quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O narcisismo patológico alimentado por chatbots

 

 #inteligência artificial



 

 Conversa com um humanóide da AI Life (Frederic J. Brown/AFP)

 

Quem precisa de amigos chatos, que dizem não e são problemáticos, se podemos ter um “amigo IA” que concorda com tudo, nos venera e está sempre presente?

O criador do AI Friend — um “amigo de inteligência artificial” — garante que sempre soube que a sua criação seria polémica. Trata-se de um pendente usado ao pescoço, basicamente um microfone com a missão de ouvir conversas durante o dia. Sempre, sem ser ativado. E enquanto ouve, vai produzindo respostas e reações, enviadas para uma app. Um amigalhaço eletrónico, um companheiro portátil que segue o utilizador sem cansaço e sem pedir intervalo.

Esse micro está ligado via Bluetooth ao sistema de IA Gemini e tem, supostamente, capacidade de “analisar” e reagir. Pode fazer resumos do dia, destacar momentos e discutir nuances emocionais e sociais. A promessa é oferecer um “amigo” que presta “apoio emocional constante e sem julgamentos” — por 129 dólares, uma quantia acessível para um produto que se apresenta como companhia permanente.

Quando foi lançado, o AI Friend tinha personalidade irreverente e pespineta. Criticava reuniões, como quem está farto de aturar gente. Mas a empresa percebeu que ninguém aguenta um penduricalho irritante e sarcástico ao pescoço. Optaram por “lobotomizar” o sistema e transformá-lo num lambe botas superprotetor, sempre a concordar e reforçar tudo o que o utilizador faz. Não é um amigo, é uma claque portátil.

Curiosamente, houve reação visceral, algo raro com tecnologia. Os nova-iorquinos vandalizaram placards no Metro. “Isso não é um amigo: mesmo que nunca falte um jantar ou não deixe louça na pia.” Para muitos, o dispositivo simbolizava a mercantilização da intimidade. Uma desumanização do afeto, e algo intrusivo na relação com os outros.

Havia quem se sentisse desconfortável em conversar com pessoas que o traziam ao pescoço. Era como estar a ser “escutado”. E tornou-se símbolo de quem precisa de ter um “amigo IA”, logo alguém com problemas de sociabilização. Não é um objeto de estatuto. É uma falha de personalidade. “Este tipo não tem amigos e tem de andar com aquilo ao pescoço... patético.”

Talvez o perigo seja de que os humanos desaprendam a amar pessoas por causa das máquinas

Mas o debate ficou lançado: trata-se de “amizade engarrafada”, uma máquina que serve para louvar e reforçar. Uma substituição da realidade por performance afetiva low cost. Venderam-se poucos milhares destes aparelhos (estas coisas nunca chegam cá devido à legislação da UE), mas tornou-se legítimo questionar o impacto cultural e social da sua eventual disseminação.

Que nos acontece quando temos constantemente um “amigo” a reforçar comportamentos — atos nobres, banais, delírios, dependências ou estados maníacos? Que acontece quando gerações crescem a ter um chatbot que lhes diz “isso faz sentido, compreendo-te, continua”? E se perdem a capacidade de ouvir uma resposta desagradável?

Imaginemos uma adolescência formada na digital sycophancy — lisonja algorítmica permanente. Respostas antipáticas ou negativas? Nunca. O “não” desaparece.



Enio from Pixabay


Vale lembrar que um “amigo” de carne e osso muitas vezes diz: “não sejas burro, não faças isso”. A amizade real é fricção, risco, confronto e limites.

Mas as amizades reais são insuportavelmente humanas. E uma geração deprimida, ansiosa, hipersensível, prefere amigos que não a contradigam. Preferem um espelho a um “não”. Talvez o problema não seja o dispositivo, mas a cultura que o torna necessário e lucrativo.

Tínhamos medo de que as máquinas nos matassem. Agora, teme-se que nos amem tanto que deixemos de ter necessidade dos outros. Não é pânico moral. É existencial. E se descobrirmos que preferimos amigos artificiais porque são mais fáceis, mais seguros, menos exigentes?

Criou-se a ideia de que “há uma epidemia de solidão”. Talvez seja mito. Talvez o drama não seja estarmos mais sós, mas menos preparados para estarmos sós. O termo ‘solidão’ é recente — tem uns 200 anos. Antes, “estava-se só”. Deus estava presente. Nem Robinson Crusoe usou o termo solidão para descrever a vida na ilha sem o Sexta-Feira.

Agora, haverá o AI Friend. Um substituto barato de Deus, do amigo e do terapeuta. É que uma amizade é uma chatice. Dizem que são precisas 200 horas de interação e exposição de vulnerabilidades para que se forme uma amizade profunda. Quem tem esse tempo? E quem se arrisca?

Assim, de repente, o que poderá acontecer a uma geração criada com “amigos” que só reforçam convicções? Arrisca-se a ser uma geração de narcisistas patológicos e dependentes emocionais da IA, que só conhecem validação e ausência de confronto com o outro e com a diferença.

Sim, ainda estou a falar do penduricalho, que assumirá outra forma comercial. Mas é uma experiência que pode alargar-se a toda a relação com chatbots e modelos de linguagem usados para resolver problemas quotidianos, nomeadamente emocionais, que se expandem diariamente como próteses psíquicas.

Humanos fechados sobre si e sobre a “sua” IA, num potencial cenário de degradação do tecido social, em que a amizade algorítmica promete conforto e anestesia emocional, dado ser um amigo que nunca discorda e serve de calmante. Bem melhor do que os “reais”, não?

O que se tem lido em livros e visto em filmes é a preocupação de que os humanos comecem a amar máquinas, a ter relações com elas. Mas talvez o perigo seja de que os humanos desaprendam a amar pessoas por causa das máquinas. Que a intimidade real fique obsoleta porque exige demasiado trabalho.
 
 
Luís Pedro Nunes. Expresso, 17 de dezembro de 2025
 

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