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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Na última página de uma antologia nova








Tantos bons poetas!

Tantos bons poemas!

São realmente bons e bons,

Com tanta concorrência não fica ninguém,

Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,

Obtendo lugares por capricho do Empresário.

Tantos bons poetas!

Para que escrevo eu versos?

Quando os escrevo parecem-me

O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —

A única coisa grande no mundo...

Enche o universo de frio o pavor de mim.

Depois, escritos, visíveis, legíveis...

Ora... E nesta antologia de poetas menores?

Tantos bons poetas!

O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue

O génio, e os bons poemas dos bons poetas?

Sei lá se realmente se distingue...

O melhor é dormir...

Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —

Sou vulgar?...

Há tantos bons poetas!

Santo Deus!...
1-5-1928
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. 
 - 83.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Depus a máscara e vi-me ao espelho






Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos. 
Não tinha mudado nada... 
É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 
É-se sempre a criança, 
O passado que foi 
A criança. 
Depus a máscara, e tornei a pô-la. 
Assim é melhor, 
Assim sem a máscara. 
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos