Celebração do dia do nascimento de Camões - 23 de janeiro
Como previsto, realizou-se ontem, pelas 9:10, no auditório 1, a palestra A "apagada e vil tristeza" de Miguel da Silva e Luís e Camões, orientada pelo Dr. Álvaro Pinto.
Assistiram os alunos do 11º C, 12º D e 12º F e vários docentes da escola.
Foi, sem dúvida, uma palestra muito interessante, de excecional qualidade (a que o professor Álvaro já nos habituou)!
Quem foi D. Miguel da Silva
D. Miguel da Silva (c. 1480–1556) foi um importante humanista português do século XVI, diplomata, bispo e cardeal. Filho de Rui Gomes da Silva, senhor de Chamusca e Ulme, e de D. Isabel de Menezes, teve uma educação esmerada, influenciada pelo espírito do Renascimento.
Serviu como embaixador de D. Manuel I e de D. João III na Santa Sé, desempenhando um papel essencial na diplomacia portuguesa em Roma. Durante a sua estadia, contactou com grandes humanistas e artistas da época, aprofundando-se nos estudos clássicos e tornando-se um dos principais intelectuais portugueses do seu tempo. Foi amigo pessoal do pintor Rafael e do escritor Baldassare Castiglione, que lhe dedicou a sua obra-primaIl libro del Cortegiano(O Cortesão, em português).
Após ter sido nomeado Bispo de Viseu, a sua aproximação com o ambiente cultural italiano e o seu prestígio na Cúria Romana geraram desconfiança na corte portuguesa. D. João III, temendo a sua crescente influência e possível nomeação como cardeal sem sua autorização, ordenou o seu retorno a Portugal.
D. Miguel obedece regressa a Portugal. Vendo a sua posição deteriorar-se rapidamente, fugiu para Itália, em 1540, escapando por uma questão de horas a uma ordem régia de prisão. Em Roma, recebeu-o calorosamente o Papa Paulo III, que o faz cardeal, em 1541.
Como resultado, D. João III confiscou-lhe todos os bens em Portugal e proibiu a menção de seu nome no reino. D. Miguel da Silva permaneceu em Itália até à sua morte, em 1556, sendo lembrado como um grande humanista e patrono das artes e letras. D. Miguel da Silva teve um papel importante na introdução do pensamento renascentista em Portugal. A sua experiência em Itália e o seu mecenato ajudaram a difundir as ideias humanistas, mesmo que o seu exílio tenha limitado a sua influência direta no reino.
É considerado uma das figuras mais ilustres do humanismo português.
Celebração do dia do nascimento de Camões - 23 de janeiro
INTERVALO CULTURAL - LEITURA EM SINFONIA
A LEITURA EM SINFONIA - leitura coral e sequencial em várias línguas - trouxe um momento muito especial à celebração deste dia.
As duas primeiras estrofes d’ Os Lusíadas foram lidas em português (alunos do 11º H), em mandarim, urdu e árabe, línguas maternas da Dong, da Anameta e do Guebara, e em urdu e indu, pelos alunos de PLA (Português Língua de Acolhimento) - Bilal Ahmed e Zeeshan Zafar, do Paquistão, e Amirul Basur, do Bangladesh. Como não podia deixar de ser, ou não fosse Os Lusíadas uma epopeia clássica, o latim e o grego também se fizeram ouvir nas vozes de Juliana Gando e Maya Nhampoca, respetivamente.
A leitura das duas primeiras estrofes da epopeia lusa constituiu, assim, uma celebração simbólica da diversidade linguística e cultural dos alunos que frequentam a ES Camilo Castelo Branco.
As armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia Lusitana Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando, Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. Os Lusíadas, Canto I, est.1-2
Celebração do dia do nascimento de Camões - 23 de janeiro
Porque o exemplo vem de cima, no INTERVALO CULTURAL, o Subdiretor da Escola, Dr. Armando Figueiredo, partilhou a leitura do soneto "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem – se algum houve – as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto: que não se muda já como soía.
Para celebrar o dia do nascimento de Luís de Camões, 23 de janeiro, a Biblioteca da ES Camilo Castelo Branco preparou um conjunto de atividades, em articulação com docentes, alunos e famílias.
Neste dia, o intervalo maior da manhã converteu-se em INTERVALO CULTURAL.
A abrir a sessão, David Correia, do 12º D, assumiu o papel de Luis Vaz de Camões e apresentou-se:
📡 Reproduzimos aqui o texto lido pelo David, produzido pela Biblioteca escolar.
Eu, Luís Vaz de Camões, apresento-me
Sou Luís Vaz de Camões, filho da pátria que “entre todas as nações foi escolhida, / para dar novos mundos ao mundo”. Sobre a minha infância tudo é conjetura, mas, ainda jovem, recebi uma sólida educação nos moldes clássicos, dominando o latim e conhecendo a literatura e a história antigas e modernas. Fui moldado pelas ondas do Tejo e pelos ventos que sopram da alma lusitana.
Na mocidade, o mundo chamou-me e a poesia respondeu:
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades."
Do amor, fiz a minha lira. Em lágrimas de saudade, banhei versos dedicados a quem o coração nunca esquece. Àqueles que buscam entender o que é amar, digo:
"Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer."
Das batalhas e viagens, extraí o sal da experiência, cruzando mares “nunca antes navegados” encontrei a grandeza e a perdição. Tornei-me testemunha do heroísmo dos meus, eternizado n’ Os Lusíadas, onde se ouve o brado do povo português que cantando espalhei por toda a parte, porque a tanto me ajudaram o engenho e a arte.
Mas não me iludo com as promessas deste mundo. Da glória, sei que é breve, da fortuna, sei que é ingrata. Já as vi jogarem com os caminhos dos homens, pois:
A firmeza, nascida de ventura, Muda-se em fim na inconstância dela; Dá no começo à gente graça e estrela, E no fim desengano e desventura."
Aqui me apresento: Luís Vaz de Camões, poeta das lágrimas e dos mares, cuja pena escreve o que o espírito sente e o mundo esquece. E para vós, que me ouvis e me ledes, deixo como eterno testemunho o feito maior de uma pátria de heróis e navegantes:
“Que da ocidental praia Lusitana Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana"
Que os meus versos sejam farol nas noites escuras e âncora na memória de um povo que ousou dar novos mundos ao mundo.
"Quem conhece os trabalhos de Luciano Pereira da Silva sabe que Camões não só tinha um conhecimento claro e seguro da astronomia do seu tempo e utilizava com rigor tabelas de efemérides astronómicas, como fazia questão de revelar essa erudição científica na sua obra. Depois de conhecermos esta sua faceta e ao lermos o terceiro verso do soneto ‘O dia em que eu nasci, morra e pereça’, podemos deduzir que Camões se refere a um eclipse solar que de facto terá ocorrido, permitindo-nos inferir que o poeta terá nascido no dia 23 de janeiro de 1524, tal como Mario Saa propôs em 1940."