segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Webinar | Diário de Escritas

 

Plano 21-23 | Escola +


Webinar moderado por Ana Luísa Alves (Direção-Geral da Educação) e Raquel Ramos (Rede de Bibliotecas Escolares)


Partilha de modelos, estratégias e recursos para a organização do trabalho oficinal de desenvolvimento da escrita em diferentes níveis e ciclos de ensino e em diferentes registos, géneros e formatos.



A Maratona de Cartas continua

 




























A Maratona de Cartas pelos Direitos Humanos decorre até ao final deste mês de janeiro. Até ao momento, participaram 6 turmas. 

Contamos com todos, para que todos possam aspirar a ter um Feliz 2022.


Revista de Ciência Elementar

 


V9/04 | Dezembro 2021






Feliz Natal e Bom Ano Novo… com bactérias! 

O termo enzima [1] foi definido pela primeira vez por Wilhelm Kühne em 1867 e o seu estudo proporcionou 37 prémios Nobel nos campos da Química e da Medicina. Enzimas são proteínas, macromoléculas espantosas que funcionam como catalisadores biológicos, com uma aplicabilidade cada vez maior à nossa vida, tal como a vivemos. As enzimas existem no organismo humano mas também existem noutras espécies, como sejam as bactérias, e, tanto umas como outras, ocupam o seu lugar na nossa sociedade. 

Há inúmeros exemplos da aplicação de enzimas nas indústrias alimentar, têxtil, papel, detergentes, química, biocombustíveis e saúde. 

A indústria farmacêutica é uma das que mais beneficia da utilização de reações enzimáticas como precursores de antibióticos, ou em quimioterapia ou, ainda, em substituição, por exemplo, de complicadas vias sintéticas. Uma percentagem muito considerável dos fármacos existentes são, na realidade, inibidores de enzimas. 

Recentemente, foi reportada uma notícia muito interessante em Itália que, como sabemos, tem variadíssimas cidades com ruas repletas de antiguidades maravilhosas que encantam todos os viajantes que as percorrem. Mas todas estas antiguidades estão sob o perigo constante da poluição que ameaça destruí-las gradualmente. Para enfrentar a poluição devastadora, está a ser utilizada uma tecnologia nova que emprega enzimas bacterianas que, ao cobrirem os mármores antigos, depositam sobre eles carbonato de cálcio, resultando numa calcificação natural do mármore das antiguidades. Exemplos de sucesso da utilização desta nova tecnologia são o Arco de Septímio Severo, no Forum Romano, e a Capela dos Médici, em Florença, esta última desenhada pelo famoso Michelangelo no século XVI. É espantoso pensar que, cada vez mais, os trabalhos de restauração estão a ser realizados a um nível molecular. 

Numa das edições da revista Science, de 2021, foi reportada a descoberta da bactéria Ideonella sakaiensis 201-F6, que tem a particularidade de crescer no plástico PET (tereftalato de polietileno), utilizando-o como fonte principal de energia e carbono. O PET é o plástico mais utilizado na produção de garrafas que todos usamos diariamente... infelizmente... Esta estirpe bacteriana produz duas enzimas, PETase e MHETase, ambas necessárias para converter o PET em dois monómeros, o ácido tereftálico e o etilenoglicol — os compostos a partir dos quais o PET é sintetizado, os dois ambientalmente benignos. Assim, fica constituído um ‘ciclo enzimático verde’ segundo o qual ambas aquelas enzimas degradam o PET nos seus constituintes naturais, o ácido tereftálico e o etilenoglicol. A MHETase é um dos temas abordados nesta edição. 

E a capa desta edição retrata uma plantação de algodão, onde o uso de bactérias substituiu o habitual de pesticidas! 

Em conclusão, as bactérias têm uma reputação injusta na medida em que são prioritariamente associadas a infeções, embora as suas funções sejam muito mais complexas, dado que apenas um número muito pequeno de bactérias é patogénico. Na realidade, mais de 95% das bactérias não são nocivas para os humanos que vivem no meio delas e graças a elas!

[1] Em português, o termo enzima é utilizado indiscriminadamente como sendo feminino ou masculino.


 Maria João Ramos 
 Editora convidada 



📗 Versão impressa disponível na Biblioteca.


sábado, 1 de janeiro de 2022

Tradições de Natal

 


mmm

Natal dos simples | Interpretação de Amália Rodrigues




"Entre as tradições populares portuguesas encontra-se a prática das Janeiras, uma tradição ancestral que consiste em cantar as boas festas, habitualmente, entre o Natal e o Dia de Reis, desejando votos de prosperidade para o Ano Novo. Estes cantos eram feitos de porta a porta por grupos de pessoas (em épocas remotas, à porta dos mais abastados).

São vagos os estudos sobre a origem das Janeiras. Uma abordagem através da história oral permite concluir que, no seio popular, o Cantar as Janeiras é tomado como sinónimo de Cantar os Reis. No entanto, sabe-se que a tradição das Janeiras deriva de costumes pagãos, tal como outras tradições cristãs: os romanos comemoravam a entrada no novo ano em nome de Janus, o porteiro celestial, deus do passado e do futuro, que fechava a porta do ano que findava e abria a porta do que se iniciava. Janus terá dado origem à denominação do primeiro mês do ano, janeiro, que se inicia depois do solstício de inverno. Por conseguinte, a tradição de Cantar as Janeiras está associada a este costume dos romanos.

O Cantar os Reis é, por sua vez, uma tradição cristã que corresponde ao epílogo da quadra festiva de Natal. Os Reis, segundo a Bíblia, correspondem aos três magos, Baltazar, Belchior e Gaspar que vieram dar as boas vindas ao Messias, que nasceu pouco depois do solstício de inverno, ofertando-o com incenso, ouro e mirra. Por conseguinte, esta é uma tradição que pretende evocar a adoração ao menino Jesus.

Pelas analogias da intenção da cada uma destas práticas, a tradição popular, ao longo do tempo, incutiu-lhes uma certa simbiose, fundindo-as num só propósito."



O tempo da imprevisibilidade

 

Cartoon de Adriana Mosqueira (Nani)






Se há certeza no nosso tempo, é a de não saber o que esperar. Não se trata apenas de mudança, que não é de agora que o mundo é dela composto. Nem de velocidade, em que o curto prazo foi superado pelo nanoprazo. Trata-se de imprevisibilidade.

Tudo muda, e depressa. O que não temos como certo é a direção, o sentido que toma o fio do tempo. E ainda que as mudanças nos elevem, que nos coloquem melhor, nunca o sabemos antes de lá chegar e, até lá, sobra o temor.

O que caracteriza este tempo é a ansiedade, um pressentimento que atravessa gerações: não saber se a empresa em que trabalhamos se deslocaliza, se o curso que escolhemos nos prepara, se temos os meios para competir, se conseguimos viver onde queremos, se temos estabilidade para ter filhos, se temos condições para cuidar dos nossos pais, se a nossa profissão permanece, se vamos conseguir dar aos filhos um pouco mais do que tivemos.

E se o mundo nos oferece oportunidades inimagináveis há 50 anos, e se temos uma qualidade de vida impensável há 155 anos, não é menos verdade que esta ansiedade convoca receios e agudiza a vontade de justiça, de não ficar para trás, de ter uma oportunidade. Há um sentido de urgência invulgar porque a vida nunca foi tão imprevisível e a possibilidade de ser ultrapassado nunca foi tão real [...].


Adolfo Mesquita Nunes, O tempo da imprevisibilidade, in Diário de Notícias, 28 Dezembro 2019

Encontros felizes de leitura para 2022

 




A equipa de coordenação da Biblioteca deseja a toda a comunidade educativa um 2022 com muita saúde e felizes encontros de leitura!


Do tempo sabemos uma pequena parte

 







DO TEMPO SABEMOS UMA PEQUENA PARTE E IGNORAMOS TUDO O RESTO. POR ISSO, O CONFRONTO COM O MISTÉRIO DO TEMPO NOS DEIXA SEM PALAVRAS

O




tempo não é adversário com o qual nos sintamos propriamente confortáveis no ringue, pois no fundo sabemos que ele acabará por vencer. Também nós somos feitos de tempo, somos amassados no seu barro, percebemo-nos atravessados por substratos temporais em tensão, por tempos de natureza diferente que, à sua maneira, nos mensuram, suportam e explicam. Mas nós somos um tempo específico: não somos o tempo. Somos um instante em trânsito entre passado, presente e futuro. Somos esse movimento trânsfuga, essa fulguração, essa coisa entre. O complexo fio que o tempo desdobra supera-nos, é uma realidade a perder de vista, face à qual as nossas habilidades escasseiam. Do tempo sabemos uma pequena parte e ignoramos tudo o resto. Por isso, o confronto com o mistério do tempo nos deixa sem palavras. Como agora, neste ritual de passagem que no final de cada ano cumprimos, como se rodássemos sobre nós próprios, para desembarcar, de novo, numa espécie de limiar. Mais uma vez deixámos o conhecido e debruçamo-nos sobre o inédito. Santo Agostinho, que escreveu acerca do tempo páginas justamente tidas como clássicas, dizia com incisiva ironia: “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; porém, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”

Aqui estamos nós, diante do tempo, debruçados sobre esta balça ampla e enigmática, sobre este descampado que os nossos olhos fixam, gerindo expectativas e desejos em vez de certezas, reconhecendo humildemente que avançamos estrada fora munidos não de respostas, mas de um agostiniano ‘não sei’. Contudo, as surpresas da nossa relação com o tempo não terminam assim. Se o que nos resta conscientemente entre as mãos é a consideração de que não sabemos, somos chamados ainda a fazer alguma coisa com isso. O ser humano diz ‘não sei’, não como se chegasse ao fim do caminho, mas pronto a inaugurar um outro princípio.

Reli estes dias o discurso que a poeta polaca Wisława Szymborska fez na cerimónia de atribuição do Nobel, em 1996. Na altura, houve quem comentasse que era o discurso mais breve que a Academia Sueca escutou, mas isso não o torna menos relevante. Que propõe Szymborska? O elogio do ‘não sei’. É claro que tal não constitui um assunto consensual. E como que divide o mundo. Ainda bem que é assim. A poeta recorda que os ditadores, os fanáticos e os demagogos de todo o género “sabem, e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada”. Eles desconhecem, porém, que quando o conhecimento deixa de produzir novas questões é porque se está a extinguir e se distanciou do torrencial fluxo da vida. Contrapõe a escritora: “É por isso que dou tanto valor à pequena frase ‘não sei’. É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande a nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo ‘não sei’, as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo — no máximo, teria parado para apanhá-las e comê-las com deleite.” Ou, a também polaca, Marie Curie teria sido provavelmente professora de química em algum colégio de elite, mas não a extraordinária cientista em que se tornou. O ‘não sei’ é o modo com que as vidas fecundas plasmam o tempo que lhes coube.

Entre os propósitos para o ano que começa coloquemos a coragem de dizer ‘não sei’. Trata-se, porventura, de uma ferramenta desconcertante, mas também das mais criativas para enfrentar o tempo.

José Tolentino Mendonça. "O caminho do não sei" - Que coisa são as nuvens, in E-Revista Expresso, Semanário#2566, 30 de dezembro de 2021