segunda-feira, 27 de março de 2017

Encontros com autores: Olinda Beja


Semanas de leitura RBVR






Hamlet, de William Shakespeare (2002)









autor: William Shakespeare
tradução: António Feijó
encenação: Ricardo Pais
cenografia e figurinos: Nuno Carinhas e Ricardo Pais
coordenação de movimento: Paulo Ribeiro
desenho de luz: Nuno Meira
desenho de som: Francisco Leal
lutas de cena: Miguel Andrade Gomes
actores: João Reis, Emília Silvestre, Jorge Pinto, António Durães, Jorge Vasques, Lígia Roque, Rui Baeta, Fernando Moreira, Nicolau Pais, Hugo Torres, Ivo Alexandre, Ana Ferreira, Joaquim Marinho, João Castro, Nuno Veiga, Ricardo Molar, Rute Esteves
estreia: 4 de abril de 2002
locais: teatro Viriato (Viseu) / Teatro Nacional de S. João (Porto) / Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa)
co-produção: ensemble/tnd. maria ii/tns. joão/teatro viriato-craeb/ipae auditório nacional carlos alberto


Ler + Teatro




Neste Dia Mundial do Teatro, visite o site do Plano Nacional de Leitura e faça uma viagem pela "Breve História do Teatro". 




 http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/teatro/backstage.php?s=2
Clique na imagem para aceder ao site.



Dia Mundial do Teatro - Mensagem da SPA





Mensagem da autoria do encenador e cenógrafo João Brites para o Dia Mundial do Teatro 



Como quem chora e ri com a própria sombra


"Neste Dia Mundial do Teatro de 2017, é para ti que já não tens sombra, que nós escrevemos. Gostaria que soubesses que por toda a parte se faz Teatro. A consciência de que temos uma sombra que nos pertence, constrói um outro eu com quem podemos dialogar. Os filósofos gregos apropriaram-se da ideia de sombra e atribuíram-lhe significados que identificamos como uma aproximação ao nascimento do Teatro, mas é muito provável que os nossos antepassados tenham exercitado a capacidade de jogarem com as sombras projetadas nas cavernas quando dominaram a capacidade de fazer fogo. As pequenas comunidades elaboraram as sonoridades que progressivamente se organizaram nos fonemas que permitiram contar as primeiras histórias. Muito antes da capacidade de escrever, de registar as experiências vividas e as outras, inventadas, os contos terão passado de geração em geração sem deixarem vestígios materiais.

A arte de contar histórias, na mistura do discurso direto com o indireto, introduziu a habilidade de construir outras vozes, outras pessoas, a que poderiam corresponder outras sombras. Há mais de cinquenta mil anos ter-se-á colocado o problema da representação das coisas, e consequentemente o da memória e o da repetição. Ainda hoje é este mesmo problema que todos os dias tentamos resolver quando nos confrontamos com os públicos, e é ao procurarmos desenvolver essas competências estruturantes que nos apercebemos da sua importância na coesão das entidades individuais e coletivas.

Associado à movimentação dos corpos que em torno das fogueiras esboçavam os primeiros passos, elaboraram-se as sonoridades que iriam dar origem à noção de música. As sombras deformadas nas cavidades das grutas terão desenhado as primeiras cenografias. Os gestos e o virtuosismo na movimentação das mãos contribuíam para uma apropriação coletiva dos conhecimentos e eram extraordinários auxiliares na construção dos pensamentos, na formulação das ideias que se podiam transmitir. Essas sombras terão então suscitado sustos, risos, lágrimas, dores, emoções, palavras. Palavras que construíam conceitos e contradições, que faziam perguntas e procuravam dar respostas, que contracenavam com outras pessoas e com as próprias sombras. Assim, e em tempo real, com a presença de atores ao vivo, foram criadas as narrativas e as representações de tensões e de conflitos que estão na génese do Teatro.

Apesar de me parecer um mau prenúncio que este Dia Mundial de Teatro aconteça a uma segunda-feira, precisamente no dia em que os teatros estão, em princípio fechados, é para ti companheiro de Teatro, que nós escrevemos. Na maior parte dos casos os deuses sempre recearam e perseguiram o Teatro e nós sabemos que sempre estivemos sujeitos a pequenas e a grandes intempéries. Mas também sabemos que continuamos a ser compulsivamente irrequietos e desestabilizadores. Temos orgulho em sermos os herdeiros dessa tradição milenar que terá começado naquelas pequenas comunidades, apenas com dezenas de pessoas no paleolítico, e que cresceu com os atores e os filósofos gregos nos grandes teatros que os mecenas e os poderes políticos construíram para acolher dezenas de milhares de espectadores. Ao longo de milhares de anos o Teatro afirmou-se, e nós somos os discípulos desta prática artística. A arte teatral opera com os mais polifacetados recursos artísticos e é por isso a mais dotada para continuar a contar histórias e a representar personagens no presente.

Hoje, depois das mais contundentes experiências do Teatro praticado pelos povos mais distantes no tempo e no espaço, das cerimónias medievais, dos projetos realistas, expressionistas, dos surrealistas e da abordagem mais cruel, simbólica ou conceptual, estamos aqui bem vivos, de carne e osso, prontos para sermos mais um elo na cadeia deste contínuo desígnio. Não a pensar em nós próprios, no sucesso, na vaidade ou na fama e nos prémios. Estamos aqui para contribuir para a mudança do mundo na incessante procura de uma felicidade mais constante e partilhada. 

Durante dezenas de anos a continuidade de projetos como o da Cornucópia cativou um lugar na memória de cada um. Aquela sala de teatro que, como uma caverna, persistentemente escavaram, - e onde partilhámos tantas sombras que nos ajudaram a crescer como pessoas e como artistas, - passou agora para as mãos de quem sinta a necessidade de a usar preservando o seu espírito. Mas se é indispensável não perder a memória, também é indispensável manter viva a curiosidade em acompanhar os projetos que, com maior ou menor longevidade, se afirmam e muito especialmente os que nascem, titubeantes como nascem todos os seres vivos, e ousam lançar as bases de uma continuidade que não quer esmorecer perante as primeiras dificuldades. 

Como podes calcular, é sobretudo para ti que vens ao Teatro, que continuamos esta labuta de fazer espetáculos que façam parte da experiência concreta da vida das pessoas que a eles assistam. Acreditamos que o Teatro não é assim tão efémero como poderíamos pensar. Partilhar um espetáculo marcante é o mesmo que participar num encontro memorável onde as conversas se misturam com os cheiros daquele lugar específico, em torno de uma apetitosa refeição acompanhada de bom vinho.

A memória não é uma coisa do passado quando algo de inexplicável perdura e se prolonga no tempo. Faz parte do presente ao ficar atualizada a cada instante com outros tantos novos estímulos sem deixar de manter uma relação com os referentes icónicos. É por isso que pode continuar viva a voz do ator, uma ou outra palavra escrita, uma imagem que, como uma fotografia ficou impressa na mente. A memória estabelece uma equação sistémica com as efemeridades que se gravam na pele a cada instante. Nem sempre tem lógica e nem compreendemos bem o que ficou do outro em nós próprios, o que ficou da sombra do outro na nossa própria sombra.

Também é para mim que faço Teatro, que agora escrevo, porque ando quase sempre insatisfeito com o que faço e quase sempre revoltado com o mundo que me rodeia. Diria que temos de continuar a sonhar com um país que pensa e escreve na sua língua; a acreditar que existem políticos que foram eleitos para contrariar a submissão da atividade cultural e artística ao negócio e às leis do mercado, e que acima de tudo, dignificam a vasta comunidade a que pertencem, ao não sujeitar as leis e as normas ao senso comum das maiorias e da sua natural apetência pelo que é mais banal e vulgar. Não conseguimos deixar de pensar que, se queremos combater as ditaduras, os fascismos e outros fundamentalismos, é também ao Teatro que precisamos de dar apoio, porque é a única maneira de a maior parte das pessoas a ele terem acesso, ampliando o seu espírito crítico, emancipando-se na prática de uma cidadania mais ativa. Se cada criança do meu país tivesse a possibilidade de assistir pelo menos a um espetáculo de teatro por ano, se se conseguisse rentabilizar o investimento que o estado fez nos últimos anos ao promover, escolas, professores, programas, construção ou recuperação de teatros, de redes de articulação e de divulgação de espetáculos, poderíamos verificar que não somos suficientes e que de nada vale sermos menos a pensar que assim cada um teria mais recursos. A qualidade precisa das quantidades para se manifestar.

Finalmente para ti que nunca vens ao Teatro é preciso que saibas que continuaremos sempre por aí à tua espera. Se um dia tiveres esse desejo, tem a certeza de que te receberemos de braços abertos. Nessa altura vamos chamar a tua atenção para o facto de não existir propriamente um Teatro, mas muitas maneiras diferentes de fazer Teatro e que, a pouco e pouco, precisarás de te confrontar com essa multiplicidade de estilos para seres capaz de fazer as tuas escolhas.

Acredita que mesmo nos períodos mais horríveis, sujeitos a bombardeamentos ou a perseguições, poder-nos-ás encontrar, como sempre tem acontecido, nas catacumbas das cidades, nas caves dos prédios destruídos ou refugiados nas montanhas mais inóspitas, escondidos nas suas cavernas. Mesmo isolados ou prisioneiros continuaremos a observar a nossa sombra e com ela aprender a ler e a compreender o que ela tem para nos ensinar. Enquanto não for possível roubarem-nos a sombra, não deixaremos de brincar com os efeitos que ela produz nas paredes das grutas, para melhor nos podermos rir ou chorar dela e com ela."

João Brites

Dia Mundial do Teatro - Mensagem de Isabelle Huppert




 







International Theatre Institute ITI

World Organization for the Performing Arts

World Theatre Day Message 2017

Isabelle Huppert, France

(tradução a partir da versão original)



Já passaram 55 anos desde a primavera em que se celebrou pela primeira vez o Dia Mundial do Teatro.

Esse dia, ou seja, essas 24 horas começaram no Teatro Nô e Buranku, passaram pela Ópera de Pequim e pelo Kathakali, passaram entre a Grécia e a Escandinávia, foram de Ésquilo a Ibsen, de Sófocles a Stringberg, passaram entre a Inglaterra e a Itália, foram de Sarah Kane a Pirandello. Passaram, entre outros países, pela França, onde nos encontramos, e por Paris que continua a ser a cidade do mundo que recebe o maior número de companhias estrangeiras. Em seguida, as nossas 24 horas levaram-nos da França à Rússia, de Racine e Molière e a Tchékhov depois, atravessando o Atlântico, chegaram a um campus universitário californiano onde as pessoas podem, quem sabe, reinventar o Teatro. Porque o Teatro renasce sempre das cinzas. Ele não passa de uma convenção que temos de constantemente abolir. É por isso que continua vivo. O Teatro tem uma vida irradiante, que desafia o espaço e o tempo, as peças mais contemporâneas são alimentadas pelos séculos passados, os reportórios mais clássicos tornam-se modernos de cada vez que os encenamos.

Uma Jornada Mundial do Teatro não é, evidentemente, como um dia banal das nossas vidas quotidianas. Esta Jornada faz reviver um imenso espaço-tempo e para evocar esse espaço-tempo, vou socorrer-me de um dramaturgo francês, tão genial como discreto, Jean Tardieu. Cito-o: --- ” Para o espaço ele pergunta qual é o caminho mais longo de um ponto para outro ….Para o tempo sugere medir em décimas de segundo o tempo que demora pronunciar a palavra «eternidade». Para o espaço-tempo ele diz ainda: “Fixai no vosso espirito, antes de adormecer, dois pontos quaisquer no espaço e calculem o tempo que é preciso para, em sonho, ir de um ponto ao outro”. É a expressão “em sonho” que retenho. 

Poderíamos dizer que Jean Tardieu e Bob Wilson se encontraram. Podemos também resumir o nosso Dia Mundial do Teatro evocando Samuel Beckett que pôs a Winnie a dizer, no seu estilo expedito: “Oh que lindo dia que poderia ser.” Ao pensar nesta mensagem, que me fizeram a honra de me pedir, lembrei-me de todos esses sonhos de todas essas cenas.

Então, não chego sozinha a esta sala da UNESCO: todas as personagens que representei me acompanham, os papéis que pensamos que nos abandonaram quando acaba, mas que têm em nós uma vida subterrânea, prestes a ajudar ou a destruir os papéis que lhes sucedem: Fedra, Araminta, Orlando, Hedda Gabbler, Medeia, Merteuil, Blanche Dubois... Acompanham-me, também, todos os personagens que amei e aplaudi como espectadora. E nesse lugar, pertenço ao mundo inteiro. Sou grega, africana, síria, veneziana, russa, brasileira, persa, romena, japonesa, marselhesa, nova-iorquina, filipina, argentina, norueguesa, coreana, alemã, austríaca, inglesa, isto é, o mundo inteiro.

A verdadeira mundialização é esta.

Em 1964, por ocasião desta Jornada Mundial do Teatro, Laurence Olivier anunciou que, depois de mais de um século de combate, se conseguira, por fim, criar em Inglaterra um Teatro Nacional, que ele quis imediatamente que fosse um teatro internacional, pelo menos no seu repertório. Ele sabia bem que Shakespeare pertencia a todo o mundo no mundo. 

Adorei saber que a primeira mensagem destas Jornadas Mundiais do Teatro, em 1962, fora confiada a Jean Cocteau, escolhido por ser, como se sabe, o autor de “uma volta ao mundo em 80 dias”. Eu fiz a volta ao mundo de uma outra maneira: fi-la em 80 espectáculos ou em 80 filmes. Digo filmes porque não faço nenhuma diferença entre representar no teatro e representar no cinema, o que surpreende sempre que o digo, mas é verdade, é assim. Nenhuma diferença. Falando aqui, não sou eu própria, não sou uma actriz, sou apenas uma das numerosas pessoas graças às quais o Teatro continua a existir. É um pouco o nosso dever. E a nossa necessidade: Como dizer: Nós não fazemos existir o Teatro, é graças ao Teatro que nós existimos O Teatro é muito forte, resiste, sobrevive a tudo, às guerras, às censuras, à falta de dinheiro. Basta dizer: “O cenário é um palco nu de uma época indeterminada” e de chamar um actor. Ou uma actriz. Que vai ele fazer? Que vai ela dizer? Irão falar ? O público espera, vais já saber, o público sem o qual não há Teatro, não nos esqueçamos. Uma pessoa no público é um público. “Não muitas cadeiras vazias, esperemos! Salvo em Ionesco… No fim, a Velha diz: “Sim, sim morramos em plena glória…. Morramos para entrar na lenda… Ao menos teremos a nossa rua…”

A Jornada Mundial do Teatro existe há 55 anos. Em 55 anos serei a oitava mulher a quem é pedido para fazer uma mensagem, enfim, não sei se a palavra “mensagem” é apropriada. Os meus antecessores (o masculino impõe-se!) falaram sobre o Teatro da imaginação, da liberdade, da origem, evocaram o multicultural, a beleza, as questões sem respostas… Em 2013, há somente quatro anos, Dario Fo disse: “ A única solução para a crise reside na esperança de uma grande caça às bruxas contra nós, sobretudo contra os jovens que querem aprender a arte do teatro: nascera assim uma nova diáspora de actores, que irá sem dúvida retirar desta situação, benefícios inimagináveis para a criação de uma nova representação.” Benefícios inimagináveis é uma bela formula digna de figurara num programa politico, não? … Já que estou em Paris, pouco antes de uma eleição presidencial, sugiro aqueles que têm ar de quem nos quer governar que estejam atentos aos benefícios inimagináveis que traz o Teatro. Mas nada de caça às bruxas!

O Teatro, para mim, é o outro, é o diálogo, é a ausência de ódio. A amizade ente os povos, não tenho bem a certeza o que quer dizer, mas acredito na comunidade, na amizade dos espectadores e dos actores, na união de todos que o teatro une, nos que o escrevem, naqueles que o traduzem, nos que o iluminam, vestem, o cenografam, nos que o interpretam, nos que o fazem, naqueles que o vão ver. O teatro protege-nos, abriga-nos…. Acredito totalmente que ele nos ama … tanto quanto nós o amamos …. Lembro-me de um velho ensaiador à antiga que, antes do levantar da cortina, dizia, todas as noites nos bastidores, em voz firme: “Lugar ao Teatro!”. Esta será a palavra final. Obrigada. 

Tradução: Margarida Saraiva 

Revisão: Eugénia Vasques Escola Superior de Teatro e Cinema 

Março 2017



Todos os anos, o Instituto Internacional do Teatro, da UNESCO, convida uma personalidade ligada ao mundo da representação, para produzir o discurso a ser difundido por icasião da celebração do Dia Mundial do Teatro. Este ano, o convite foi endereçado à atriz (de cinema e teatro), Isabelle Huppert.



Memorial do Convento | Exposição


"Memorial do Convento – Era uma vez um rei devoto, um padre que queria voar, e uma mulher com poderes"

Palácio Nacional de Mafra | de 26 de março a 31 de maio | Entrada livre



“Comecei a ver o país todo como um gigantesco convento cujos limites nem sequer eram as fronteiras do que é hoje Portugal, porque se prolongavam por dentro das pessoas” – José Saramago




"Memorial do Convento. Nos trinta e cinco anos da publicação de Memorial do Convento, de José Saramago, constata-se que terá sido um dos romances mais importantes publicados em Portugal no último quartel do século XX. Não só havia de alterar radicalmente a vida pública do seu autor, dando-lhe uma notoriedade internacional, como igualmente alteraria o horizonte da literatura portuguesa, libertando o romance de espartilhos clássicos, abrindo-o a uma liberdade criativa, de natureza estética, daí em diante seguida por inúmeros autores.

Memorial do Convento ostenta uma diferença entre a representação social visível nos manuais da disciplina de História e a desconstrução da mesma, evidenciando uma profunda reinterpretação e reflexão sobre a sociedade, forçando a necessidade da inquirição do leitor sobre um outro sentido para a História, menos obediente às interpretações elitistas e mais às conceções populares.

Memorial do Convento é atravessado por uma onda de lirismo, de otimismo científico e estético que dificilmente encontra paralelo no romance português contemporâneo, para a qual a entrega à Arte (Scarlatti), à Ciência (Bartolomeu de Gusmão) e ao Maravilhoso (Blimunda) se evidenciam como alternativas credíveis na opção pelo sentido de vida.

Memorial do Convento é um dos romances de Saramago em que se coloca com grande nitidez a questão da nova complexidade do estatuto do narrador, elemento de profunda originalidade da obra deste escritor, um narrador simultaneamente individual e coletivo, histórico e atual, espécie de voz singular da consciência e de voz da História, numa palavra, de vox populi.

Memorial do Convento ostenta uma galeria de personagens maravilhosas, singularmente diferentes da normalidade social, que encanta a mentalidade doleitor, criando-lhe um otimismo existencial, uma vontade de enfrentar a vida como raramente se encontra no romance português, legando uma mensagem implícita, que repercute inconscientemente na mente do leitor: a necessidade de cada um construir a sua “passarola”, de possuir o seu “sonho” e de se ser diferente dos restantes para o cumprir.

Memorial do Convento caracteriza na figura de D. João V e da sua corte alguns dos males éticos de que padece a permanente elite portuguesa: a ostentação, a vaidade, o excesso, a ambição tola de imitação de modas estrangeiras, a indiferença para com o sofrimento das populações, a antiga repressão sobre a sexualidade do corpo feminino.

Memorial do Convento denuncia, em estilo irónico, sarcástico, até jocoso, o contexto sociopolítico megalómano dos costumes cortesãos do século XVIII e a mentalidade interesseira da corte, obviando a evidentes paralelismos com a atualidade.

Memorial do Convento expõe uma amplidão lexical como raramente se assiste no atual romance português, cruzando vocabulário erudito com popular, histórico com presente, abrindo então, em 1982, um novo horizonte no domínio plástico da língua.

Memorial do Convento enfatiza a necessidade de transgressão social para que a História progrida, enaltecendo a capacidade de ação comandada pelo sonho, pelo visionarismo, pela vontade de criação de um futuro diferente, no qual todos os homens sejam reis, e rainhas todas as mulheres. Finalmente, por todos estes motivos,
Memorial do Convento é um dos raros textos da literatura portuguesa que interpenetra de um modo admirável Vida e Literatura, Arte e Cidadania, Existência e Reflexão." 
Extrato do texto de abertura da exposição, da autoria de Miguel Real, publicado na edição de março de Blimunda, pp. 69-77. 





Em 2017 comemoram-se os 300 anos da colocação da primeira pedra para a construção do Palácio de Mafra e os 35 anos da publicação de Memorial do Convento. A exposição, organizada pela Câmara Municipal de Mafra em parceria com a Fundação José Saramago, tem curadoria de Filomena Oliveira e Miguel Real e projeto expositivo da Silvadesigners.

A exposição apresenta parte do espólio de José Saramago destinado à escrita do romance, bem como a ilustração deste através da obra pictórica de José Santa- Bárbara, em cujos quadros Saramago diz ter descoberto o rosto de Blimunda. De sublinhar que estilo presente em Memorial do Convento libertou a literatura portuguesa do registo tradicional de escrita e se prolongou na inspiração em outros registos estéticos, como o teatro, a pintura e a ópera.