#inmemoriam
Maria Alzira Seixo (1941-2026)
Professora e investigadora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde é professora catedrática aposentada, tem uma carreira também de alcance internacional, tendo lecionado como Professora convidada em Universidades estrangeiras de prestígio, como Poitiers, Chicago, Johns Hopkins ou California (Santa Barbara).
Publicou 11 livros como autora, em especial sobre as suas áreas de eleição, Literatura Francesa, Literatura Portuguesa, e Literatura Comparada, tendo ainda várias obras em colaboração ou como co-autora. O escopo do seu labor intelectual é muito alargado, destacando-se, pela expressão que tiveram, os estudos que produziu no âmbito do Seminário Internacional “A Viagem na Literatura” (Comissão dos Descobrimentos), e os que dedicou quer a José Saramago, de cujo Nobel foi uma das principais promotoras, e António Lobo Antunes, de que foi responsável pela edição da sua obra ne varietur.
Testemunho
Faleceu a minha vizinha. Não era uma vizinha qualquer. Foi a única pessoa que conheci que fez entrar no mesmo prédio em que vivi tantos anos escritores rivais como José Saramago e António Lobo Antunes. Em dias diferentes, naturalmente. Maria Alzira Seixo foi uma professora que deixou uma marca única na Academia portuguesa. Temida, amada ou odiada, era impossível ficar-lhe indiferente. Respeitava-a muito, admirava a sua extraordinária capacidade de ler tudo o que se publicava. Por isso, nesse tempo em que nos encontrávamos com mais frequência ou no prédio ou no café do Shopping ou no supermercado, podíamos ficar horas a conversar, quero dizer, horas a ouvi-la… Até que nasceu o episódio real do nascimento do grande romance académico português.
Quem melhor do que ela para o escrever? Ninguém tinha mais histórias interessantes de todos os escritores e académicos portugueses vivos e não vivos. Aceitou o desafio, mas eu tinha também de tentar escrever esse romance, pois não bastava ser leitor fervoroso do género. Cada um foi para a sua casa, no mesmo prédio, a tentar escrever o primeiro romance académico português, sim, porque o que Frederico Lourenço já tinha publicado não fazia justiça ao género por total falta de humor, sem o qual o romance académico não funciona. Maria Alzira Seixo, que escrevia bem poesia, não foi capaz de escrever mais de 8 páginas de um possível romance académico. Eu fui até ao fim e saiu O Professor Sentado. Divertiu-se muito com o meu feito, não porque ela própria entrava como personagem real, na pele de crítica literária temida (o que foi na verdade), mas porque afinal estavam lá os ingredientes que um romance académico deve ter. Mais ninguém deve ter lido tal romance de estreia. Até foi ela quem me arranjou editor (outra história interessante).
A doença recente afastou-a do mundo das letras onde reinou. Deixa saudades, mas, como sempre acontece com os grandes, o seu legado é suficientemente precioso para ser sempre lembrada.
Carlos Ceia. Facebook. 20 de janeiro de 2026
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