sexta-feira, 28 de março de 2014

Dia aberto da leitura | Dia do Patrono




17 de março


Semana da leitura'14 





 
Este ano letivo, uma feliz coincidência fez com que o dia 17 de março, o primeiro dia da Semana da Leitura (festejado na nossa escola com um conjunto de atividades do Dia Aberto da Leitura), seja também o Dia do Patrono, Camilo Castelo Branco.

Camilo, por Tossan


«... a admirável prosa que brinca e desassossega.»
                                       Agustina Bessa-Luís
 
 
 

Vilarinho de Samardã. Casa onde Camilo viveu com uma irmã mais velha, Carolina Rita Botelho Castelo Branco
Foto de Ana Carolina Guedes (ex-aluna da Camilo) 
 
 




ESCCBVR, uma Escola com Memória

                                                                    

"Somos o tempo. Somos a famosa  / Parábola de Heraclito, o Obscuro".
                                                              Jorge Luís Borges



 
 
100 ANOS!

Em 1914, o então designado Liceu Central de Vila Real passou a chamar-se Liceu Central de Camilo Castelo Branco. Desde essa data, Camilo passou a ser o patrono da nossa escola. Faz este ano 100 anos!

Que a nossa escola tenha o nome daquele que foi um ilustre romancista, poeta, dramaturgo, historiador da literatura, ensaísta, investigador no domínio da história, o primeiro profissional das letras em Portugal e um nome incontornável na história da prosa de ficção portuguesa, é para todos nós, comunidade educativa, uma honra e, por que não reconhecê-lo, uma responsabilidade acrescida em termos de plano de ação.

Que a Semana da Leitura, este ano subordinada aos 800 anos dos primeiros textos em língua portuguesa,  coincida com a evocação daquele que é considerado um dos mestres da língua lusa, é para nós um privilégio!



Liceu de Camilo Castelo Branco desde 1914. Foto de Daniela Ramos (ex-aluna da Camilo)


Homenagem a Camilo nas palavras de  Miguel Torga. Jardim da Carreira  de Vila Real. 
Fotografia de Daniela Ramos (ex-aluna da Camilo)


"Seja qual for o lugar que se atribua, na literatura portuguesa, ao assombroso novelista e panfletário, ninguém pode julgar como um entusiasmo apenas passageiro o crescente culto de Camilo. Há quem estranhe que esse culto seja mais intenso que o de Camões e quem cite outras poderosas individualidades da nossa literatura, rivais da sua glória , como Herculano e Antero. Sem discutir a justiça de semelhantes reparos, o que não se pode apoucar é a impressionante grandeza
e a emoção que se desprende da obra e da vida de Camilo."
In Prefácio ao Catálogo de obras antigas e modernas, Livraria João d'Araújo Moraes, 1924


“Deixou-nos uma excecional, multifacetada, polémica e amargurada obra literária, a mais extensa e variada da Língua Portuguesa, com cerca de cento e trinta e dois títulos, distribuídos entre o drama, a poesia, o romance, a novela, o conto, o jornalismo, a polémica, os ensaios (biográficos e históricos), a crítica literária, as traduções e a epistolografia, que reflete o seu intenso percurso de vida, os lugares por onde passou, em especial o Porto, os gostos do Público: o romantismo e ultra-romantismo do início da carreira e o realismo e naturalismo do final, recursos estilísticos estes que usou sobretudo para provar aos seus detratores que os conseguia manejar melhor do que os próprios naturalistas-realistas e as exigências dos editores.
A sua grandeza, no entanto, ressalta na novela passional e como novelista urbano, apesar de não se alhear dos temas campestres aos quais conferiu um especial sentido de humanidade e um intenso perfume psicológico, que inspiraram grandes nomes da literatura portuguesa, como Abel Botelho e Aquilino Ribeiro.”
In Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto – Camilo Castelo Branco. Disponível em http://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1000859




No Dia do Patrono, lembramos a sua obra...


 Amor de Perdição - Memórias Duma Família
Um dos textos mais conhecidos de Camilo é, sem dúvida, Amor de Perdição, escrito, segundo afirma o autor, em quinze dias, na Cadeia da Relação do Porto.


  "O autor subintitulou o romance de Memórias Duma Família. De facto, o enredo ficcional baseia-se em episódios «biográficos» de um seu tio paterno, Simão António Botelho, que efetivamente foi degredado para a India, ignorando-se porém qual tenha sido o seu fim. […]
O Amor de Perdição é porventura o romance mais popular de C.C.B., traduzido em vários idiomas (ultimamente em Cuba e em França) a adaptado ao teatro e cinema por diversas vezes."
CABRAL, Alexandre (1988). Dicionário de Camilo Castelo Branco, Lisboa: Caminho, p. 30



http://www.fnac.pt/Amor-de-Perdicao-Camilo-Castelo-Branco/a657174


Passamos a transcrever  um excerto da "Introdução" a Amor de Perdição:

Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da Relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte:
Simão António Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e estudante na universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na ocasião de sua prisão na cidade de Viseu, idade de dezoito anos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeirão Castelo Branco; estatura ordinária, cara redonda, olhos castanhos, cabelo e barba preta, vestido com jaqueta de baetão azul, colete de fustão pintado e calça de pano pedrês. E fiz este assento, que assinei – Filipe Moreira Dias.

À margem esquerda deste assento está escrito:
Foi para a Índia em 17 de Março de 1807.
Não seria fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o degredo de um moço de dezoito anos lhe há de fazer dó.
Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em frutos, e todo se embalsama no perfume das flores! Dezoito anos! O amor daquela idade! A passagem do seio da família, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abre ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida! Dezoito anos!... E degredado da pátria, do amor e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo!...É triste!
           O leitor decerto se compungia; e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos, choraria!

           Amou, perdeu-se, e morreu amando.
É a história. E história assim poderá ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia; essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da primeira mulher que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?!
Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobressalto que me causaram aquelas linhas, de propósito procuradas, e lidas com amargura e respeito e, ao mesmo tempo, ódio. Ódio, sim... A tempo verão se é perdoável o ódio, ou se antes me não fora melhor abrir mão desde já de uma história que me pode acarear enojos dos frios julgadores do coração, e das sentenças que eu aqui lavrar contra a falsa virtude de homens, feitos bárbaros, em nome de sua honra.
Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco.



 
Grandes Livros. Episódio 4. Amor de Perdição




Vinte Horas de Liteira - uma viagem de Vila Real ao Porto

Liteira e muleteiro. Domingos Sequeira (1768-1837). Desenho 25x21 cm
 Museu Nacional dos Coches. Disponível em http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010_04_01_archive.html 


Em Vinte horas de liteira (romance constituído por um conjunto de dezasseis histórias publicadas no jornal Comércio do Porto), Camilo descreve uma viagem de liteira, com a duração de vinte horas, que supostamente terá feito, de Vila Real até ao Porto, António Joaquim, uma personagem ficcional, que alegadamente encontra numa estalagem no Marão e lhe dá boleia de liteira até à Cidade Invicta. As histórias são contadas por Camilo e pelo seu amigo, durante o percurso de Amarante ao Porto. 

O aspeto mais curioso deste romance, bem como a ironia que o caracteriza, reside no facto de Camilo colocar na boca de uma personagem de ficção críticas à sua própria obra (reveladora da presença da consciência autocrítica e metaficcional nos seus textos e do jogo irónico com as convenções literárias de que se tecem), bem como questões relativas ao seu posicionamento estético-literário - romântico ou realista? Por outras palavras: a ficção é o palco escolhido por Camilo para responder a críticas de que sabia ser alvo.  
Liteira de caixa fechada, com tejadilho de couro, atrelada a dois machos arreados à moda mediterrânica e conduzida por dois liteireiros (um a pé e outro a cavalo). Museu Nacional dos Coches. Disponível em http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/04/os-transportes-terrestres-no-inicio-do.html 

Ha poucos annos que eu jornadeava de VillaReal para o Porto, e cheguei, quebrado de corpo e alma, a uma póvoa escondida nos fraguedos do Marão, chamada Ovelhinha. O rocim, que me alli trouxera, ganhara pulmoeira na subida da serra, de maneira que, na assomada onde chamam “as ro­das», os bofes arquejavam-lhe com tal ímpeto, e encavernada tosse, que não ha ahi cousa triste que mais diga!
Quando desçavalguei, na Ovelhinha, devolvi o garrano ao proprietário, e procurei quem me alu­gasse cavalgadura, menos poitrinaria, até Amarante. Voltando á estalagem, achei uma liteira pa­rada, que chegara n'aquelle ponto. Perguntei ao liteireiro se ia de retorno. Respondeu-me que levava patrão. Contemplei a liteira com mágoa e inveja, principalmente, quando a eguasinha gallega, que eu ajustara, começou a espirrar uma tosse mais que muito significativa de pulmoeira e mormo real.
N'esta cogitação me surprehendeu o inquilino da invejada- locomotiva. O' raio de luz!.. ó bafa­gem de esperança que me vens perfumada do p-raizo terreal!.. Era o meu amigo António Joaquim I
— Tu aqui! ? — exclamou elle da janella da estalagem.

— Eu aqui... e tu?!
— Eu também aqui n'este orco, n'este vestibulo do inferno! Para onde vaes ?
Para o Porto, se me levarem.
BRANCO, Camilo Castelo (1864). Vinte Horas de Liteira, Porto 

Poema, Camilo Castelo Branco, 1853. BNP Esp. N23/3.  
Disponível em http://acpc.bn.pt/imagens/colecoes/n23_castelo_branco_camilo.jpg 


OS MEUS AMIGOS
Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente. Ceguei.
Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quasi rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego não nos pode ver.
- Que cento e nove impávidos marotos!



“Abri meu coração às mil quimeras;
Encheram-mo de fel, e tédio, e alma,
Tive, em paga do amor, riso de infama…
Ai!, pobre coração!, quão tolo eras!
Dobrei-me da razão às leis austeras;
Quis moldar-me ao viver que o mundo ama
O escárnio, a detracção me suja a fama,
E a lei me pune as intenções severas.
Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-lo pensei… Crença perdida!
Mulher aos pés o coração me sova;
Foge ao mundo a razão espavorida;
E por muito comer eu desço à cova!”
BRANCO, Camilo  Castelo (1988). Coração, cabeça e estômago. Lisboa: Europa-América.
  
Trabalho de um ex-aluno da Camilo

Comédia humana
Literatos! Chorai-me, que eu sou digno
Da vossa gemebunda e velha táctica!
Se acaso tendes crimes em gramática,
Farei que vos perdoe o Deus benigno.

Demais conheço a prosa inflada, enfática,
Com que chorais os mortos; e o maligno
Desafecto aos que vivem… Não me indigno…
Sei o que sois em teoria e em prática.

Quando o avô desta vã literatura
Garret, era levado á sepultura,
Viu-se a imprensa verter prantos sem fim…

Pois seis dos literatos mais magoados,
Saíram, nessa noite embriagados,
Da crapulosa tasca do Penim. 
 BRANCO, Camilo Castelo (1890).  Nas Trevas - Sonetos, Sentimentos e Humorísticos, Lisboa: Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão.






Programa da Semana da leitura'14
ATIVIDADES PARA O DIA ABERTO DA LEITURA 
 

 - Concursos de fotografia (regulamentos neste blogue e na página da BE) :
 - “Leitura em locais improváveis“ (concurso promovido pela BE)
 - “Selfies a Ler “ (concurso promovido Bibliofilmes )
 - “A minha escola dava um filme” (concurso de fotografia e vídeo promovido pela UTAD)
 - Two+3=aLer+!
 - Traz um livro contigo!
 - Ler com Camilo

quinta-feira, 27 de março de 2014

Sugestões de leitura





http://leituras-na-areia.blogspot.pt/2013/02/bichos-de-miguel-torga.html




Quem gostou dos Bichos de Torga, também vai gostar de


 - Cão como nós, de Manuel Alegre 


http://nlivros.blogspot.pt/2007/10/co-como-ns-manuel-alegre.html



- Marley e Eu, de John Grogran 


http://www.fnac.pt/Marley-et-Eu-John-Grogan/a178655



  
http://www.livrosdobrasil.com/livro_detail.php?ART_ID=1114
Quem gostou dos Maias, também vai gostar de

 - Eça Agora - Os herdeiros de Eça, uma obra escrita a várias mãos (Alice Vieira, João Aguiar, José Fanha, José Jorge Letria, Luísa Beltrão, Mário Zambujal e Rosa Lobato Faria), publicada pela Oficina do Livro. 


                                                       

A.A.V.V. (2007). Eça Agora - Os Herdeiros de Os Maias, Lisboa: Oficina do Livro


"Tudo começa no Alegrete, palacete meio arruinado em que vive Afonso da Maia, avô de Carlos da Maia, jovem médico que se apaixona por Maria Hermengarda, fugindo dos ataques sensuais da Condessa de Varinho e deixando de lado a espampanante Lara Marlene, filha do riquíssimo Silvestre do Ó Saraiva, construtor civil que fez a sua larga fortuna através de métodos muito pouco recomendáveis.
À volta de Carlos movimentam-se Damásio Malcede, o lisboeta novo-rico, João da Régua, o eterno futuro-ministro, o Palma Cavalito, diretor da Trombeta do Demónio, e muitas outras personagens herdeiras dos famosos? Maias? que se movimentam freneticamente numa crónica de costumes ao gosto deste tempo prodigioso do replay e do fast food.
No meio deste enredo surge mesmo o espírito de Eça de Queiroz a pôr alguma contenção a personagens e autores.

Num registo entre o queirosiano e a telenovela, quiseram os autores, cada um a seu modo, aplicar-se num enredo paralelo ao de Os Maias, observando a sociedade portuguesa do início do século XXI pelo monóculo risonho e severo do grande Eça. Resumiu um deles: «Certamente, o Eça escreveria melhor mas não diria pior»".




  - Eça Agora. Para comemorar os seus 40 anos de existência, o Semanário Expresso  decidiu assinalar os 125 anos do lançamento de Os Mais, de Eça de Queirós, e homenagear uma obra que continua a ser um dos melhores textos ficcionais da autognose nacional. A forma encontrada para esta efeméride foi a publicação da coleção literária Eça agora, composta por sete volumes.

Para além dos próprios Maias, de Eça, publicados nos dois primeiros volumes, e do já antológico ensaio de Carlos Reis, Introdução à leitura de Os Maias (7º vol.),  revisto e atualizado, a coleção inclui Os Novos Maias (vol. 3-6), escritos por seis escritores contemporâneos - José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, Mário Zambujal, José Rentes de Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Clara  Ferreira Alves - que foram desafiados a continuar a história da família  Maia até 1973, data da fundação do Expresso .


EcaAgora 
       
   Leia:
 

Ler mais:


                                          


- Veja também na Visão de 12 de dezembro de 2013, as propostas alternativas de Ricardo Araújo Pereira para os desenvolvimentos e finais de alguns dos romances de Eça: Os Maias, A Relíquia, O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio.





http://entreostextosdamemoria.blogspot.pt/2013/09/visao-1292013-p98.html

Dia mundial do teatro 2014




 SEMANA DA LEITURA

                                       19 dias a ler!





DIA MUNDIAL DO TEATRO 



"O teatro é um grande meio de civilização, mas não prospera onde a não há. Não têm procura os seus produtos enquanto o gosto não forma os hábitos e com eles a necessidade."

GARRETT, Almeida (2005). Um Auto de Gil Vicente, Porto: Porto Editora



No Dia Mundial do Teatro, a voz aos atores: transcrevemos do jornal Público, o artigo de opinião assinado pelo ator Rui Mendes. 



A mensagem do Dia Mundial do Teatro que escrevi em 2010 para a Sociedade Portuguesa de Autores não perdeu atualidade, antes pelo contrário. Quatro anos depois, apeteceu-me retocá-la, reforçá-la, e assim aqui fica reformulada.

Há muitas formas de iniciar um espetáculo de teatro, mas só há uma de o terminar: é com a imperecível recordação do que, afinal, não é tão efémero como parece. Com aquela soma de sensações que durante algum tempo nos preencheu os sentidos e o espírito, e que não volta a acontecer, senão na nossa memória assim enriquecida para o resto das nossas vidas. No verdadeiro teatro, este é o sentimento que, no final, une os que o fizeram àqueles que a ele assistiram. É um dos milagres do teatro.

A palavra teatro deriva do grego théatron, "lugar de onde se vê". Há os que veem e os que são vistos. Há os que ouvem e os que são ouvidos. Mas todos são feitos da mesma massa, embora de diferentes cores de pele e de cabelos, de todos os tipos de educação e de formação, com variadas experiências e objetivos na vida. E se, na cena, todo o coletivo teatral tende a ser uma comunidade homogénea, sem a qual não funciona, já o mesmo se não pode dizer dos que estão na plateia. A utopia de uma sociedade igualitária, aglutinante, sem chocantes divisões sociais, está ainda longe de vir a ser uma realidade palpável. É um futuro eternamente adiado.

Talvez que a permanência de problemas por resolver seja, neste mundo, uma das nossas razões de existir, uma espécie de motor da vida. Mas persistem teimosamente demasiados dramas concretos que afligem e castigam os seres humanos. E podia não ser, nem devia ser assim. O teatro, que é e terá de ser sempre poesia, não pode nem deve, talvez por isso mesmo, ficar indiferente. "A poesia ensina a filosofia", disse Aristóteles. O teatro ensina a poesia, a filosofia e a política, acrescentaríamos nós.

Num mundo cada vez mais superpovoado, permanecem os conflitos sociais, as lutas tribais, as religiões e as suas intolerâncias, os ódios mesquinhos, a ignorância, as guerras pelo poder, as discriminações, as economias egoístas e selvagens, a fome e toda a espécie de privações forçadas. E que ninguém venha pedir contas ao teatro e aos que o praticam, por serem culpados. Pelo contrário, o verdadeiro teatro tem sido, por várias formas, uma flecha arremessada aos poderosos, um aríete apontado aos portões da crueldade, dos gananciosos, dos desonestos e dos oportunistas. O teatro só pode ser praticado com afetividade, com a generosidade de dar e com a coragem de pugnar pelo bem. Caso contrário, renega-se, abastarda-se. Por estas razões, ele devia estar na primeira linha das preocupações dos governantes, que têm a estrita obrigação de o apoiar com justeza e visão. Mas é talvez mesmo por estas razões que eles tanto o desprezam, quando não o combatem abertamente. Promover o bem dos outros é coisa que não está normalmente nos seus planos.

O teatro é o sabonete da vida. Lava e perfuma. Os que o desprezam e combatem não podem ter as mãos limpas.

Jean-Paul Sartre disse numa entrevista: "Uma peça escapa ao seu autor desde que o público está na sala." E mais adiante: "Em teatro, as intenções não contam. O que conta é o que sai. O público escreve tanto a peça como o autor". Sófocles, Eurípedes, Gil Vicente, Lope de Vega, Shakespeare, Molière, Goldoni, Schiller, Goethe, Ibsen, Strindberg, Tchecov, Shaw, Pirandello, Brecht, Sartre, Sastre, Beckett, Miller, Albee, Fo, Osborne, Bond, entre muitos, muitos outros autores teatrais, testemunharam os problemas do seu tempo, que curiosamente eram os mesmos de hoje. Não podemos deixá-los a falar sozinhos. E esta obrigação envolve-nos a todos: dramaturgos, encenadores, artistas plásticos, músicos, atores, produtores, críticos e até o próprio público, sobretudo aquele que não vai ao teatro. É preciso fazer chegar o teatro ao maior número. E o maior número ao teatro. Só assim será possível ajudar a mudar o mundo. Para melhor, claro. "Para pior, já basta assim".







Dia mundial do teatro'14 | Vicente, um perfil de Vontade

 

 

 SEMANA DA LEITURA

                                       19 dias a ler!


  



  
   
Para comemorar o Dia Mundial do Teatro, um grupo de alunos do  9º A fez a leitura dramatizada de algumas cenas do texto Vicente, um perfil de vontade,  uma adaptação do conto de Miguel Torga.

 Este texto, de autoria coletiva dos alunos desta turma, é uma adaptação ao texto dramático do conto "Vicente", de Torga.

Foi produzido ano letivo transato, aquando do estudo do conto, sob orientação da professora de Português, Julieta Pinto, e da Professora Bibliotecária, Adelaide Jordão, e publicado no último número do Boletim Cultural da Escola, que saiu no dia 17 de março. 


  A leitura dramatizada deste extrato teve lugar na escadaria de acesso à Biblioteca, no intervalo das 9h 45m.

  
  
  
   
Os alunos do 8º ano assistiram à leitura dramatizada
  

  

     


 




Transcrevemos o excerto lido:



http://pescadordeaves.blogspot.pt/2013/11/corvo-marinho-de-faces-brancas.html








Cena III

Narrador“A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário, de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. (Pausa) O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação.”

O Narrador fica de novo na penumbra.

 Cena IV
De repente, ouve-se a voz de Deus.

Deus (em voz off, como um trovão) - Onde está o meu servo Vicente? (ouve-se o som de trovões mais fortes).

Bípedes e quadrúpedes mostram-se aterrorizados.

Noé (um velho patriarca, com longos cabelos e barbas brancas, vestindo uma túnica branca, de sandálias e com um bastão na mão direita; a medo) - Deve andar por aí, Senhor… (grita) Vicente! Vicente! (vira-se para os animais) Que é do Vicente?! (silêncio geral e novo grito) Vicente…! (virando-se novamente para os animais da arca) Ninguém o viu? (em tom de desespero) Procurem-no! (A criação inteira continua calada e Noé insiste) Vicente! Vicente! Em que sitio é que ele se meteu?

Compadecido, o Animal 1 aproxima-se de Noé.

Animal 1- Vicente fugiu…

Noé (cada vez mais desesperado) – Fugiu?! Fugiu como?!

Animal 1- Fugiu… Voou…
Noé fica em pânico, com a manga da túnica limpa o suor da testa. As pernas tremem-lhe. Ao mesmo tempo que cai, todas as luzes se apagam por instantes. Quando o palco volta a estar iluminado, veem-se os animais encolhidos de medo, encostados uns aos outros, olhando para todos os lados.

Deus (som de fortes trovões) – Noé, onde está o meu servo Vicente?!!!

Noé (acorda, levanta-se trémulo e confuso, apoia-se no seu bastão) - Senhor, o teu servo evadiu-se. Mas ninguém o maltratou… Eu nunca o ofendi. Dei-lhe sempre a sua ração diária… Foi a sua própria insubmissão que o levou. Ele não admitia que mandassem nele… (ajoelha-se com dificuldade e a tremer) Perdoa-lhe! Perdoa-me! Salva-o, que, como tu mandaste, só o guardei a ele…
Deus (interrompe, em tom de censura) - Noé, Noé!... (desiludido) - Noé…

Silêncio. Ouve-se apenas o choro infantil de Noé, que cai prostrado. A luz incide de novo sobre a figura do Narrador.

 Cena V

Narrador -”Entretanto, suavemente, a Arca ia virando de rumo.”... (os animais simulam o movimento da Arca, virando-se todos para o mesmo lado) “E a seguir, como que guiada por um piloto encoberto, como que movida por uma força misteriosa uma força misteriosa, apressada e firme -, ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas –, dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia. Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação.”

Apaga-se a luz que incide sobre o Narrador. Entre os animais, situados no centro do palco, cresce a angústia e a ansiedade.

 Cena VI

Animal 2 (dirigindo-se à boca de cena) - E agora? (Pausa) O que é que o Senhor vai fazer? (Pausa) Como é que tudo isto vai terminar?

Animal 3 (dirigindo-se à boca de cena) - Será que Deus vai obrigar o corvo a regressar à Barca?

Animal 4 (dirigindo-se à boca de cena) - Acham que o vai sacrificar só para servir de exemplo a todos nós?

Animal 5 (dirigindo-se à boca de cena) - E terá o nosso amigo Vicente resistido à fúria do vendaval e à escuridão da noite?

Animal 6 (dirigindo-se à boca de cena ) -  Se está vivo, se venceu todos os obstáculos, onde é que ele está? (Pausa) Em que lugar do universo poderá ainda haver um retalho de esperança?

Um foco de luz incide de novo sobre o Narrador ao mesmo tempo que os animais regressam ao centro do palco.


 
http://www.viva-agenda.com/evento/23479/Dia+Mundial+do+Teatro





Episódio do Jantar no Hotel Central, de Os Mais, de Eça de Queirós


Leitura dramatizada

Ainda no âmbito da celebração do Dia Mundial do Teatro, a professora Rosa Canelas, que já tinha colaborado com a Biblioteca no dia Mundial da Poesia,  lendo poemas nas salas de aula, visitou a turma do 11º H, na aula de Português (das 10h05m às 11h35m), para desafiar  alunos e professora,  Anabela Carvalho, a fazer uma leitura dramatizada do Episódio do Jantar no Hotel Central, de Os Mais, de Eça de Queirós (tendo feito previamente a adaptação do extrato narrativo ao texto dramático). 



  
http://teresamarques2009.files.wordpress.com/2012/03/hotel-central-net.jpg



https://themaias.wordpress.com/2008/05/09/eca-de-queiroz-caricatura-2/

 
O repto foi aceite! Aqui ficam algumas imagens desta experiência  de leitura!







Bons espetáculos! 
                                                                 E Boas Leituras!