quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Neurocirurgião português participa em projeto da NASA




PASSEIO PÚBLICO56 MINUTOS COM



EDSON SANTOS OLIVEIRA






“ASTRONAUTAS TÊM SAUDADES DO CHEIRO DO CAFÉ”



Como surgiu o convite para a agência espacial norte-americana?
Foi depois de ter terminado a especialidade de neurocirurgia em [Hospital] Santa Maria. Conheci um elemento do departamento médico da NASA numa conferência de neurocirurgia e dessa simples conversa nasceu o convite. Ele precisava de neurocirurgiões para o desenvolvimento de alguns projetos de investigação, e fui para a NASA.
O mundo é tão grande, porquê um neurocirurgião português?
Acima de tudo, o departamento médico da agência procura entusiastas na área. E eu já tinha currículo: no final da faculdade, tinha-me candidatado a um estágio no departamento médico da ESA, em Colónia, e participado no processo de seleção de astronautas em 2009.
O convite da NASA foi para que funções em concreto?
Estou integrado num projeto que está a ser feito pela NASA, MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e o Massachusetts General Hospital (MGH), em Boston, para estudar uma síndrome neuro-ocular induzida por voo espacial. Descobriu-se que com a permanência na Estação Espacial Internacional, há 20 anos habitada e com voos de longa duração — já há pessoas a passar um ano lá em cima —, a acuidade visual diminui e não se percebe porquê.
Há a possibilidade de quem vai voltar cego?
Cego não, mas uma perda de acuidade visual. Na estação espacial chegam a perder 30% em meio ano, o que é bastante significativo. Há também alterações na retina, com hemorragias e edema da papila, e no globo ocular, que fica mais achatado. E isto preocupa bastante quando se está a almejar uma viagem a Marte, com três anos entre ir e voltar.


[NO ESPAÇO] ALÉM DO GLOBO OCULAR, VERIFICAM-SE ALTERAÇÕES ANATÓMICAS NO CÉREBRO. E O SISTEMA NEUROVESTIBULAR, DO EQUILÍBRIO, SOFRE ALTERAÇÕES PROFUNDAS PORQUE NÃO TEM GRAVIDADE PARA SE ORIENTAR” 

E onde é que entra a neurocirurgia?
Suspeita-se de que no espaço existe um aumento da pressão intracraniana do ponto de vista crónico, de longa duração, que origina uma hipertensão ocular. O problema é medirmos a pressão intracraniana no espaço. Do ponto de vista da neurocirurgia, é regular e medida de duas formas: com punção lombar, para medir a pressão do líquido obtido, ou com o método clássico, e que fazemos nas nossas unidades hospitalares, de fazer um pequeno buraco no crânio e colocar um sensor no cérebro. Obviamente, nenhuma destas maneiras é suscetível de ser feita no espaço porque são métodos extremamente invasivos. Agora estamos a validar um dispositivo, desenvolvido pelo MIT, que mede a pressão intracraniana de forma não invasiva.
A ideia é o astronauta levar o dispositivo posto?
Sim, um dispositivo que se cola na cabeça e que, através de uma medição do espectro de infravermelhos, torna possível saber qual é a pressão. Do ponto de vista da medicina aeroespacial é importante, porque não se sabe qual é a pressão intracraniana no espaço, mas seria revolucionário também em medicina terrestre, pois deixaria de ser necessário o procedimento invasivo.
O dispositivo já existe ou ainda é teórico?
Há um protótipo desenvolvido por engenheiros e parcialmente testado no MGH. Eu, como médico, validei questões importantes sobre as formas como deve ser utilizado e colocado no corpo.
E há mais mudanças no cérebro por viajar no espaço?
Há [risos], está tudo estudado! No corpo de 50 astronautas da NASA oito são médicos, o que facilita a investigação — compreendem a necessidade da estudar as alterações e fazem-no no próprio corpo — e deixa todos mais descansados quando está um médico lá em cima. Além do globo ocular, verificam-se alterações anatómicas no cérebro, que se identificam em ressonância magnética. Por exemplo, o sulco central (que divide duas grandes áreas funcionais) fica mais pequeno. E o sistema neurovestibular, do equilíbrio, sofre alterações profundas porque não tem gravidade para se orientar.
Os astronautas enjoam?
Perde-se o eixo de orientação, a gravidade, e ocorrem alterações de adaptação. Os movimentos da cabeça originam uma vertigem constante e esta é a primeira alteração que os astronautas sentem, e que ocorre novamente quando regressam à Terra. Outra alteração é a diminuição do líquido encéfalo raquidiano, onde o nosso cérebro ‘está a boiar’, e a perda de cálcio e de densidade óssea, obrigando os astronautas a duas horas de exercício todos os dias. Há ainda um alongamento da coluna, que em Terra leva à formação de hérnias discais.
Outra adaptação é à alimentação.
Sim, e é do que os astronautas mais têm saudades. Só há miminhos, alimentos frescos, a cada dois meses, quando chega a nave de carga. Todos eles dizem que têm saudades do cheiro do café [risos].
Não há cheiro no espaço?
A questão não é o cheiro. Está tudo acondicionado em plástico e o que é líquido comporta-se como bolhas. Mas agora já conseguem sentir o cheiro. Um astronauta conseguiu desenvolver uma chávena que, do ponto de vista da capilaridade, consegue manter o café e assim o cheiro. O MoMA, em Nova Iorque, até comprou agora uma chávena. Mesmo assim, nem todos os astronautas se adaptam — já houve alguns que estiveram 14 dias sem ir à casa de banho [risos].
E estar no espaço muda as emoções?
O que todos os astronautas dizem é que ao olharem pela janela veem a Humanidade como um todo, sem fronteiras. E, claro, sentem falta da família, embora já tenham um telefone para ligar para casa.
E mudam os desejos, sexuais por exemplo, ou o cérebro desliga funções?
O cérebro não desliga funções. E estamos a falar de pessoas muito inteligentes, com um perfil muito específico e altamente selecionadas, no último concurso em 18 mil candidatos a NASA escolheu 12.
Serão super-humanos a viver no espaço...
É um tema muito delicado e que tem sido falado em muitos congressos. Por exemplo, não sabemos como serão as crianças que nasçam noutro planeta. Estamos muito bem adaptados a este...
E-Revista Expresso, 3 de agosto de 2019

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