quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Cultura Leitora





É imprescindível cuidar de quem lê. 
In, Manifesto pela Leitura, Irene Vallejo 



O pensamento crítico é um processo, forma-se na “prática praticada” da(s) literacia(s) – em contextos leitores, multimodais, plurais, no contacto com os livros, com formas de ouvir ler e ler, que provocam curiosidade e imaginação, no acesso e uso da informação, com múltiplas e variadas linguagens, para, assim, poder ler todas as palavras do mundo. 

A literacia não é um conceito estático. É uma prática histórica e socialmente situada, produto das condições económicas e culturais que hoje, em acelerada e profunda mudança, exigem uma atitude política. Daí a necessidade, a urgência alargada de uma intervenção holística e integradora, dirigida a toda a sociedade e perspetivada à luz dos atuais contextos e modos de ler e escrever. Ler como um dos direitos humanos. 

A escola é um lugar privilegiado do ensinar e do aprender. Sítio de acesso a livros de qualidade, de partilha da vivência da leitura e de crescimento através da experiência humana de ler, devendo, por isso, ser um espaço de apropriação da cultura letrada, de formação de leitores e de capacitação para o uso escolar e social da leitura e da escrita, qualquer que seja o seu propósito e contexto. Colocar o livro, a leitura e a literacia no centro da vida escolar é, assim, uma responsabilidade da escola e dos agentes educativos, favorecendo o convívio com os textos, o hábito e o gosto de ler. 

Uma educação mais rica, humanista e inclusiva tem o dever de valorizar e reforçar o lugar e a representação do livro e do leitor na vida das escolas, dos professores, dos alunos e da própria sociedade. 

O PNL2027, como política pública de leitura, vai ao encontro desta preocupação e, neste sentido, propõe o crescimento do seu impacto no desenvolvimento das competências leitoras, dos hábitos e do gosto pela leitura e pela escrita. Área de intervenção que é atualmente, um campo de convergência de uma grande variedade de modos de ler, aceder à informação, comunicar em múltiplas linguagens, garantindo a sustentabilidade e a consolidação das ações no âmbito das práticas de leitura e escrita, da formação de leitores e do desenvolvimento das literacias.

As literacias, conjunto de conhecimentos, capacidades e atitudes em contínua mutação, feito das nossas competências para apreender o mundo, interagir com ele e agir consciente e criticamente sobre ele, não podem deixar de se constituir, também elas, como a LITERACIA da leitura, dos média e da informação, verbal, multimodal e transmédia, simultaneamente impressa e digital. 

Na aprendizagem básica da leitura e da escrita, no seu posterior desenvolvimento e na consolidação da prática da literacia, exercitada em passos progressivamente mais avançados à medida que se caminha na escolaridade, é indispensável integrar quer a leitura impressa, quer a leitura nos ecrãs porque, está provado, lê mais e lerá melhor quem executa ambas, desde que realizadas de forma pertinente e corretamente orientada. As tecnologias já não são só uma ferramenta, mas também não valem por si próprias, se o seu uso educativo for contraproducente; por isso, é muito importante conferir-lhes sentido e não pensar que o seu uso é inócuo ou neutro, porque não é. Se a leitura impressa nos coloca uma série de desafios, a leitura digital é, pela sua natureza, igualmente exigente, requerendo mais e não menos competências. 

Ser capaz de ler, compreender e apreciar os textos continua a ser a base fundamental da leitura, a ela se juntando a capacidade de desenvolver estratégias de busca e processamento de informação que obrigam a selecionar, avaliar e integrar um número e uma variedade de estruturas e formatos de informação cada vez maior e mais complexa, em papel e dispositivos eletrónicos. 

A equidade na educação é, naturalmente, a primeira condição para uma verdadeira igualdade de oportunidades no mundo digital, em que todos possam beneficiar dos dispositivos e das ferramentas que vierem a ser colocados ao seu dispor. 

O objetivo tem de ser o de trazer todos para a frente com base no seu ponto de partida, independentemente de sexo ou contexto familiar, fazendo com que a escola, indiscutivelmente uma escola digital, faça a diferença com todos e para todos. 

A resposta para contrariar o acentuar das desigualdades pode servir, hoje, quer os desígnios da necessidade de recuperação das aprendizagens em Português, Ciências e Matemática, quer os desígnios da escola digital, que se revelam agora ainda mais urgentes. É a brecha nestas aprendizagens que é a grande causa do fosso digital e não o seu contrário. Ao diminuirmos a primeira, estaremos, por conseguinte, a minorar o segundo. 

Neste tempo, a cultura mediática tornou-se dominante, abrindo-se a outras linguagens, contextos e modos de aprender a arte, a literatura, os livros e o saber. Para saber viver na nova cultura mediática, há que apurar uma cuidada consciência crítica e ética, que tem de ser cultivada em todas as dimensões da nova vida, pessoal, escolar e profissional. 

Num tempo de coexistências de múltiplos ecrãs, plataformas, livros em papel e ebooks, redes sociais, influenciadores, algoritmos, inteligência artificial, entretenimentos aditivos, leitores multimodais, literacias várias e transliteracias, ler é resistir, é um imperativo ético e do saber. 

Para que os leitores tenham competências funcionais e reflexivas, metacognitivas, para que leiam bem, mais e melhor, para que leiam livros completos, com complexidades acrescidas, temas variados, correspondendo a interesses e curiosidades diversas, têm que ser formados numa escola com cultura leitora. Num ambiente em que os diferentes intervenientes sejam proprietários dos conceitos envolvidos nas práticas da leitura e da escrita, que disponham de livros e plataformas criadas como recursos de valor acrescentado e disponham de bibliotecas vivas, atualizadas e geridas por profissionais. Que isto se aplique a estudantes do ensino obrigatório e também universitário, a adultos, ao longo da vida porque, qualquer oportunidade perdida, representa menos leitores, menos cidadãos livres de escolher e decidir os seus destinos. 

Teresa Calçada – Comissária do PNL2027 
Elsa Conde – Subcomissária do PNL2027

Noesis - Notícias da Educação, #62, Direção-Geral de Educação, Dezembro 2021


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