
Como o vento que é a vida 
Do ar que não é nada. 
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos, 
Cada um com seu modo, nos oprimem. 
          A quem deuses concedem 
          Nada, tem liberdade. 

Ricardo Reis, in Odes

domingo, 25 de março de 2018

Ode ao gato





Tu e eu temos de permeio 
a rebeldia que desassossega, 
a matéria compulsiva dos sentidos. 
Que ninguém nos dome, 
que ninguém tente 
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza, 
pois nós temos fôlegos largos 
de vento e de névoa 
para de novo nos erguermos 
e, sobre o desconsolo dos escombros, 
formarmos o salto 
que leva à glória ou à morte, 
conforme a harmonia dos astros 
e a regra elementar do destino. 

José Jorge Letria, in Animália Odes aos Bichos