A
língua Portuguesa
Esta
língua que eu amo
com
seu bárbaro lanho
seu
mel
seu
helénico sal
e
azeitona
esta
limpidez
que
se nimba
de
surda
quanta
vez
esta
maravilha
assassinadíssima
por
quase todos que a falam
este
requebro
esta
ânfora
cantante
esta
máscula espada
graciosíssima
capaz
de brandir os caminhos todos
de
todos os ases
de
todas as danças
esta
voz
esta
língua
soberba
capaz
de todas as cores
todos
os riscos
de
expressão
(e
ganha sempre a partida)
esta
língua portuguesa
capaz
de tudo
como
uma mulher realmente
apaixonada
esta
língua
é
minha Índia constante
minha
núpcia ininterrupta
meu
amor para sempre
minha
libertinagem
minha
eterna
virgindade
LACERDA, Alberto de (1984). Oferenda I, Lisboa: IN-CM, pp. 316-317
Comemoram-se este ano os 800 anos do primeiros textos escritos em língua portuguesa.
A efeméride toma por referência o segundo testamento de D. Afonso II, escrito em 27 de junho de 1214, do qual existem dois exemplares: as cópias enviadas ao arcebispo de Braga e ao arcebispo de Santiago.
"Que se pode desejar da língua portuguesa que ela não tenha?"
(BARROS, João, Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa: Faculdade de Letras, p. 399)
A pergunta, retórica, que expressa obliquamente os atributos da língua lusa, é feita por João de Barros, no Diálogo em louvor da nossa linguagem.
Mas é no "Diálogo I" de A Corte na Aldeia que Rodrigues Lobo apresenta aquele que é talvez o maior elogio da língua portuguesa:
"Tem de todas as línguas a melhor: a pronunciação de Latina, a
origem da Grega, a familiaridade da Castelhana, a brandura da Francesa, a
elegância da Italiana."
No seu artigo Elogios da Língua Portuguesa, publicado em Máthssis 15, 2006 , pp. 257-263, Maria Helena da Rocha Pereira lembra-nos, no entanto, que
“É em António
Ferreira, todos o sabem, que principiam os elogios da Língua Portuguesa. Numa
época, portanto, em que o bilinguismo literário era não só corrente, como
praticado pela generalidade dos poetas, desde Gil Vicente a Camões, destaca-se
cedo o protesto deste doutor conimbricense (nascido, aliás, na capital), que
escreve uma longa carta em verso ao seu amigo Pedro de Andrade Caminha, em que,
depois de o situar entre os paladinos do renascimento (“em ti quiseram / as
Musas renovar a Antiguidade”), o adverte solenemente da obrigação em que todo o
escritor se encontra de cultivar, acima de tudo a própria língua:
Do
que antigamente mais pregaram
todos
os que escreveram foi honrar
a
própria língua, e nisso trabalharam.
Cada
um andava pola mais ornar
com
cópia, com sentenças, e com arte,
com que pudesse
d’outras triunfar.
[…] A exortação adquire um tom mais veemente a partir do verso 104,
até que atinge a sua mais alta expressão no mais célebre dos tercetos do autor:
Floreça, fale, cante, ouça-se e viva
a portuguesa língua, e já, onde for,
senhora vá de si, soberba e altiva.
Os tercetos cometem a Andrade Caminha a missão
de demonstrar a capacidade do idioma nacional."
Língua com história, que é a própria história de um país que uniu mares e povos, a língua portuguesa é, por vezes, maltratada.
Língua mater dolorosa
Tu que foste do Lácio a flor do
pinho
dos trovadores a leda a
bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o
vinho
de Luís Vaz a chama joalhada
tu o casulo o vaso o ventre o
ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais
nada,
eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de
maca.
Já na glote és cascalho és malho
és má língua,
de brisa barco e bronze foste a
língua;
língua serás ainda... mas de vaca.
Lamento para a língua portuguesa
não és mais
do que as outras, mas és nossa,
e crescemos
em ti. nem se imagina
que alguma
vez uma outra língua possa
pôr-te
incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio
brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos
de vez de alguma fossa,
ou dar-nos
vida nova e repentina.
mas é o teu
país que te destroça,
o teu próprio
país quer-te esquecer
e a sua
condição te contamina
e no seu dia
a dia te assassina.
mostras por
ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá
mingando e desistindo,
e desde ti
nos deitas a perder
e fazes com
que fuja o teu poder
enquanto o
mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa
que és do nosso ser
e este anda
por isso desavindo
connosco, no
sentir e no entender,
mas sem que a
desavença nos importe
nós já
falamos nem sequer fingindo
que só ruínas
vamos repetindo.
talvez seja o
processo ou o desnorte
que mostra
como é realidade
a relação da
língua com a morte,
o nó que faz
com ela e que entrecorte
a corrente da
vida na cidade.
mais valia
que fossem de outra sorte
em cada um a
força da vontade
e tão filosofais
melancolias
nessa
escusada busca da verdade
e que a ti
nos prendesse melhor grade.
bem que ao
longo do tempo ensurdecias,
nublando-se
entre nós os teus cristais,
e entre
gentes remotas descobrias
o que não
eram notas tropicais
mas coisas
tuas que não tinhas mais,
perdidas no
enredar das nossas vias
por
desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte,
estranha condição,
em que, por
nos perdermos, te perdias.
neste turvo
presente tu te esvais,
por ser
combate de armas desiguais.
matam-te a
casa, a escola, a profissão,
a técnica, a
ciência, a propaganda,
o discurso
político, a paixão
de estranhas
novidades, a ciranda
da violência
alvar que não abranda
entre rádios,
jornais, televisão.
e toda a
gente o diz, mesmo essa que anda
por tempos de
ignomínia mais feliz
e o repete
por luxo e não comanda,
com o bafo de
hienas dos covis,
mais que uma
vela vã nos ventos panda
cheia do
podre cheiro a que tresanda.
foste
memória, música e matriz
de um áspero
combate: apreender
e dominar o
mundo e as mais subtis
equações em
que é igual a xis
qualquer das
dimensões do conhecer,
dizer de amor
e morte, e a quem quis
e soube
utilizar-te, do viver,
do mais
simples viver quotidiano,
de ilusões e
silêncios, desengano,
sombras e
luz, risadas e prazer
e dor e
sofrimento, e de ano a ano,
passarem
aves, ceifas, estações,
o trabalho, o
sossego, o tempo insano
do
sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças
também e tais razões
que no mundo
costumam suceder
e deslumbram
na só variedade
de seu modo,
lugar e qualidade,
e coisas
certas, inexactidões,
venturas,
infortúnios, cativeiros,
e paisagens e
luas e monções,
e os caminhos
da terra a percorrer,
e arados,
atrelagens e veleiros,
pedacinhos de
conchas, verde jade,
doces
luminescências e luzeiros,
que podias
dizer e desdizer
no teu corpo
de tempo e liberdade.
agora que és
refugo e cicatriz
esperança
nenhuma hás-de manter:
o teu próprio
domínio foi proscrito,
laje de lousa
gasta em que algum giz
se esborratou
informe em borrões vis.
de assim
acontecer, ficou-te o mito
de seres de
vastos, vários e distantes
mundos que
serves mal nos degradantes
modos de nós
contigo. nem o grito
da vida e do
poema são bastantes,
por ser
devido a um outro e duro atrito
que tu
partiste até as próprias jantes
nos estradões
da história: estava escrito
que iam
desconjuntar-te os teus falantes
na terra em
que nasceste. eu acredito
que te
fizeram avaria grossa.
não rodarás
nas rotas como dantes,
quer
murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de
tudo ainda és nossa,
e crescemos
em ti. nem imaginas
que alguma
vez uma outra língua possa
pôr-te
incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio
brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos
de vez de alguma fossa,
ou dar-nos
vidas novas repentinas.
enredada em
vilezas, ódios, troça,
no teu
próprio país te contaminas
e é dele essa
miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.