sábado, 29 de abril de 2017

O jazz é uma mensagem universal de paz






Jazz, criatividade e diversidade





O Jazz é uma expressão de criatividade e de diversidade



http://www.unesco.org/new/en/jazz-day



O jazz:

• Quebra barreiras e cria oportunidades para a compreensão e tolerância mútuas;

• É um vetor de liberdade de expressão;

• É é um símbolo de unidade e paz;

• Reduz as tensões entre indivíduos, grupos e comunidades;

• Promove a igualdade de género;

• Reforça o papel que os jovens desempenham na mudança social;

• Incentiva a inovação artística, a improvisação, as novas formas de expressão e a inclusão de formas tradicionais de música nas novas formas;

• Estimula o diálogo intercultural e capacita os jovens das sociedades marginalizadas.





O jazz contribui para:

• Integrar a cultura nos quadros de desenvolvimento sustentável;

• Promover os Direitos Humanos e as Liberdades Fundamentais;

• Proteger e promover a Diversidade das Expressões Culturais.



Dia Internacional do Jazz


30 de abril





Mensagem de Irina Bokova, Diretora-Geral da UNESCO, por ocasião do Dia Internacional do Jazz


"Na ocasião do sexto Dia Internacional do Jazz, a UNESCO celebra todos os músicos, poetas, pintores, escritores, historiadores, académicos e entusiastas do jazz em todo o mundo, que prestam homenagem ao jazz, à sua capacidade de unir as pessoas e às suas contribuições para a paz. 

Como disse a grande Nina Simone: “Jazz não é apenas música – é um modo de viver, um modo de ser, um modo de pensar”. O jazz está em todos os lugares, ao nosso redor, e inspira-nos a melhorar a nós mesmos por meio da música e na vida. 

Hoje, celebramos a forma de arte internacional que é o jazz e o seu poder de promover o diálogo entre culturas, de aproveitar ao máximo a diversidade, de aprofundar o respeito pelos direitos humanos e todas as formas de expressão.

A história do jazz está escrita na busca pela dignidade humana, pela democracia e pelos direitos civis. Os seus ritmos e a sua variedade deram força à luta contra todas as formas de discriminação e racismo – essa é a mensagem que devemos levar a todo o mundo no dia de hoje. 

Havana é a Cidade Anfitriã Mundial do Dia Internacional do Jazz deste ano, o que reflete os laços profundos que a cidade tem com o jazz. 

Cidade natal de renomados líderes de bandas, Mario Bauzá e Frank “Machito” Grillo, a florescente cultura musical de Havana e, de forma mais ampla, de Cuba, faz surgir o movimento de jazz afro-cubano, inspirado por uma grande mistura de culturas e povos de toda a região. O jazz cubano é uma lição sobre diversidade criativa que repercute no coração da UNESCO. 

Pela primeira vez, o Dia Internacional do Jazz será o foco de uma celebração em Havana, que irá durar uma semana e terá oficinas, aulas-mestras, exibições de filmes, performances e concertos por toda a cidade. O All-Star Global Concert será uma oportunidade única para mostrar os maiores talentos musicais de Cuba, da América Latina e de todo o mundo, incluindo o lendário pianista, compositor de jazz e embaixador da Boa Vontade da UNESCO para o Diálogo Intercultural, Herbie Hancock, e o jazzista cubano Chucho Valdés. 

Mais uma vez, a UNESCO orgulha-se da associação com o Thelonious Monk Institute of Jazz e com o Instituto Cubano de Música, para levantar a bandeira para o jazz, a criatividade, a diversidade e a união. O foco deste ano em Cuba é testemunho do poder que o jazz tem de construir pontes e reunir mulheres e homens em torno de aspirações e valores partilhados."



Dia Mundial da Dança



29 de abril






O Dia Mundial da Dança foi instituído em 1982 pelo Conselho Internacional da Dança (CID), entidade criada sob a égide da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). 

A data foi escolhida para recordar o nascimento do coreógrafo francês Jean-Georges Noverre, um dos pioneiros da dança moderna.


terça-feira, 25 de abril de 2017

Cantiga de abril








Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste pais,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde. verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
E verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

26-28(?)/4/1974


Abril de Abril







Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

Manuel Alegre, 30 Anos de Poesia, Publicações Dom Quixote


O 25 de abril no cinema






Capitães de Abril - Filme de Maria de Medeiros





Filme disponível na Biblioteca.



O 25 de abril de 1974 em 100 imagens











O Movimento das Forças Armadas (MFA) era composto na sua maior parte por capitães que tinham participado na guerra colonial e que tiveram o apoio de oficiais milicianos. Inicialmente baseado em reivindicações corporativistas como a luta pelo prestígio das forças armadas, acabou por se estender ao regime político em vigor. Com reduzido poderio militar e com uma adesão em massa da população ao movimento, a resistência do regime foi praticamente inexistente e infrutífera.



25 de abril - Regresso dos Exilados










Regresso de alguns cantores exilados. Cantam Grândola Vila Morena. Reconhecem-se, entre outros: Ary dos Santos, José Jorge Letria, José Mário Branco, Luís Cília, Adriano Correia de Oliveira, José Duarte.


Ver mais vídeos sobre o regresso dos exilados políticos após o 25 de abril cedidos pelos arquivos da RTP na Associação 25 de abril.




25 de abril - libertação dos presos políticos









À espera que os portões de Caxias se abram para a saída dos presos políticos. As instalações já sob o controlo dos militares. 

No exterior aguardam a saída dos presos políticos algumas personalidades que se podem ver no filme entre outras: Jorge Sampaio, Salgado Zenha, Francisco Sousa Tavares, Miguel Sousa Tavares, Rogério Paulo, José Cardoso Pires, João Bénard da Costa e Francisco Pereira de Moura, Manuel João da Palma Carlos.




 http://www.25abril.org/a25abril/index.php?content=168

Ver mais vídeos (cedidos pelos Arquivos da RTP) no Site da Associação 25 de abril




As portas que abril abriu




    



"De tudo o que Abril abriu/ ainda pouco se disse/e só nos faltava agora/ que este Abril não se cumprisse." - José Carlos Ary dos Santos






As portas que abril abriu 
Poema de José Carlos Ary dos Santos

Era uma vez um país 
onde entre o mar e a guerra 
vivia o mais infeliz 
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos 
vales socalcos searas 
serras atalhos veredas 
lezírias e praias claras 
um povo se debruçava 
como um vime de tristeza 
sobre um rio onde mirava 
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país 
onde o pão era contado 
onde quem tinha a raiz 
tinha o fruto arrecadado 
onde quem tinha o dinheiro 
tinha o operário algemado 
onde suava o ceifeiro 
que dormia com o gado 
onde tossia o mineiro 
em Aljustrel ajustado 
onde morria primeiro 
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país 
de tal maneira explorado 
pelos consórcios fabris 
pelo mando acumulado 
pelas ideias nazis 
pelo dinheiro estragado 
pelo dobrar da cerviz 
pelo trabalho amarrado 
que até hoje já se diz 
que nos tempos do passado 
se chamava esse país 
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos 
vales socalcos searas 
serras atalhos veredas 
lezírias e praias claras 
vivia um povo tão pobre 
que partia para a guerra 
para encher quem estava podre 
de comer a sua terra.

Um povo que era levado 
para Angola nos porões 
um povo que era tratado 
como a arma dos patrões 
um povo que era obrigado 
a matar por suas mãos 
sem saber que um bom soldado 
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém 
que dentro de um povo escravo 
alguém que lhe queria bem 
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança 
feita de força e vontade 
era ainda uma criança 
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa 
era a força da razão 
do coração à cabeça 
da cabeça ao coração. 
Quem o fez era soldado 
homem novo capitão 
mas também tinha a seu lado 
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado 
a defender um irmão 
esses que tinham passado 
o horror da solidão 
esses que tinham jurado 
sobre uma côdea de pão 
ver o povo libertado 
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo 
mas tinham toda a razão 
quando um homem morre perto 
tem de haver distanciação

uma pistola guardada 
nas dobras da sua opção 
uma bala disparada 
contra a sua própria mão 
e uma força perseguida 
que na escolha do mais forte 
faz com que a força da vida 
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado 
homem novo capitão 
mas também tinha a seu lado 
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo 
começou a floração 
do capitão ao soldado 
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado 
percebeu qual a razão 
porque o povo despojado 
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado 
em sua própria grandeza 
era soldado forçado 
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado 
e no seu próprio país 
muitas vezes estrangulado 
pelos generais senis.

Capitão que não comanda 
não pode ficar calado 
é o povo que lhe manda 
ser capitão revoltado 
é o povo que lhe diz 
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país 
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue 
contra a posição contrária 
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra 
na madrugada serena 
um poeta que cantava 
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos 
vales socalcos searas 
serras atalhos veredas 
lezírias e praias claras 
desceram homens sem medo 
marujos soldados «páras» 
que não queriam o degredo 
dum povo que se separa. 
E chegaram à cidade 
onde os monstros se acoitavam 
era a hora da verdade 
para as hienas que mandavam 
a hora da claridade 
para os sóis que despontavam 
e a hora da vontade 
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas 
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras 
arrancaram-se as mordaças 
e o povo saiu à rua 
com sete pedras na mão 
e uma pedra de lua 
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo 
meu camarada e irmão 
este povo está contigo 
nascemos do mesmo chão 
trazemos a mesma chama 
temos a mesma ração 
dormimos na mesma cama 
comendo do mesmo pão. 
Camarada e meu amigo 
soldadinho ou capitão 
este povo está contigo 
a malta dá-te razão.

Foi esta força sem tiros 
de antes quebrar que torcer 
esta ausência de suspiros 
esta fúria de viver 
este mar de vozes livres 
sempre a crescer a crescer 
que das espingardas fez livros 
para aprendermos a ler 
que dos canhões fez enxadas 
para lavrarmos a terra 
e das balas disparadas 
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril f
ez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado 
às vezes por mãos estranhas 
o poder que ali foi dado 
saiu das nossas entranhas. 
Saiu das vinhas sobredos 
vales socalcos searas 
serras atalhos veredas 
lezírias e praias claras 
onde um povo se curvava 
como um vime de tristeza 
sobre um rio onde mirava 
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia 
o quiser roubar alguém 
não fica na burguesia 
volta à barriga da mãe. 
Volta à barriga da terra 
que em boa hora o pariu 
agora ninguém mais cerra 
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias 
se escancararam de vez 
essas janelas vazias 
que se encheram outra vez 
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez 
que espreitavam como espias 
todo o povo português.

Agora que já floriu 
a esperança na nossa terra 
as portas que Abril abriu 
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho 
levantado como um punho 
em Maio surgiu vermelho 
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou 
nas ruas em procissão 
de novo se processou 
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas 
abraços punhais e lanças 
enamoradas as alas 
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido 
tantas vezes repetido 
dizia que o povo unido 
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho 
levantado como um punho 
em Maio surgiu vermelho 
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros 
pescadores e ganhões 
marçanos e carpinteiros 
empregados dos balcões 
mulheres a dias pedreiros 
reformados sem pensões 
dactilógrafos carteiros 
e outras muitas profissões 
souberam que o seu dinheiro 
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam 
jornalistas que escreviam 
actores que se desdobravam 
cientistas que aprendiam 
poetas que estrebuchavam 
cantores que não se vendiam 
mas enquanto estes lutavam 
é certo que não sentiam 
a fome com que apertavam 
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura 
escrever constrói liberdade 
e não há coisa mais pura 
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados 
na mesma luta de ideais 
ambos sectores explorados 
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam 
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam 
silêncios boatos murmúrios 
risinhos que se calavam 
palácios contra tugúrios 
fortunas que levantavam 
promessas de maus augúrios 
os que em vida se enterravam 
por serem falsos e espúrios 
maiorais da minoria 
que diziam silenciosa 
e que em silêncio fazia 
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo 
e com ordenados régios 
o alvor do socialismo 
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro 
que sucedeu a vindima 
quando pisámos Setembro 
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte 
que sabia tanto a Abril 
que nem o medo da morte 
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé 
juntos soldados e povo 
para mostrarmos como é 
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa! 
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça 
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono 
mais forte que a Primavera 
que trouxe os homens sem dono 
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros 
pescadores e ganhões 
operários e carpinteiros 
empregados dos balcões 
mulheres a dias pedreiros 
reformados sem pensões 
dactilógrafos carteiros 
e outras muitas profissões 
que deu o poder cimeiro 
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas 
palácios e palacetes 
os generais com prebendas 
caciques e cacetetes 
os que montavam cavalos 
para caçarem veados 
os que davam dois estalos 
na cara dos empregados 
os que tinham bons amigos 
no consórcio dos sabões 
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões 
os generais subalternos 
que aceitavam os patrões 
os generais inimigos 
os generais garanhões 
teciam teias de aranha 
e eram mais camaleões 
que a lombriga que se amanha 
com os próprios cagalhões. 
Com generais desta apanha 
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março 
foi um baile de Tartufos 
uma alternância de terços 
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes 
e para terras de Espanha 
os que faziam alardes 
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé 
capitães de pedra e cal 
os homens que na Guiné 
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram 
que um animal racional
opõe àqueles que o firam 
consciência nacional.

Os tais homens que souberam 
fazer a revolução 
porque na guerra entenderam 
o que era a libertação.

Os que viram claramente 
e com os cinco sentidos 
morrer tanta tanta gente 
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço 
temperado com a tristeza 
que envolveram num abraço 
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita 
e depois tão maltratada 
por quem herdou a desdita 
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo 
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo 
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história 
que os capitães descobriram 
que ficará na memória 
das naus que de Abril partiram

das naves que transportaram 
o nosso abraço profundo 
aos povos que agora deram 
novos países ao mundo.

Por saberem como é 
ficaram de pedra e cal 
capitães que na Guiné 
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram 
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram 
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos 
que ficarão a render 
ao invés dos monopólios 
para o trabalho crescer. 
Guindastes portos navios 
e outras coisas para erguer 
antenas centrais e fios 
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio 
é preciso é aquecer 
pensar que somos um rio 
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar 
que nunca mais tem fronteiras 
e havemos de navegar 
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho 
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho 
na Beira com requeijão 
e trocando agora as voltas 
ao vira da produção 
no Alentejo bolotas 
no Algarve maçapão 
vindimas no Alto Douro 
tomates em Azeitão 
azeite da cor do ouro 
que é verde ao pé do Fundão 
e fica amarelo puro 
nos campos do Baleizão. 
Quando a terra for do povo 
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária 
em sua própria expressão:
a maneira mais primária 
de que nós temos um quinhão 
da semente proletária 
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado 
homem novo capitão 
mas também tinha a seu lado 
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu 
ainda pouco se disse 
um menino que sorriu 
uma porta que se abrisse 
um fruto que se expandiu 
um pão que se repartisse 
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse 
e entre vinhas sobredos 
vales socalcos searas 
serras atalhos veredas 
lezírias e praias claras 
um povo que levantava 
sobre um rio de pobreza 
a bandeira em que ondulava 
a sua própria grandeza! 
De tudo o que Abril abriu 
ainda pouco se disse 
e só nos faltava agora 
que este Abril não se cumprisse. 
Só nos faltava que os cães 
viessem ferrar o dente 
na carne dos capitães 
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós 
povo soberano e total 
que ao mesmo tempo é a voz 
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas 
agiotas do lazer 
latifundiários machistas 
balofos verbos de encher 
e outras coisas em istas 
que não cabe dizer aqui 
que aos capitães progressistas 
o povo deu o poder! 
E se esse poder um dia 
o quiser roubar alguém 
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe! 
Volta à barriga da terra 
que em boa hora o pariu 
agora ninguém mais cerra 
as portas que Abril abriu!


Lisboa : Ed. Comunicação, 1975






"Pode dizer-se que a poesia de Ary dos Santos foi uma «arma». Esta «arma», pelo seu conteúdo, ao qual Ary conseguiu juntar uma insubstituível forma, com a sua voz, foi também construtora da Revolução de Abril e da libertação de todo um povo. Poderá também dizer-se que continua a ser hoje um grito libertador perante o conformismo e a submissão."



As canções de abril (10)




Ao romper da bela aurora

Como se pode ler no blogue do grupo, "A Brigada Vitor Jara nasceu em Coimbra em 1975, após o 25 de abril, para o qual e após o qual, a música popular e a música de intervenção com raízes tradicionais tiveram um papel importante.

A banda chamou-se assim em memória do cantor chileno com o mesmo nome, morto pelos militares após o golpe de Pinochet, no Chile, em 1973.

Ao longo dos anos, os membros da Brigada recolheram músicas de todas as regiões portuguesas e os seus concertos refletem esta diversidade com canções mais ritmadas do norte, belas harmonias do Alentejo e até influências do estrangeiro trazidas por emigrantes de lugares tão contrastantes como o Norte de África e a Escócia.

Hoje a Brigada Vitor Jara é considerada por muitos como o grupo de referência da nova música tradicional."







Ao romper da bela aurora

Gosto de quem canta bem
Que é uma prenda bonita
Não empobrece ninguém
Assim como não enrica

Ao romper da bela aurora
Sai um pastor da choupana
Vem cantando em altas vozes
Muito padece quem ama

Muito padece quem ama
Mais padece quem namora
Sai um pastor da choupana
ao romper da bela aurora



As canções de abril (9)







Uns vão bem e outros mal

"Dedicado sobretudo ao canto de intervenção, Fausto é considerado um dos mais criativos e expressivos criadores e intérpretes da música popular portuguesa."- Infopédia








Uns vão bem e outros mal 
Interpretação: Fausto

Senhoras e meus senhores, façam roda por favor
Senhoras e meus senhores, façam roda por favor, cada um com o seu par
Aqui não há desamores, se é tudo trabalhador o baile vai começar
Senhoras e meus senhores, batam certos os pézinhos, como bate este tambor
Não queremos cá opressores, se estivermos bem juntinhos, vai-se embora o mandador
Vai-se embora o mandador
Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição
De velhas casas vazias, palácios abandonados, os pobres fizeram lares
Mas agora todos os dias, os polícias bem armados desocupam os andares
Para que servem essas casas, a não ser para o senhorio viver da especulação
Quem governa faz tábua rasa, mas lamenta com fastio a crise da habitação
E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal
Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição
Tanta gente sem trabalho, não tem pão nem tem sardinha e nem tem onde morar
Do frio faz agasalho, que a gente está tão magrinha da fome que anda a rapar
O governo dá solução, manda os pobres emigrar, e os emigrantes que regressaram
Mas com tanto desemprego, os ricos podem voltar porque nunca trabalharam
E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal
Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição
E como pode outro alguém, tendo interesses tão diferentes, governar trabalhadores
Se aquele que vive bem, vivendo dos seus serventes, tem diferentes valores
Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar
Que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar
Segura bem o teu par, que o baile vai terminar
Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

Fausto, Madrugada dos Trapeiros, 1978


As canções de abril (8)







Venham mais cinco




Venham mais Cinco é um álbum de canções originais de Zeca Afonso. Foi gravado em Paris com a ajuda de José Mário Branco e editado no Natal de 1973, sendo o último álbum de José Afonso antes da revolução de abril.

Na época em que este álbum foi concebido, Zeca Afonso estava a cantar um pouco por todo o lado como símbolo antifascista de oposição ao Estado Novo Português.

Muitas sessões foram proibidas pela PIDE/DGS e, em abril de 1973, foi detido no Forte-prisão de Caxias onde esteve até finais de maio.

Neste disco o cantautor assina algumas das suas canções clássicas, como "Venham Mais Cinco", "A Formiga no Carreiro" ou "Que Amor Não me Enganas", mas também alguns poemas quase surrealistas como "Rio Largo de Profundis", "Nefretite Não Tinha Papeira" ou o belíssimo (e também clássico) "Era uma Redondo Vocábulo". O poema da canção "Redondo Vocábulo" foi escrito no período de detenção em Caxias.




Venham mais cinco, de José Afonso, ao vivo no Coliseu de Lisboa a 29 de janeiro de 1983.

Tito Paris, Janita Salomé, Vitorino, Luís Pastor e Júlio Pereira, na Gala de Homenagem a Zeca Afonso realizada na Galiza (Pontevedra), por ocasião do 25 de abril de 2007








Venham mais cinco
Composição: José Afonso

Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já 
Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá 
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar 
De espada à cinta, já crê que é rei d'aquém e além-mar

Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar

Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, Tiiiiiiiiiiiiii paraburibaie ...

A gente ajuda, havemos de ser mais eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustem
Só nesta rusga, não há lugar prós filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar

Bem me diziam, bem me avisavam como era a lei
Na minha terra, quem trepa no coqueiro é o rei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustem
Só nesta rusga, não há lugar prós filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar