domingo, 28 de julho de 2019

A diáspora portuguesa



José Tolentino Mendonça
Que coisas são as nuvens | E-Revista Expresso




A DIÁSPORA ACONTECE NO ENCONTRO DE DUAS PERGUNTAS: “DE ONDE VENS?” E “ONDE ESTÁS AGORA?”


D
iáspora é, para todos os efeitos, uma palavra nova, pois só na transição do milénio começámos a vê-la aplicada para descrever o fenómeno secular da emigração portuguesa e cartografar a sua complexa morfologia histórica e humana. A verdade é que quando as palavras de sempre nos parecem insuficientes, e se torna perentória a necessidade de encontrar outra gramática, isso corresponde a um movimento epocal, que tanto pode ser de curta como de longa duração — é certo —, mas que precisamos de compreender, se quisermos ser fiéis àquilo que, a cada momento, somos. A história das palavras conta a nossa história, mais do que supomos. Naquela sua invulgar agudeza sobre a natureza humana, a escritora Agustina Bessa-Luís escreveu: “As palavras não significam nada se não forem recebidas como um eco da vontade de quem as ouve.” A palavra não é apenas, portanto, um repositório dos sentidos estabelecidos, mas é um pertinente espelho das mutações em curso, mutações que podem ser individuadas na vontade ou na necessidade atual da nossa auscultação. Temos talvez de começar por isso, por interrogar a nossa necessidade de palavras novas, e perguntar de onde provém essa necessidade e o que é que ela significa.
Se a categoria de “diáspora” se tende hoje a universalizar muito deve à publicação da obra do sociólogo Robin Cohen, intitulada “Global Diasporas” (1997), que procurou mostrar como a condição de diáspora (que começou por ser identificada com o destino de Israel e apenas com ele) é afinal compartilhada por muitas culturas. Basta para isso que uma determinada comunidade viva fora do seu território de origem, mas continue vinculado a ele, através da língua, da identidade, das tradições religiosas ou outras, e das práticas culturais.
A diáspora acontece no encontro de duas perguntas: “de onde vens?” e “onde estás agora?”. A condição que o emigrante testemunha é a deste habitar “entre”, entre cá e lá, nem completamente cá, nem completamente lá, numa elaboração interior que carrega consigo a impossibilidade de ser uma coisa só. A diáspora inaugura efetivos espaços de negociação entre as culturas, iluminando de outra forma aquilo que, de forma simplista, pareciam processos rápidos de deslocação ou de assimilação. E traz um contributo essencial: mostra como a identidade de um país não é simplesmente uma ontologia predeterminada, congelada no tempo e no espaço, mas na fidelidade à sua história, é também um processo de atualização e de reconfiguração.
A condição que o emigrante testemunha é a deste habitar “entre”, entre cá e lá, nem completamente cá nem completamente lá
Lembro-me, por exemplo, de ter visitado há uns anos o Clube madeirense de New Bedford e ter conversado com um homem da minha idade, um lusodescendente da terceira geração. Ele não falava português, nem havia estado alguma vez na Madeira, terra dos seus e dos meus avós. Mas tinha uma camisola com o emblema da Confraria do Santíssimo Sacramento; falou-me longamente das festividades tradicionais da Madeira que se celebram em New Bedford; brindamos com Vinho da Madeira. Foi um encontro para mim comovente e impressivo, falar com este homem, ou ver em seguida em Fall River, em tamanho real, uma réplica das Portas da Cidade de Ponta Delgada. Mas claramente esse encontro foi parcial. A ideia de diáspora obriga-nos a ir mais longe e a olhar para os emigrantes não apenas como embaixadores da cultura portuguesa, mas como coprotagonistas e cocriadores culturais, que nos revelam de Portugal não apenas aquilo que já sabemos. É certamente importante reconhecer a persistência de traços vernaculares de uma história, do imaginário e da tradição comuns. Contudo, torna-se necessário introduzir antenas capazes de captar o que é diferente ou já é diferente, o que é dialetal, transfronteiriço e inovador. Temos de escutar melhor a diáspora, se quisermos compreender e potenciar o país que somos.
Expresso, 20 de julho de 2019

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