quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Peço a Paz





Peço a Paz

Peço a paz
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão

Peço a paz
silenciosamente
a paz a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte

A paz peço
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol

Peço a paz e o
silêncio

Casimiro de Brito, in "Jardins de Guerra" 

Cultura de paz e de não-violência







A cultura da paz e da não-violência é um compromisso para a construção da paz, a mediação, a prevenção e resolução de conflitos, a educação para a paz, a educação para a não-violência, a tolerância, a aceitação, o respeito mútuo, o diálogo intercultural e inter-religioso e a reconciliação.

A cultura da paz consiste em "valores, atitudes e comportamentos que rejeitam a violência e evitam conflitos, abordando as suas raízes para resolver problemas através do diálogo e da negociação entre indivíduos, grupos e nações". (Nações Unidas).




Construir a paz nas mentes dos homens e das mulheres

Este compromisso é o próprio fundamento das Nações Unidas, estabelecido após a terrível Segunda Guerra Mundial para criar e manter a paz através de acordos económicos, sociais ou políticos. Mas já não é suficiente hoje. 

Os fundamentos da paz ainda precisam de ser estabelecidos, com a ajuda das agências especializadas que compõem o sistema das Nações Unidas, como a UNESCO. Por mais de 60 anos, a UNESCO assumiu essa missão em conformidade com a sua Constituição que afirma que "desde que as guerras começam nas mentes dos homens, é na mente dos homens que as defesas da paz devem ser construídas". 

A este respeito, a mesma Constituição destaca que "uma paz baseada exclusivamente nos arranjos políticos e económicos dos governos não seria uma paz que pudesse garantir o apoio unânime, duradouro e sincero dos povos do mundo e que a paz deve, portanto, seja fundada sobre a solidariedade intelectual e moral da humanidade ".



Dia internacional da paz


21 de setembro

Tema de 2017: 
Juntos pela paz: respeito, segurança e dignidade para todos 









Mensagem de Irina Bokova, Diretora-geral da UNESCO, por ocasião do Dia Internacional da Paz


Este Dia Internacional da Paz celebra o poder da solidariedade mundial para construir um mundo pacífico e sustentável.

Isso nunca foi tão importante como agora, num momento de desafios sem precedentes. Novas forças que visam à divisão surgiram, espalhando o ódio e a intolerância. O terrorismo alimenta a violência, enquanto o extremismo violento busca envenenar as mentes das pessoas vulneráveis e dos jovens. Nas partes mais pobres e menos desenvolvidas do mundo, desastres naturais relacionados ao clima somam-se às fragilidades existentes, o que aumenta as migrações forçadas e o risco da violência.

Os obstáculos à paz são complexos e difíceis – nenhum país é capaz de resolvê-los sozinho. Fazer isso exige novas formas de solidariedade e ação conjunta, o que deve começar o mais cedo possível.

Esse é o espírito do apelo realizado pelo secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, por um novo movimento de prevenção para apoiar a paz, que reúna os governos e a sociedade civil, assim como os organismos internacionais e regionais.

As mudanças estão a acontecer em todo o mundo – o nosso objetivo deve ser abraçá-las com base nos direitos humanos, para moldá-las em direções positivas, visando criar um futuro mais justo, inclusivo e sustentável.

A cultura de paz é uma cultura de diálogo e prevenção e, nesse contexto, o papel das Nações Unidas nunca foi tão essencial. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável afirma que “não pode haver desenvolvimento sustentável sem paz e não há paz sem desenvolvimento sustentável”. O mesmo espírito sustenta as resoluções de 2016 do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral sobre a “manutenção da paz”.

Nós precisamos de uma abordagem nova e abrangente para tratar das causas, fortalecer o Estado de direito e promover o desenvolvimento sustentável, com base no diálogo e no respeito. Isso orienta todas as ações da UNESCO para construir a paz por meio da educação, da liberdade de expressão, do diálogo intercultural, do respeito aos direitos humanos e à diversidade cultural, e da cooperação científica.

Neste Dia Internacional da Paz, devemos renovar o nosso compromisso com a solidariedade mundial. Para sustentar a paz, nós devemos construí-la todos os dias, em todas as sociedades, com a participação de todas as mulheres e todos os homens, trabalhando juntos rumo a um melhor futuro comum para todos.



Metas para o Desenvolvimento sustentável


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Ler + todas as palavras do mundo




 http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/index.php?s=diretorio&pid=97&ppid=96



"Ler é um modo de estar na vida. E ler todas as palavras do mundo porque o mundo se expressa em palavras e é preciso defender a palavra porque esta pode estar ameaçada. Mas tem também um sentido para além disso: ler todas as palavras que falam do próprio mundo, seja a linguagem científica sejam as linguagens artística e musical. É o ser capaz de ler o mundo e as palavras e ter consciência do valor das palavras e não deixar que elas morram em nome de qualquer ilusão sobre o seu valor. [...]
A única maneira de nos defendermos e de nos fazermos compreender num mundo de economia do conhecimento é ler, ler mais, ler bem, ler com fluência. Resumindo: ler." - Teresa Calçada, Comissária para o Plano Nacional de Leitura



Ler + todas as palavras do mundo 
é o lema do Plano Nacional de Leitura (PNL) 2027 que começa agora a ser implementado.



domingo, 17 de setembro de 2017

Um livro encontra o seu leitor



... e acontece essa emoção singular chamada beleza !






No "Prólogo" da sua "Biblioteca Pessoal", Jorge Luis Borges afirma:


"Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retótica decifram. «A rosa é sem porquê», disse Angelus Silesius, séculos depois Whistler declararia «A arte acontece.».Oxalá que sejas o leitor que este livro aguardava."
Jorge Luis Borges, Biblioteca Pessoal, Quetzal, 2014, p. 8



Para que a beleza aconteça, os livros da Biblioteca Camilo Castelo Branco aguardam pelos seus leitores! 



O verbo romancear



Dom Quixote
Projeto de um ex-aluno da Camilo



"É célebre o modo como em A Arte do Romance, Milan Kundera remonta não só a Cervantes, mas também à emergência da modernidade para explicar o nascimento da singularíssima ferramenta de conhecimento humano que é o romance. Diz ele: «Quando Deus abandonava lentamente o lugar de onde tinha dirigido o universo e a sua ordem de valores, separado o bem do mal e dado um sentido a todas as coisas, Dom Quixote saiu de casa e já não estava em condições de reconhecer o mundo. Este, na ausência do juiz supremo, apareceu subitamente com uma terrível ambiguidade: a única verdade divina decompôs-se em centenas de verdades relativas que os homens partilharam entre si. Assim, o mundo dos tempos modernos nasceu e o romance, na sua imagem e modelo, nasceu com ele.» A primeira aceção do verbo romancear (escrever romances) coincidiria assim com o eclipse de Deus da cena do mundo e com o estilhaçar do absoluto numa infinidade de verdades relativas, que passaram a ser o acesso possível à verdade. Porém, quer a secularização quer o romance ganham em ser compreendidos fora de uma lógica meramente antagonística em relação ao fenómeno religioso.

Muito recomendável é a obra monumental de Charles Taylor, A era secular (há uma tradução disponível nas Edições Piaget), onde o filósofo canadiano mostra que o caminho mais adequado para compreender a secularização não é de todo a transição de uma cultura crente para uma secular. A secularização não significa o declínio da religião, mas sim uma mudança na forma dos indivíduos e das sociedades se relacionarem com ela - facto que o romance espelha. 

James Wood, um dos mais originais críticos literários contemporâneos (a Quetzal tem dois títulos publicados), explica, por exemplo, que ao lermos um romance podemos verificar uma alternância entre a modalidade secular e a religiosa, naquilo que se poderia designar por 'facto' e 'forma'. O impulso secular do romance procura expandir a vida, amplia as suas cenas e pormenores, esforça-se por atribuir aos acontecimentos relatados o ritmo, a minúcia e o turbilhão do real. Quando o romance se rege pela modalidade secular, deseja que as suas personagens vivam para sempre, não admite que possam morrer. Essa é na estratégia romanesca 'a forma'. Mas a modalidade eterna ou religiosa do romance recorda-nos também que a vida  é circunscrita pela morte e nisso partilha a visão sagrada da vida como vida já escrita e chamada a ser, no aberto, uma simples passagem. Isto constitui 'o facto'. É nesse sentido que Wood declara que, em vez de documentar o crepúsculo de Deus, o romance mantém a promessa feita no Salmo 121: «O Senhor te protegerá, quando sais e quando entras.» 

O romance dá-nos três coisas. Antes de tudo, uma visão complexa e integral da vida. Quando olhamos para o mundo através do romance ele nunca é plano nem unívoco: junta empírico e imaginário, visível e invisivel, passado e futuro. Depois, o romance oferece um conhecimento concreto, não conceptual. A ótica do romance não demonstra: ela mostra, num esforço de desapropriação ideológica por fideliddae à existência em si. Por exemplo, não é a moral de Tolstoi que conta, mas sim Anna Karenina vivendo. Por fim, o romance é um instrumento de precisão como existem poucos. Só o romance parece estar à altura da singularidade, liberdade, assombro e tragicidade da vida; só ele consegue relatar o maiúsculo e o minúsculo, o sublime e o infame, o enlace e a solidão. Quem o afirma, curiosamente, já não é o crítico literário, mas o teólogo Elmar Salmann que trata o romance como «o pequeno sacramento da modernidade».  

José Tolentino Mendonça, Que coisa são as nuvens - O verbo romancear, E-Revista Expresso, 2 de setembro de 2017, p. 92