quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Carta de uma adolescente aos adultos

 

 




 

 

Queridos Adultos,

Daqui escreve-vos uma adolescente. Primeiro que tudo, queria pedir que acalmassem essas hormonas. Isto porque quando se fala dos vossos filhos adolescentes, parecem as nossas.

Nós não somos um problema, não somos todos deprimidos. Temos opiniões, sabemos falar, não temos uma linguagem diferente da vossa. Queria pedir-vos também que larguem esse preconceito de que a palavra “adolescente” tem a mesma origem que a palavra “problema”. Larguem os livros que compraram sobre como lidar com um adolescente, nós não precisamos todos da mesma coisa, pelo contrário, tentem conhecer-nos, perceber o que nos faz felizes, o que nos faz tristes, o que nos magoa, as feridas que ainda temos abertas.

Motivem-nos! Nós precisamos de ser motivados, cada um de nós precisa de acreditar que tem o poder de mudar. Somos a próxima geração, não queremos ouvir “este país está a descambar”, “é tudo uma vergonha… que horror!”. Motivem-nos! É em nós que têm de pôr a pressão toda, não desistam de nós. Abram as nossas mentes, não nos deixem pensar tudo quadrado!

Quanto ao ensino… Bem, quanto ao ensino, tentem perceber que não é fácil estar 90 minutos a olhar para um professor a debitar matéria. Nesses 90 minutos há sempre alguma coisa mais engraçada para prestar atenção do que estar a ouvir o professor, por isso, tentem ensinar de outra maneira, não nos obriguem a decorar, ajudem-nos a perceber.

Deixem-nos cair as vezes que forem necessárias, nós precisamos disso mesmo, precisamos de cair. São as quedas que nos vão mostrando como somos fortes e como somos capazes de ultrapassar os obstáculos da vida. Não nos aparem os golpes, temos que aprender sozinhos.

Não nos tentem ensinar o que demoraram 40 anos a aprender. Vocês aprenderam vivendo e nós também vamos ter que viver para aprender. Deixem-nos viver, deixem-nos demorar o tempo que for preciso a aprender… Enquanto vocês vivem tudo a 500, nós vivemos tudo a 5000 e é normal fazermos de uma coisa pequena um grande drama, não se zanguem connosco por isso. Mostrem-nos que não é nenhum drama, mostrem-nos que existe solução e que há coisas bem piores.

Deixem-nos viver intensamente.

Podem ser os melhores anos das nossas vidas, é “SÓ” ajudarem-nos a viver.

Obrigada,

Uma Adolescente


Referência: Raposo, Matilde (2016). Carta de uma adolescente aos adultos – Capazes. Capazes. Retrieved 17 August 2025, from https://www.capazes.pt/cronicas/carta-de-uma-adolescente-aos/view-all

 

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Turismo literário - construção e exploração de roteiros

 

 

 

 

 



Guia prático para profissionais e estudantes de turismo, autarquias, bibliotecas, museus, professores e agentes culturais. O que têm em comum uma biblioteca histórica, um café literário, uma casa-museu de escritor e um guia-intérprete apaixonado por livros? Todos podem ser protagonistas de experiências únicas de Turismo Literário – e este livro é o mapa que liga cada um desses pontos.

Pensado para um público vasto, este guia prático revela como construir, promover e dinamizar percursos inspiradores, com impacto educativo, económico e cultural. De forma acessível e criativa, oferece ferramentas, exemplos reais, sugestões de itinerários e estratégias para transformar o património literário em experiências turísticas envolventes.

Considerando o crescente interesse que o mundo fascinante do turismo literário suscita, esta obra apresenta-se como um valioso recurso para todos aqueles que pretendem desenvolver e implementar roteiros literários de qualidade. Seja para reinventar a sua cidade, enriquecer a sala de aula ou criar novos produtos turísticos, este livro convida-o a cruzar literatura e território, páginas e lugares, leitores e viajantes.

Viaje por histórias reais. Construa e explore itinerários com alma.

O que pode encontrar neste livro?

· Noções e conceitos fundamentais
· Tipos de roteiros literários
· Promotores e públicos
· Recursos e inventariação
· Etapas da construção de roteiros literários

E ainda:

· Fotografias ilustrativas, acompanhadas de códigos QR
· Secções para verificação de conhecimentos
· Fichas de exemplo
· Recomendações e sugestões
 
 

 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Camões e os saberes - Academia das Ciências de Lisboa

 

 #camões500  #alermaisemelhor   #bibliotecaccbvr

 


  

 


José Luís Cardoso, Vice-Presidente da Academia das Ciências de Lisboa e Presidente da Classe de Letras, partilha neste vídeo o papel central da Academia nas comemorações do V Centenário do nascimento de Luís de Camões, sublinhando a sua vocação para cultivar e promover o diálogo entre as várias áreas do conhecimento. Nesta intervenção, José Luís Cardoso revisita a exposição Camões Universal, inaugurada em 2024 e prolongada em 2025, dedicada às traduções de Os Lusíadas em 24 línguas, apoiada na notável coleção camoniana da Academia — integralmente digitalizada e disponível ao público. 
 
Apresenta ainda o espírito e a ambição do Colóquio Camões e os Saberes, realizado a 27 e 28 de maio de 2025, que reuniu especialistas de áreas como a matemática, a ciência náutica, a cartografia, o direito, os estudos literários e a economia. O foco da sua comunicação recai sobre um aspeto menos explorado da obra camoniana: a reflexão económica presente em Os Lusíadas, onde Camões aborda o novo mundo de mercadorias e trocas comerciais aberto pela expansão portuguesa. Atento às relações de comércio, às moedas e aos câmbios, o poeta revela-se também um pensador das interações humanas e políticas mediadas pelo comércio, defendendo princípios de justiça e equilíbrio nas trocas entre povos. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

A IA está a roubar o primeiro emprego aos jovens licenciados?

 

 

Ai Gerado, Robô, Andróide, Futurista


2025 não está a ser um bom ano para sair da faculdade e arranjar o primeiro emprego. Nem mesmo para quem sai das melhores faculdades. Os primeiros números sobre desemprego jovem chegam-nos dos EUA e começam a preocupar:

Pela primeira vez desde a pandemia, a taxa de desemprego entre os recém-licenciados nos Estados Unidos tem estado, consistentemente, acima da média nacional. E na própria União Europeia, a taxa de emprego entre os jovens até aos 25 anos diminuiu nos últimos dois anos.

Porquê?

A IA é uma das causas apontadas.

Segundo o Financial Times, nos Estados Unidos, os empregos de entrada na área tecnológica estão a reduzir a galope devido à automatização de inúmeras tarefas.

E no Reino Unido, as quatro maiores empresas de auditoria (Deloitte, PwC, Ernst & Young e KPMG) reduziram as contratações de início de carreira nos últimos anos e os especialistas - economistas e recrutadores - acreditam que tal se deve à redução de custos com o uso de inteligência artificial em tarefas administrativas que normalmente seriam realizadas por profissionais juniores.

Isto leva-nos ao chamado ‘paradoxo da experiência’ - como é que um trabalhar ganha experiência se não tem emprego? Mais tarde, esse mesmo trabalhador não conseguirá emprego por… falta de experiência.

Ou seja, a taxa de desemprego elevada entre os jovens levanta preocupações não só sobre a qualidade dos empregos disponíveis, mas também no impacto que isto tem a longo prazo nas suas carreiras.

Conclusão: o desemprego jovem prolongado leva à perda de talento, compromete a inovação e a produtividade futura.

Isto agrava as desigualdades entre gerações, dificulta a mobilidade social e afeta brutalmente o equilíbrio demográfico a médio e longo prazo.

Já para não falar dos problemas de saúde mental que esta tensão laboral provoca, como depressão, ansiedade, sentimentos de exclusão e sobretudo frustração entre os que acabam de chegar ao mercado de trabalho.

Em suma, é fundamental que o sistema de ensino se atualize rapidamente e possa preparar os alunos desde cedo para um mundo do trabalho em acelerada transformação tecnológica. Mas Estado e setor privado também são responsáveis pela integração e renovação da força de trabalho. É preciso pensar a fundo que revolução tecnológica é esta e como pode ser aproveitada a nosso favor (entenda-se, a favor dos humanos)…

Joana Beleza, Jornal Expresso, 17 julho 2025


sexta-feira, 25 de julho de 2025

Ebook | Crianças, Jovens e media: Vidas (Des)Ligadas?

 

 

 

Sara Pereira & Daniel Brandão (eds), UMinho Editora, julho 2025

 



A obra Crianças, Jovens e Media: Vidas (Des)Ligadas? Atas do Congresso bYou reúne, na primeira parte, o texto de introdução do congresso e os textos dos dois oradores da conferência de abertura: Ana Beatriz Pereira, aluna do 12.º ano da Escola Secundária Vitorino Nemésio, e João Marecos, advogado e investigador ligado a vários projetos culturais, jornalísticos e de cidadania. 
 
Na segunda parte, são apresentados 10 textos de investigadores nacionais e internacionais que participaram no evento. 
 
A terceira parte inclui o Manifesto produzido a partir da discussão, das conclusões e das recomendações dos dois dias de trabalho. Inclui igualmente um texto poético da autoria de José Miguel Braga, inspirado nos resumos das comunicações dos participantes, bem como em textos produzidos no âmbito do projeto bYou.
 

sexta-feira, 18 de julho de 2025

A brincadeira

 

  #alermaisemelhor

 

Milan Kundera - Portal da Literatura

“Nenhum grande movimento que pretende transformar o mundo pode tolerar o sarcasmo e a troça, porque é uma ferrugem que corrói tudo”, escreve Kundera



Enquanto decorre nos tribunais portugueses o lamentável julgamento de um vídeo humorístico, talvez alguns leitores se lembrem de A Brincadeira (1967), o romance de estreia de Milan Kundera. Mas a brincadeira, nessa história, tem consequências graves, como graves foram as consequências para o autor.

À época, Kundera era um crítico “construtivo” do comunismo, e o romance tem um registo paródico (os baptizados reconvertidos em “boas-vindas aos novos cidadãos”, o puritanismo nos costumes, a indistinção entre esfera pública e privada, a tentativa de “comunizar” o folclore, etc.). Vivia-se já depois de desestalinização e antes ainda do esmagamento da Primavera de Praga. Um dos protagonistas do romance, Ludvik, está enfadado com o socialismo sisudo, e brinca com isso: “(…) as minhas piadas eram pouco sérias, enquanto a alegria de então não admitia nem palhaçadas nem ironia, era uma alegria grave que se afirmava orgulhosamente ‘o optimismo histórico da classe vitoriosa’, uma alegoria ascética e solene, numa palavra, a Alegria”. Esta maiúscula diz tudo, sugerindo uma alegria oficial, uma alegria de Estado, tal como Robespierre impôs uma religião laica.

Para provocar uma rapariga renitente, Ludvik envia-lhe um postal que diz: “O optimismo é o ópio do género humano! O espírito são tresanda a estupidez. Viva Trotski!” Em três frases, três delitos: gozar com o optimismo antropológico marxista (comparando-o com a tese de Marx de que a religião é “o ópio do povo”); fazer pouco dos regimes autoritários onde as pessoas se dividem entre “sãos” e “degenerados”; e louvar o inimigo número um do comunismo ortodoxo, Trotski, de quem Estaline tinha dialecticamente discordado por interposta picareta.
 

 
A Brincadeira (1967) é o romance de estreia de Milan Kundera


Quando o postal é apreendido pelas autoridades, Ludvik perde tudo. A rapariga, os colegas e amigos, o direito de frequentar a universidade, e ainda é expulso do Partido e condenado a trabalhar numa fábrica e depois nas minas. Ele bem pode argumentar, “camarada, era só uma graça”, porque a “graça” era justamente a prova de que ele sofria de todas as taras de um não-comunista: individualismo, cinismo, cepticismo. “Até um niilista pode ser alegre”, lançam-lhe, como insulto supremo.

Uma parte substancial do romance, longo e demorado, discute outros assuntos, nomeadamente a vida erótica de Ludvik, as mulheres teimosamente castas, a rivalidade masculina, a fidelidade e a espera (no amor como no socialismo), a injustiça que não será reparada mas esquecida, a juventude como “idade lírica” (e em Kundera esse epíteto não é um elogio). Quanto à brincadeira original, Ludvik compreende que “nenhum grande movimento que pretende transformar o mundo pode tolerar o sarcasmo e a troça, porque é uma ferrugem que corrói tudo”. Alguém cometeu um erro, mas quem? Ele ou as autoridades? O postal era uma brincadeira que foi levada a sério, portanto alguém se enganou. Mas não será esse um pequeno erro no meio de grandes erros ligados mais à História do que às histórias?

Em posfácio a uma edição revista, Kundera conta que A Brincadeira foi um sucesso na Checoslováquia, vendeu 120 mil exemplares, recebeu óptimas críticas, mas que, quando os russos invadiram o país, o romance foi retirado das livrarias, uma vez que os comunistas verdadeiros se portaram como os comunistas ficcionais. Os episódios inesperados continuaram: por intermédio de Aragon, o livro saiu na Gallimard e teve bom acolhimento. A ironia está no facto de Aragon ser um comunista ortodoxo. E faltava uma última peripécia: à época, Kundera não dominava o francês, por isso não se apercebeu de que a tradução era muito má, arruinando o seu estilo legível com uma prosa barroca. Descobriu depois, e os biógrafos confirmam, que o tradutor era um agente checo que quis sabotar o romance. Essa brincadeira também acabou mal.
 
Pedro Mexia. E-Revista, Semanário Expresso, 17 de julho de 2025 

 

quinta-feira, 3 de julho de 2025