sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Porquê a literatura?



Por José Tolentino Mendonça





Imagem: Pixabay



A literatura é um grande telescópio voltado para a vida, uma ferramenta prodigiosa para a leitura de experiências individuais e coletivas, históricas e interiores, tanto na dimensão particular quanto na universal.

Quem ignora a sua literatura não entende verdadeiramente uma certa tradição cultural. O ser humano, na sua universalidade, não entende aqueles que ignoram os testemunhos poéticos pelos quais passou ao longo dos milénios.

Além do abismo temporal que os separa, o homem contemporâneo não deixa de se reconhecer na dor de Hector e Gilgamesh, no amor apaixonado de Jacó por Raquel, na justiça do castigo cómico das milhas gloriosas .

Na incomparável concretude com a qual nos devolve a particularidade cultural, social e histórica dos mundos que explora, a arte expressa, com força igualmente incomparável, a pertença a uma única família numerosa, destacando a profunda unidade de alma que faz da história humana um todo, tecido a partir de um único denominador comum, e não uma massa centrífuga e caótica de histórias que não podem ser comunicadas entre si. Para isso, ainda precisamos de literatura, não como um ornamento agradável, mas em todos os supérfluos, de nosso habitat espiritual, mas como uma estrutura de apoio, um código de sobrevivência de nosso ser no mundo.

Uma das tragédias do cristianismo e das religiões de nosso tempo é o crescente deslocamento da sua autocompreensão fora do horizonte da literatura: a prática religiosa contemporânea usa cada vez mais a literatura para articular as suas representações de fé, e cada vez menos a literatura recorre ao seu discurso como recurso de significado.

Portanto, é uma responsabilidade urgente e muito séria da Igreja, de todos os crentes, reativar os processos culturais que levam à criação de códigos e chaves vitais hermenêutica e simbolicamente consistentes, chaves para a compreensão do presente, respondendo às solicitações sofisticadas feitas pela história contemporânea. É um problema de conteúdo, mas antes de tudo de racionalidade, de linguagens.

E é um problema de discernimento, mas mesmo antes da maternidade. Só se a Igreja conseguir recuperar a capacidade de ser uma fonte, em todos os campos da racionalidade humana, começando pela artística, é que a dinâmica criativa indispensável entre fé e cultura será reiniciada.

Com muita frequência, no passado, a Igreja concebeu defensivamente a relação entre fé e cultura como a de hegemonia, de um direito de controle e sanção em nome de uma verdade de fé simplificada para a verdade cultural. Recuperar a dinâmica generativa e não mecanicamente judicial dessa relação, restaurar a maternidade da Igreja, significa aceitar incondicionalmente não apenas a reciprocidade dialógica, mas também a assimetria de serviço, de iniciativa livre e possivelmente não remunerada, própria do amor.

Discernimento, escuta, proposta são todos momentos essenciais do diálogo entre fé e cultura, entre fé e literatura, que, para serem frutíferos, devem ser combinados numa disposição mais fundamental do amor, numa vontade incondicional de encontrar.

Quem ama busca a proximidade do outro, busca a sua presença. Cultura amorosa, criação artística, literatura significa procurar o outro, correndo o risco do contato. Os textos são o corpo da literatura e, sem a presença direta e sem mediação, o diálogo permanece estéril e irreal.

Portanto, é muito importante que nas páginas de uma revista como a La Civiltà Cattolica , a mais antiga revista italiana - a mais antiga da Itália unida politicamente -, além das leituras tradicionais de textos, também haja textos a serem traduzidos em leitura, poemas e prosa curta : histórias para amar e, portanto, decifrar, palavras poéticas para converter em palavras hermenêuticas, na cadeia inesgotável de significados.

É um passo na direção certa, uma assunção de responsabilidade no grande compromisso de dar à luz algo que não apenas a Igreja, mas toda a sociedade precisa desesperadamente: não uma literatura cristã, que pertence a um modelo de civilização passada, mas uma literatura que faz da fé cristã, na sua articulação eclesial - de fontes, tradição e comunidade - um recurso de significado para a humanidade do nosso tempo.

Referência:
José Tolentino Mendonça. Perché la Letteratura? Considerazioni sulla restaurazione della «Parte amena» de «La Civiltà Cattolica», La civilità cattolica, 31 de dezembro 2019. Consultado em 31 de dezembro de 2019. Tradução da nossa responsabilidade (A.J.)



Ano novo | Alimentação saudável











O que comemos e bebemos pode afetar a capacidade do nosso organismo de combater problemas de saúde.
Aqui vão 5 dicas para dieta saudável no Ano Novo:

📌Consuma alimentos variados
📌Corte o consumo de sal 
📌Limite o consumo açúcar
📌Reduza o uso de gorduras/óleos 
📌Evite bebidas alcoólicas



Contar histórias | Um tesouro cultural atemporal




Os contos de fadas de Hans Christian Andersen

Desde tenra idade, Hans Christian Andersen sentiu uma profunda sensação de solidão e inadequação, encontrando refúgio na sala de manobras do asilo, enquanto os seus colegas iam para o recreio. Felizmente, o seu pai, pobre como era, amava a literatura e possuía um armário de livros - um luxo raro, dados os baixos rendimentos da família e o seu ambiente cultural. Embora ele tivesse morrido quando Hans tinha apenas onze anos, costumava ler-lhe histórias e peças de teatro constantemente, proporcionando-lhe uma educação improvisada ao mesmo tempo incomum e improvável. Mais tarde, escrevendo no seu diário, Hans descreveu a leitura como o seu “passatempo único e mais amado”. Foi esta confluência de leitura e  de escuta que fez dele o grande contador de histórias em que se tornou.


As ilustrações


A acompanhar os contos de Andersen, estão as ilustrações de artistas de várias nacionalidades, como por exemplo, as de Katharine Beverley e Elizabeth Ellender, que trabalharam juntas nas décadas de 1920 e 1930: 




Ilustração para 'A Rainha da Neve' de Katharine Beverley e Elizabeth Ellender, 1929



Ilustração para 'A Rainha da Neve' de Katharine Beverley e Elizabeth Ellender, 1929



Ilustração para 'A Rainha da Neve' de Katharine Beverley e Elizabeth Ellender, 1929




Referência:


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Blimunda #90












Um número duplo da revista Blimunda, cheia de grandes conteúdos.

Em destaque, a passagem da Fundação por Moçambique integrada no festival Ahoje é Ahoje, de que Sara Figueiredo Costa nos fala.

No infantil e juvenil, para além das secções habituais, um texto de Andreia Brites sobre o espectáculo/performance “Caixa para guardar o vazio”, que passou pela Culturgest.

Por fim, na Saramaguiana, um texto de Pilar del Río, lido pela Presidenta da Fundação na abertura do Congresso Internacional dedicado a “Memorial do Convento”, que teve lugar em Mafra.

Como sempre, nas restantes secções, espaço para livros, as leituras do mês e para a colaboração de Andréa Zamorano.

Boas leituras e um excelente 2020!



Os 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos







A revista Estante convidou um júri de cinco elementos, composto pela jornalista Clara Ferreira Alves, o crítico Pedro Mexia, o professor catedrático Carlos Reis, o editor Manuel Alberto Valente e a jornalista Isabel Lucas, para eleger os 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos. 

Por: Catarina Sousa | Ilustração: Gonçalo Viana | Fotografias: Bruno Colaço/4SEE




O júri selecionou os melhores livros portugueses dos últimos 100 anos, restringindo a escolha a obras de ficção narrativa publicadas entre 1 de janeiro de 1916 e 1 de janeiro de 2016. A eleição recaiu sobre os 12 livros que se apresentam abaixo, sem qualquer ordem a não ser a alfabética.








1. A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro

2. A Sibila, de Agustina Bessa-Luís

3. Finisterra, de Carlos de Oliveira

4. Húmus, de Raúl Brandão

5. Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa

6. Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio

7. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago

8. O Delfim, de José Cardoso Pires

9. Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes

10. Os Passos em Volta, de Herberto Helder

11. Para Sempre, de Vergílio Ferreira

12. Sinais de Fogo, de Jorge de Sena




Pode encontrar AQUI a informação sobre cada um destes livros que ajudam não só a justificar a escolha do júri, mas também a enquadrar a importância de cada uma das obras na literatura portuguesa dos últimos 100 anos. 


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Um conto chamado 2020



Por José Malta
1 de jan. 2020




Imagem: Fundação Isaac Asimov




Até há não muito tempo este título poderia ser associado a uma das obras de Isaac Asimov ou de Arthur C. Clarke, e dar azo a um filme repleto de efeitos especiais. Poderia também ser um dos deliciosos livros de divulgação científica do físico Michio Kaku sobre o que nos reservaria a ciência no futuro, e quais os seus desafios quando chegássemos a esse ano. Poderia ser até mesmo uma canção perdida no vasto universo musical de David Bowie ou uma peça do rock psicadélico dos anos 60 que tenha sido recentemente remasterizada. De facto, o título poderia ser qualquer um destes conteúdos, mas não é. Chegámos a 2020, ano esse que até há bem pouco tempo parecia ser um número demasiado futurístico mas que agora é uma realidade. O que aí virá ainda é bastante incerto tendo em conta os acontecimentos marcantes na anterior década que nos colocaram em situação de alerta em diversos domínios. A incerteza quanto aos novos anos 20 deixa-nos bastante empolgados, mas isso, já se sabe, sempre que se encerra uma década surgem inúmeras questões quanto àquilo que virá na década seguinte.

Nos últimos anos assistimos a uma série de falsas premonições que anteviam o nosso fim. Do célebre dito popular “dos mil passarás, mas aos dois mil não chegarás” até às profecias Maias que apontavam para o fim do mundo no solstício de Inverno em 2012, foram várias as supostas escrituras que visavam acabar com o mundo e muitos aqueles que as seguiam fervorosamente. No fim de contas continuamos ainda por aqui, com o coração aos pulos depois de uma década muito intensa onde os últimos anos nos trouxeram acontecimentos marcantes em diversos níveis. As transformações do ponto de vista político e social ocorreram de um modo bastante repentino, numa altura em que pensávamos que estaríamos mergulhados numa revolução altamente tecnológica, que de facto existe, do que de uma realidade onde a chamada pseudociência começou a ganhar uma certa notoriedade e um certo aroma a distopia paira no ar.

Se há 20 anos atrás pedíssemos a uma criança que desenhasse como seria uma cidade em 2020 iriamos provavelmente obter uma ilustração com edifícios altos de design bastante futurístico, robots a andar pelas ruas, carros voadores, ecrãs gigantes publicitários a cada esquina, em suma, uma imagem semelhante àquelas que costumávamos ver na série Futurama de Matt Groening. De facto, muitos pensariam que alguma da tecnologia megalómana que imperava nos livros e nos filmes de ficção científica já existisse em 2020. A verdade é que continuamos a usar o comboio ou o autocarro para nos deslocarmos quer em curtas quer em longas distâncias, e as escolas e as universidades continuam a usar giz e ardósia nas aulas, como ainda se esperaria que assim fosse. A evolução da tecnologia de bolso foi algo que teve um impacto e um sucesso enorme, pois não pensaríamos que fosse possível ter tão cedo pequenos e potentes computadores nas nossas mãos. Não contaríamos certamente com as crises financeiras que viríamos a enfrentar, o progresso das alterações climáticas que se tornou mais precoce do que o espectável, e toda uma luta contra diversos fatores que necessita de ser cada vez mais sensibilizada, mas ao mesmo tempo evitando também algum fanatismo que é facilmente gerado.

Os anos 20 estão de volta e prometem trazer consigo alguma loucura, pelo menos. Se serão tão loucos como os anos 20 do século passado ainda é bastante cedo para se dizer. Esperemos que tragam consigo uma revolução cultural nas artes, na música e no cinema como aquela que existiu há cem anos atrás. Se acabarão com uma enorme crise financeira como a de 1929, esperemos bem que não, mas numa altura em que só agora acordámos para a questão das alterações climáticas poderá haver uma crise nesse aspeto. Em 2020 era suposto olharmos para o céu como forma de ir mais além em busca de um universo desconhecido como fizéramos nas nossas primeiras missões espaciais. Em 2020 o sonho do Homem continua a ser muitíssimo maior do que os obstáculos que a realidade impõe, mas encontra-se algo estrangulado por aquilo que neste momento o rodeia. Estamos ainda longe de poder viver em Marte ou de conseguir a cura para o cancro, horizontes estes que se pretendem alcançar no futuro, dos quais estivemos bem mais longe há alguns anos atrás. Começámos a olhar para nós mesmos como há muito não o faríamos e parece que só agora nos apercebermos dos problemas que há muito existem.

2020 será mais um conto numa história que é feita por todos nós e que inaugura um novo capítulo que nos deixa bastante ansiosos por saber o que aí vem. Depois de uma década que poderia ser resumida pelas letras das canções do álbum Pure Comedy de Father John Misty, deveremos ter, mais do que nunca, a consciência dos erros mais recentes bem como os erros do nosso passado mais remoto. Deixarmo-nos levar por fatalismos ou por espectativas demasiado otimistas não ajudará em nada, tudo isso sairá sempre ao lado. O futuro é algo que está cada vez mais nas nossas mãos e temos ainda um enorme troço que valerá certamente a pena percorrer. Resta-nos apenas continuar a caminhada onde iremos encontrar várias pedras pelo caminho, e, na pior das hipóteses, guardá-las e um dia poder construir com elas um castelo, tal como Fernando Pessoa o fizera nesse seu tão ilustre poema.



Referência:

José Malta (2020). Opinião. Um conto chamado 2020. Comunidade Cultura e Arte. 1 de janeiro. Disponível em: https://www.comunidadeculturaearte.com/opiniao-um-conto-chamado-2020/. Consultado em 1 de janeiro de 2020.

Saber conjugar o Ano Novo