terça-feira, 21 de setembro de 2021

Mês Internacional das Bibliotecas Escolares: MIBE 2021

 



Outubro é o Mês Internacional das Bibliotecas Escolares (MIBE), uma celebração anual das bibliotecas escolares em todo o mundo, uma oportunidade para darem a conhecer o trabalho que desenvolvem e mostrarem que não são apenas um serviço, mas um centro nevrálgico vital nas escolas. A chamada à ação é da IASL (International Association of School Librarianship).

Em Portugal, o Dia das Bibliotecas Escolares assinala-se na quarta segunda-feira do mês de outubro, em 2021, dia 25/10.


Tema do MIBE 2021: “Contos de fadas e contos tradicionais de todo o mundo”


"O tema do MIBE é baseado no tema da Conferência da IASL de 2021 “Uma rica tapeçaria de prática e pesquisa ao redor do mundo.” A expressão “Era uma vez…” transporta-nos imediatamente para o mundo mágico dos livros, através do qual partilhamos a vida de fadas, duendes e muito mais. Existem histórias que foram transmitidas há muito tempo, de geração em geração, e que nos ensinam sobre os valores humanos e a cultura. Vamos ligar-nos e aprender mais sobre diferentes países de todo o mundo, através das histórias.




Cartaz da IASL. Chhavi Jain, India.


Este ano, convidamos a pensar e celebrar a ligação entre livros, leitura, bibliotecas escolares, contos de fadas e contos tradicionais. Esperamos que o MIBE 2021 seja uma celebração mundial criativa e imaginativa da biblioteca escolar. O tema pode ser interpretado de várias maneiras, mas seja qual for a forma que escolhermos, ele enfatiza a importância das bibliotecas escolares."


Mês Internacional da Biblioteca Escolar (MIBE). (2021). Retrieved 21 September 2021, from https://www.rbe.mec.pt/np4/MIBE.html


quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Crianças, jovens e media na era digital - Consumidores e produtores?

 



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"[...] Neste sentido, o foco colocado na cultura participativa dos jovens na era digital, para que chamou a atenção Henry Jenkins (2009), enfatiza conceitos que são certamente relevantes e inovadores no estudo das práticas transmediáticas, como navegação, jogo, negociação, multitarefa, desempenho ou cognição distribuída. Mas corre o risco de alimentar uma visão épica quer da tecnologia quer da juventude, menosprezando questões críticas como a propriedade e controlo das plataformas digitais, e inerentes interesses e lógicas de ação de quem detém esse controlo, ou as situações (crescentes) de desigualdade e precariedade de importantes segmentos dos grupos juvenis. Acresce que a celebração que é feita frequentemente, quer na doxa dominante quer mesmo no terreno da pesquisa científica, do valor da produção de per si também carece de ser submetida à análise crítica. É, pois, pertinente a pergunta colocada por Sara Pereira neste seu trabalho: “porque entusiasma tanto esta ideia de serem todos produtores?”. O mesmo se poderá dizer do enaltecimento de ser ativo. Como se não interessasse a substância, alcance e sentido de tal atividade produtiva, seja para o próprio seja para os outros."

Prefácio. Em busca das pessoas que moram nos produsers, por Manuel Pinto, pág. 10



quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Regresso à Escola | Receção aos Encarregados de Educação

 

Receção a uma das turmas de 7º ano, nos Arcos



Na nossa escola, hoje foi dia da receção aos Encarregados de Educação. 

No 7º ano, os pais fizeram-se acompanhar dos respetivos educandos. A dar-lhes as boas-vindas, estiveram a Diretora e o Subdiretor da escola, os Diretores de Turma e a coordenadora da Biblioteca Escolar.

A todos os alunos que agora vão iniciar um novo ano letivo, a Equipa da Biblioteca deseja muitas felicidades, lembrando que o sucesso é fruto do esforço pessoal, pautado pelo estudo continuado, pela persistência e pela resiliência, mas também do trabalho colaborativo, da partilha e da empatia.


 

 

Um rei na Biblioteca Nacional

 






O meu rei favorito chamou-se Alfonso. Conheci-o há muitos anos na Biblioteca Nacional de Portugal, na sala de leitura geral. Não sei quem projetou a Biblioteca Nacional, em Lisboa, que, quando a conheci, se chamava «de Lisboa» precisamente, e agora se chama «de Portugal». Talvez devesse saber o nome do arquiteto, mas não sei, nunca soube, e resisto a procurar a informação na Internet. Desconheço o arquiteto, mas reconheço o tempo do que desenhou e julgo saber como pensou. Projeto no pensamento a planta do espaço acessível e, com certa soberba, acredito compreender a experiência que quis impor.

Há uma linha reta que une a porta de entrada e a sala de leitura geral. Invisível inicialmente porque o átrio a apaga e o espaço subsequente a desvia ligeiramente, mas depois lá está ela agindo como o fio de Ariadne a caminho da sala de leitura geral. Antes da chegada, dilui-se na luz que chega do alto pela direita, em espaço de amplo pé-direito. É um compasso de espera, onde sempre conheci o lugar de preparar os pedidos. Antigamente eram ali centrais os grandes ficheiros de madeira, animais pernilongos alojando múltiplas gavetas estreitas e compridas, que se afundavam e descobriam, expondo fichas de papel. O tempo mostrava-se nas formas diversas, e na escrita diversa. Algumas datilografadas, outras escritas com canetas de tinta permanente. Havia muito sossego nos L das cotas desenhados laboriosamente a tinta permanente, e nos O maiúsculos, com um singelo caracol interno. Notava-se o ínfimo pingo de tinta no ponto em que o bibliotecário poisava e levantava a caneta. O esmero com que fazia coincidir o princípio e o fim de alguns traços num único ponto de acumulação ligeira de tinta.

Tinha eu uma destas gavetas totalmente aberta, à altura do peito, quando se aproximou, atravessando o espaço da linha diluída, um colega que amei. Do outro lado da gaveta, anunciou-me a morte de um dos nossos monstros sagrados. Havia então no mundo esta numerosa casta de monstros sagrados, que eu julgava até unidos por afetos umbilicais e reflexos medulares. Pareceu-me nada mais que racional esperar uma dolorosa convulsão entre os continentes do planeta Terra, a implantação imediata de uma prolongada carestia de bens intelectuais insubstituíveis. Nada ocorreu, salvo o habitual acumular de acontecimentos sobre o pó de anteriores acontecimentos. Muitas vezes abri e fechei as gavetas compridas nos ficheiros pernilongos, antes de compreender que são marcas de nascença nossas os monstros sagrados; é preciso mudarmos nós de ser, para que tombem eles, sob pena de morte ou de vida. Nada então se moveu para lá de mim, porque nada ainda podia mover-se dentro de mim.

Os móveis pernilongos ainda lá existem na sala dos pedidos, arrumados num canto. Agora as buscas de títulos e cotas fazem-se em computadores e os pedidos imprimem-se em máquinas que parecem de calcular. Se fôssemos muitos, poderíamos organizar protestos, gesticular amarguras, argumentar que as bibliotecas sem fichas caligrafadas a tinta permanente ou datilografadas a preto e vermelho não são bem bibliotecas, assim como a língua sem a ortografia de outrora não é a língua, e as cidades sem livrarias nem cinemas não são cidades. Confesso almejar a pesquisa e o pedido de livros com o pensamento, por meio de sensores nas têmporas quem sabe, para poder talvez amar estes computadores de desenho disfarçadamente anguloso, estas teclas onde o pó se acumula e entranha em volta dos círculos digitais. Mudar é uma dor, não mudar outra dor, haveremos de fazer a travessia do tempo sempre atormentados pelo amor à memória, e tentados pela resistência.

Volto à linha reta que une a porta de entrada da Biblioteca e a sala de leitura geral, onde conheci o meu rei favorito. Seguindo-a, e deixando para trás o desvio onde se preparam os pedidos, o espaço estreita-se e a luz reduz-se, anunciando mudanças. Quem por ali avança não dá 20 passos sem ser advertido, por esta combinada redução de largura, altura e luz, de que vai entrar em espaço solene onde as regras se alteram. E chegados à sala de leitura, onde a escala não é humana, embora humanamente alcançável, a luz é cuidadosamente condicionada para sublinhar as dimensões: a humana e a sobre-humana. Atravessada a porta, o estreitamento desaparece, mas a penumbra ainda nos acolhe para vermos adiante que a entrada de luz é exclusivamente lateral. À direita, é discreta: só entra muito lá no alto e é coada; abaixo dela, já em relativa penumbra, alinham-se as estantes dos livros em acesso direto, que continuam pela parede do fundo. À esquerda, a luz entra sobretudo à altura humana, sem entraves, por um extenso envidraçado: vê-se uma varanda. Para lá da varanda, água e vegetação a uma cota mais baixa, pelo que, em qualquer ponto da sala de leitura, o sentimento é de suspensão. Vamos suspensos em lenta navegação. À frente de quem entra, estende-se o lençol de mesas e cadeirões, de desenho indisfarçadamente angular, extraído de cubos e paralelepípedos. As pessoas encaixam-se no espaço, limitadas à pequena escala que o arquiteto ali demonstra ser a delas. O pé direito de gigante ergue-se sobre nós, procurando impor o silêncio, e a luz esmorece sobre os livros em baixo, ao fundo e à direita. A regra de silêncio na sala de leitura da BN pretende-se só ornamental; o espaço e a luz devem extraí-lo das pessoas, arrumadas nos móveis e por ali, em circuitos curtos. É fácil ignorar as presenças neste espaço, cortar os canais sensoriais que nos ligam aos outros, refinar a concentração. Respiro mais devagar, o tempo distende-se, a memória da segurança que sentirei neste espaço haverá sempre de assustar-me mais tarde. Mas ali é como se pudesse ficar entre murmúrios, passos curtos, ideias, antigas novidades, maravilhas; o ar que se desentala do peito faz-se notar pela ausência.

Atravessei um dia, enquanto esperava os livros pedidos, todo o espaço que separava da estante ao fundo da sala a minha poltrona. Caminhei entre mesas ocupadas por criaturas silenciosas, até ao fundo onde a penumbra se acentua sobre os livros. Foi ali que conheci o meu rei favorito. Já tinha lido sobre ele, já tinha até falado dele aos meus alunos e já me tinha deixado seduzir pelo grão de loucura que brilha no que este rei fez, no que deixou feito, no que quis fazer. Calhou notar os volumes de uma enciclopédia espanhola; capa dura verde escura e letras douradas. Retirei um volume e folheei, notando o grafismo arredondado, cuidado, muito regular. O verbete sobre Alfonso falava de factos que eu já conhecia. Os feitos, as obras visionárias, megalómanas; as obstinações, as criações, a política, os empreendimentos, o casamento, as alianças, o reino, o primogénito. Falava a enciclopédia do amor de Alfonso a Fernando, o príncipe herdeiro; o que estranhei por não ser habitual falar-se de amor em enciclopédias. Mas só estranhei por desconhecer o que de seguida li e me esclareceu sobre como o amor de Alfonso pelo filho Fernando se tornou num acontecimento político, e conquistou lugar na enciclopédia espanhola. Educado para suceder ao pai, Fernando participava já da governação, e cada vez mais, à medida que o pai envelhecia. Mas o que ninguém esperava que acontecesse aconteceu, e Fernando, já pai de filhos pequenos, perdeu a vida repentinamente, em vésperas de uma batalha. Dizia a enciclopédia espanhola que foi tal a guerra pela sucessão logo aberta, que os filhos de Fernando correram risco de vida e tiveram de os retirar do reino. Que Alfonso defendeu em vão o direito destes netos à sucessão no trono, roubado enfim por um irmão de Fernando. Dizia também a enciclopédia que Alfonso nunca após a morte de Fernando voltou a ser o mesmo; nem o rei nem o homem. E foi assim que conheci o meu rei favorito, lendo de pé um pesado volume de uma enciclopédia verde, ao fundo da sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Portugal. Meu rei favorito pelo pensamento criativo, pela liberdade um pouco alucinada, até pela obstinação; por todas as perdas, as que não poderia ter evitado e as que poderia ter evitado; pelas infinitas fraquezas, tanto quanto pela desenfreada bravura.

Voltei àquele lugar da Biblioteca Nacional de Portugal, àquele momento em que conheci o meu rei favorito, todas as vezes em que a perda de pessoas para a morte ou para a vida me pôs de joelhos. E de joelhos fiz por me reerguer agarrada ao rosário de pensar que cada perda talvez tornasse estatisticamente menos provável a perda das minhas crias.

Ângela Correia. Bibliotrónica Portuguesa | Setembro 8, 2021

(editado por Nazaré Carvalho)


Literacias cívicas e críticas

 




























Título: Literacias cívicas e críticas: refletir e praticar 
Autoras: Maria José Brites, Inês Amaral & Marisa Torres da Silva 
Editora: CECS - Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade Universidade do Minho Braga. Portugal
ISBN: 978-989-8600-88-2 
Capa: Fotografia: Faizal Sugi | Composição: Pedro Portela 
Formato: eBook, 186 páginas 
Data de Publicação: 2019, novembro




"Este livro reflete preocupações científicas das três editoras da obra. Existe um traço comum, a ligação ao jornalismo e à democracia, e o seu cruzamento com as literacias críticas, impossíveis de considerar sem o crescente interesse científico e social em relação ao discurso do ódio, numa sociedade em que o transmedia storytelling aponta para o imperativo de saber reconhecer, usar e operar as multiplataformas. As literacias críticas vão, pois, além da definição clássica de educação para os média. A literacia crítica dos média, além de contemplar o acesso, análise e produção nos média, inclui igualmente olhares sobre relações de poder.


[O conceito de] literacia crítica mediática tem como objetivo ampliar a noção de literacia para incluir diferentes formas de cultura mediática, tecnologias da informação e comunicação e novos média, assim como aprofundar o potencial da literacia para analisar criticamente as relações entre média e público, informação e poder. Uma abordagem multiperspetiva que aborda questões de género, raça, classe e poder é utilizada para explorar as interligações entre literacia mediática, estudos culturais e pedagogia crítica (Kellner & Share, 2007, p. 59) [1]


Como aponta o título do livro, procuramos trazer uma reflexão diversificada sobre contextos cívicos, incluindo as literacias cívicas e críticas, sem a intenção de exaustividade sobre estas temáticas, tentando trazer para pistas de trabalho futuro. Em paralelo, pretendemos apresentar propostas práticas que educadores de diferentes naturezas, técnicos que trabalham em associações, famílias, ou outros atores sociais possam usar para pensar a educação para os média."

Maria José Brites, Inês Amaral & Marisa Torres da Silva



[1] Kellner, D. & Share, J. (2007). Critical media literacy is not an option. Learn Inq, 1(1), 59-69. https://doi.org/10.1007/s11519-007-0004-2




terça-feira, 14 de setembro de 2021

O livro novo

 


Um livro não é uma prenda que cai do céu, é uma coisa conquistada migalha a migalha, o resultado, pelo menos para mim, de uma paciência infinita, um – Anda lá rapaz sem termo à vista. E o rapaz lá vai, cheio de cuidado com os sítios onde pôr os pés, dado que tudo escorrega à minha volta. Ao mesmo tempo gosto destes desafios, desta luta. Lembra-me a guerra e eu não gosto de perder, não me resigno a perder.


Ilustração: Susa Monteiro




E, finalmente, ao cabo de quase dois meses sem escrever, sinto o próximo livro a aproximar-se devagarinho de mim. Hoje, sem que eu esperasse, a meio de uma conversa acerca de Tolstoi e quando o meu sócio de trabalho me lembrou uma passagem de Ivan Ilitch, que diz “a história passada da vida de Ivan Ilitch fora a mais simples e vulgar e, por isso, a mais horrível”, vibrei numa espécie de explosão interior e, de repente, todo o trabalho ali estava, numa evidência absoluta. Tinha passado parte de novembro às voltas com um projecto que, tal como estava, não me servia e continuava a não me servir apesar de todas as alterações que lhe introduzi. Acabei por desistir dele e tornar-me mais pobre do que os mortos, sem soluções alternativas, sem caminho nenhum para parte alguma, julguei que a torneira se havia fechado para sempre

(julgo sempre que a torneira se fechou para sempre)

os dias começaram a arrastar-se como lesmas, passava-os sentado à mesa, de caneta na mão, a olhar o papel vazio numa paciência imóvel que me doía, a perder esperança e hoje, de súbito, a frase que citei acima escancarou a porta e eis o livro à minha frente, à espera, dava ideia que a olhar-me, quer dizer não bem o livro, apenas o material inteiro do livro amontoado em desordem como um modelo para armar, com as suas inúmeras peças apesar de dispersas, prontas a encaixarem umas nas outras e eu com medo de tocar-lhes e cheio de vontade de principiar a utilizá-las, ainda incrédulo com esse favor dos deuses. Agora tenho que dar-lhe uma estrutura antes de principiar a construir, há imensos ocos aqui e ali, inúmeros problemas técnicos ainda sem solução, montes de direções enganosas. Mas tenho-o e isso provoca-me um alívio difícil de exprimir. Eu pensava acabar o meu trabalho com dois livros, o primeiro dos quais agora à minha frente, depois espero que o outro e pronto. Mas este já está. Quer dizer espero que já esteja. É apenas necessário estruturar o material, ajeitar aquilo tudo, principiar, cheio de medo, a compô-lo. Eu funciono por aperfeiçoamentos sucessivos, corrigindo, corrigindo. É um livro difícil de fazer mas que livro até hoje não foi difícil de fazer? E depois gosto de desafios. O pior, o nada que existia em mim, já passou. E aí vou eu, tem-te não caias, páginas fora. Que trabalho tão estranho escrever. Chama-se “Pássaros Quase Mortais Da Alma”, vamos ver o que consigo com ele. Mas hei-de ganhar nem que deixe lá os ossinhos todos. Possuo uma dúzia vozes, faltam-me outras que é necessário colocar nos buracos respectivos. Estes “Pássaros” hão-de voar porque eu quero. Um livro não é uma prenda que cai do céu, é uma coisa conquistada migalha a migalha, o resultado, pelo menos para mim, de uma paciência infinita, um

– Anda lá rapaz

sem termo à vista. E o rapaz lá vai, cheio de cuidado com os sítios onde pôr os pés, dado que tudo escorrega à minha volta. Ao mesmo tempo gosto destes desafios, desta luta. Lembra-me a guerra e eu não gosto de perder, não me resigno a perder. Daqui a não sei quanto tempo ficará pronto, como os restantes. Mas deixa-se a pele

(e um bom bocado de carne)

nisto. De resto por que motivo me lamento se não trocava a minha vida por nada? Acho que não escolhi este caminho, limitei-me a aceitá-lo, respondi

– De acordo

a uma qualquer voz desconhecida que me propôs este pacto, uma espécie de encontro entre duas solidões. Olho para a janela, é noite agora. Tudo preto. Casas ao longe. E eu, sei lá porquê, a pensar nos meus pais. Gostava que me houvessem dado colo, nunca me deram. Sou tão pequeno às vezes, sabiam? É verdade: sou tão pequeno às vezes. Onde pára o meu aviãozito de madeira? Apetece-me fazer

– Vvvvvvvv

com ele até sair pela janela a caminho de mim.


António Lobo Antunes. Visão | O livro novo. (2019). Retrieved 14 September 2021, from https://visao.sapo.pt/opiniao/a/antonio-lobo-antunes/2019-02-01-o-livro-novo/

(Crónica publicada na VISÃO 1351, de 24 de janeiro de 2019)

Escrever

 


Estás de facto sozinho. Os ruídos da casa desapareceram. A presença dos outros desapareceu. O tempo é apenas um ponteiro que não aponta nada ou aponta mil caminhos, o que é a mesma coisa. E o caminho não passa de um vazio cheio de sons que se torna necessário encontrar o único som autêntico, o som inicial, a tua voz oculta por mil ecos aliás indecifráveis ou aparentemente sem nexo.



Ilustração: Susa Monteiro




Aos cinco anos a minha mãe ensinou-me a ler e passadas semanas comecei a ensinar-me a escrever, trabalho que continua porque, às vezes, sou um aluno difícil de mim mesmo e tenho que estar constantemente a meter-me na ordem. Apresento-me as páginas, respondo

– Ainda não é isso

e começo de novo até me ordenar

– Volta a fazer

de modo que torno à mesma frase, danado comigo, furioso que ser espontâneo dê tanto trabalho como dizia o Manel da Fonseca. Não trabalho na quinta ou na décima versão, trabalho para conseguir a primeira, 
a única que interessa e que, às vezes, surge depois da oitava, outras no meio da décima sétima, outras ainda, mais frequentes, não surge nunca. Um livro é um milagre estranho, com regras por vezes aparentemente contraditórias, ou absurdas, ou as duas coisas juntas, o sucesso e o fracasso sempre indistintos, a solução questionável, o resultado aleatório e a qualidade duvidosa. Se calhar o máximo que é possível não passa de uma satisfação transitória: portanto relê, relê, relê, volta ao início, principia de novo: trabalhas no escuro, à espera de uma pequena luz que tarda em chegar. Como Hipócrates dizia acerca do trabalho do médico, a Arte é longa, a Vida breve, a experiência enganadora, o juízo difícil e a oportunidade fugidia. Mas, se não fosse assim, que interesse tinha? Nada é vulgar, tudo é excepcional. Escreve outra vez. Tenta de novo. Como dizia 
o meu amigo Eugénio isto é um ofício de paciência e o escritor não passa de um relojoeiro das emoções, digo eu, a tentar fazer coincidir os ponteiros da alma com os do tempo. E o livro uma natureza-morta de emoções. Sopra-lhe vida, tu. Sopra-lhe tudo o que és, segundo a técnica de Deus com o barro inicial. Faz as personagens de uma costela tua, dá-lhes o teu tamanho e a tua esperança. E tenta transformar a vitória numa gloriosa derrota. Até agora, no trabalho em que estou, suado e aflito, consegui dois capítulos. Talvez o primeiro me sirva de apoio, talvez tenha começado a voar no segundo. Como voar agora? Como dar a isto a dimensão de um homem? Gloriosas derrotas? Goethe sustentava que não alcançar era a nossa única grandeza. De modo que a vitória possível é uma resplandecente humilhação. Com isto bem presente talvez possas continuar. Talvez o dedo da tua mãe te auxilie, apontando um espaço branco no livro de leitura:

– Diz-me esta frase aqui

de modo que repete em voz alta para ela as palavras que começam a lá estar, e surgindo devagarinho, uma após outra, da brancura do papel. Continua a avançar tacteando, continua a avançar. Espera por ti na esquina de uma página, tropeça, levanta-te, não pares. Já tens 
o título do livro, as cores dele, uma espécie de clima que começa a ser-te familiar: é o teu rosto de homem nu e desfigurado, o melhor que podes conseguir é o teu rosto vivo e, nele, todos os rostos da tua vida, até ao último, que só terás quando não puderes ganhá-lo porque já não és e, ao não seres, continuas. Goethe ainda: é o não chegares que faz a tua verdadeira grandeza. E então pede

– Mais luz

como ele fez ao morrer. Pede

– Mais luz

enquanto te transformas em trevas que têm a forma do teu corpo. Depois levanta-te e continua sozinho dado que ninguém te ajuda. Estás de facto sozinho. Os ruídos da casa desapareceram. A presença dos outros desapareceu. O tempo é apenas um ponteiro que não aponta nada ou aponta mil caminhos, o que é a mesma coisa. E o caminho não passa de um vazio cheio de sons que se torna necessário encontrar o único som autêntico, o som inicial, a tua voz oculta por mil ecos aliás indecifráveis ou aparentemente sem nexo. Tudo é irreal, tudo é misterioso e é necessário transformar esse tudo num fiozinho, quase invisível, de água pura. Um livro não é o que está escrito nele, é o que está escrito em ti, um livro é o teu sangue ao longo das páginas. O teu sangue, o teu olhar e o teu gesto, como queria Rilke, tornares-te um pássaro quase mortal de alma, o título que pretendes dar ao que agora escreves e encontraste numa elegia do Duíno, como um grito do Poeta enterrado na água. Não como: o grito

(sem como)

do Poeta enterrado na água e, com esse grito usado como bengala na mão, caminha ao teu próprio encontro, que é tudo aquilo que poderás achar, ou seja um infinito nada com vozes. Escuta-te. Tropeça na tua sombra e escuta-te porque tens que deixar de escutar-te para poderes ouvir. E então as palavras principiam, uma a uma, a chegar. Ninguém desce vivo de uma cruz, a não ser que já haja nascido. Ainda estás, ainda és. A tua mãe chama-te com um livro aberto nos joelhos, ela que explicava tão bem a forma como ensinara os filhos a lerem. A gente ia e vinha e ela continuava à espera, ela, uma rapariga de vinte e tal anos com todas as palavras deste mundo no colo, quietas, prontas a correrem para ti ao aprenderes-lhes os nomes. Escrever é nomear apenas, uma tentativa de ordenação do confuso vazio interior, és tu a aproximares-te de ti mesmo. Digo isto e ilumino-me dos olhos verdes dela, à minha procura entre o seu sorriso e o mundo. Ocupava tão pouco espaço e no entanto a vida inteira cabia-lhe lá dentro. Vieste dali e é a esse ali que tens de voltar. Diz

– Mãe

porque aliás nunca te foste embora. Pois não?

António Lobo Antunes. Visão | Escrever. (2019). Retrieved 14 September 2021, from https://visao.sapo.pt/opiniao/a/antonio-lobo-antunes/2019-02-22-escrever/


(Crónica publicado na VISÃO 1354, de 14 de fevereiro)