quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Leituras na Feira

 

 

 












 

Nos dois dias em que decorreu a Feira do Livro, na Camilo, muitos dos alunos que por lá passaram (no seu tempo livre ou em tempo letivo acompanhados por professores) escolheram um livro e partilharam leituras em voz alta.


Um dos textos partilhados foi o poema "Casa Branca", de Sophia de Mello Breyner, que aqui pode ser ouvido através do QR Code.

 



CASA BRANCA


Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...


A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.
Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.


in Poesia, 1944

Feira do Livro

 

28 e 29 de novembro 2023

Átrio da escola




                         "La máquina del tiempo existe: son los libros.”
                          Irene Vallejo





 


 

 Ler acrescenta!

 

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Mural Orange the World

 

 

 





No passado dia 27 de novembro, festejámos o Dia Laranja, e iniciámos a nossa participação nos 16 dias de ativismo contra a violência de género, promovidos pela ONU, com um Mural, situado na escadaria de acesso à Biblioteca.
 
Até 10 de dezembro, Dia dos Direitos Humanos, toda a Comunidade Educativa é convidada a deixar o seu testemunho sobre a violência sobre as mulheres e meninas, deixando uma palavra junto da impressão laranja da sua mão. 
 
Atividade articulada entre a Biblioteca e os professores de Educação Especial.
 



 

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Escola a ler... Contra a violência de género | 7º



27 de novembro, Dia laranja
 
Eu, Mala, de Malala Yousafzai, foi o livro selecionado pela Biblioteca como proposta de leitura em voz alta pelos alunos das turmas do 7º ano.
 
Malala Yousafzai é uma ativista paquistanesa que ficou internacionalmente conhecida por defender o direito das mulheres de terem acesso à educação. Ele morava numa região dominada pelos Talibã e desafiou as ordens desse grupo fundamentalista de parar de estudar. O seu ativismo fez com que ela se tornasse alvo dos Talibã e fosse vítima de um atentado em 2012. Sobreviveu e, em 2014, recebeu o Nobel da Paz.

 

Ver o excerto aqui.  

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escola a ler... Contra a violência de género | 8º

 

 

27 de novembro, Dia laranja



Condenada à morte, de Antonella Napoli, foi o livro selecionado pela Biblioteca como proposta de leitura em voz alta pelos alunos das turmas do 8º ano.
 
 
 
 EXCERTO:

  Meriam entrou na sala de audiências em passo lento. As correntes mordiam-lhe os tornozelos, já lacerados durante a longa detenção, e produziam um ruído sinistro, semelhante a um lamento. Mas avançava de cabeça erguida, com um olhar firme e decidido.
  Quando se sentou no banco dos réus, lançou um olhar em direção à cadeira mais elevada, aquela onde se erguia a figura daquele que dali a pouco ia decidir a sua existência. O juiz do tribunal periférico de Cartum, Abbas Mohammd Al-Khalifa, tinha uma expressão hostil que confirmava a fama de magistrado intransigente e severo, o mais cruel da capital.
  - Adraf Al Hadi Mohammed Abdullah – perguntou, em tom depreciativo, tratando-a pelo seu nome islâmico – que tens a dizer?
  - O meu nome é Meriam, meretíssimo, e não tenho nada a acrescentar àquilo que já declarei – respondeu com uma voz calma e clara. – Sou uma ortodoxa praticante e não cometi apostasia, uma vez que nunca conheci outra religião para além da cristã.
  Sabia que podia pagar um preço altíssimo por aquelas palavras, mas a voz da consciência era demasiado forte para calar. Já tinha aprendido a dominar o medo, a suportar ameaças e humilhações, estava quase habituada. Por outro lado, o processo tinha assumido uma péssima orientação desde o início, não era mais do que o culminar de uma perseguição iniciada alguns meses antes, quando uns supostos parentes do pai, de quem Meriam não recordava sequer o nome, a tinham denunciado porque, apesar de ser muçulmana, se tinha casado com um cristão. Afirmavam que o seu verdadeiro nome era Adraf Al Hadi Mohammed Abdullah e que o tinha mudado depois de ter abandonado a família e de se ter convertido.
  Os seus advogados tinham pedido ao juiz para ouvir algumas testemunhas que falassem em sua defesa, prontas para desmentir a tese dos acusadores, mas o pedido não foi aceite. Durante todo o debate não foi admitida nenhuma testemunha a seu favor.
  - Foram-te concedidas setenta e duas horas para regressares ao Islão, mas não quiseste aceitar a benevolência dos teus irmãos muçulmanos. Por isso, mereces ser enforcada.
  As palavras do magistrado ecoaram na sala e tiveram repercussão nos rostos aterrados dos presentes. Meriam voltou-se para os advogados, depois olhou para Daniel. Permaneceu impassível, enquanto o rosto do marido se enchia de lágrimas. Ela não, não conseguia chorar. Observava um juiz, olhava-o diretamente nos olhos.

NAPOLI, Antonella – Condenada à morte. Lisboa: ASA, 2015, pp. 13-15. ISBN 9789892333670

 

Escola a ler... Contra a violência de género | 9º, 10º

 

27 de novembro, Dia laranja
 
 
A pequena vendedora de fósforos de Cabul, de Diana Mohamadi, foi o livro selecionado pela Biblioteca como proposta de leitura em voz alta pelos alunos das turmas do 9º, 10º e 1º ano dos Cursos Profissionais.
 
 
 
EXCERTO:
 
Se a mamã tem tão boas razões para estar nervosa, foi porque cometeu, há alguns anos um crime relativamente ao qual nunca irá perdoar-se. Digo “crime” porque é assim que ela o vive, embora no Afeganistão o ato dela não tenha nada de repreensível. Pelo contrário, é algo perfeitamente comum. A mamã, seguindo os conselhos da avó, vendeu a minha irmã mais velha, Farzana, a um talibã que a cobiçava há algum tempo. Já não tínhamos dinheiro ou o que quer que fosse para comer. Por isso, quando Rachid veio a casa pedir a minha irmã em casamento, a minha mãe não teve outra escolha senão dizer “sim”. Farzana tinha 13 anos. A idade que tenho hoje. Penso muitas vezes nisso.
Lembro-me perfeitamente da boda. Não teve nada de habitual. Os casamentos, de qualquer forma, nunca são muito felizes. A noiva tem de estar triste e chorar um pouco para mostrar aos pais que está triste por ter de os abandonar. A minha irmã não teve de se esforçar. No seu vestido verde tradicional, o rosto dela parecia ainda mais pálido. Não tinha a maquilhagem exagerada que, de um modo geral, as noivas ostentam, porque os talibã proibiam-na. Parecia tão pequena sentada no chão, com as pernas atrás de uma almofada. Baixava a cabeça, e a sua inclinação não nos permitia distinguir-lhe a boca, que ela mordia com força para não chorar. Não houve música. Não houve dança. A mamã penteara-nos lindamente, às raparigas. Excecionalmente, a refeição tinha carne. O papá sorria. A mamã também. Ela dizia a Farzana: “Vais ser feliz com ele. É um homem respeitado. Protegerá a tua virtude e cuidará de ti.” Farzana olhava para ela e aquiescia, como se também ela quisesse acreditar naquilo, naquela hipocrisia de felicidade familiar. Tudo era então mentira.
Percebo-o melhor hoje, quando vejo quanto a minha mãe sofre na pele por ter sacrificado e vendido a filha. Do dia para a noite, Farzana teve de se despedir da infância e entrar com fracasso na sua nova vida de adulta e de mulher. Tudo isto em troca de cerca de 2000 dólares.
Hoje tenho a idade de Farzana e apercebo-me de como esse casamento forçado e a saída precipitada de casa devem ter sido uma violência terrível para ela. Era apenas uma menina, e os adultos não souberam protegê-la. Decoramos vagamente um táxi com flores de plástico e grinaldas. Não houve fotografias nem vídeos, porque o novo marido da minha irmã, na sua fúria iconoclasta , bania qualquer reprodução humana ou animal. A minha irmã entrou no táxi com o marido, um homem 20 anos mais velha do que ela. Repetia-me: “Não posso, Diana, não sei… Não sei ser uma esposa.” Eu era ainda tão pequena… O que podia dizer-lhe? Comprada por 2000 dólares para enterrar a sua infância e aceder a uma vida de miséria…Farzana levou dois anos a ficar grávida. O marido dela começava a dizer que lhe tínhamos vendido uma má rapariga. De facto, ela ainda não entrara na puberdade!
Com certeza que a mamã gostaria de ser uma mãe como as outras. Uma mãe que protege os filhos das rudezas do mundo. Mas não teve alternativa. Ao sacrificar uma filha, salvava os outros 13 filhos. Deve ter sido o que pensou para aceitar o impensável. É o que me diz quando consegue falar nisso. A maioria das raparigas no Afeganistão é casada antes da idade legal de 16 anos. Com os pachtuns, uma tribo do Sul e do Leste, acontece frequentemente que meninas de 5 anos sejam já prometidas a homens bem mais velhos. Dito de forma menos consensual, nós, raparigas afegãs, temos um verdadeiro valor mercantil. Essa situação mete-me nojo, a ponto de me prometer a mim mesma nunca vir a casar-me. Não sei se conseguirei opor-me a essa tradição, pois os costumes são tão resistentes!
 
MOHAMADI, Diana – A pequena vendedora de fósforos de Cabul. Lisboa: Livros de Seda, 2010, pp. 79-81. ISBN 9789727707829

Escola a ler... Contra a violência de género | 11º

 

 

 

 

27 de novembro, Dia laranja
 
 
Naziran, uma mulher sem rosto, de Naziran (com a colaboração da jornalista Célia Mercier) foi o livro selecionado pela Biblioteca como proposta de leitura em voz alta nas turmas do 11º ano e do 2º ano Dos Cursos Profissionais TAS e TAP.
 
 
 
 
 
 
 
EXCERTO:
Quatro dias após o parto, Kirane ordena-me que me levante, embora ainda seja de noite:
- Então, Naziran, pensas que vais repousar como se nos tivesses dado um filho? Que julgas tu? Vai trabalhar?
Apesar do meu estado e da dor que ainda me rasga o ventre, levanto-me com dificuldade. Segundo as nossas tradições, uma mulher descansa até 40 dias depois do parto. Mas não é assim que Kirane vê o problema. Recomeço, pois, a trabalhar, constrangida e forçada. Tenho de lavar a roupa, de cozinhar, de limpar a casa. Uma vez terminadas estas tarefas, vergada pelas dores, vou trabalhar para o campo. Levo a minha filha ao colo. Ela adormece, enrolada numa manta.
[…] Sinto-me apaziguada quando a estreito contra mim. Preciso, todavia, de dar um filho a Adil. O próximo bebé terá de ser rapaz.
Passados seis dias, damos um nome à menina. Adil quer absolutamente que ela se chame Hina. Não gosto do nome, recorda-me demasiado a minha cunhada, mas deixo-o escolher. Com o decorrer do tempo, Adil acaba por se afeiçoar à filha.
Em casa, recomeçou o pesadelo. Adil faz-me pagar a deceção de não lhe ter dado um rapaz. As agressões, os insultos… A minha sogra não se cansa de me censurar, considera-me demasiado lenta. Choro frequentemente, sinto-me cada vez mais deprimida. Após um dia de trabalho, desfaço-me em lágrimas atrás do muro que cerca a casa, à beira da valeta.
Certa manhã, estou agachada no pátio a diluir pesticidas na água de uma bacia. […] Adil está ao meu lado, aguarda com impaciência que eu termine a tarefa. Olho para ele, tenho uma pergunta para lhe fazer:
- O casamento da tua cunhada realiza-se em breve, não é verdade? Não tenho roupa apropriada.
Adil lança-me um olhar maldoso, replica:
- Pede ao teu pai, já que é tão generoso!
Desfaço-me em lágrimas.
- Estás a ser injusto, agora és tu o meu marido, e és tu que deve ocupar-se de mim.
- Cala-te e termina o que estás a fazer.
Com os olhos marejados de lágrimas, continuo a remexer a mistura na selha. Adil acha-me demasiado lenta.
- Transmites infelicidade! Estou farto de te ver sempre a chorar. Despacha-te!
Adil esbofeteia-me. Debato-me. Então, ele apodera-se de uma pesada barra de ferro guardada na cabana dos utensílios e atinge-me a cabeça. Grito, tenho o crânio fendido, o sangue espalha-se por toda a parte e já não vejo nada.
 
NAZIRAN – Naziran – uma mulher sem rosto. Lisboa: Albatroz, 2022, pp. 93-94. ISBN 9789720045713