sábado, 30 de junho de 2018

Jornal de Letras, Artes e Ideias



Está disponível na Biblioteca para consulta o nº 1245 do Jornal de Letras (de 20 de junho a 3 de julho)







Neste número:

Reportagem e entrevista: António Muñoz Molina, um escritor em Lisboa, por Luís Ricardo Duarte

António Arnaut, a procura da "palavra solar", por António Pedro Pita 

Um modo de estar na arte, por Marta Wengorovius

Dança, um projeto diferente, por Clara Andermatt


JL/Educação:
Helder de Sousa: O resultado das provas de aferição

José Jorge Teixeira: Quem é e quais são os projetos do "melhor professor do ano"


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Diálogos interartísticos




Fado Medo, poema de Reinaldo Ferreira e Alain Oulman


O medo

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo
O medo mora comigo
Mas só o medo, mas só o medo!


E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão
É com silêncio que fala
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão


Que farei quando, deitado
Fitando o espaço vazio
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado
Lázaro e frio?


Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim

Reinaldo Ferreira



Amália por Júlio Resende / "Medo" - Dueto com Amália Rodrigues



Pedi ao Gonçalo M. Tavares para que escrevesse a partir da inspiração que cada tema [musical meu] lhe despertasse. Que neste disco cada música pudesse ter uma nova letra, mesmo que não fosse para ser cantada. Tive a honra de ele o aceitar. Habitar o papel de coisas belas, eis a sua arte. Deixo-vos o magnifico texto do "Medo" e toda a essência do fado - o fado por trás, em cima, por baixo, à frente de cada segundo da canção que o tempo nos canta - e que ali leio. E exprimo mais uma vez a minha gratidão.


 


Medo
"O medo é uma forma de endireitares as costas. Ficas homem subitamente. Mulher subitamente. O medo é uma forma de endireitares as costas.
O medo é uma forma de fazer homens fortes, mulheres fortes.
Nada perturba mais o crescimento do que não ter medo: cresce com medo, menina; cresce com medo, menino!
Só cresço porque tenho medo, só me torno forte porque tenho medo, só me torno mau porque tive medo, só mato porque tive medo, só serei um homem porque tive medo, uma mulher porque tive medo. Assim se ensina na boa cidade, na velha cidade e no velho campo.
Mas não é o medo do que está à tua volta - porque isso pode matar ou não. Medo, sim, e muito, do que que está sentado em pleno meio de ti. Porque isso, sem dúvida, mata, acabará por te matar, não pode deixar de te matar. E está sentado, esse medo, bem sentado, em pleno meio de ti.
E não o tentes expulsar, não cometas esse erro: ele não pode sair de ti sem a tua companhia."
- Gonçalo M. Tavares

Entrevista a Gonçalo M. Tavares



"As pessoas leem para ter lucidez." 








Eu não quero mudar o mundo. 
Não tenho tempo para isso. 
Quem quer mudar o lugar do mundo actua como quem muda o lugar de um móvel: 
empurra primeiro para um lado, 
foi força demais, 
empurra então para o outro lado, 
agora com força de menos, 
depois mais um pequeno toque para lá 
e um ainda mais pequeno toque para lá, 
e agora sim: 
o móvel está no lugar. 
Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam 
lá dentro se encontram todos partidos. Estão a ver? 

Os copos todos partidos. Que aborrecimento. 
Não nos lembrámos da fragilidade do vidro. 

Gonçalo M. Tavares, in O homem ou é tonto ou é mulher


Revista de Ciência Elementar


A versão impressa da revista de junho, volume 6, número 2, já está disponível na Biblioteca para consulta!




 https://drive.google.com/open?id=12EFCWl1oka2RFYLC9VaVS7h6NAzLTKW_
Clocar na imagem para aceder à revista 




terça-feira, 26 de junho de 2018

Aprender a aprender






⏩ Paciência ⏪

⏩ Esforço ⏪

⏩ Resiliência ⏪

⏩ Humildade ⏪


Estes são alguns dos ingredientes necessários à aprendizagem. 


segunda-feira, 25 de junho de 2018

Renova-te









Cântico XIII

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.


Cecília Meireles


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Interpretação musical do poema: 


O poema interpretado por alunos de 8º ano do Colégio Waldorf Micael, SP, Brasil


Dimitri Cervo - Renova-te (1995) Regência: Letícia Grützmann


Aprendimentos







O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura

é o caminho que o homem percorre para se conhecer.

Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim

falou que só sabia que não sabia de nada.

Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas

di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas

das árvores servem para nos ensinar a cair sem

alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado

sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente

aprender o idioma que as rãs falam com as águas

e ia conversar com as rãs.

E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos

do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de

ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros

do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara

nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,

no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.

Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.

Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno

grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!

Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —

esse pessoal.

Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.

Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que

achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam

que o fascínio poético vem das raízes da fala.

Sócrates falava que as expressões mais eróticas

são donzelas. E que a Beleza se explica melhor

por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei

sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

Memórias Inventadas, As infâncias de Manoel de Barros.

Filho predileto






Certa vez perguntaram a uma mãe qual era seu filho preferido,
aquele que ela mais amava.
E ela, deixando entrever um sorriso, respondeu:
"Nada é mais volúvel que um coração de mãe. 
E, como mãe, lhe respondo: o filho predileto, 
aquele a quem me dedico de corpo e alma...
É o meu filho doente, até que sare. 
O que partiu, até que volte.
O que está cansado, até que descanse.
O que está com fome, até que se alimente.
O que está com sede, até que beba.
O que estuda, até que aprenda.
O que está com frio, até que se agasalhe.
O que não trabalha, até que se empregue.
O que namora, até que se case.
O que casa, até que conviva.
O que é pai, até que os crie.
O que prometeu, até que se cumpra.
O que deve, até que pague.
O que chora, até que cale.
E já com o semblante bem distante daquele sorriso, completou: 
O que já me deixou... 
...até que o reencontre...

Erma Bombeck


sábado, 23 de junho de 2018

Caminho do Oriente



Ebook: Guia do azulejo


 https://drive.google.com/open?id=1NWZOZO6Oj0oM8xEtr15dkBzg2V-rG--n
Luísa Arruda. Livros Horizonte. 1998



"Inserido, assim, no conjunto mais vasto dos Guias do Caminho do Oriente, este Guia do Azulejo constitui-se como um dos pilares da tarefa essencial que o Programa Caminho do Oriente se propôs: reintegrar na cidade uma zona imensa dramaticamente abandonada, seja através do apoio à sua recuperação física, seja do conhecimento do seu passado e das várias lógicas - urbanas ou rurais, laicas ou religiosas, de lazer ou industriais -, que determinaram a sua especificidade no âmbito global de uma só cidade."
José Sarmento de Matos

Então deixe-me contar-lhe uma história


Um conto de Rui Zink


 https://drive.google.com/open?id=1Pq-pGlY3UT2vZgB0v47XCmryJt1HHcbE
Zink, Rui, Um romance, Coleção Contos Digitais DN, Biblioteca Digital do Diário de Notícias, 
Escritório Editora, 2012. ISBN: 978-989-8507-11-2



"O leitor tem um instantinho? Também perdeu o comboio, como eu, e agora está aqui a fazer horas? Então deixe-me contar-lhe uma história. Juro que vai valer a pena. Vai ser a mais linda história que alguma vez leu. Enfim, talvez não a mais linda. Talvez nem seja linda sequer. Mas o leitor achá-la-á linda, e levá-la-á consigo, junto ao coração, como eu a tenho trazido junto ao meu. Esta aventura foi antes dos telemóveis. Não muito antes, mas um antes algum antes. Nos anos 80, salvo erro. Num restaurante que ficava ao lado dum cinema, quarta ou quinta à noite, eu tinha ficado de jantar com o Aristides antes do filme, mas ele estava mais atrasado que de costume. Para fazer tempo pus-me a olhar à volta, e acabei por me interessar por um parzinho na mesa ao lado, nervositos pela adivinhação mútua do que, para mim, é o ponto de rebuçado dos encontros amorosos: a noite em que quase de certeza. A noite em que."


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Hijos de la tierra


Sara Curruchich





Sara Curruchich, uma jovem cantora indígena Maya kaqchikel de Guatemala.



Música: uma forma de combater a violência contra os povos indígenas.

O que é bom para o lixo é bom para poesia



Manoel de Barros (1916-2014)






A Antônio Houaiss


Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10×20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada


Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
Aliás, é também objeto de poesia saber
qual o período médio que um homem jogado fora
pode permanecer na Terra
sem nascerem em sua boca
as raízes da escória

As coisa sem importância
são bens de poesia
pois é assim
que um chevrolé gosmento
chega ao poema
e as andorinhas de junho

Fragmento 1 do poema de abertura, Matéria de Poesia, 1974
Poema dito por Antônio Abujamra

quinta-feira, 21 de junho de 2018

As novas tecnologias são opacas e facilitam a manipulação








"[...] a "Pós-Verdade" alimenta-se de notícias falsas, da exacerbação de medos, da falta de tempo para verificar factos, da indiferença social e da ausência de literacia da informação, propagando-se sem controlo com a Internet e as redes sociais. Na sociedade do hiperconsumo, o poder dos algoritmos é cada vez maior. As novas tecnologias são opacas e facilitam a manipulação. Como lidar com esta cascata de informação sem filtro, que nos cai em cima constantemente? Precisamos mesmo de novidades ao minuto, precisamos mesmo de estar sempre ligados e conectados? Como não enlouquecer neste caos informativo e digital?"



Fake News: Experiências e Desafios


Seminário Internacional Brasil - União Europeia






O Seminário Internacional Fake News: Experiências e Desafios, uma iniciativa inédita do @TSE e da @União Europeiam no Brasil, com apoio dos #DiálogosSetoriais

Solstício de Verão





O Solstício de Verão ocorreu hoje, dia 21 de junho, 11:07, marcando o início da estação no hemisfério norte (a mais quente, apesar de a Terra vir a estar o mais longe do sol a 6 de Julho). O sol neste dia de solstício estará o mais alto possível no céu em Portugal e aquando da sua passagem meridiana atingirá a altura máxima de 75°.

A duração do dia no Solstício de Verão é a mais longa: o disco solar nasceu às 06:11:46 horas e pôr-se-á às 21:04:53 horas, em Lisboa.

A duração do dia será de 14:53:07 horas (1 segundo a mais do que no dia anterior).


quarta-feira, 20 de junho de 2018

Histórias de refugiados






Conheça a incrível história de Mahmoud, o menino refugiado sírio de nove anos


Em 2012, Mahmoud e a sua família fugiram da sua cidade natal, Aleppo, na Síria, quando a guerra civil assolou o país. Estabeleceram-se no Egito, alugando um pequeno apartamento nos subúrbios do Cairo. Não muito tempo depois, porém, com a enorme inquietação no país e subsequente remoção do presidente Mohamed Morsi, a opinião pública voltou-se contra os sírios que buscavam refúgio no Egito. Mahmoud tornou-se vítima de valentões e foi fisicamente atacado. Com medo e incapaz de frequentar a escola, o jovem recusou-se a deixar o apartamento da sua família. 

"Eu queria deixar este lugar porque aqui não há escola e eu não tenho amigos", disse Mahmoud em 2013. "Eles estavam sempre a bater-me."

O pai de Mahmoud, Mohamed Farid, também não viu futuro para seu filho mais velho no Egito e tomou a decisão angustiante de colocar o seu filho num barco ilegal para a Itália, sozinho.

"Ninguém envia o seu filho para o mundo sozinho, a menos que viva com um medo real. As nossas vidas são muito difíceis aqui."

No entanto, o barco que Mahmoud tomou foi destruído antes mesmo de deixar as águas egípcias. O menino passou então os cinco dias seguintes num centro de detenção sem a sua família. Quando ele regressou ao Cairo, o bullying recomeçou, mas ele permaneceu resoluto.

"Eu tenho o sonho que um dia teremos uma nova casa em um lugar melhor. Eu irei para a escola e farei novos amigos", declarou este incrível menino.

Assista à próxima parte da história de Mahmoud AQUI e leia mais sobre a jornada de Mamoud.

Infelizmente, a história de Mahmoud não é um caso isolado.
Muitos são aqueles que, fugindo à guerra ou a regimes políticos ditatoriais, arriscam as suas vidas atravessando os mares.

Conheça algumas dessas histórias divulgadas na página da Agência de Refugiados das Nações Unidas, UNHCR.

Dia mundial dos refugiados


Ou estamos juntos ou falhamos.


Num mundo onde a violência força milhares de famílias a fugirem todos os dias para salvar as suas vidas, agora é a hora de mostrar que o público global está com os refugiados.

No Dia Mundial do Refugiado, celebrado todos os anos no dia 20 de junho, comemoramos a força, a coragem e a perseverança de milhões de refugiados. Este ano, o Dia Mundial do Refugiado também marca um momento chave para o mundo mostrar apoio às famílias forçadas a fugir.





Mensagem do Secretário Geral da ONU 

O que faria se fosse forçado a deixar a sua casa?

Hoje, mais de 68 milhões de pessoas em todo o mundo são refugiados ou internamente deslocados como resultado de conflito ou perseguição. Isso é equivalente à população do 20º maior país do mundo.

No ano passado, uma pessoa foi deslocadaa cada dois segundos. Principalmente nos países mais pobres.

No Dia Mundial dos Refugiados, todos devemos pensar no que mais podemos fazer para ajudar. A resposta começa com unidade e solidariedade.

Estou profundamente preocupado ao ver mais e mais situações em que os refugiados não recebem a proteção de que precisam e a que têm direito.

Precisamos de restabelecer a integridade do regime internacional de proteção aos refugiados. No mundo de hoje, nenhuma comunidade ou país que forneça refúgio seguro a pessoas que fogem da guerra ou da perseguição deve ficar sozinho e sem apoio.

Ou estamos juntos ou falhamos.

Este ano, um Pacto Global sobre os Refugiados será apresentado à Assembléia Geral da ONU. Ele oferece um caminho a seguir e reconhece as contribuições dos refugiados às sociedades que os hospedam.

Enquanto houver guerras e perseguições, haverá refugiados. No Dia Mundial dos Refugiados, peço que se lembre deles.

As suas histórias são histórias de resiliência, perseverança e coragem. O nosso deve ser de solidariedade, compaixão e ação.

António Guterres

terça-feira, 19 de junho de 2018

A fresta do mundo





Claro que a culpa não é de Max Weber, mas a sua explicação do “desencantamento do mundo” tem sido tão maquinalmente repetida pela modernidade que ameaça tornar-se um automatismo mais do que uma verdadeira interpretação. De facto, por mais que possam ser reconhecíveis alguns traços das suas categorizações na fisionomia do tempo que nos cabe, esses não esgotam o enigma que o tempo é. O que parece liso esconde depois tanta dobra. O que dizemos unívoco e contínuo conserva sobressaltos, reenvios e frestas. O que classificamos como pertencente ao passado guarda afinal tanto futuro.

José Toletino Mendonça, "Que coisa são as nuvens - A fresta do mundo", in E-Expresso Revista16 de junho de 2018, p. 90

Cinema: a superfície e a profundidade em simultâneo


Às vezes penso que o cinema começa por existir apenas para nos aproximarmos o mais possível de um rosto. Estou habituada a isso: a câmara aproxima-se, mostra-nos e ao mesmo tempo faz aparecer o que não se vê. E é isso o cinema: a arte de dar a ver o invisível. Essa impressão de termos a superfície e a profundidade em simultâneo é muito misteriosa, estou de acordo, e dá-me grande prazer."  - Isabelle Huppert (atriz francesa)




 Entrevista realizada por Francisco Ferreira, em Berlim. 
Publicada no E-Revista Expressode 16 de junho de 2018

Quero o meu sexo de volta!




E não me venham com o género que isso nunca me deu prazer.

- Por Comendador Marques de Correia





"[...] Ora eu estava disposto a não ceder no ponto do masculino e do feminino ser sexo. Outra coisa é o meu género: bem apessoado, bem disposto, engraçado, numa palavra, um género interessante que o dedo, fosse qual fosse o seu sexo ou género, deveria apreciar com todo o rigor. Não se deve ser juiz em causa própria e por isso mesmo não me caberia a mim dizer qual o meu género e esperava que o dedo de unhas roxas mo dissesse. 

- Estamos mal - disse o dedo irritado - Isto é para dizer se o senhor é masculino ou feminino.

Tentei explixar-lhe que género masculino ou feminino eram categorias gramaticais, tal como tinha aprendido na minha instrução primária, talvez no fim do século XIX. Nas pessoas é sexo que se pergunta. Mas aí o dedo fez um discurso a dizer que eu era sexista, machista, misógeno e mais uns adjetivos que não irei reproduzir aqui [...]."

Cartas Abertas", in E-Revista Expresso, 9 de junho de 2018, p. 22"




segunda-feira, 18 de junho de 2018

Banir o sono



Caravaggio (1571-1610) O sono do Cupido, 1608. Palácio Pitti, Galeria Palatina, Florença.



Pela eficiência permanente, que opera 24 horas por dia, elimine-se o sono. 
O sono é estagnação, inatividade, inércia, ócio, preguiça. 
É antagónico com a vida dos dias de hoje, impedindo-nos de sermos conscientes, racionais e trabalhadores a tempo inteiro. 
O executivo dos nossos dias louva-se de dormir pouco ou quase nada, de passar noites em branco, de trabalhar até à exaustão pela noite dentro, um ser humano máquina, em competição com o computador, fazendo mega horas extraordinárias, que não perde a concentração, nem a missão ou o fim que tem em vista. 
O sono impede o conhecimento, saber, rendimento, produtividade. 
O sono é noite, escuridão, o império das trevas, incompatível com o dia, o empreendedorismo, com uma vida eficiente e de luzes continuamente acesas. 
Para sermos eficientes, empreendedores e racionais a todo o tempo, é preciso abolir o sono, criando sociedades onde o êxito, o ser feliz, o mérito e o reconhecimento são diretamente proporcionais à ausência de sono. Sendo admissível, quando muito, três ou quatro horas bem dormidas, estigmatizando quem não consegue ou dorme o dobro. 
A maximização da eficiência funcional é trabalharmos sem intervalos, dia e noite, porque tudo é importante, menos o sono, tendo como perdedores os que o enaltecem. 
Por confronto com o malefício do sono, exalta-se a vigília, testando-a progressivamente, via ingestão de anfetaminas, ansiolíticos, pastilhas de estimulação cerebral, neuroquímicos, com a ajuda e empenho de Silicon Valley. 
Investiga-se e examina-se o funcionamento do cérebro de animais que conseguem passar vários dias e noites sem dormir. 
Só que o sono é inevitável. Lamentável inevitabilidade, para os opositores. 
Não há melhor cura para curar o cansaço. 
Nem pior padecer que a tortura do sono. 
Por enquanto, enquanto dormimos, o sono não é vendável, expulsando as leis do mercado. 
O sono é pessoal e intransmissível. 
É a afirmação e constatação dos limites do corpo humano, da nossa finitude, mesmo que governados ou dirigidos por pessoas que não querem dormir, que minimizam ou odeiam o sono, que o têm como dispensável e irracional, que o desejariam abolir ou banir, podendo. 
Afinal, toda a gente se cansa e não sobrevive sem sono. 





12.06.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

O escritor escreve para saber que não está louco


Entrevista com Eugenia Rico
- Por José Mário Silva



Uma conversa sobre a infância, a importância dos leitores, Veneza e o compromisso dos artistas com o mundo.
Foto: Nuno Botelho



"Nascida em Oviedo (1972), Eugenia Rico é uma das mais reconhecidas escritoras espanholas da atualidade. Entre outros, ganhou o Prémio Azorín e o Bauer Youth Prize, atribuído pelo Festival Internacional de Literatura de Veneza, a cidade onde vive. Em 2011, participou no prestigiado Programa Internacional de Escritores da Universidade de Iowa. Já com três livros editados em Portugal (“A Idade Secreta”, “Só a Água me Espera” e “No País das Vacas Sem Olhos”, todos pela Casa das Letras), assistiu em Lisboa ao lançamento da tradução do seu primeiro romance, “Os Amantes Tristes”, com chancela da Parsifal. Extrovertida, conversou num castelhano misturado com galego, língua que ouvia na infância, em Lugo, “não tão longe assim de Trás-os-Montes”."

[...]
[...] publicou mais cinco romances, um livro de contos e dois de não-ficção. Quase todos são dedicados, de forma explícita, aos “leitores”.
É verdade. A minha escrita exige um leitor participante. Gosto de pensar o romance como um icebergue. A história existe mais no que ficou por escrever — e que o leitor tem de colocar lá, a partir da sua experiência, da sua sensibilidade — do que no que fica efetivamente escrito. Para mim, a função do escritor é lançar no texto pequenas bombas-relógio que explodirão mais tarde, na memória do leitor, provocando-lhe um prazer inesperado. Ao escrever ponho uma máscara, coloco uns óculos, e o leitor, se espreitar por essas lentes, vê pelos meus olhos. Mas é só uma versão, tão válida como aquela que cada leitor criará na sua cabeça.

Que importância é que a viagem tem para si enquanto escritora?
Ao longo dos anos viajei muito pelo mundo. Até cheguei a ser repórter de guerra. E acho que o escritor deve ter um compromisso com o mundo que o rodeia, mesmo se escreve sem sair de casa. Porque o escritor é sempre um estrangeiro, alguém que olha para as mesmas coisas, mas com olhos novos. Caso contrário, limita-se a repetir o que já foi feito. E isso não interessa. 

Os artistas devem comprometer-se no plano político, ou apenas no plano cívico?
Pessoalmente, espera-se que sejam tão ativos como outro cidadão qualquer, na política ou noutras áreas da sociedade. Mas enquanto artistas, acho que só devem assumir um compromisso: com a beleza e com a verdade das suas criações.

Dezoito anos depois, ainda se reconhece em “Os Amantes Tristes”?
Posso dizer isto: quando o releio, fico muito satisfeita. Francamente, acho que o livro é muito melhor compreendido hoje. Em vez de envelhecer, rejuvenesceu.

Além da amizade e da traição, um dos temas centrais é a loucura, tópico clássico desde “Dom Quixote”. 
Sim. No fundo, o escritor escreve para saber que não está louco. E os bons escritores não enlouquecem porque conseguem meter todos os seus fantasmas, todos os seus demónios, naquilo que escrevem.

A entrevista concedida ao semanário Expresso  - E-Revista de 9 de junho de 2018 - pode ser lida na íntegra AQUI, ou, na versão impressa, na Biblioteca.


domingo, 17 de junho de 2018

Dia mundial de combate à desertificação e à seca


17 de junho





A decadência da terra

A desertificação é a degradação da terra em áreas sub-húmidas áridas, semi-áridas e secas. É causada principalmente por atividades humanas e variações climáticas. A desertificação não se refere à expansão dos desertos existentes. Isso ocorre porque os ecossistemas de terras áridas, que cobrem mais de um terço da área terrestre do mundo, são extremamente vulneráveis ​​à sobreexploração e ao uso inadequado da terra. Pobreza, instabilidade política, desmatamento, pastoreio excessivo e más práticas de irrigação podem prejudicar a produtividade da terra.

O Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca é observado todos os anos para promover a consciencialização pública dos esforços internacionais para combater a desertificação. O dia é um momento único para lembrar a todos que a neutralidade da degradação da terra é alcançável através da resolução de problemas, forte envolvimento da comunidade e cooperação em todos os níveis.



Tema de 2018: “A terra tem valor verdadeiro - invista nela”
As suas escolhas determinam cenários futuros para o crescimento sustentável. A campanha 2018 do Dia Mundial de Combate à Desertificação # 2018WDCD pede que nos afastemos do uso insustentável da terra e façamos a diferença investindo no futuro da terra sob o slogan “A terra tem valor verdadeiro - invista nela.”


Não havendo novidade



Crónica de António Lobo Antunes

O tempo apagará para sempre o que fomos até não termos sido nada. E as palavras que deixarei são provisórias como todas as palavras que se pronunciaram no mundo. Ná havendo novidade, dizia o velhote sem pernas. Mas havendo ou não havendo novidade será assim. A sua cadeira de rodas desaparecerá também. Mesmo o teu nome, António Lobo Antunes, não terá sequer a sombra de uma sombra


Ilustração: Susa Monteiro

Era um camponês alentejano, já idoso, seja o que for que isso signifique, com uma diabetes muito grave, condenado a uma cadeira de rodas porque lhe amputaram as pernas. Os resultados das análises eram uma miséria mas continuava a não tomar a medicação, a beber, a comer 
o que não devia quando tinha dinheiro para comer. Morava num sítio perdido onde ninguém passava. A sua única frase à despedida foi
– Ná havendo novidade a gente vê-se daqui a dez anos
e lembro-me tantas vezes desta frase. Ná havendo novidade. 
Ná havendo novidade o meu futuro 
é muito claro. Faltam-me quatro livros, contando este em que estou 
a trabalhar agora. Ná havendo novidade o último estará pronto em 2022 e não torno a escrever porque a obra ficará finalmente redonda e o círculo definitivamente fechado. Não consinto que mais nada meu seja publicado, rascunhos, planos, esboços, falsas partidas, seja o que for. Proíbo que desrespeitem a minha vontade. Proíbo que me traiam. Nem uma palavra mais. Claro que também não farei estas crónicas a partir do momento da saída desse livro de 2022. Depois disso, e ná havendo novidade, irei ler esses textinhos. Se achar que têm alguma qualidade reúno-os num livro com o título Crónicas. Publica-se esse volume e acabou-se.
Como dizia Newton não sei o que o futuro pensará de mim, mas sei o que eu pensarei dele, como sei o que penso acerca do que fiz. Simplesmente as pessoas não têm direito ao que eu penso. Têm direito ao que eu fiz e é um pau. Digam o que lhes der na gana: é igual ao litro. As opiniões flutuarão com os tempos, inevitavelmente, e as águas deixarão de se agitar a pouco e pouco quando eu for apenas um nome, uns retratos, umas lembranças vagas. Depois as lembranças desaparecerão como desaparecerão os retratos. Fica o nome e a obra. Depois... Dos dez grandes dramaturgos de que Aristóteles falou nem uma peça resta. Nem uma linha. Temos Eurípides, Ésquilo, Sófocles, que Aristóteles omitiu: parece que dava mais importância aos outros, não há certeza de espécie alguma a esse respeito. De Safo sobrevivem meia dúzia 
de palavras. A única vez que Cristo escreveu fê-lo com 
o dedo na terra, ninguém conhece o que rabiscou. Tudo o que fizemos não passou disso: escrevemos com o dedo na terra e nem a mulher adúltera, a única pessoa que estava com Ele, o soube. Como o não soube quem declarou que ele escreveu com o dedo na terra. Mas teria escrito de facto ou esboçado apenas uns riscos?

Ao fim e ao cabo esboçámos apenas uns riscos. Mesmo que não os tenhamos apagado com a mão 
o tempo encarregar-se-á disso por nós. Vaidade das vaidades, garante 
o Eclesiastes, tudo é vaidade: o tempo apagará para sempre o que fomos até não termos sido nada. 
E as palavras que deixarei são provisórias como todas as palavras que se pronunciaram no mundo. Ná havendo novidade, dizia o velhote sem pernas. Mas havendo ou não havendo novidade será assim. A sua cadeira de rodas desaparecerá também. Mesmo o teu nome, António Lobo Antunes, não terá sequer a sombra de uma sombra. Ao escrever isto lembrei-me de um poema babilónico com mais de dez mil anos. Ficou o início
Ó casa de bambu escuta
ó casa de bambu compreende
e isto comove-me até às lágrimas. Como me comove um poema de Bachô
(estou a aportuguesar-lhe o nome)
feito no século dezasseis:
Os quimonos secam ao sol.
Ai as mangas pequenas
Da criança morta.
Ontem não te vi em Babilónia diz a inscrição numa pedra que aproveitei para um livro. De facto não vimos ninguém em Babilónia nem sequer a nós mesmos. Vaidade das vaidades, eu preocupado com a minha pobre obra. Pela janela aberta chegam os gritos dos presos no recreio da cadeia lá em baixo. Parecem alegres, riem, cantam. Ná havendo novidade daqui a quarenta anos estão cá fora a aliviarem os bolsos do pagode. Quanto 
a mim, ná havendo novidade, daqui a dez estarei com 
o amigo alentejano, sem pernas, a comermos à colher um pacotão de açúcar.
(Crónica publicada na VISÃO 1316 de 24 de maio)