quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Pessoa, D. João I e a Ínclita Geração




No seu poema lírico-épico, Mensagem, Fernando Pessoa concede destaque significativo ao primeiro rei da dinastia de Avis, à Rainha consorte, D. Filipa de Lencastre, e aos cinco filhos infantes, conhecidos como a Ínclita Geração - D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. Fernando e D. João. 




Casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre, 
celebrado em 1387, na cidade do Porto

Marriage John I of Portugal and Philippa of Lancaster. (British Library, Royal 14 E IV f. 284)



A Mensagem revisita e (re)cria uma mitologia do passado heróico de Portugal. É composta por 44 poemas, agrupados em 3 partes (“Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto”) que representam as três etapas do Império Português: Nascimento, Realização/ Morte e Renascimento/advento do V Império. 

Com exceção da figura do Infante D. Henrique, evocada em dois poemas, um na 1ª parte - BRASÃO -, e outro no poema de abertura da 2ª parte - MAR PORTUGUÊS -, os poemas relativos a D. João I e sua família situam-se todos na 1ª parte da Mensagem. São 8 poemas no total.





1º PARTE - BRASÃO
OS CASTELOS



D. JOÃO O PRIMEIRO 


O homem e a hora são um só 
Quando Deus faz e a história é feita. 
O mais é carne, cujo pó 
A terra espreita. 

Mestre, sem o saber, do Templo 
Que Portugal foi feito ser, 
Que houveste a glória e deste o exemplo 
De o defender. 

Teu nome, eleito em sua fama, 
É, na ara da nossa alma interna, 
A que repele, eterna chama, 
A sombra eterna.


D. FILIPA DE LENCASTRE 


Que enigma havia em teu seio 
Que só génios concebia? 
Que arcanjo teus sonhos veio 
Velar, maternos, um dia? 



Volve a nós teu rosto sério, 
Princesa do Santo Graal, 
Humano ventre do Império, 
Madrinha de Portugal!






AS QUINAS

D. DUARTE, REI DE PORTUGAL 


Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.

Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.





D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL 

Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com um olhar;
E essa febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro de mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face clara.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.



D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL 


Claro em pensar, e claro no sentir,
E claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser –

Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à ideia tida.
                            Tudo o mais é com Deus!


D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL 


Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemente parada;

Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita –
O todo, ou o seu nada.





O TIMBRE

A CABEÇA DO GRIFO: O INFANTE D. HENRIQUE

Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras
O único imperador que tem, deveras,

O globo mundo em sua mão.




2ª Parte: MAR PORTUGUÊS

O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!



Para saber mais sobre a estrutura da Mensagem

Blimunda 51



agosto de 2016



"«Um livro só existe se é lido; senão é um cubo de papel», diz Alejandro García Schnetzer na entrevista publicada na Blimunda deste mês. Ele é quem está por trás de O Lagarto, que une as palavras de José Saramago ao traço do artista popular brasileiro J. Borges. À revista, o editor contou sobre o processo de criação desse livro que agora chega aos leitores portugueses.

Mais do que cubos de papel foi o que a jornalista e escritora portuguesa Carla Maia de Almeida viu na visita que fez à Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique. Criada em 1949, numa tentativa de se trazer um pouco de cultura a um país arrasado pela guerra, a biblioteca reúne hoje mais de 600 mil livros. «É uma espécie de paraíso», relata Carla Maia de Almeida no texto que escreve especialmente para a revista.

Livros na estrada, On the Road, é um projeto que leva – sobre rodas – autores em língua portuguesa aos turistas que visitam Lisboa. Sara Figueiredo Costa passou uma tarde com os responsáveis pela iniciativa – uma ideia da livraria Fonte de Letras, de Évora – e relata aos leitores da Blimunda o que viu.

Na secção Visita Guiada, Andreia Brites foi até ao Porto para conhecer a editora Tcharan.

Ainda nas páginas da Blimunda, um artigo sobre o encontro realizado na Fundação José Saramago que teve por objetivo pensar em estratégias para que a cultura portuguesa tenha uma participação mais efetiva na Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil."






Filipa de Lencastre, de Isabel Stilwell







Sinopse


"Filipa de Portugal morreu de peste negra, tal como a sua mãe, a 15 de julho de 1415. Com 55 anos. No dia 25 partiam de Lisboa 240 embarcações e um exército de 20 mil homens, entre os quais D. Duarte, o Infante D. Henrique e D. Pedro. A Praça de Ceuta caía cerca de um mês depois. D. Filipa não esperaria outra coisa dos seus filhos… Mulher de uma fé inabalável, conhecida pela sua generosidade, empreendedora e determinada a mudar os usos e costumes de uma corte tão diferente da sua, Filipa de Lencastre deu à luz, aos 29 anos, o primeiro dos seus oito filhos. A chamada Ínclita Geração, que um dia, como ela, partiria em busca de novos mundos e mudaria para sempre os destinos da nação. 
Frei John, o tutor já tinha previsto o seu destino nas estrelas. Nasceu Phillipa of Lancaster, filha primogénita de John of Gaunt, mas aos 29 anos deixou para trás a sua querida Inglaterra para se casar com D. João I de Portugal. A 11 de fevereiro de 1387, o povo invadiu as ruas da cidade do Porto para aclamar carinhosamente D. Filipa de Lencastre, Rainha de Portugal. 
Num romance baseado numa investigação histórica cuidada, Isabel Stilwell conta-nos a vida de uma das mais importantes rainhas de Portugal. Desde a sua infância em Inglaterra, onde conhecemos a corte do século XIV, à sua chegada de barco a Portugal onde somos levados numa vertigem de sentimentos e afectos, aventuras e intrigas."



terça-feira, 30 de agosto de 2016

Os filhos de D. João I, de Oliveira Martins






Excerto:

"Tudo lhe saiu bem, a esse homem feliz. Conquistou o Reino, e sentou-se no Trono aclamado pelo povo inteiro. Acertou casando, e teve a mais bela geração de filhos. Nuno Álvares coroou-o, e João das Regras sancionou com a lei o que o condestável traçara com a espada. Velho e viúvo, com os filhos à roda, comete a temeridade de ir a Ceuta. E conquistando-a com a mesma facilidade, deixa em herança ao Reino o caminho da glória patente."

"Para onde vai? Uns dizem que vai a Ceuta, outros que vai à Sicília; o ano passado dizia-se que ia contra o duque de Holanda. Onde irá? É também o que a História pergunta neste momento épico, em que principia a desenrolar-se a grande tragédia da nossa vida ultramarina... E pouco a pouco, sem resposta, as velas se foram sumindo para lá da barra, perdendo-se no mar; pouco a pouco a noite descaiu impassível sobre esse dia decisivo. E toda a noite levou-a Portugal sonhando, na inquietação do desconhecido." 

MARTINS, Oliveira, Os filhos de D. João I. Lisboa. Editora Ulisseia, 1998, pp. 45 e  65.




Sinopse

Os Filhos de D. João I, publicado em 1891, foi considerado por Eça de Queirós a maior obra de Oliveira Martins. As biografias que romanceia são exemplares, passíveis de se inserirem no movimento de reação patriótica ao Ultimatum inglês de 1890. Neste livro, uma forte personalidade de artista alia-se à de historiador, para fazer da História uma ressurreição de épocas passadas.


D. João I, de João Fernando Ramos


O Pai da Ínclita Geração

"Este livro toma como fonte de inspiração factos e acontecimentos de cariz histórico e científico que, no entanto, não limitaram a imaginação e a liberdade ficcional própria de um romance histórico.
A época escolhida foi a do reinado de D. João I, um monarca que marcou o rumo de Portugal, inaugurando a Segunda Dinastia, conhecida precisamente por Avis, imortalizado a importância do rei que a iniciou."
RAMOS, João Fernando, "Nota final", João I - O Pai da Ínclita Geração. Lisboa: A Esfera dos Livros, p. 363.






Excerto:


"No plano traçado, os três homens só saíram do paço depois de o povo encher a praça. Não passou mais de meia hora e a populaça já tinha tomado conta de tudo e ameaçava incendiar a casa da Aleivosa. João apareceu então à janela para dizer que estava vivo.

- Povo de Lisboa, o vosso Mestre está vivo!

Aquela gente empolgou-se em palmas e vivas a el-rei. Muitos nunca tinham posto a vista em cima do Mestre, outros pensavam que aquele João era o filho de Pedro e Inês, que muitos ansiavam coroar, corrigindo um desvio na História que teve a coragem de acabar com a história de amor entre Pedro e Inês, condenando ao degredo os seus descendentes.

João pediu calma:

- Não vos preocupeis, Lisboa não cairá nas mãos de Castela... - disse sem conseguir terminar a frase, interrompido pelo entusiasmo do povo, que parecia ganhar uma nova esperança.

D. Leonor ouvia as palavras do Mestre, apavorada, e pedia às aias para arrumarem o que pudessem nos seus baús. O seu coche saiu pelas traseiras, sem honra, com a rainha num pranto imenso rumo a Alenquer."

RAMOS, João Fernando, D. João I - O Pai da Ínclita Geração. Lisboa: A Esfera dos Livros, p. 141.



Sinopse:
Era preciso esquecer a incerteza, as dúvidas que lhe assolavam o coração. Era rei de Portugal, aclamado pelo povo e estava ali para a batalha definitiva, junto do seu fiel amigo e guerreiro do reino, Nuno Álvares Pereira. Iria vencer, como já haviam vencido outras difíceis batalhas, e afirmar-se para sempre na História de Portugal. João havia intuído os sinais que o destino lhe havia deixado… 

O jornalista João Fernando Ramos traz-nos, no seu romance estreia, a aventurosa e fascinante história de D. João I, o da Boa-Memória. Nasceu filho bastardo, foi mestre de Avis, mas a força das circunstâncias levaram-no a conjurar contra a regente D. Leonor Teles e o seu secretário galego Conde Andeiro, fiéis subservientes dos interesses do reino vizinho. Era preciso assumir um trono para o qual não estava destinado. Lutar pela independência de um povo contra a ameaça castelhana e afirmar a sua dinastia na História de Portugal. Para isso contava com a ajuda silenciosa de Adelaide, uma mulher misteriosa com o suave cheiro das montanhas… Do feliz casamento com a inglesa D. Filipa de Lencastre nasceu uma geração de filhos que marcou para sempre a história do país. Armados cavaleiros pela mãe moribunda, juntos conquistaram Ceuta, sonharam com novos mundos, conquistaram novas alianças. Foram a Ínclita Geração.



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Estrangeiras, de José Luís Peixoto


Teatro







Sinopse

"Ao tentarem entrar nos Estados Unidos, três mulheres, chegadas de diferentes latitudes da lusofonia, são obrigadas a ficar juntas durante algumas horas numa sala da polícia de fronteira do aeroporto. É na incerteza dessa espera que, aos poucos, vão mostrando o que são e o que pensam umas sobre as outras.
Este texto teatral do premiado escritor José Luís Peixoto reflete sobre os diversos espaços de uma língua espalhada pelo mundo, sobre o seu património de referências, a sua riqueza e, também, sobre os seus preconceitos, contradições e problemas."


PEIXOTO, José Luís, Estrangeiras. Lisboa: Rosa de Porcelana Editora, 2016.



Prólogos: "entre o estudo crítico e o brinde"






"[...] é claro que o prólogo é um género intermédio entre o estudo crítico e o brinde, digamos assim. Isto é, percebe-se que no prólogo tem de haver um pequeno excesso de elogio; o leitor desconta isso. Mas, ao mesmo tempo, o prólogo tem de ser generoso, e eu, ao fim de tantos anos, ao fim de demasiados anos, cheguei à conclusão de que só devemos escrever sobre aquilo que gostamos. Acho que a crítica contrária não tem sentido; por exemplo, Schopenhauer pensava que Hegel era um impostor ou um idiota, ou as duas coisas. Bom, agora os dois convivem pacificamente nas histórias da filosofia alemã. Novalis pensava que Goethe era um escritor superficial, apenas correto, meramente elegante; comparava as obras de Goethe às mobílias inglesas... bem, agora Novalis e Goethe são dois clássicos. Isso significa que aquilo que se escreve contra alguém não prejudica esse alguém, e não sei se o que se escreve a favor o enaltece; mas eu há muito tempo que escrevo sobre o que gosto, pois penso que quando não gosto de alguma coisa é mais por causa de uma incapacidade minha ou parvoíce, e não tenho de tentar convencer os outros. "

BORGES, Jorge Luis, "Os prólogos". In. FERRARI, Osvaldo, Em diálogo com Jorge Luis Borges, vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p.59.

Cartazes do Cinema Português



















Mais cartazes e links de acesso a 118 filmes portugueses alojados no YouTube  AQUI.




Mário de Carvalho | Entrevista





sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Isabel de Aragão. Rainha Santa




"Escusávamos talvez de acrescentar que este livrinho é uma «vida», ou seja, uma interpretação puramente biográfica da Rainha - uma obra de arte. Seja como for, não perdemos o pé da História, não inventámos um único personagem ou facto: a nossa invenção é puramente psicológica. Não se pode fazer uma «vida» com verbas avulsas dos arquivos.".
 Nemésio, Vitorino, Isabel de Aragão. Rainha Santa. Lisboa:Texto, 2011, p. 79.





Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura



" - «Eu, Isabel, filha do excelente D. Pedro por graça de Deus magnífico rei de Aragão, entrego o meu corpo como mulher legítima do senhor D. Dinis, por graça de Deus rei de Portugal e Algarve...».
Apesar de não ver a pessoa a quem fazia aquela entrega e de não sentir nos seus véus que alguma coisa entregasse, Isabel percebeu que aquelas palavras seriam mais tarde profundas. O peso delas já lhe começava no peito, sentiu uma espécie de tristeza como se viesse chuva e a terra fosse o seu ser."

Nemésio, Vitorino, Isabel de Aragão, Rainha Santa. Lisboa:Texto, 2011, p. 22.




Sinopse

"Desde tenra idade Isabel de Aragão mostrou gosto pela religião, tendo promovido uma série de obras pias, fundando ou ajudando à fundação de hospitais (Coimbra, Santarém, Leiria), asilos e albergarias (Leiria, Odivelas), mosteiros, capelas (Convento da Trindade em Lisboa, Claustro em Alcobaça, capelas em Leiria e Óbidos). A sua presença junto do Rei D. Dinis era constante, o que lhe granjeou grande popularidade junto do povo, que desde cedo a considerou Santa atribuindo-lhe inúmeros milagres."


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Os gatos como motivo poético e fotográfico








Ode ao Gato

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria







A un gato 

No son más silenciosos los espejos
ni más furtiva el alba aventurera;
eres, bajo la luna, esa pantera
que nos es dado divisar de lejos.
Por obra indescifrable de un decreto
divino, te buscamos vanamente;
más remoto que el Ganges y el poniente,
tuya es la soledad, tuyo el secreto.
Tu lomo condesciende a la morosa
caricia de mi mano. Has admitido,
desde esa eternidad que ya es olvido,
el amor de la mano recelosa.
En otro tiempo estás. Eres el dueño
de un ámbito cerrado como un sueño.

Jorge Luís Borges








O Nome dos Gatos 

Dar nome aos gatos é assunto complicado,
Não é apenas um jogo que divirta adolescentes;
Podem pensar, à primeira vista, que sou doido desvairado
Quando eu digo, um gato deve ter TRÊS NOMES DIFERENTES.
Primeiro, temos o nome que a família usa diariamente,
Como Pedro, Augusto, Alonso ou Zé Maria,
Como Vítor ou Jonas, Jorge ou Gui Clemente –
Todos nomes sensíveis para o dia-a-dia.
Há nomes mais requintados se pensam que podem soar melhor,
Alguns para os cavalheiros, outros para tia:
Como Platão, Demetrius, Eletra ou Eleonor –
Mas todos eles são sensíveis nomes de todo dia.
Mas eu digo, um gato precisa ter um nome que é particular,
Um nome que lhe é peculiar, e que muito o dignifica,
De outro modo, como poderia manter sua cauda perpendicular,
Ou espreguiçar os bigodes, orgulhar-se de sua estica?
Dos nomes deste tipo, posso oferecer um quórum,
Como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum –
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.
Mas, acima e para além, ainda existe um nome a suprir,
E este é o nome que você jamais cogitaria;
O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir –
Mas O GATO E SOMENTE ELE SABE, e nunca o confessaria.
Se um gato for surpreendido com um olhar de meditação,
A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma que o consome:
Sua mente está envolvida numa rápida contemplação
De lembrar, de lembrar, de lembrar qual é o seu nome:
Seu inefável afável
Inefável
Oculto, inescrutável e singular Nome.

T. S. Eliot






Gato

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O´Neill 




Os gatos

Os amantes febris e os sábios solitários
Amam de modo igual, na idade da razão,
Os doces e orgulhosos gatos da mansão,
Que como eles têm frio e cismam sedentários.

Amigos da volúpia e devotos da ciência,
Buscam eles o horror da treva e dos mistérios;
Tomara-os Érebo por seus corcéis funéreos,
Se a submissão pudera opor-lhes à insolência.

Sonhando eles assumem a nobre atitude
Da esfinge que no além se funde à infinitude,
Como ao sabor de um sonho que jamais termina;

Os rins em mágicas fagulhas se distendem,
E partículas de ouro, como areia fina,
Suas graves pupilas vagamente acendem.

Charles Baudelaire








Os dois gatos


Dois bichanos se encontraram
Sobre uma trapeira um dia:
(Creio que não foi no tempo
Da amorosa gritaria).

De um deles todo o conchego
Era dormir no borralho;
O outro em leito de senhora
Tinha mimoso agasalho.

Ao primeiro o dono humilde
Espinhas apenas dava;
Com esquisitos manjares
O segundo se engordava.

Miou, e lambeu-o aquele
Por o ver da sua casta;
Eis que o brutinho orgulhoso
De si com desdém o afasta.

Aguda unha vibrando
Lhe diz: ''Gato vil e pobre,
Tens semelhante ousadia
Comigo, opulento, e nobre?

Cuidas que sou como tu?
Asneirão, quanto te enganas!
Entendes que me sustento
De espinhas, ou barbatanas?

Logro tudo o que desejo,
Dão-me de comer na mão;
Tu lazeras, e dormimos
Eu na cama, e tu no chão.

Poderás dizer-me a isto
Que nunca te conheci;
Mas para ver que não minto
Basta-me olhar para ti.''

''Ui! (responde-lhe o gatorro,
Mostrando um ar de estranheza)
És mais que eu? Que distinção
Pôs em nós a Natureza?

Tens mais valor? Eis aqui
A ocasião de o provar.''
''Nada (acode o cavalheiro)
Eu não costumo brigar.''

''Então (torna-lhe enfadado
O nosso vilão ruim)
Se tu não és mais valente,
Em que és sup'rior a mim?

Tu não mias?'' - ''Mio.'' - ''E sentes
Gosto em pilhar algum rato?''
''Sim.'' - E o comes?'' - ''Oh! Se como!...''
''Logo não passa de um gato.

Abate, pois, esse orgulho,
Intratável criatura:
Não tens mais nobreza que eu;
O que tens é mais ventura.''

Bocage



Fotografia de Robert Sijka


Quem foi Kafka?






“Existem dois principais pecados humanos a partir dos quais derivam todos os outros: impaciência e indiferença. Por causa da impaciência fomos expulsos do Paraíso, por causa da indiferença não podemos voltar.” ― Franz Kafka




Franz Kafka. National Library. Israel




Escritor de língua alemã, autor de romances e contos, Franz Kafka é considerado um dos escritores mais influentes do século XX.


Conheça melhor o homem e a obra:







História da Banda Desenhada em Portugal | Episódio 2



De 1968 ao verão de 2007









História da Banda Desenhada em Portugal | Episódio 1



Das origens a 1968










quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O diálogo e a cultura ocidental


"Sem esses poucos gregos conversadores a cultura ocidental seria inconcebível."
- Jorge Luis Borges (24 de agosto de 1899-14 de junho de 1986)


Jorge Luís Borges. Foto de Humberto Rivas (1972)



"Cerca de quinhentos anos antes da era cristã deu-se na Magna Grécia a melhor coisa que a história universal regista: a descoberta do diálogo. A fé, a certeza, os dogmas, os anátemas, as preces, as proibições, as ordens, os tabus, as tiranias, as guerras e as glórias esmagavam o orbe; alguns gregos contraíram, nunca saberemos como, o singular costume de conversar. Duvidaram, persuadiram, discordaram, mudaram de opinião, adiaram. Talvez a sua mitologia os tenha ajudado, que era, como o xintó, um conjunto de fábulas imprecisas e de cosmogonias variáveis. Essas conjunturas dispersas foram a primeira raiz daquilo a que chamamos hoje, não sem alguma pompa, «metafísica». Sem esses poucos gregos conversadores a cultura ocidental seria inconcebível."


BORGES, Jorge Luis, "Prólogo". In. FERRARI, Osvaldo, Em diálogo com Jorge Luis Borges, vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p.5. 


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Feliz aquela que efabulou o romance







Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen


O verbo relatar





"No verão todos somos Xerazade. Damos por nós em conversas que se espreguiçam, sem cronómetro nem pressas de ver o fim, deslumbradas pela aparente falta de propósito, por não terem requerido, como é habitual nas outras estações, um fito, um lugar e um tempo exatos. Conversas que são, na sua quase ligeireza, uma espécie de navegação sem rumo, mas onde mais depressa, e não raro de um modo surpreendente para nós próprios, nos reencontramos. Não sei se é um privilégio dos caminhos do estio, se são os seus dias mais longos e os afazeres mais breves, ou se é a limpidez da praia e a frescura resguardada da varanda que, de repente, nos permitem recontarmo-nos uns aos outros, capazes subitamente de evocações, relatos e confidências. No verão percebemos que afinal temos história e que ela se declina numa pluralidade de pequenas histórias, no entrançado de sentimentos, coisas vividas ou não, sentidas com entusiasmo ou mastigadas com mágoa, mas que se tornam inseparáveis de nós. Afinal não somos afásicos como supomos, somando experiências em vertigem mas sem nada para dizer, fugindo do assunto quando o assunto é a vida e o que a qualifica, esbarrando às cegas em vez de nos expormos ao encontro. Afinal somos capazes de presença."
José Tolentino Mendonça, "Que coisa são as nuvens - O verbo relatar". E-Expresso Revista, 13 de agosto de 2016, p. 88.


Sinais de Fogo: um livro, um filme



Sinais de Fogo, romance de Jorge de Sena






Romance único de Jorge de Sena, parcela de um projeto romancesco de grande dimensão cuja designação genérica seria Monte Cativo, objetivando o recorte de uma geração nascida nos finais dos anos 10 do século XX, Sinais de Fogo abriga em si o despertar de um jovem, entre um grupo de amigos e familiares, para a sexualidade, a política e o fazer poético. De uma erudição e de um rigor literário inexcedíveis, aqui se fixa um olhar sobre o ano de 1936 português, tendo como pano de fundo o início da Guerra Civil de Espanha.


Transcrevemos o artigo de Carlos Câmara Leme sobre este romance:


Um romance de poesia em bruto

Publicado postumamente, longo, inacabado, "Sinais de Fogo" é um dos mais portentosos romances portugueses da segunda metade do século XX. Não há que ter medo das palavras: estamos perante uma absoluta obra-prima. 
A intriga do livro conta-se em poucas palavras. Um jovem estudante nascido no seio da média burguesia lisboeta dos anos 30, Jorge (quem ler "Sinais de Fogo" autobiograficamente passará ao lado da essência do romance), depois das traquinices próprias da adolescência com os seus colegas de estudos, vai, como era habitual, passar as suas férias de Verão à Figueira da Foz. A Figueira - com "diversas Figueiras pequeninas", "umas latentes no fundo do ser, outras evidentes" e em que "em cada uma delas é possível amar-se uma pessoa, por razões próprias deste mundo" - é o espaço geográfico central do livro, que regressará, mais tarde, à capital.
Jorge vai para casa do tio, Justino, um "bon-vivant", jogador inveterado de cartas ou no casino, "seguindo com os olhinhos a bolinha da roleta", que sem nunca ter conseguido seguir a carreira militar tinha tido um caso amoroso rocambolesco que o marcará para toda a vida. Por isso, em casa, tio e tia dormiam em quartos separados e Justino, quando podia, dava uma saltada ao quarto da criada mais apetitosa ou mais à mão.
Jorge não arriba à Figueira num dia qualquer: "Quando cheguei à Figueira, a estação era um tumulto de espanhóis aos gritos, com sacos e malas, crianças chorando, senhoras chamando uma pelas outras, homens que brandiam jornais, e uma grande massa de gente comprimindo-se nas bilheteiras."
Em Espanha rebentara a revolução. Jorge não se impressiona. Sai o mais rapidamente de casa dos tios à procura de Odette, que fora sua "de graça". Odette estava no Porto "por conta de um ricaço...".
Desanimado, Jorge vai à procura dos seus amigos de férias. Há personagens para todas as variações do ser e estar. Uma coisa, porém, os une: a descoberta do amor, da(s) mulhere(s), sejam elas prostitutas ou sérias, que começa logo no início do livro com uma orgia noctívaga, a libertinagem, a raiar o pornográfico.
À espreita - assumido também pela homossexualidade de Rufininho -, estamos perante um romance de iniciação: "Eu era uma criança. Os meus amigos eram umas crianças. Todos nós era como se tivéssemos afinal só dezasseis anos ainda. E não seria que quase todos os homens continuavam assim?"
Com a Guerra Civil de Espanha como pano de fundo, eis que aparecem em casa do tio Justino dois espanhóis. Contra a pardacenta ditadura do senhor de Comba Dão ("Está tudo depravado. Razão tem o governo em dizer que chegou a hora da limpeza. O Salazar, agora, vai pôr tudo na ordem"), Justino faz ponto de honra em protegê-los, preparar o salto, por barco, para Espanha, com a colaboração de uma personagem menor do romance, um funcionário do Partido Comunista Português, e a morte de um amigo que participa na fuga.
Porém, o eixo central do romance é a explosão de uma paixão: a de Jorge por Mercedes, que já se adivinhava no Verão anterior. É em torno dela que vai desaguar toda a poesia bruta (brutal mesmo) de "Sinais de Fogo".
"Eu queria-a minha, por que preço fosse"
Entregando-se a dois homens ao mesmo tempo, Mercedes, que está noiva dos amigos de Jorge, abre um sinal de fogo indizível que acompanhará Jorge: há uma obsessão e uma ultrapassagem a que Jorge não resiste. Mesmo que o Almeida a possuísse, Jorge remói, sangrando: "Que o diabo levasse tudo o que quisesse, todas as preocupações, todos os ciúmes, todas as palavras dadas por conta dele. Eu queria-a minha, por que preço fosse." Almeida podia ir com ela para a cama e, na mesma tarde, Jorge também se entregaria a ela.
Quando está com os amigos, ou vê o mar, ou quando pratica mais orgias - mesmo retirando delas prazer -, o seu ser (e o nada dele) são permanentemente transfigurados em efabulações constantes, umas de carácter filosófico-metafísico, outras de prosa poética que se lançam à poesia no sentido literal do termo: "Sinais de fogo, os homens se despedem, exaustos e tranquilos, destas cinzas frias. (...) um breve instante, gestos e palavras, ansiosas brasas que se apagam logo".
Não é verdade, não se apagam. Mesmo quando tudo acaba e Mercedes parte para o Porto - e Jorge se interroga, e nós com ele ainda hoje: "Sabes... a gente conheceu-se cedo de mais, ou tarde de mais" -, são "as ansiosas brasas" da poesia que ecoam. Em verso: "Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,/ recebo gratamente como se recebe/ não a morte ou a vida, mas a descoberta/ de nada haver onde um de nós não esteja."
Já em Lisboa, na companhia de Luís (o marinheiro que quer perder as graças no mar, não o da Figueira nem o da pesca do bacalhau, mas o mar do mundo), a voz de Jorge ecoa, agora em prosa, como se fosse um instrumento que, no meio de uma orquestra, envolvesse todo o tempo e espaço: "Depois, deitado na cama, sentia-me a arder (....) Não me sentia, porém, doente, nem sabia que estava vivo ou morto, nem isso tinha importância. Mesmo o dizer que eu 'estava' não é exacto, porque na suspensão de ser, que era a minha, o 'estar' não tinha sentido algum."
Fulgurante, Jorge de Sena, já no fim do romance, toca, subtilmente, mais uma vez no teclado: "Só me diriam alguma coisa outros versos, os livros que relatassem, mesmo imaginosamente, a vida."
"Sinais de Fogo" está entre esses versos. E a vida.
Carlos Câmara Leme, "Um romance de poesia em bruto", Sinais de Fogo na Série Y - Público.pt., 2009. 




O artigo de Orlando Nunes de Amorim, "Sinais de uma Guerra: Trauma e Crise Histórica em Sinais de Fogo, de Jorge de Sena", pode ser acedido AQUI. 




Sinais de Fogo, adaptação cinematográfica de Luís Filipe Rocha

Trailer do filme:





Ficha Técnica: 
Realização: Luís Filipe Rocha
Argumento: Luís Filipe Rocha e Izaías Almada
Produtor: Tino Navarro
Música: Enrique X. Macías
Ano: 1995
Género: Romance, Drama
Duração: 101’

Elenco:
Diogo Infante (Jorge)
Ruth Gabriel (Mercedes)
Marcantonio Del Carlo (Ramos)
José Airosa (Rodrigues)
Rogério Samora (Almeida)
Henrique Viana (Uncle)
Caroline Berg (Aunt)
Manuel Pereiro (D. Juan)
Alberto Arizaga (D. Fernando)
Joaquim Leitão (Party Officer)
Álvaro Correia (Matos)
Mário Redondo (Macedo)
Miguel Assis (Rufininho)
Glicínia Quartin (Aunt’s Mother)
Cristina Carvalhal (Maid)



terça-feira, 16 de agosto de 2016

Sinais de Fogo, de Jorge de Sena



Documentário "Grandes Livros", da RTP














Obra Aberta, de Umberto Eco



[...] quando Obra Aberta saiu, vi‑me envolvido num trabalho de ataque e de defesa que se arrastou por alguns anos. De um lado os amigos do Verri, o núcleo do futuro «Grupo 63», que se reconheceu em muitas das minhas posições teóricas, do outro lado os outros. Nunca vi tanta gente assim tão ofendida. Parecia que tinha insultado as suas mãezinhas. Diziam que não era assim que se falava de arte. Cobriram‑me de insultos. Foram anos de grande diversão."
Eco, Umberto, "Da parte do autor", Obra Aberta. Lisboa:Relógio D'Água, 2016, p.10.







"Nesta obra, Eco aborda a música serial, Joyce, a literatura experimental, a pintura informal, as estruturas temporais dos diretos televisivos, o novo romance, o cinema de Antonioni a Godard e a aplicação da teoria da informação à estética. A partir de uma série de pontos de vista diversos, elabora uma nova visão da arte contemporânea e dos modelos cognitivos que ela propõe, oferecendo uma espécie de metáfora epistemológica, que de modo autónomo apresenta uma definição do mundo próxima das novas metodologias científicas. 

Surgida no início dos anos 60, a obra alimentou sucessivas polémicas ao propor uma abordagem estética não tradicional. Obra Aberta, entretanto prolongada em Os Limites da Interpretação, permanece ainda hoje uma referência para as discussões sobre a linguística, a interpretação literária e o papel das vanguardas artísticas."

Relógio D'Água