sábado, 4 de janeiro de 2020

A perspetiva é tudo




Por que pensa que está certo, mesmo estando errado?


Você é um soldado ou um batedor? A sua resposta a essa pergunta, diz a especialista em tomadas de decisão, Julia Galef, pode determinar com que clareza você vê o mundo.













Junho 2016



A perspectiva é tudo, sobretudo quando se trata de examinar crenças pessoais. Você é um soldado, propenso a defender seu ponto de vista a todo custo - ou um batedor, estimulado pela curiosidade? Julia Galef examina as motivações por trás dessas duas mentalidades e como elas moldam a maneira como interpretamos as informações, entrelaçadas com uma lição de história convincente da França do século XIX. 

Quando as suas firmes opiniões são testadas, Galef pergunta: "O que é que você mais deseja? Defender as suas próprias crenças ou ver o mundo tão claramente quanto possível?"


Julia Galef é co-fundadora do Center for Applied Rationality, uma organização sem fins lucrativos dedicada a ajudar as pessoas a melhorar o seu raciocínio e tomada de decisões, principalmente com o objetivo de abordar problemas globais. Nos últimos seis anos, organizou o podcast Rationally Speaking.


Cyberbullying: o que a escola pode fazer para o evitar?




Por Mariana Mandelli e Isabella Galante



Imagine que é uma aluna do ensino básico, no processo de descoberta da sexualidade, e que fotos íntimas suas, tiradas sem a sua permissão, foram divuldas na internet....



Imagem: Pixabay




Imagine que é uma aluna do ensino básico, no processo de descoberta da sexualidade, e que fotos íntimas suas, tiradas sem a sua permissão, chegaram à internet. Pouco tempo depois, os seus amigos, conhecidos e familiares recebem as imagens. No dia seguinte, só se fala nisso na escola. Por onde quer que ande, é motivo de agressões verbais, mesmo durante o período de aulas, com os professores presentes na sala. 

Em casa, a sensação de estar livre das humilhações e chacotas não dura muito: ao aceder às suas redes sociais, encontra centenas de comentários violentos e montagens pornográficas que usam o seu corpo e rosto. O seu telemóvel não para. Mensagens ameaçadoras de todos os tipos chegam sem parar, inclusive de números desconhecidos. Mesmo bloqueando esses contactos, outros surgem, o que transforma a situação numa verdadeira campanha de difamação, em que colegas e amigos se afastam de si, minando os seus vínculos sociais. Você está sozinha.

O roteiro descrito acima é trágico, mas não completamente inventado: é um breve resumo do que aconteceu com Amanda Todd, uma canadense de 15 anos que se suicidou em 2012, após um grave processo depressivo motivado pela exposição que sofreu na web. Mesmo com o apoio dos pais, que chegaram a mudá-la de escola para evitar os ataques, a jovem não resistiu aos efeitos da perseguição que sofreu durante anos. 

A sua história talvez seja o caso mais famoso do tipo mundo afora, já que provocou uma onda de discussões no Canadá, envolvendo famílias, sistema de ensino e governo, especialmente depois da descoberta de um vídeo gravado pela jovem e publicado na internet, em que ela contava a sua história por meio de uma sequência de cartazes. Contudo, Amanda não foi a primeira nem a última vítima dessa forma de violência sistemática, própria do mundo digital, que objetiva destruir reputações. Há casos pelo mundo inteiro. O suicídio da também canadense Rehtaeh Parsons, morta em 2013, aos 17 anos, deu-se em circunstâncias parecidas. 

A isso dá-se o nome de cyberbullying, um assédio virtual praticado contra uma pessoa por meio de plataformas online. Ou seja: é o mesmo que bullying, definido como prática de intimidação entre pares, mas de forma ilimitada, uma vez que a suposta liberdade e a falta de vigilância da web permitem o anonimato e uma grande diversidade de conteúdos ofensivos criados pelo agressor (também conhecido como cyberbully). 

A diferença mais cruel entre o bullying e o cyberbullying é precisamente a não exigência de tempo e espaço do segundo para acontecer. As ofensas ultrapassam o período de aulas e os muros da escola, acontecendo o tempo inteiro, sem cessar.

A humilhação surge por meio de comentários maldosos, memes absurdos, postagens maliciosas, criação de fakes e uso indiscriminado da imagem do alvo, com um aumento inestimável do público que está a presenciar a hostilidade. Nas redes sociais, a escala da violência é, portanto, infinitamente maior. 

Os dados mostram que vivemos uma epidemia global de cyberbullying. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), mais de um terço dos jovens afirmam ser vítimas dessa prática. O levantamento, que considera 30 países, ainda mostra que um em cada cinco desses estudantes deixou de ir à escola justamente por sofrer violência virtual dos colegas.

No Brasil, de acordo com o mesmo estudo lançado neste ano, 37% dos adolescentes disseram ter sofrido cyberbullying, sendo que 36% desses afirmaram ter parado de frequentar as aulas depois dos ataques virtuais.

Outra pesquisa, realizada pela Ipsos em 2018, colocou o País no segundo lugar do ranking das nações onde esse tipo de agressão acontece repetidamente. Os números mostram que, enquanto 30% das famílias brasileiras relatam esses casos, a média dos 28 países participantes da pesquisa é de 17%.

Apesar de haver uma política nacional contra o bullying desde 2015, quando a lei 13.185 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, obrigando as instituições de ensino a assegurarem iniciativas de conscientização, prevenção e combate, o problema permanece e afeta gravemente o processo de aprendizagem e a saúde mental de crianças e jovens.

No caso específico do cyberbullying, esse é um tema inseparável do ambiente académico porque envolve diretamente a comunidade escolar. Se no bullying as crianças e jovens que riem das maldades também são corresponsáveis, mesmo que não tenham iniciado as humilhações, nas redes sociais quem gosta ou partilha esses conteúdos também tem culpa na onda de agressões.

Tal consciência pode ser incentivada nos alunos por meio de atividades que estimulem o envolvimento deles com o tema, partindo sempre da ideia de que noções de educação mediática e uso seguro das redes devem constar de modo perene no currículo escolar [como exige o Perfil do Aluno]. Apresentam-se, de seguida, algumas sugestões práticas:

  • Rodas de conversa, em que as crianças e jovens consigam partilhar situações nas quais se sentiram intimidados por colegas na internet;
  • Estímulo a atividades de mediação de conflitos, prática adotada em muitas redes de ensino, mas com o foco nas plataformas sociais;
  • Criação de campanhas de consciencialização contra o cyberbullying, com textos de media produzidos pelos alunos para serem partilhadas nas redes, estimulando o uso saudável do espaço outrora utilizado para ofender;
  • Debates impulsionados pela pesquisa de casos reais de bullying virtual, como o de Amanda Todd, fazendo com que os alunos se identifiquem com as vítimas e criem empatia;
  • Realização de oficinas de memes que invertam a lógica do cyberbullying: ao invés de humilhar o colega, os alunos devem produzir conteúdos que destaquem qualidades que admiram nos seus pares.


O combate ao cyberbullying é uma questão de cidadania digital em prol da cultura de paz, e os educadores precisam de desempenhar um papel conciliador e esclarecedor nesse sentido, formando cidadãos empáticos e conscientes das suas ações no mundo online e offline.




Referência:
Mariana Mandelli e Isabella Galante. Cyberbullying: o que a escola pode fazer para evitá-lo? 19 de dezembro 2019, in Educamídia. Disponível em: https://educamidia.org.br/cyberbullying-o-que-a-escola-pode-fazer-para-evita-lo. Consultado em: 4 de janeiro de 2020.

As novas gerações precisam de valorizar a imprensa





Por Mariana Mandelli e Isabella Galante




Termos como “fake news” precisam de ser desconstruídos na escola



Imagem de Davie Bicker por Pixabay




2019 é o ano em que a internet completa 50 anos. É pouquíssimo tempo quando paramos para pensar na dimensão do impacto que ela teve e tem na nossa vida.

Em apenas cinco décadas, todas as relações sociais, nas mais diversas esferas, sofreram mutações profundas, que redimensionaram as formas como lidamos e olhamos o mundo. 

Não é diferente quando observamos as mudanças profundas pelas quais passaram os veículos de comunicação e informação. Se há alguns anos precisávamos de esperar o dia seguinte para saber os detalhes de um evento importante, impressos nas páginas de jornais e revistas após serem apurados, escritos e editados por grandes redações, hoje acompanhamos o desenrolar dos fatos praticamente em tempo real. 

Na chamada Era da Informação, jornalista e leitor/telespectador vivenciam os acontecimentos ao mesmo tempo, e é possível encontrar uma infinidade de conteúdos nas redes sociais que não passaram pelo crivo de um repórter ou editor profissional – como um vídeo no WhatsApp, por exemplo, filmado por alguém que estava próximo de um acidente. Ou seja: a digitalização dos meios permitiu que todo nós nos transformassemos em produtores e consumidores de conteúdos, e a fusão desses dois papéis agravou a crise na qual a imprensa tradicional já se encontrava. 

Entretanto, é consensualmente aceite que o imediatismo aprofunda a desinformação, uma vez que, no processo de disseminação de dados, circulam mentiras, boatos e invenções, que se propagam por redes sociais e aplicativos numa velocidade exponencialmente maior. Tais conteúdos são popularmente chamados de “fake news”, termo bastante problemático e que vem sendo criticado por especialistas por ser amplamente usado, sem nenhum critério.

A priori, se algo é “fake”, não pode ser “news”. Tecnicamente, não existe notícia falsa, visto que textos noticiosos têm autores e devem prezar por serem objetivos e equilibrados, apresentando evidências e citando especialistas.

O que se convencionou chamar de “fake news” são, portanto, inverdades e fabricações espalhadas com intenções altamente questionáveis para contribuir para a onda de desinformação em que vivemos.

Além disso, não é porque não concordamos com algo que esse conteúdo é falso, já que opiniões não podem ser confundidas com factos, jamais!

O trabalho do jornalista profissional consiste em pesquisar, procurar fontes, entrevistar, confirmar, editar, hierarquizar e, finalmente, divulgar o ocorrido ao público, seja num site, numa rádio, num jornal, numa revista ou numa emissora de televisão. Um conteúdo jornalístico deve seguir padrões éticos e de confiabilidade mas, ainda assim, como qualquer profissão humana, tal atividade é suscetível a erros, que prejudicam a tão almejada objetividade. 

Ao usarmos o termo “fake news”, que é bastante diferente de um erro de reportagem propriamente dito, estamos a deslegitimar o trabalho da imprensa profissional – e o processo de descrença nessa instituição tão importante para a democracia é um sério risco. 

É preciso recuperar o senso comum de que o chamado “quarto poder” sustenta e fortalece a cidadania e os regimes democráticos à medida que assegura o direito à informação.

Nesse sentido, a escola tem papel fundamental, sendo que o campo jornalístico mediático é parte importante da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no que se refere ao ensino e aprendizagem da língua portuguesa.

Preparar as crianças e os jovens para aprender com senso crítico e responsabilidade no século 21 exige que elas saibam ler, escrever e interpretar diversos textos mediáticos, podendo valorizar fontes confiáveis, diferenciar géneros e questionar informações duvidosas. Educação mediática é justamente isso: saber filtrar e dar sentido ao grande fluxo de informação para podermos participar ativamente da sociedade.

Cidadãos mais críticos são menos vulneráveis à manipulação e à desinformação, podendo tomar decisões mais conscientes na hora de se informar. Só assim poderemos lidar de maneira mais crítica, ética e responsável com os próximos 50 anos de internet – e com as grandes transformações que nos aguardam.


Referência:
Mariana Mandelli e Isabella Galante. As novas gerações precisam de valorizar a imprensa. Educamídia. 29 de outubro de 2019. Disponível em: https://educamidia.org.br/as-novas-geracoes-precisam-valorizar-a-imprensa. Acedido em: 4 de janeiro de 2020

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

PNL 2027 | Ideias de escrita




janeiro 2020






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PNL 2027 | Ideias de Leitura



janeiro 2020








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Revistas | A Casa do João




A casa do João | Janeiro 2020, nº 10




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Cientes de que há boa literatura infantil e juvenil que versa e trata o tema da ciência, este número 10 da revista A Casa do João é dedicada à ciência.

Assim, é dado a conhecer António Gedeão, o escritor português que melhor e mais profundamente estabeleceu pontes entre a literatura e a ciência; o físico e cientista Carlos Fiolhais é entrevistado; e divulga-se o  Centro de Ciência Viva de Vila do Conde e o Sea Life!.

 Além destes destaques, há outros assuntos que se conectam com a ciência, em algum dos seus ramos ou domínios.



Contos de fadas são para crianças?




JRR Tolkien defende que não há uma "escrita para crianças"




Ilustrações originais de JRR Tolkien para a primeira edição de O Hobbit, 1936



Ilustrações originais de JRR Tolkien para a primeira edição de O Hobbit, 1936




Tolkien insiste que os contos de fadas não são intrinsecamente "para" crianças, mas que, como adultos, decidimos simplesmente que o são, com base numa série de conceitos erróneos sobre a natureza dessa literatura e a natureza das crianças:


Geralmente, supõe-se que as crianças são o público natural ou especialmente apropriado para os contos de fadas. Ao descrever um conto de fadas que acham que os adultos possam ler para o seu próprio entretenimento, os revisores de texto costumam usar expressões como: "este livro é para crianças dos seis aos sessenta anos". Mas eu nunca vi a baforada de um novo modelo de motor que começasse assim: “este brinquedo divertirá crianças dos sete aos setenta”; embora isso fosse muito mais apropriado para mim. Existe alguma ligação essencial entre crianças e contos de fadas? Existe algum a comentar se um adulto os lê por si mesmo? Lê-os como contos, ou seja, não os estuda como curiosidades. Aos adultos é-lhes permitido colecionar e estudar qualquer coisa, até programas antigos de teatro ou sacos de papel.

        [...]

Entre aqueles que ainda têm sabedoria suficiente para não considerar os contos de fadas perniciosos, a opinião comum parece ser a de que existe uma ligação natural entre as mentes das crianças e os contos de fadas, da mesma ordem que a ligação entre o corpo e o leite das crianças. Eu acho que isso é um erro; na melhor das hipóteses, um erro de falso sentimento e, portanto, mais frequentemente cometido por aqueles que, por qualquer motivo particular (como a falta de filhos), tendem a pensar nas crianças como um tipo especial de criatura, quase uma raça diferente, e não como membros normais, se imaturos, de uma família em particular e da família humana em geral.


Ele argumenta, em vez disso, que o estereótipo de contos de fadas associados a crianças e nativos de seu mundo é "um acidente de nossa história doméstica":

No mundo moderno letrado, as histórias de fadas foram relegadas para o "berçário", tal como os móveis gastos ou antiquados são relegados para a sala de jogos, principalmente porque os adultos não os querem e não se importam se forem mal utilizados. Não é a escolha das crianças que decide isso. As crianças enquanto grupo - exceto se tiverem uma experiência comum - são heterogéneas, e não gostam mais de contos de fadas, nem as entendem melhor do que os adultos; e, tal como os adultos, gostam de muitas outras coisas. São jovens e crescem, e normalmente têm gostos apurados; e os contos de fadas costumam ser um desses gostos. Mas, de fato, apenas algumas crianças e alguns adultos têm um gosto especial por elas; e quando o possuem, não é exclusivo, nem mesmo necessariamente dominante. Também é um gosto que, aparentemente, não apareceria muito cedo na infância sem um estímulo artificial [...].


Uma peça rara de criatividade interdisciplinar da mente de um dos maiores criadores da história moderna, The Art of the Hobbit é um tesouro literário e um tratamento de arte em partes iguais, explorando a noção do autor como designer - um conceito particularmente oportuno numa época de auto-publicação e polinização disciplinar cruzada na produção de livros. Complemente-o com esta rara gravação de Tolkien lendo um extrato do seu livro: 



https://soundcloud.com/brainpicker/jrr-tolkien-read-from-the-hobbit
Em 1952, Tolkien, com sessenta anos, lê O Hobbit, 
fazendo uma magnífica leitura de Gollum no sotaque antigo que ele tanto amava




Referência:
Maria Popova. J.R.R. Tolkien on Fairy Tales, Language, the Psychology of Fantasy, and Why There’s No Such Thing as Writing “For Children”. Blogue Brain Pickings. Disponível em: https://www.brainpickings.org/2013/12/05/j-r-r-tolkien-on-fairy-stories. Consultado em 3 de janeiro de 2020.